Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010

BATALHA BUSSACO 3ª INV. RETIRADA-11

                                                                                 

     General Montbrun procura caminho alternativo                                                      

 

 A RETIRADA PARA  COIMBRA E LINHAS DE TORRES

 

Na tarde do dia 27 , suspenso o ataque francês , enquanto Wellington se mostrava aos seus regimentos e celebrava cautelosamente o que parecia o triunfo obtido sobre a primeira arremetida dos franceses, reunia Massena no  seu posto de comando do Moinho da Moura com os comandantes de  exército a fim de encontrar uma rápida saída  contornando a serra. Encarregou então o general Montbrun de enviar patrulhas de cavalaria em todas as direcções na busca duma passagem. Soult encontrou um caminho que de Mortágua a conduzia a Carvalho e Gondelim onde se podia passar a vau o Mondego para o lugar do Coiço e seguir depois para a ponte da Mucela a fim de tomar a estrada da beira, mas veio a verificar que o terreno estava nas mãos da cavalaria inglesa, o 13º de Dragões e a cavalaria portuguesa, ambas do comando de Fane e ainda da infantaria portuguesa de Lecor.

 Ao general Sainte-Croix , que explorava em Mortágua uma idêntica passagem  que contornasse a serra pela direita, apareceu porém um camponês que, depois de interrogado informou da existência dum caminho  por  Boialvo e Avelãs de Caminho, onde encontrariam a estrada real do Porto para Coimbra e Lisboa. Foi uma brigada de cavalaria encarregada de fazer um reconhecimento mais aturado do percurso em toda a sua extensão, no que se fez ajudar pelo dito camponês, acabando por encontrar um caminho capaz de suportar a passagem do exército e do respectivo equipamento. Conhecedor desta alternativa na manhã do dia seguinte, sexta-feira 28, Massena mandou de imediato ocupar posições estratégicas, tendo o próprio Sainte-Criox ocupado Boialvo, e outros regimentos estabeleceram-se em Vale de Carneiros e Aveleira.

No mesmo dia mandou reforçar os postos avançados ainda espalhados pela serra e reabriu o fogo em toda a frente, convencendo Wellington que a batalha prosseguia. Deu então inicio à retirada dos seus regimentos de forma discreta e imperceptível, enganando desta maneira os vencedores que se mantinham nos postos de combate esperando por novo assalto.

Eram onze horas da noite, Wellington descansava, quando foi acordado pelos seus oficiais e tomou conhecimento dos movimentos inimigos. Saltou rápido do improvisado aposento e também com extrema rapidez deu as ordens de retirada. A partir da meia-noite as tropas anglo-lusas iniciaram precipitadamente o movimento descendo as vertentes da serra em direcção a Coimbra em tal desorganização, que  dava a ideia de fuga.

Noite escura e de chuva, os frades que ainda se conservam no convento são aconselhados a abandonar o ermitério acompanhando as tropas o que fazem sem hesitações, excepto Frei António da Soledade, frei Inácio da Natividade e Frei Silvestre que se atrasam e decidem seguir na manhã do dia seguinte.

É sábado, 29, manhã cedo, os derradeiros regimentos ingleses deixam a serra apressadamente. Ficam equipamentos, diverso material, barris de pólvora e além de algumas sentinelas dispersas fica na serra um batalhão inglês, uma espécie de carro vassoura destinado á liquidação do negócio inacabado. Além da observação sobre os movimentos inimigos, percorrem os locais dos combates, prestam ajuda aos muitos feridos abandonados e queimam do lado de fora da Porta da Rainha a grande quantidade de pólvora que constituía a reserva ainda guardada junto ao Convento que não conseguem transportar na pressa da retirada. Quanto isto acontece, o estrondo é enorme, ouve-se léguas em redor e além de provocar o abatimento de algumas árvores destrói o muro da cerca por muitos metros escancarando o ermo a toda a gente. No edifício do mosteiro, a onda sonora parte janelas e vidraças causando alguns prejuízos á ordem religiosa. Depois, deixam sessenta feridos franceses na mão dos eremitas e partem.

Para Wellington , a retirada é  vital e  a confusão gerada pressupõe que nem batalha nem vitória serviram para nada. Numa análise simples há todo um contra-senso na situação com os vencedores a retirar á frente dos vencidos comprovando que na altura foi assumida como mais uma das muitas escaramuças que tiveram lugar desde a fronteira, embora a batalha do Côa tenha ultrapassado a simples troca de tiroteio entre soldados.

Numa leitura desapaixonada, a vitória acabou por ser, á posteriori, um prémio de consolação. Dum episódio de passagem transformou-se numa batalha, mercê do momento que depois se considerou como sendo o do começo da derrota de Napoleão. Mais valor simbólico que real. Inócua, em termos militares, ela foi desastrosa em termos humanos causando perdas inúteis em vidas.

Espalhado entre a Mealhada, Carqueijo, Botão e Eiras, o exército de Massena está ás portas de Coimbra em 1 de Outubro e entra na cidade. Estupefacta e horrorizada, ainda a apagar as cinzas das fogueiras e festas organizadas para comemorar a vitória do Bussaco, a pouca população que ficou assiste á chegada da cavalaria de Montbrum á ponte de Santa Clara, ainda a tempo de empurrar á cutilada alguns dos retardatários que fogem. A cidade fica abandonada á posse dos franceses que ensaiam uma rapina concertada aos supostos celeiros existentes no burgo, iniciando o roubo com marcas de ferocidade logo na freguesia de Eiras. As ordens dimanadas do comandante em chefe não são cumpridas e a politica de terra queimada do inglês dá lugar ao roubo do francês. As favas que paga sempre o inocente, recaem agora sobre os poucos habitantes que ficaram na cidade. Á maioria que seguiu o exército não cabe porém melhor sorte. Os caminhos são miseráveis, a lama que se começa rapidamente a amontoar é um obstáculo medonho, a fome começa a grassar enquanto a população em debandada se encolhe entre as colunas dos soldados em movimento ou atrás daquele macabro cortejo onde vivos, feridos e agonizantes se misturam e vão morrendo á mercê única da sorte de cada um.

E vão assim por Condeixa, Pombal, Leiria, e finalmente Alenquer já na entrada das Linhas, sempre acossados pela vanguarda dos franceses apostada em dificultar a vida e a caminhada de quem os procede no tabuleiro da guerra. O Bussaco ficava definitivamente atrás.

Encerramos o relato duma memória local sobre as invasões, sem deixar de agradecer a paciência dos leitores que nos leram bem como o estímulo recebido de alguns. Ao mesmo tempo, concluir dizendo que a vida no mosteiro continuou até 1834, ano em que foram extintas as ordens religiosas. A vida monástica tornou-se porém mais difícil, não só porque os muros levaram tempo a reparar, o que permitiu o acesso de outras pessoas estranhas ao local como pelo facto de passar a ser visitada por inúmeros participantes na luta, entre eles muitos ingleses, a quem os frades sempre prestaram auxilio, atenções e deram alojamento.

Depois da extinção da ordem, a Cerca foi praticamente abandonada pelo poder monárquico, só por milagre não foi vendida a terceiros mas invadida por autênticas romarias de gente das redondezas, em pouco tempo a maior parte do património foi destruído. Quanto ao servente Francisco, Francisco António, de seu nome verdadeiro, ainda em 1864 se mantinha como sacristão, cicerone e guardião da Mata. Sabia o que procurava guardar, não sabia porém para quem guardava. Sem família, era no cenóbio que encontrava o último laço duma existência também de eremita, com um zelo e uma eficiência que mereceu registos na época. Aqui deixo uma homenagem póstuma á sua memória, ao primeiro leigo conhecido que amou o Bussaco desinteressadamente, quando, talvez como agora, precisava de amigos para poder ressurgir. Então, como hoje, a devassa é a mesma! Mas amigos do Bussaco, este é sem dúvida, o primeiro de todos. FS

PS-A pedido de alguns leitores aqui deixo referidos alguns dos livros consultados durante a publicação destas crónicas relativas á batalha do Bussaco :

200 Anos da Guerra Peninsular, Exército Português; História Popular da Guerra Peninsular de Teixeira Botelho; Linhas de   Torres Vedras, de António Ventura; Guerra Peninsular 1801-1814;Batalha do Buçaco, Museu Militar; Buçaco, de Paulo Varela Gomes; Luso, no Tempo e na História ,Junta de Freguesia do Luso, O Tempo de Napoleão em Portugal, Comissão Portuguesa de História Militar, Bussaco, de G.L.Chambres; Bussaco 1810,Rene Chartrand; Portal da História ,Internet ;História de Portugal, Damião Peres; Dicionário de História de Portugal de Joel Serrão; Inventário Artístico de Portugal, Aveiro; História de Portugal de Oliveira Martins; História de Portugal de Oliveira  Marques; O Bussaco, de Silva Matos e Lopes Mendes; Guia Histórico do Bussaco, de Simões de Castro ; A História de Portugal, Jose Matoso;História de Portugal , de Rui Ramos ; Crónica dos Carmelitas Descalços; Memórias de Massena, de General Koch; A campanha de Portugal de A. Guingret; D.Maria I , de Luís Olivª Ramos; D.João VI , de Jorge Pedreira e Fernando Costa; História Geral Invasões Francesas, de Acursio Neves; O Combate do Côa , de Gabriel Santos ; A batalha do Bussaco de Brito Limpo; A Guerra Peninsular, de Pinheiro Chagas;Memórias do Bussaco de Adrião Forjaz de Sampaio.

Agradeço ao meu amigo querido Carlos Ferraz o material que me forneceu durante a elaboração dos artigos e ao Jornal da Mealhada pela disponibilidade da sua publicação. 

  

publicado por Peter às 22:42
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Sexta-feira, 8 de Outubro de 2010

200 ANOS

 Um pelotão inglês em manobras na recriação da batalha

  (Foto gentilmente cedida por  C. Ferraz )

VÃO 200 ANOS SOBRE A BATALHA DO BUSSACO

CONTRA AS IDEIAS NOVAS DA REVOLUÇÂO FRANCESA.

PORTUGAL, È A MESMA  PASMACEIRA  

MONARQUIA OU REPUBLICA ! TANTO FAZ !

publicado por Peter às 15:03
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Domingo, 19 de Setembro de 2010

BATALHA BUSSACO-3ª INV.FRADES -9

 

                                                                                                              

 A GUERRA DOS MONGES

 

 A manhã de 27 foi para os resignados monges de Santa Cruz do Bussaco de delapidação total das regras conventuais. Instalados na sua maioria no refeitório situado no extremo norte do Convento, os frades levantaram-se cedo, mal o general, eram quatro horas da manhã, saía com o seu séquito de ajudantes a demandar pela serra a disposição do exército e a perscrutar o disperso bivaque francês pelo longo binóculo que lhe chegava o adjunto a cada solicitação. Já os frades reunidos á volta da cruz central do dito refeitório, toda ela forrada a cortiça, iniciam as demoradas matinas com cantos e sacrifícios onde a autoflagelação era coisa comum. É uma sala grande a das comidas, mais comprida que larga e mais alta que as oficinas, as celas ou a própria livraria. Humilde, também forrada a cortiça tal como a cruz, janelas e portas, é ali que os monges se reunem á volta duma mesa de madeira, comprida, frugal e pobre.

Ao mesmo tempo que dão alívio ao estômago, conforme vão acabando as suas refeições, alguns deles encostam o corpo á grande cruz no meio da sala, abrem os braços como crucificados numa figuração de Cristo, o seu orago, e assim permanecem em silêncio ou a  chicoterar-se a si próprios expiando deste modo o pecado de ter comido. Em muitos dias comem no chão ajoelhados aos pares ou em trios. Colocam sobre a cabeça coroas de espinhos, vendam os olhos com largas faixas de pano preto, sorvem de mordaças que seguram na boca, entre os lábios, mistelas envinagradas e azedas. Não raro, em muitas ocasiões, carregam pesadas cruzes de madeira ou colocam sobre o dorso uma pesada albarda de asino, expiando desta estranha forma as culpas e os pecados cometidos.

Mesmo nestes dias de bulício militar, mais ou menos escondidos dos olhares curiosos de oficiais que passam oriundos das celas ocupadas, procuram mortificar-se o melhor, ou  o pior que podem , sendo o sacrifício mais comum  chicotadas nas lombares até a um rasgo de sangue assomar  na sua vermelhidão. Então cessam a cerimónia, tapam a ferida com o surrobeco do hábito e vão à sua vida. Regra geral desde a chegada do general tem-se moderado nos tormentos destes alívios de alma e a oração tem sido a principal mais valia obtida em favor do céu. O coro diário e o silêncio, contrastando com a balbúrdia instalada em toda a cerca, são onde passam o resto do tempo da penitência.

Ás quatro da manhã de 27 enxerga-se mal. Na prática é noite ainda. Acendem círios e velas trazidas da dispensa onde conservavam grande quantidade e ao passarem lentamente em frente de portas e janelas parecem sombras fantasmagóricas denunciando um culto iniciático macabro sob o esticado capuz de burel da vestimenta, ritmado no intervalo de cada passagem breve.

É pelo romper estrondoso do silêncio habitual no ermitério que dão conta da estranheza da manhã. Ainda que de longe, chegam ecos, sons dum outro mundo que lhes é diferente mas não indiferente, até aromas, enviados pela ligeireza duma brisa que lhes fere a pureza habitual dos odores da solidão cujos bálsamos, oriundos da própria natureza em sopros leves de brisa ou ventanias medonhas, conhecem bem. Hoje, quando o alvor da manhã

clarear em definitivo ,talvez bruscos e incómodos, os ruídos hão-de aumentar, os sons bailarão de direcção em direcção   e nas salas humildes forradas a cortiça penetrarão o medo e as vibrações assustadoras do troar dos canhões juntamente com  o cheiro  fresco da  pólvora que inundará as redondezas do mosteiro. È o que presumidamente pensarão estes eremitas, crentes ingénuos à medida do seu tempo, mas familiarizados com um mundo de injustiças, de violência e de guerras que conhecem bem. Permanecem um ano no refúgio para curar feridas destes desmandos mundanos, frequentemente dos seus próprios erros e exageros, na esperança dum perdão o mais tarde possível. No fim do tempo , cumpridas celas e ermo voltarão supostamente limpos e reconfortados aos malefícios da vida , depois desta limpeza intensiva dos problemas da  alma.

 Acabam orações e sacrifícios da fraca refeição e reúnem-se na igreja, o centro físico e coração do mosteiro. È um templo pequeno, cruciforme, humilde como as regras dos descalços e fechado por inteiro no interior do convento, envolvido em toda a volta pelos corredores das minúsculas celas. Não são todas assim todas as igrejas dos Descalços, mas esta é das primeiras a assumir uma arquitectura fidelizada depois da mais famosa de todas, em Batuecas nos confins de Salamanca.

 Não há riquezas à vista, banido o ouro e a prata o luxo passa pelo altar mor com um  Cristo crucificado gozando das companhias laterais  de  José , o carpinteiro,  e  Santa Teresa.  Ao fundo e separando a igreja do coro de dois degraus, um pitoresco presépio  reúne muitos figurantes à volta da manjedoura e do outro lado, em frente, olha embevecida a imagem discreta da Srª do Carmo. De realce, dum e doutro lado do altar, estão ainda duas figuras originárias dum desconhecido artista italiano, as figuras em barro de Madalena e do apóstolo Pedro. Talvez o que de mais rico possui o templo, não pelo valor intrínseco do material, mas pela expressão realista e sofredora dos actores representados. Pedro, a trair o seu mestre, Madalena, ainda jovem, expressando constrangido o fim dum amor divino. Resignada, tal como a figura barroca da Senhora do Leite numa tela datada de 1664 da autoria de Josefa de Óbidos e pendurada á direita, junto ao coro. È ali, sob o olhar materno dos leitosos seios que os frades se juntam a adivinhar o dia.

 Enquanto isto, Wellington faz um périplo á volta das suas tropas estacionadas ao longo do cume por onde corre um manto de nevoeiro matinal. Adivinhar o que se passa em baixo é a aposta mais certeira, além da tentativa de discernir entre o silêncio algo que seja diferente do fundo costumado. Sessenta mil homens armados para lá do horizonte visível falam sem dizer nada. Para lá dos sons, o ar, as ondas de calor e frio, não as de rádio que ainda não estavam descobertas, propagavam-se a instantes, o cheiro impregnava-se de cambiantes estranhos, alguns mesmo prenúncios vazios da ânsia e do medo espalhados em redor ou no silêncio dos homens esperando. A passarada, ainda que proibida por bula do papa Urbano, habita as frondosas árvores dentro da Cerca , mas também essa está calada e os galos madrugadores, ainda que o pudessem fazer, foram cozinhados por tanta gente com fome.

A expectativa é grande, o receio também, a tensão agiganta-se com o madrugar da noite. Os sinais, para militares experientes são reconhecíveis, mas não o são assim familiares para o recruta português saído da reorganização de Beresford , que  pela primeira vez vai demonstrar em combate a sua capacidade e valor, uma estreia tão imponderável como absoluta que faz tremer o comando inglês como varas verdes. Vai pertencer a estes homens mal vestidos, mal armados e mal calçados, a expensas do governo inglês, o pendor dos resultados, daí as preocupações do lado britânico.

A manhã rompe dificilmente a neblina cerrada que se prolonga desde o nascer do sol impondo segredo montanha acima não se sabe por quanto tempo. Veremos que há-de descer ao contrário lentamente, primeiro rompida pelo sol nas partes altas, depois mais rapidamente a mostrar o conteúdo total da receosa paisagem liberta de sombras e assombrações, substituída dum momento por uma vaga de soldados que hão-de surgir prontos e escanhoados a trepar a montanha.

Para o comandante, que espera o desenrolar da acção no seu posto de comando, a batalha chega assim inesperadamente. Não faz parte de qualquer estratégia previamente concebida nem de planos arquitectados com objectivo e pormenores. A luta, se acabar por acontecer, é mais fruto do acaso que de outra coisa qualquer mas é evidente que esta situação acidentalmente vantajosa o obriga na prática a receber o corpo imperial de armas em punho, tão grandes são os trunfos que a sorte, como numa mesa de pocker, lhe coloca nas mãos. Observa, corrige, encoraja e aguarda confiante o levantar do dia quando surgem das profundezas dos vales que vão do Cerquedo à ribeira de Aveledo e ao rio Mondego os comandados de Reynier.

 

 

publicado por Peter às 18:10
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Quarta-feira, 24 de Março de 2010

BATALHA BUSSACO-3ª INV -FRANCISCO-4

 

  

FRANCISCO E O GENERAL  ARTHUR

 

  Francisco nasceu no Cerquedo em 1798 filho duma numerosa família de pequenos agricultores de subsistência nas abas nordestes da serra do Bussaco. Criado entre dificuldades domésticas e uma mãe repartida por muitos, repartiu ele próprio a meninice entre os gadanhos paternos e o pastoreio do planalto, mas frente aos muros da cerca  dos frades onde terminava muitas vezes a caminhada, deixava que os animais se encostassem ao sol tentador que se entornava nas pedras e sentava-se a pensar no misterioso mundo daquele interior ignorado e proibido á sua pobre conjectura. Um dia subiu o muro, escancarou-se sobre as pedras nuas e mal assentes em massa de lama e palha e quando regressou disse aos progenitores que gostaria de servir no Convento. Aconteceu que por aqueles dias Frei Bernardo do Espírito Santo, também conhecido entre os irmãos como o Frade das Coisas Terrenas  , andou por ali á procura de moços para as hortas e calhou simpatizar com a figura pequena e risonha do frágil Francisco. Insistiu com os pais e levou-o consigo para moço da horta e vinha, primeiro á experiência, depois, passado um mês, já rendido á humilde docilidade do garoto, voltou para sublinhar a satisfação do mosteiro e fazer, por contrato de palavra, um contrato de trabalho.

Bonacheirão, o monge deixou satisfeitos pai e mãe, uma boca a menos e a garantia duma carreira futura ali ás portas de casa era afinal tudo quanto podiam desejar e agradeceram ao frade a boa nova por alma de todos os santos do ermo e redondezas. Estava-se no Outono de 1809 e o rapaz já passou o natal dentro da Cerca entre os irmãos, aprendendo a humilde e penitente tarefa de louvar o nascimento do Senhor no pobre isolamento da congregação.

De facto o Francisco era educado, carinhoso e maleável como um pedaço de barro aos artifícios dos devotos penitentes e tanto lhes agradavam as boas maneiras e a prontidão de atitudes que pouco tempo depois as suas faltas, como a sua ignorância, eram coisas tratadas como a pureza dos anjos nas delicadezas do céu. Ensinaram o garoto, das hortas á cozinha, ao refeitório, á livraria, iniciaram-no na leitura e no missal e arranjaram-lhe até um pequeno cubículo por quarto encostado á hospedaria, um sítio silencioso e recatado, como prova do seu reconhecimento e familiaridade. E o miúdo era, como se diz vulgarmente, pau para toda a colher e mercê da sua simpatia e disponibilidade, tornou-se um ai Jesus percorrido entre toda a comunidade, obrigada por votos e intenções ao silêncio e á contemplação. Com anjos porém, era diferente!

 Foi por estes motivos que no dia 21 de Outubro pelas nove horas da manhã o Francisco foi chamado ao Prelado Maior, Frei Domingues de Deus, a fim de o acompanhar na recepção a Artur Wellesley na portaria do Convento. Pelas oito, havia já chegado, vindo de Lorvão, o quartel mestre general, hoje para obviar o assunto diríamos o staff, mas custava ao bom do frade dirigir-se sozinho ao encontro do poder. Não que não tivesse já visto generais, comandantes, navegadores ou reis, mas retirado dessa vida mundana como estava por razões do desprendimento das coisas terrenas, custava-lhe repartir o espaço interior da sua imolação com o que há tanto tempo deixara. Muito menos só. Achou por bem levar uma alavanca, como que uma bengala ou consolação e encontrou na presença do angélico garoto, talvez a figura com que Miguel Ângelo, Giotto ou Rafael pintaram o renascimento. Ciente ou não das obras referidas, Frei Domingues encontrou ali o aconchego e refúgio que perdera da vida e o melhor acompanhamento para ultrapassar a situação enquanto os irmãos, depois da primeira hora de oração matinal, dispersaram para a solene rotina da regra conventual. Por pouco tempo.

O Francisco, admirado com o garbo dos oficiais que iam chegando em luzidios amarelos e com a fruta cor dos enfeites que adornavam as bestas a todo o comprimento até aos rabos penteados, abria os olhos de espanto, mas encostado á veste protectora do prelado, mantinha-se em cerimonioso silêncio, se bem que lhe apetecesse saltar pelo átrio da entrada e segurar com a própria mão os arreios pretos e castanhos dos animais e dar duas corridas de contentamento e liberdade por sua conta e risco á volta deles. Conteve-se porém, entre o dito espanto e o medo e o olhar benevolente do geral.

Quando por fim o prelado informou o general do quarto que lhe reservara, o melhor da hospedaria, limpo e pintado para receber com dignidade o ilustre hospede, foi ao Francisco que incumbiu de lho mostrar, porém o general não gostou do aposento, não só por ser no interior do claustro mas porque tinha apenas uma entrada. Acabou por escolher o quarto da portaria á esquerda do átrio, tinha duas portas e abria uma pequena janela para fora, o que lhe dava uma rápida visão sobre o terreiro da frente. E sobre uma oliveira nova, nascediça, cujo caule tanto dava para prender as rédeas da cavalgadura como para o próprio cavalo, num puxão mais atrevido, a levar atrás de si.

Foi para ali que alguns soldados da escolta despejaram as malas e depois as transportaram ás costas para o interior, após o próprio prelado o ter mandado lavar e enxugar á pressa, com fogo que mandou atear em duas taças grandes de latão bronzeado cheias de madeira bem seca, deixando depois o brasido a terminar a secagem. Foi dali que todas as manhãs os mesmos impedidos retiraram as malas para fora e as recolocaram de novo ao fim da tarde durante sete noites, tantas quantas as que Wellington pernoitou no Convento do Buçaco.

Pelo meio-dia já toda a cerca murada estava pejada de militares ingleses, entre os quais os oficiais que se aboletavam em quanto sítio abrigado acharam de melhor, desde o convento ás ermidas. A vida da clausura foi interrompida, os frades retornaram ao mosteiro, coisa que nunca tinha acontecido no ermitério desde 1628 e as suas próprias celas foram ocupadas pela oficialidade britânica. Apenas ao Prelado foi consentido, por uma questão de cortesia politica, manter o seu quarto habitual. E a Frei António dos Anjos porque ninguém quis ocupar a sua cela por estar entulhada de farrapos, cacaréus e ferro velho, relíquias que o bom do monge vinha amontoando á revelia do prior durante grande parte da contemplação.

O resto da jornada passou Wellesley a percorrer a serra e a organizar as defesas, obras que se prolongaram até 26. Mandou erguer uma paliçada frente á Porta de Sula, rasgar o muro entre esta e o planalto á maneira de o dotar de improvisadas ameias, abrir uma porta perto da Cruz Alta, aquela que existe actualmente e abrir um estradão militar entre este ponto e a portela de Oliveira por onde facilmente e a coberto do inimigo movimentasse os homens, como aconteceu. Mandou igualmente aplanar plataformas onde colocou as peças de artilharia, empenhando em todos estes preparativos não só militares como muitos civis recrutados em redor ou dos que caminhavam com o próprio exército e as milícias. Ao princípio da tarde de 24 mandou abrir a Porta da Rainha que se encontrava tapada com um muro de pedra e cal desde 1704, altura em que passou pelo Bussaco o rei D. Pedro II e o Arquiduque Carlos de Áustria. Esta porta havia sido construída em 1693 para dar passagem á Rainha de Inglaterra D. Catarina de Bragança, visita que não se veio a verificar e com medo de que aumentasse a devassidão intra muros com nova entrada, foi entaipada pela comunidade dos Descalços.

Desde a chegada dos militares, coisa nunca vista no ermitério, a vida da clausura foi interrompida, proibido o toque dos sinos do convento bem como das sinetas das ermidas durante a noite e abertas as portas á tropa, ficou a cerca aberta a toda a gente que, durante a permanência dos militares, entrou e saiu á vontade dentro dos muros. Os frades, desalojados dos seus humildes aposentos, dormiram pela igreja, pela livraria, pela sacristia, ou até na dispensa, onde os parcos haveres foram, por ordem do comandante em chefe, protegidos, a par do respeito devido ás suas próprias pessoas.

Acabaram por sair do Cenóbio apenas no dia 28, aconselhados pelo próprio Wellington a fazê-lo uma vez que abandonada a Mata, ficaria aberta á chegada dos franceses. Se bem que a 22 tivessem seguido para Coimbra alguns irmãos mais velhos e um carro carregado dos bens mais preciosos do mosteiro!

No fim, acabariam por ficar Frei Gerónimo do Sacramento, Frei António da Soledade , o irmão Inácio da Natividade pois ao pretenderem abandonar o mosteiro na noite de 28, ela era já cerrada e a chuva tão abundante que resolveram partir na manhã seguinte. Encostaram-se no chão a dois cantos na hospedaria e adormeceram. No pequeno cubículo, do lado de fora, o Francisco já tinha adormecido há muito tempo, nem deu pela chegada dos bons frades que em silêncio passaram para descansar no interior.

 Luso, Março.2010 ( 200 anos da Batalha)

 

publicado por Peter às 19:37
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