Quinta-feira, 7 de Setembro de 2017

BANCOS

DSC_0834[1].JPG

Via Sacra do Buçaco .Onde não há àrvores nem

madeira, nem cabeça, os bancos do percurso da

ViSacra ou não estão ou estão assim.

DSC_0836[1].JPG

 Quatro anos de mama não resultaram , a coisa

está  bem pior que no começo!!!! 

Quem tiver olhos, veja.

Em mais quatro anos talvez acabem com isto...

apesar de tudo, um património nacional.

publicado por Peter às 23:41
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Sexta-feira, 11 de Novembro de 2016

ÁLCACER QUIBIR

alcacer quibir.jpg

 Há dias  felizes ! Aconteceu no Buçaco pela mão

da afundação que trouxe á mata el rei D.Sebastião,

Mulei Moluco, o sultão, e o  velho cantor Cid para

em conjunto festejarem não se sabe o quê...

A verdade é que nem no Inverno deixam descansar 

a floresta como mandam as regras da recuperação

dos espaços verdes pelo mundo fora. A sofreguidão

e a ignorância são  tantas que o Buçaco irá  acabar

como acabou o rei em Alcacer..

Parafraseando Camões a propósito do desastre :

"Enfim, acabarei a vida e verão todos que fui tão

afeiçoado á minha Pátria  que não só me contentei

de morrer nela mas com ela"

 

publicado por Peter às 18:52
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Quinta-feira, 12 de Maio de 2016

CERCO DE BADAJOZ

tasmaniafoto

 O diário de um oficial  inglês  relatando episódios das Invasões

Francesas na Peninsula Ibérica , nomeadamente no Alentejo e

em Badajoz foi encontrado num alfarrabista da Tasmânia, Austrália.

Intitulado "Journal 1811" o manuscrito é um documento inédito e

conta com detalhes e precisão técnica o cerco do exército Anglo-

-Luso a Badajoz, comandado pelo Duque de Wellington em 1811,

nos começos do séc. XlX, no seguimento da  Batalha do Bussaco.

Para Gavin Daly , especialista em Guerra Peninsular na

Universidade da Tasmânia, trata-se de um "Tesouro" e a caligrafia

já foi reconhecida e confirmada como do autor John  Squire , que

veio a falecer vitimado por doença depois do cerco à cidade da

Estremadura espanhola. Está por saber  de concreto como foi

acidentalmente parar ao espólio do alfarrabista australiano o

importante manuscrito.

Fontes: BBC e NET

 

publicado por Peter às 12:13
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Sábado, 9 de Abril de 2016

AURORA

madrugada.jpg

Palácio do Buçaco, nascer do sol ,esta semana.

Destruida pelas intempéries e pelo homem, esta

Mata Nacional precisa do Estado para ser recuperada

como o foi Sintra. Não se  percebem as políticas

nacionais, benéficas nuns casos, talvez criminosas,

noutros casos. Se a riqueza patrimonial construida e

paisagistica é superior em Sintra, ela é também

superior no Buçaco em matéria  florestal.

 

 

 

 

publicado por Peter às 00:00
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Quinta-feira, 1 de Agosto de 2013

ATRAZADOS DO PATRIMÓNIO


Os politiqueiros da Câmara da Mealhada que de há vinte anos

para cá nada fizeram por um Buçaco  Patrimónioda Unesco,

abriram agora a boca para dizer asneiras  pela voz do seu  Presidente

afirmando á imprensa que  a Fundação, orgão que continua a destruir

a Mata fez mais em  três  ou quatro anos de ocupação, que o Estado

nos últimos quarenta.

Este comentário é algo de  absurdo ,ignorante e hilariante.

Ou o autarca está a brincar com o cidadão,ou coitado,

parece um xéxé  politico.

Além de demonstrar que nada sabe da Floresta do Buçaco,

é espantoso  o que diz , para um responsavel que  se  agarrou

á politica   há pouco menos de quarenta anos.

De facto, não sabe do que fala e só mostra que nunca conheceu

nem conhece o  Buçaco , um património do concelho a que vai

deixar de presidir. Ainda bem.

Este desconhecimento manisfestado  na imprensa com um choradinho

subjacente mais que justifica o fim dos seus mandatos, 

já que à  destruição em  marcha da Mata Nacional , se junta o fim das

Termas do Luso, com o fecho da fábrica  de engarrafamento ,

o fecho total das instalações da Fisioterapia e dos Escritórios  

administrativos, acompanhados pelo desemprego e pelo estertor do

turismo em que  agoniza a estância.

Com dois hoteis anunciados em campanhas eleitorais por fazer, mais 

um projecto LusoInova que prometia  fábricas de cosméticos, sabonetes ,

perfumes, inovação, tc,etc por realizar, sem um parque industrial de Barrô

dos cardápios municipais já com barbas  por avançar, com um parque de

campismo sem acessos dignos e fora do mercado,

uma avenida do Castanheiro vergonhosamente abandonada, e umas

ridiculas birrinhas exteriorizadas em relação á  esburacada estrada

da Cruz Alta que  a fundação esburacou e estragou (além de outras coisas)

o sacrificado autarca tinha feito melhor calando o disparate.

Preferiu juntar-se ao coro dos pessimos politicos que tem governado o país

e fazer as mesmas figuras a que assistimos diariamente!

Falta uma lei de responsabilização dos  actos e dos mandatos!!!!

 

publicado por Peter às 23:12
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Sexta-feira, 8 de Outubro de 2010

200 ANOS

 Um pelotão inglês em manobras na recriação da batalha

  (Foto gentilmente cedida por  C. Ferraz )

VÃO 200 ANOS SOBRE A BATALHA DO BUSSACO

CONTRA AS IDEIAS NOVAS DA REVOLUÇÂO FRANCESA.

PORTUGAL, È A MESMA  PASMACEIRA  

MONARQUIA OU REPUBLICA ! TANTO FAZ !

publicado por Peter às 15:03
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Terça-feira, 11 de Maio de 2010

BATALHA BUSSACO-3ª INV-A DEFESA-5

 

 

 A DEFESA EM LINHA

 

 Como deixamos dito em Almeida, Arthur Wellesley, o comandante do exército anglo luso, foi recuando das posições assumidas desde Celorico, antecipando pela frente os movimentos do invasor á medida que lhe ia adivinhando as intenções e o rumo. Retirando os seus efectivos pela estrada da Beira, esperou que os franceses definissem o caminho com a intenção de os atrasar na sua caminhada até ás Linhas de Torres, cujas obras de defesa, é uma hipótese, não estariam ainda totalmente concluídas e para que isso acontecesse era preciso ganhar algum tempo. No dia 20 deixou o convento de Lorvão onde pernoitou e dirigiu-se para o Buçaco onde se instalou, deixando ás milícias de Trant a tarefa de se ocupar a retardar o mais possível a marcha dos franceses que o seguiam a pouca distância.

Aqui devemos fazer uma pausa para explicar que estas milícias portuguesas comandadas por um oficial britânico, Trant, não eram um bando de guerrilheiros sem regra nem função mas sim as milícias municipais ensaiadas por D. Sancho I e criadas a seguir por D. Sancho II, tal como as Ordenanças que foram fundadas por D. Dinis e existiram sempre na nação portuguesa em tempo de conflitos. As primeiras, organizadas em terços, prontas para acudir a uma invasão pelas fronteiras, as segundas próprias das fortalezas para resolver questões internas. Ambas organizando-se apenas na altura das necessidades, ambas também fontes de fornecimento de recrutas para o exército regular desde que começou a existir em permanência, a partir da guerra da restauração.

Quer o exército permanente que foi desmobilizado por ordem de Napoleão aquando da tomada de Lisboa por Junot, quer estas estruturas independentes mas paralelas, foram reorganizadas por William Beresford  a partir de 1808 e vieram a constituir as forças  portuguesas que expulsaram os franceses. Oriundos destas estruturas foram o Corpo Académico Militar de Coimbra, Os Voluntários do Comércio de Lisboa e do Porto, os voluntários de Portalegre, Beja, Coimbra, ou a Leal Legião Lusitana.

Quando Massena no dia 18 de Setembro chegou a Viseu encontrou a cidade deserta, abandonada, incapaz de satisfazer as necessidades de abastecimento dum grande exército em marcha. Eram mais de sessenta mil efectivos nos três corpos e a busca de alimentos eram cada vez mais difíceis e demoradas pois a população, saindo da cidade,  ou seguiu na peugada dos anglo-lusos ou acoitou-se com alguns haveres pelos montes e matas em redor e embora toda a máquina de guerra marchasse agora ordeira e desejosa por alcançar as férteis planícies vizinhas de Lisboa, a lentidão deste comboio era grande e pouco ajustada ás exigências da conquista, um contraste abissal com a marcha de Junot durante a primeira invasão que, partindo de Castelo Branco por péssimos caminhos ultrapassou todos os obstáculos a tempo de chegar a Sacavém  pouco depois das  últimas naus da corte deixarem o Cais de Belém rumo ao  Brasil.

Desta vez porém a lentidão ultrapassou o razoável, talvez pelas dificuldades do terreno, pelas investidas das milícias, por animosidades entre os oficiais, talvez até por, segundo Santana Dionísio, o comandante beneficiar da companhia de uma garbosa amazona que o acompanhava desde Salamanca sob o disfarce dum imberbe oficial….

Mandou avançar Reynier pela via de Mangualde e Carregal  e os  corpos de Ney e de Junot por Tondela e Mortágua .

A serra do Bussaco  começa a surgir aos franceses como um grande obstáculo pouco depois do rio Dão, mas de facto não é grande a montanha, nem alta nem sequer larga, mas é robusta e comprida nos seus vinte quilómetros de cumeeira, as suas encostas íngremes levantam-se de ravinas profundas, ásperas, numa constante subida entremeada de valeiros e cabeços que só um esforço físico violento poder superar. E vista recortada num pôr de sol escarlate que desaparece atrás do cume aninhando-se no suposto oceano, dá a ilusão dum monstro comprido como se um gigantesco sáurio ali se tivesse esticado a sucumbir, fossilizando então. Mas nada disso é, embora se pesquisem e encontrem pequenas trilobotes do Silúrico a serra nada tem de dinossáurico, estende-se preguiçosamente entre o rio Mondego em Penacova, até á Portela de Oliveira e Santo António do Cântaro, dois colos de passagem, depois até á Cruz Alta, o seu ponto mais elevado e continuando a noroeste desce então pelos moinhos de Sula e Águia até ao desfiladeiro em Algeriz no vale do rio da Serra ou de Vila Nova. Note-se que em tempos recuados, foi conhecida por Alcoba pois a vertente caramuleira do oeste e sul identificou-se assim em épocas remotas até aos confins do Bussaco.

Por estes sítios e termos, temos aldeias e lugares que ficaram registadas nos escritos dos contendores e são assim adereços do evento, quer em escritos ingleses, quer franceses. Vale de Açores, Lourinha, Alcordal, Vale de Vide, Cerdeira, Moura, Sula, Carvalho, Coiço, Gondolim, Algeriz, Monte Novo, Santo António do Cântaro, Palheiros, Botão, Palmazes, Portela de Oliveira, entre outros.

Foi ao longo da estreita cumeeira que tem cerca de vinte quilómetros de extensão que o general Wellington postou o exército anglo-luso decidido a opor-se ao inimigo. A posição defensiva era excelente e Massena, não propriamente um amador das coisas da guerra, incompreensivelmente encurralou o seu exército frente a uma muralha natural impossível de escarpar. Inexpugnável, diriam depois alguns dos seus oficiais, entre eles os próprios comandantes dos seus exércitos que chegados a 26 pouco depois do meio-dia, a não quiseram atacar sem a palavra do marechal que chegou quase de noite. O próprio Napoleão, quando mais tarde escreveu sobre o Bussaco da prisão em Santa Helena diria: ‘ se a reputação de Massena acabou no Bussaco, é apenas á doença que podemos atribuir essa súbita desgraça. Não conseguindo montar a cavalo, nem ver pelos seus próprios olhos o que se passava, ele já não era ele mesmo… se o fosse, nem atacaria as linhas inexpugnáveis do Bussaco nem teria deixado Wellington acolher-se ás linhas de Torres Vedras…’

De tão privilegiadas linhas defensivas esperaram os anglo-lusos tirar o melhor proveito, pois Wellesley depressa percebeu as dificuldades que esperavam o atacante, assim conseguisse aliar a estas perfeitas condições a coesão das forças, a confiança das tropas, a disciplina. Todos os combatentes, quer ingleses, quer portugueses, eram enquadrados por generais britânicos, pois se havia confiança na bravura dos soldados ingleses, outro tanto não tinha sido ainda demonstrado pela parte portuguesa, constituída por recrutas alistados á pouco tempo, intensamente preparados sob a direcção de Beresford mas sem qualquer experiência de combate. Era imperioso que a hierarquia funcionasse e que a par da posição morfológica positiva o comportamento fosse firme, rígido e corajoso. De mão beijada, tal como acontecera a Massena com a explosão de Almeida, surgia agora ao inglês Wellington a oportunidade única de, mercê duma incompreensível análise do inimigo, o levar de vencida.

Foi ao longo da estrada construída entre os dois extremos da serra que o duque montou a estratégia, preparada para receber o inimigo em qualquer ponto e com o sentido de, para qualquer ponto por onde o inimigo tentasse atacar, movimentar rapidamente reforços e ajuda, uma mobilidade essencial que funcionou no embate de Reynier.

Entre o Ninho da Àguia, a noroeste, a Cruz Alta e a Livraria do Mondego a sudeste, a coberto do reconhecimento inimigo colocou os efectivos. Os primeiros, na confluência dos rios Alva e Mondego eram constituídos pela cavalaria portuguesa, pelo corpo de Hill postado entre o  Coiço, Gondelim, Casal e Palmazes  e depois a Senhora do Monte Alto ocupada pela Leal Legião Portuguesa e a brigada portuguesa Campbell da divisão Picton até ao cruzamento da Portela de Oliveira. Entre esta Portela e a de Santo António do Cântaro, dispunha-se em linha a Divisão Leith, Seguiam-se as Divisões Picton e Spencer ocupando as alturas da serra até ao Cerquedo. Atrás destas estabeleceu o seu posto de comando pouco acima das posições de artilharia que defendiam a estrada de Lisboa. Para a sua esquerda, já na direcção da Moura e Sula, as Divisões Crawford e Bercley, a brigada portuguesa PacK e a brigada Colleman fechavam o caminho a quem descia para o Luso e Mealhada depois  do acesso ao Convento, em cujo muro foram feitas algumas destruições, como ameias defensivas.

Para terminar este longo corredor até ao Ninho da Águia, nos cabeços sobranceiros ao lugar do Milijioso, postava-se a divisão alemã no lugar de Monte Novo, seguida de parte da brigada Campbell. Finalmente perto da Mealhada estacionava a cavalaria inglesa e Trant com as milícias, este com o encargo de patrulhar a via que de Mortágua rompia pelo Sardão para Boialvo e Avelãs.

Num breve resumo que mesmo assim se torna fastidioso para o leitor, aqui fica o dispositivo de defesa estabelecido por Lord Wellington para a defesa do Buçaco.

Deve ainda acrescentar-se que o comandante supremo das forças, William Beresford, o homem que havia organizado e preparado as forças portuguesas, instalou o seu quartel general na vizinha aldeia da Lameira de Sª Eufémia mas só a 27, depois dos combates, pernoitaria na livraria do convento.

Luso, Maio, 2010 FS (200 anos da Batalha)

publicado por Peter às 19:19
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Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010

BATALHA BUSSACO-3ªINV-ENCARNADOURO-2

 

A CAPELA DO ENCARNADOURO OU DAS ALMAS

 

Mandada construir por Luís Rodrigues, natural de Santa Cristina da Serra, freguesia de Espinho, do concelho de Mortágua, assistente no Convento dos Carmelitas do Bussaco, a Capela do Encarnadouro, conhecida igualmente por Capela das Almas, (também aparece como capela do Emcarradouro) entrou na história pátria por ali terem sido tratados inúmeros feridos da batalha com o apoio do exército e a bênção dos frades, sem distinção de cores ou credos, condição que os devotos eremitas impuseram a si e pediram  aos intervenientes nessa jornada trágica da nossa caminhada comum, agora, se optarmos por uma versão ligt do sucedido, diremos da história comum europeia, acontecimentos que vistos á luz actual do continente e do euro podem e devem ser tratados em perspectiva diversa daquela de então.

Era o assistente Luís Rodrigues um fervoroso crente que comungava dos desígnios humildes dos construtores do mosteiro porém, não despojado dos bens terrenos no concreto da existência, ficou-se pela assistência do braço secular e foi nessa condição que fez testamento, escrito por Manuel Lebre Teixeira, da Mealhada, formado em cânones e capitão mor das ordenanças do Couto de Aguim, no próprio Convento de Santa Cruz no dia 3 de Maio de 1783. Declara Luís Rodrigues perante o também presente tabelião Manuel José de Melo, do Couto da Vacariça, que dos dinheiros que lhe devem seus sobrinhos, duzentos e setenta e nove mil reis e uns centavos, sejam deixados á capela do Encarnadouro oitenta mil reis, para que do seu rendimento se tire o juro para aparelhar a estrutura e a colocar em ordem a dizer missa. Se tal não acontecer antes da sua morte, acrescenta o assistente, seja a verba aplicada em missas e legados diversos, que descreve a seguir e atribui aos sobrinhos. Assinam testamentário e testemunhas.

 Esta é uma das versões encontradas sobre a edificação da pequena ermida, a outra, uma variante que difere em pormenores, fica para uma segunda croniqueta sobre o assunto.

Em 1810, na altura das invasões, morto portanto o fundador da altaneira ermida, não passava a capela de algumas estruturas ainda inacabadas mas óptimas para o exército anglo-luso ali estabelecer um hospital de campanha ou hospital de sangue como ficou conhecido, hospital que contou com a ajuda e apoio activo dos frades, sem descriminação dos feridos, fossem dum ou doutro lado da contenda, como se disse. Para além disto, mesas operatórias onde cirurgiões cortavam a serrote e sangue frio membros inutilizados, existiam mais pela serra, uma outra junto á actual porta da Cruz Alta, na altura apenas um largo rasgão no muro, mandado fazer por Wellington nos preparativos para a defesa. Tanto os da serra como o nosso hospital de sangue faziam parte da estrutura da guerra e eram pouco mais que improvisados, mas desempenharam uma função essencial, pese a aparência cruel da medicina militar da época.

Quanto á acção dos monges, no dia 30 de Outubro, por exemplo, foram encontrados na estrada adiante da Moura, por Frei Gerónimo do Sacramento, interno de Santa Cruz, doze franceses em estado miserável de tal sorte que apenas um se podia levantar do chão e pôr de pé. Os outros, com pernas e braços partidos, feridas coaguladas, tiritando de frio e de dores, de sede e de fome, esperavam pela morte ou que algum paisano armado, dos muitos que andavam a monte no crime e na pilhagem, os encontrasse e lhes desse o golpe de misericórdia por conta da vingança.

Perante a universalidade do hábito, imploraram os desgraçados ao frade em gritos desesperados, por água, pão, consolo para as dores e alívio para sofrimentos. E o frade, como vinha fazendo nestes últimos dias de mais trabalho que preces, não se furtou ao auxilio, porém, face á recusa dos populares em prestar assistência a estas almas estrangeiras, predicou o amor ao próximo, apelou á exposta miséria dos infelizes, ao abandono e á morte sem salvação e finalmente ao pecado a recair com dureza nos corações empedernidos deles próprios. E como nada conseguisse da oratória viu-se obrigado a pegar em duas botelhas de água e a ir enche-las num riacho próximo de forma a consolar os miseráveis franceses.

Á custa do exemplo e do peso da consciência, conseguiu por fim que dois deles chegassem com mais umas quantas vasilhas de liquido e uma côdea de boroa com que prestaram os primeiros socorros aos moribundos soldados. Transportaram um deles, ainda que coxo mantinha-se de pé, para a aldeia e instalaram-no na palha duma loja térrea e enquanto tornou ao Convento buscar pão, peixe e vinho, rogou encarecido aos moradores da Moura que transportassem os restantes e os guardassem, o que, temerosos, acabaram por fazer.

Era dali ao Convento pouco menos que uma légua muito inclinada para um e outro lado do monte e quando voltou da parte da tarde com uma bolsa de alimentos, saciou os doentes, lavou algumas feridas, limpou-lhes a alma e instalou-os o melhor que conseguiu na dita loja, aconchegados na improvisada e comum enxerga onde permaneceram durante quatro dias entregues aos aldeões, altura em que os transportaram num carro de bois para o hospital de sangue, na Capela do Encarnadouro. Dois deles sobreviveram.

Quarenta e nove anos depois, ou seja em 1859, foi a capela comprada pela Câmara da Mealhada presidida por Adriano Batista Ferreira com o objectivo de a tirar do abandono a que estava votada e consolidar a romaria que as populações entretanto levavam a efeito relembrando os acontecimentos no domingo 27, quando o dia era o certo com a data, no domingo anterior, nos outros casos. Porém, pouco tempo depois Batista Ferreira deixou a presidência da autarquia sem levar por diante os seus intentos e coube á edilidade seguinte fazer o mesmo, isto é, nada, fenómeno que originou mais degradação e levou mais abandono ao já arruinado esboço de templo.

Foi em 1862 que Costa Cascais, oficial do exército, conseguiu impor ao Visconde de Sá da Bandeira o justo dever de se construir um monumento a perpetuar a memória da guerra peninsular e a partir de então teve inicio o processo da recuperação da velha ruína, só levada a cabo em 1871 quando era ministro da Guerra Fontes Pereira de Melo.  Em paralelo com o projecto do Obelisco, um monólito de seis metros em pedra lioz de Pêro Pinheiro, incumbiu o ministro ao então Tenente-coronel Costa Cascais a tarefa de tomar a ermida por cedência da Câmara, que tomasse posse dela e procedesse á sua reedificação. Quase total diremos, pois pouco mais restava da antiga estrutura que paredes de pé. Além de muitas memórias que não foram, tanto quanto se sabe, nem recolhidas, nem registadas.

 Foram assim recuperadas as paredes, colocada a abóbada, acrescentadas as casas da guarda, da sacristia e do fiel e paramentada com dignidade e dotada, depois da restauração, com o primitivo quadro de S. Miguel e Almas, o qual se achava no Luso á guarda de Vicente Duarte.

Foi benzida e abençoada sob o padroado de Nª Srª da Vitória e Almas no dia 27 de Setembro de 1876, dia da passagem do 66º aniversário da batalha.

Faz hoje parte, em conjunto com o Museu Militar e o Obelisco inaugurado no mesmo ano, do património militar e cívico relativo ás invasões francesas.

Anote-se finalmente que o Museu Militar do Buçaco, uma estrutura posterior, foi inaugurado em 17 de Setembro de 1910 pelo nosso último rei, D. Manuel II, oito dias antes da implantação da República.    FS

Luso, Janeiro 2010 (200 anos da batalha) Buçaco.blogs.sapo.pt

 

publicado por Peter às 22:00
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Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010

BATALHA BUSSACO-3ª INV-FESTA ALMAS-1

 

A FESTA DAS ALMAS

 

 Passam em Setembro duzentos anos sobre a batalha do Buçaco tradicionalmente comemorada a 27 com o nome local de Festa das Almas. Eu digo Festa das Almas porque era assim chamada desde a minha meninice e acrescento festa do povo, porque se das guerras que se travaram em Portugal se pode retirar rudeza e sacrifício para a gente que as viveu, a das invasões francesas foi a que mais pesou, a mais cruel e sofrida, a que mais sacrifício exigiu ás populações nos palcos onde decorreu mas também, mercê de inúmeras consequências, ao país inteiro quando o cidadão, já escravizado e vitima do sofrimento infligido pelo exército invasor, teve de suportar nos anos seguintes o peso de amigos ingleses chefiados por Beresford , um tiranete apostado em deixar apenas o esqueleto da débil nação que se tinham proposto ajudar. Para não falar da pitoresca monarquia, a banhos no Brasil!!!!!

Talvez esse seja o principal motivo porque a festa, rija e comemorada, perdurou na memória colectiva com grande força até aos dias de hoje e seja participada e sentida em directo pelas recordações geracionais chegadas ao presente pela tradição familiar, tradição que se mantém viva em muitos corações, sobretudo de quem descende dessas memórias orais dos baús das invasões desde Junot a Massena.

Era pois Festa das Almas que se chamava e chama á romaria que leva ao largo do Obelisco milhares de pessoas, observadores atentos das manobras militares que cada vez são mais reduzidas, mas que eram de certa grandiosidade á relativamente pouco tempo e plenas de solenidades e exaltação patriótica.

Ao tempo da batalha existia adiante da Porta da Rainha a capela do Encarnadouro, modesto edifício mandado construir por Luís Rodrigues de Santa Cristina da Serra e é provável, segundo se pode depreender de alguns relatos, que lhe estivessem associadas duas ou três casas formando um pequeno lugar. Ora esta capela serviu na altura de hospital de campanha ou hospital de sangue e foi ali que se prestaram os primeiros socorros aos feridos da contenda com a singularidade dos relatos apontarem o facto de terem sido assistidos muitos franceses. Das Almas do Encarnadouro derivou pois o nome, festa mais justificada ainda pelo facto de ali ter sido para muitos, um purgatório de almas em transição final.

São duzentos os anos passados, mas dando-me ao pequeno exercício de fazer contas muito simples chego á hipótese de supor que o meu trisavô paterno, tendeiro ou almocreve na Mealhada, tenha assistido á batalha ou tenha presenciado alguns dos episódios desses dias terríveis durante as suas andanças pela serra e pelas redondezas, associando medo á curiosidade ou curiosidade ao seu trabalho de caminhante perpetuo pela via profissional. Não deixa de ser uma hipótese bem provável se alicerçada no calculo das probabilidades, que coloca bem perto a realidade. Realidade longínqua pela contabilidade humana, há um instante no contexto universal.

Desta participação colectiva vem o cordão umbilical que suporta a curiosidade absorvente sobre o fenómeno em cada ano de lembrança, quer do lado litoral, quer das minhas costelas serranas dos vizinhos municípios de Penacova ou Mortágua, palcos privilegiados dos acontecimentos. De resto a batalha, em relação á divisão administrativa, é um todo indistinto que engloba os confinantes com a serra do Buçaco e não só.

     Meu pai tinha o mesmo pensamento, pois a festa para ele era um evento mais ou menos sagrado e sempre que por ali passávamos nas vésperas natalícias a caminho da sua aldeia natal, fazia questão de sublinhar a importância da capela da Senhora da Vitória como hospital de sangue e foi  assim que desde tenra idade fiquei ligado á batalha , pois o nosso caminho seguia acima de Sula, Moura, do Cerquedo e Santo António do Cântaro, cenários centrais do desenrolar dos conflitos, locais  que vim a conhecer como as mãos, quer ao nível dos cumes, das encostas , dos sopés, das escarpas ou das ribeiras que escorrem daqui e dali para o Mondego ou para o Vouga.

No dia da festa, no fim do verão portanto, subíamos do Luso ao lado do cinema, ao campo da bola, á costa do sol, cruzávamos as portas da rainha e continuávamos rente ao muro da cerca até ao cômoro acima da esplanada onde decorriam os festejos. Ali nos sentávamos com a cesta do farnel olhando o obelisco e vendo a colorida cerimónia donde sobressaía o patriótico e enaltecido discurso dum adido militar e o desfile militar das tropas anglo-lusas, os lusos de sorrobeco cinzento de pardo luzimento e qualidade, os anglo em coloridas e garbosas fardas vermelhas debruadas a branco e azul, na pompa e orgulho de representantes de sua majestade. E a charanga, debitando marchas militares adequadas acompanhava com música.

Não percebia porque é que as tropas eram sempre anglo-lusas, nunca luso-anglas como me parecia presumir pela gramática, estávamos na Lusitânia, não na anglotânia , o herói Viriato tinha expulso os romanos , era o maior de todos, o Condestável, beato e santo, o Rei de Castela e fazia-me assim confusão o primeiro lugar dos anglos ante o próprio prejuízo. Só mais tarde vim a compreender que prevalecia a lei do mais forte, nos países como nas famílias, como nos homens, como nos animais, como na vida. Daí a subserviência, pendurada na trave da fraqueza, ou na inferioridade das cócoras perante a sobranceria luxuosa dos bifeiros de além Mancha.

Só com o Benfica e depois o Porto, e isso foi muito mais tarde, é que a Lusitânia deu um ar da sua graça com golos que deixaram embasbacados os Tottenames e Liverpuis, mas isso, foi improviso aproveitado para negócios e grandezas que tão depressa nos exaltaram as gargantas como nos levaram ao esvaziamento dos cofres públicos em campos de futebóis e fúteis gargarejos de importância insustentada ou de miséria escondida. Tanto faz!!!

Seja como for, naqueles tempos havia sempre presente um pelotão de escoceses vestidos de saias de xadrez que depois desfilavam tocando bombos e gaitas de foles no terreiro do obelisco e davam um concerto nocturno , isto muito antes da existência da televisão e dos tatoos militares que foram moda posterior em muitos recintos desportivos. E também os passos lentos e cerimoniosos das fardas napoleónicas e lusas no recinto circular ou no regresso da charola á capela da Vitória faziam o encantamento geral, tal como o pesado bater dos cascos da cavalaria nas pedras do caminho metiam medo, não raro sob o rufo de charamelas e timbales manejados por cima do lombo das cavalgaduras pela teatralidade dos executantes.

 Á uma, duas da tarde, saia a procissão acompanhada pelo vistoso aparato militar enquanto troavam os velhos canhões de 1810 com tiros de pólvora seca a ribombar quilómetros em redor.

Finalmente nas Portas de Sula distribuía-se rancho a quem queria comer, macarrão, grão de bico e carne de porco, tudo entulhado como massa de reboco, mas nós, os das redondezas, de comum transportávamos farnéis em cestos de vime e sentávamo-nos pela mata a saborear as preciosidades caseiras, algum velho capão que fora quase família, assado no forno a lenha.

Só o por do sol abria as portas do regresso com um cartucho de nozes na mão e, ainda que ignorantes da completa dramaturgia acabada de ver, voltávamos satisfeitos com a parte que a cada um cabia, afinal a verdade do individuo no grande palco onde se ensaia a vida na sua imponderável globalidade. FS

Luso,Janeiro,2001(200anosdaBatalha))                                   Buçaco.blogs.sapo.pt

publicado por Peter às 21:47
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Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

PINTADO Á MÃO

                                                                                                  

                                                                                                    

Este belo postal pintado á mão é uma vista

geral da Matta do Bussaco, edição de Silva António
e foi depositado nos correios da Azambuja

no dia 6 de Junho de 1938 com um selo de 25 centavos.

Foi recebido em Coimbra no dia 7 do mesmo mês.

publicado por Peter às 10:27
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