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______BUÇACO______

TEXTOS ,SUBSÍDIOS, APOIO

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24
Out13

A VIA SACRA DO BUÇACO

Peter

 

 

 A Via-sacra do Bussaco é  herança e testemunho  da Ordem dos Carmelitas Descalços e do seu Deserto ,  o único que existiu em Portugal.

   Se bem que referências antigas indiciem a existência de símbolos místicos na Cruz Alta como a existência duma cruz de madeira mais antiga é, com a instalação dos carmelitas a partir de 1628 que se começa a construir o espólio religioso que hoje subsiste.

   De Bussaco, Buzaco ou Buzacco, a primeira noticia etimológica  referente ao lugar encontra-se numa doação  de Gondelim feita por Gundezindo e outros ao Mosteiro de Lorvão,  no ano de 919 , que  situa aquela povoação…cum suas ualles que discurrunt de monte buzaco (Portugalie Monumenta Histórica,vol 1, pág.14) .

  Em 974, num testamento transcrito da mesma obra, lê-se…inter uimeneirola et barriolo ripa ribulo uaKariza suptus mons buzaco…

  Também no ano de 1002 se pode ler…in loco predicto uaccariza subtus monte nuncupato buzacco…

  A estas referências mais antigas e tendo a ver ainda com o pré-ermitério, junte-se o comentário do cronista Frei João do Sacramento referindo a Cruz Alta,como…um pico ou cume de sorte elevado que descobre, e é descoberto de grande parte do reino…

   Se dos primeiros documentos se presume o mais antigo conhecimento da serra do Buçaco, pelo menos como ponto de referência identificativo duma  região  no centro do território, do segundo, a Crónica dos Carmelitas, se deduz a abrangência geográfica da paisagem, e a mitologia, quer religiosa quer profana que eventualmente sugeria, deserto e árvores, ambiente de qualidade, como se diria hoje, mitos tão do agrado e da regra da ordem de santo Elias, que na realidade se veio a apropriar desta existência estrutural para desenvolver o seu projecto penitente.

   Construções simples de cabouqueiros de Deus, tão simples que poderiam ser tão locais como de Sula ou do Cerquedo e de outros lugarejos em redor e em  pura sintonia com o Convento. Cavadas nos rochedos, nos socalcos, nos abismos ou na vegetação autóctone, atestam a humildade do cenóbio e o espírito de pobreza absoluta iniciada pela reforma do espanhol João da Cruz na década de 1560, companheiro de Teresa d’Avila num espaço tempo de monges e de freiras a trabalhar virtudes pela garantia do céu.

   Nesta via, a via-sacra actual começou a ser desenhada e construída a partir de 1643 pelo Reitor da Universidade de Coimbra, Manuel Saldanha, como pode ler-se na lápide existente na ermida de S. José junto ao cedro do mesmo nome, o mais antigo da floresta. No início, além do rasgar dos caminhos íngremes com três quilómetros de percurso, cada estação era assinalada por uma cruz de madeira do Brasil e um pequeno dístico identificativo do passo respectivo. São vinte as estações representadas, as seis primeiras chamadas Passos da Prisão, as restantes propriamente da Paixão. Manuel Saldanha, bispo e reitor de Coimbra, no final da Via Crucis, mandou edificar uma torre circular acastelada perto da capela do Sepulcro, uma vigia ou ponte entre terreno e celeste, como devotamente se acreditava nos tempos.

    Cabe depois, na década de 90 do mesmo século, ao bispo reitor João de Melo da Universidade conimbricense, ex- Inquisidor de Évora ,a edificação de capelas e da ermida do Calvário, no complexo final da obra, constituído também pelas capelas da descida da Cruz, da Crucificação, da Ressurreição e do Sepulcro. São construções rectangulares adornadas exteriormente com embrenhados de pequenos mosaicos brancos e pretos nas esquinas, tipicidade do Buçaco, com uma porta frontal com visibilidade para o interior. Os telhados de quatro vertentes terminam em cúpula pontiaguda e uma cruz de pedra em cada topo.

   Nos inícios do século XVIII, o também bispo conimbricense António Vasconcelos e Sousa substitui as pinturas murais que ornamentavam as capelas, por figuras barrocas modeladas em barro cozido e policromo, possivelmente fabricadas por desconhecidos santeiros da região de Aveiro, figuras que foram posteriormente destruídas pela má consciência de romeiros, ao ponto de em 1888, quando do inicio da construção do palácio do Buçaco pouco ou nada restar delas. È que depois de 1834, após a extinção das ordens religiosas, o património do Buçaco passou por períodos de extrema libertinagem e grande degradação, destacando-se a filantrópica destruição de imagens das capelas por católicos devotos unidos no ódio contra o barro dos judeus. Vá-se lá entender entre os humanos a bondosa ira dos deuses!!!

Pinheiro Chagas, relata assim uma curiosa anedota a propósito da capela de Caifaz :  “os católicos fiéis, que outrora visitavam as capelinhas da Via-sacra, não diziam aos façanhudos judeus que rodeavam o Cristo: Memento, homo, quia  pulvis es et in pulverem revertis, mas diziam-lhes: Lembrem-se, patifes, que são de barro e que nós temos pedras nas mãos. Ora desta versão libérrima resultou que em todas as capelinhas existe um Cristo mais ou menos deteriorado por alguma pedrada que apanhou por tabela, mas ainda assim campeando triunfalmente no meio dum montão de cacos israelitas, o que sucede á chamada capela de Caifaz e, se por acaso o velho sacerdote ainda por lá existe, está por certo reduzido a muito menos de cinquenta por cento “

   Desta degradação tomou nota em 1874, o deputado ás cortes Mariano de Carvalho com uma proposta pedindo a reposição de novos grupos escultóricos na via-sacra do Buçaco. Coube ao Conselheiro Emídio Navarro contratar e adjudicar a obra no ano de 1887 ao ceramista Rafael Bordalo Pinheiro, então director da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, obra que se ficou pelo fabrico de cinquenta e cinco figuras correspondentes aos últimos dias da vida de Cristo e que não chegaram a ser aplicadas no Buçaco. Algumas fazem hoje parte do espólio do museu José Malhoa na cidade onde foram fabricadas, testemunhando o valor artístico da sua concepção e mostrando que foi pena que o resto, bem como a sua aplicação, ficasse no cesto da impossibilidade.

   Finalmente e para colmatar este processo quase centenário, já no século XX, o Conselho Nacional do Turismo em nova tentativa de recuperar a via-sacra, entregou ao ceramista António Augusto da Costa Motta, Sobrinho, a execução das esculturas. Foi a partir de 1938 que começaram a nascer no seu atelier em Lisboa, na Rua Damasceno Monteiro, as imagens que haveriam de constituir os grupos escultóricos em terracota que ainda hoje perduram apesar dos maus-tratos que entretanto têm sofrido.

   São essas figuras em tamanho natural representando com algum chocante realismo os Passos da Paixão de Cristo as que hoje se podem visitar a partir da chamada Varanda de Pilatos, por catorze estações da Paixão, algumas recuperadas outras não, mas são, a par do mosteiro, das ermidas, das portas, das fontes e do vegetal, um património de incalculável valor na região centro do país , um recurso turístico de extrema validade.

  

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