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______BUÇACO______

TEXTOS ,SUBSÍDIOS, APOIO

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02
Mar10

BATALHA BUSSACO-3ªINV-ALMEIDA-3

Peter

 

 

 

 ALMEIDA

 

 A história da batalha do Buçaco está contada e mais que recontada, não me cabe a mim ter a pretensão de fabricar novos modelos ou interpretações para que melhor se entendam os fenómenos pátrios e sobretudo humanos, porém, a duzentos anos do evento, atiça-me a curiosidade para uma descrição jornalística leve e acessível dos acontecimentos, texto despretensioso que seguindo uma linha coincidente com a realidade tal como nos é contada e transmitida, seja fácil, tanto na leitura como no assimilar pelos leitores para que em conjunto, quem escreve e quem lê, reflictam sobre o facto de a pátria ser feita de todos nós, daqueles que vivem e suportam os momentos difíceis e constroem, muitas vezes reconstroem, o que outros avaramente consomem.

Também hoje vivemos tempos conturbados de grande diferenciação entre nós, mas a história, como lição, tem em si própria a virtude de nos mostrar os erros cometidos e de nos permitir a volta a um destino como povo, se esse mesmo povo, por força dos laços biológicos, físicos, linguísticos e culturais for digno de destino próprio. É neste sentido e também com a pretensão de assinalar os dois centenários do evento que me proponho a reescreve-lo á nossa medida e limitado portanto á nossa geografia.

 A manhã de 26 de Agosto de 1810 nasceu de sol e o calor cedo começou a fustigar a pedra grossa da fortificação de Almeida, na Beira Alta. Feita para defesa da raia castelhana em tempos medievais, adaptou-se á época pouco sólida das invasões vindas de além Pirenéus e engrossou os muros com substancial arrogância e rigidez.

Á catorze dias que a guarnição defende heroicamente a praça-forte e as ajudas solicitadas ao exército anglo luso não surgem. Mesmo assim, depois do combate no Côa onde deixaram mortos, estão dispostos a continuar na defesa porfiada da vila, pesem as futuras dificuldades com os aprovisionamentos que se avizinham.

Ciudad Rodrigo caiu após 24 dias de cerco, Almeida vai no décimo quarto dia duma luta constante pela manutenção do baluarte beirão, o último obstáculo do caminho invasor. Em redor, Massena aquartelou os seus exércitos e entre ataques pontuais e algumas manobras de diversão aguarda a rendição da praça. É uma questão de tempo, pensa. Para lá dos bivaques, Trant e as suas milícias portuguesas ensaiam um combate de guerrilha contra os corpos napoleónicos sem resultados práticos e o grosso do exército luso-britânico comandado por Wellington afasta-se para os lados de Celorico, expectante entre vias da Beira Alta e Beira Baixa. É por uma delas que há-de caminhar o príncipe de Esseling nesta terceira tentativa de subjugar Portugal á vontade de Napoleão Bonaparte.

È então que subitamente, na vigilante calma da tarde quase crepuscular, sete horas, o inesperado acontece, um enorme estrondo faz ir pelos ares o paiol da pólvora situado no velho castelo medieval, onde se acoitam e juntam, em quantidade, armas, explosivos e munições. O mundo parou uns segundos no estrondo do rebentamento, mas á expansão do trovão que se arrasta por largos minutos junta-se depois a vida, gritos, vozes, ordens, correrias, enquanto voam pelo ar pedaços de material diverso entre pedras e telhas e destroços de edifícios. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu no fim da tarde quente enquanto o fogo irrompe de dentro das muralhas antigas com grande violência. Não se escutaram tiros dum lado nem do doutro, nem o canhão rugiu em vómitos de morte. O sossego da guerra, paradoxo, era o que reinava antes, talvez que o fim de Agosto não convidasse á luta imposta, a morosidade das soluções impusesse algum descanso, enquanto os homens, sabendo o que fazer e como fazê-lo, se aquartelavam em expectativa correctamente arquivada. Só minutos após a perplexidade dá lugar ao medo, o espanto á organização defensiva e o instinto, ao viver.

  Aos de dentro, logo se tornou claro face á destruição patente na muralha fortificada que a resistência se tornara impossível e a capitulação com honra passou a ser, após este trágico instantâneo, a única alternativa aos valorosos defensores deixando assim abertas as entradas beirãs aos invasores. Se o armazém rebentou por descuido, por mecha sobreaquecida pelos raios do sol da tarde, por mazela ou sabotagem dum introduzido francófono não foi esclarecido. Nunca o viria a ser. Mas como o que não tem remédio, diz a populum vox , remediado está , Massena  aproveitou de mão beijada a desgraça da praça ,negociou  com alguma honra para a destroçada guarnição e tomou posse ,como lhe convinha, da fortaleza dois dias depois, a 28.

Festejou o facto como vitória. Está gravada na Place D’Etoile, em Paris entre dezenas de batalhas, combates e escaramuças que teve o grande exército, mas esta, sem honra nem glória perante a história, porque de facto a não teve.

Instalado do lado de dentro por troca com os nossos, ali permaneceu o general alguns dias após o que, deixando uma pequena guarda na praça  prossegue  o seu caminho com  o objectivo de tomar essa praça maior  que trazia por incumbência imperial , a resistente e teimosa fortaleza lusitana,  auxiliada e empurrada pelos  ingleses, apostados numa estratégia de abandono e desertificação, uma politica de terra queimada  como mais tarde faria Kutuzov na Rússia, enclausurando os franceses na falta de estruturas e viveres e por fim nas amarguras do clima.   Por isso mesmo, quando mais tarde chegaram ás Linhas de Torres, o exército era seguido por grande parte das populações, uma multidão de maltrapilhos miseráveis, esfomeados, estropiados, doentes, uma turba que servia de tampão, muitas vezes a jeito, entre a retaguarda anglo lusa e a vanguarda francesa, a cavalaria de Montbrun.

Não teremos jeito, nem vocação, nem dinheiro para recriar realidades históricas na quimera do cinema mas não andaremos longe, corrigindo as dimensões á relatividade, de ver a população retratada fielmente em muitas das fitas para salas e televisão que reconstroem a marcha do imperador sobre Moscovo. Esta é uma parte que se não recorda muitas vezes nas evocações do fenómeno, mas que se lembra aqui como lição da dita história, pois foi parte inseparável do drama das invasões e da população que as viveu de forma presente e activa entre mortes, dores e resignado sofrimento.

Acalmadas as Praças de Ciudad Rodrigo e Almeida, Massena encaminhou-se então para Viseu. O 2º corpo de exército, do general Reynier, por Sabugal e Guarda onde chegou a 18 de Setembro. O 6º corpo, de Ney, passado o rio Coa seguiu por Alverca e o 8º corpo de Junot em direcção a Pinhel donde seguiu para Viseu.

A 18 de Setembro encontram-se estes dois corpos na cidade beirã completamente abandonada. O 2º corpo ocupava entretanto Mangualde, donde seguiu depois para o Carregal do Sal ao mesmo tempo que os 6º e 8º tomavam a estrada de Tondela e Santa Comba Dão, um percurso difícil e demorado por caminhos que algumas vezes tiveram de ser abertos a pá e pica para possibilitar a passagem das carroças e carroções da artilharia imperial. Sob a pressão de Trant e suas milícias que ajudavam a atrasar a marcha militar como aconteceu na passagem do rio Criz. Aqui, destruídas as pontes, coube aos sapadores franceses construir nova passagem, o que atrasou o avanço e formou longas filas ao longo dos caminhos.

No dia 23 de Setembro os frades carmelitas do Buçaco começaram a ouvir e distinguir para os lados de Mortágua bastante tiroteio e quando ao cair da tarde se deslocaram curiosos até á Porta de Sula , a entrada nordeste do convento , divisaram á distância vários focos de incêndios em toda a região presumindo pois a chegada dos soldados.

Na época, chegada a estrada a Vale de Açores em percurso comum, dividia-se então em duas, a real, chamada estrada de Lisboa, dirigia-se a Coimbra dobrando a crista do Buçaco por Santo António do Cântaro, Palheiros, Botão e Fornos, outra, mais recente, dirigia-se de Mortágua ao lugar da Moura e dali subia á pequena aldeia de Sula para depois descer na vertente litoral, passando cinquenta metros abaixo e á direita da Capela das Almas em direcção ao Luso e á Mealhada onde entroncava na estrada real Lisboa /Porto. Da chamada estrada de Lisboa saia ainda após Vale de Açores, um outro caminho em péssimo estado, a partir do pequeno lugar do Alcordal e em direcção á Portela de Oliveira, Figueira de Lorvão e Celas.

Era entre as duas primeiras vias que faziam vida cenobítica desde o tempo dos Filipes os Frades Carmelitas Descalços. Ali mantinham á século e meio um deserto onde expiavam pecados seus e do mundo e procuravam pela humildade e simplicidade de vida alcançar a perfeição dos céus.

Vamos deixar os exércitos nos respectivos percursos em direcção ao Bussaco e tentar penetrar, com a boa vontade do nosso já conhecido Frei Jerónimo do Sacramento, dentro dos muros  para chegar ao Convento.

Luso, Fev.2010 ,FS. (200 anos da Batalhada do Bussaco)

  

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