Sexta-feira, 27 de Maio de 2016

ROMARIA DA ASCENÇÃO

CSC_0225.JPG

 

O Dia da Ascensão foi sempre uma festa da Bairrada, pode-se dizer a mais participada romaria da região. E foi igualmente uma festa livre, uma festa do povo para o povo bairradino sem que se lhe colasse alguma vez a petulante política que anda por aí agora a descobrir coisas velhas que são da tradição dos povos para se lhes vestir uma casaca partidária como se fosse coisa de sua autoria e propriedade. Não posso concordar com esta comunização da cultura popular nem com a tomada abusiva dos usos e costumes que lhe dão suporte e valor. Isto não é uma Bastilha para ser tomada assim de pé para a mão porque afinal o que é do povo ao povo pertence e quando não houver povo, mesmo que por hipotese subsistisse a política, não haveria a Festa da Ascensão, acabaria com ele. Há que respeitar os deuses, os oráculos e as populações que estão acima dos serôdios politiqueiros e de oportunistas fundadores nestas questões que não lhes pertencem e separar devidamente o que é do trigo e do joio é correcto e conveniente.A Romaria da Ascensão foi sempre uma festa da Bairrada e de liberdade e tal como o leitão é um produto regional , a romaria é da região e não deste ou daquele municipio , é preciso que quem conjunturalmente manda saiba respeitar a tradição e os valores que dizem respeito a todos e que são efectivamente sua pertença, neste caso de dimensão regional.Em 1860 andavam por aí Guerra Junqueiro, Tomaz da Fonseca e outras figuras nacionais de mão dada com o poeta Manuel Alves de Vale de Boi, da freguesia da Moita, Anadia, grande amante da Mata que, dentro do seu estilo peculiar, foi o seu maior cantor. Juntavam-se forasteiros em comboios especiais vindos do Porto, Figueira, Leiria Pombal e outras terras . Mas era da sua Bairrada que vinham a maior parte dos ranchos , desde Anadia a Oliveira do Bairro, Agueda , Aguada ou Belazaima, Oiã, Mamarrosa, Moita, Mealhada , Ventosa , Cantanhede e muitas outras localidades da região. Os mais novos em animadas marchas e cantares, elas com os cestos á cabeça e os mais velhos ,com a experiência de anos e anos de subidas ao monte, certos a dirigir os romeiros e a procurar o chão que ia servir de mesa do almoço. A meio da manhã, do Convento às Portas de Coimbra andava um mar de gente aos encontrões entre vendedores de tudo o que fosse quinquilharia, brinquedos, bolos , bebidas, flores de papel, etc ,etc num frenesim que se prolongava tarde fora sem tristes fundações a comandar pessoas e lugares.O dia da Ascensão era ainda uma festa da família. Minha avó Teresa do Réu, matava o melhor capão da capoeira, um exemplar de crista eriçada e penas coloridas que mais parecia um faisão, minha mãe assava uma galinha no forno e as minhas tias maternas aligeiravam umas pataniscas e bolos de bacalhau ou umas feveras de porco ainda da matança do Natal. Juntavamos os farneis dentro dos cestos de verga no cimo da avenida Navarro esperando uns pelos outros e dali , manhã no inicio, integravamos o cortejo que nos levaria á Fonte Fria e ao Convento. Era na parte primeira do percurso ,quando se galgavam vagarosamente as escadas do Teatro Avenida, que se mostrava a miséria dum povo na sua legitima manifestação de pobreza e abandono. De facto, todo o escadório que conduzia á entrada da floresta, estava apinhado de pedintes, de estropiados, mutilados , gente com feridas expostas, tumores abertos , cegos , pernetas e manetas mostrando pruridos dos cotos , todos pedindo e gritando alto e bom som , de degrau em degrau e de mazelas expostas ajuda aos forasteiros. Estes lázaros, desprotegidos da sorte e espelho dum país e seus algozes, eram uma antecâmara que separava espiritos , ainda medievos em temores ancestrais, dos folguedos pagãos que se iriam seguir. Metiam-me medo as suas reais representações, em direto para um público que passava e deixava , se podia, uma esmola salvadora para descarga futura da consciência própria, se bem que, umas dezenas de metros acima, já embrenhados no arvoredo da mata, as cenas se fossem no fosso do esquecimento e do cansaço .Mais tarde, em pleno centro da circunstância, além do caminhar em redor do Convento, onde se misturavam os romeiros da Beira Alta , era sacramental seguir ao longo da Avenida do Mosteiro á Fonte da Samaritana e finalmente ás Portas de Coimbra , donde se abarcava a paisagem até á orla marítima. Era ali , sobre as ervas e flores do enome miradoiro ou nas suas redondezas , que nomalmente se estendiam as toalhas , se espalhavam caçoilas e utensílios e se saboreava paulatinamente o que de melhor se trazia da cozinha doméstica. O meu avô Ze Maria, que chegava com dificuldade ao repasto, mesmo trazido por algum dos meus tios de Lisboa, cofiava o bigode esbranquiçado e sentava-se contente ao lado da dona da casa a garantir a tribo reunida. Cantavam pessoas e ranchos numa harmonia comum e a meio da tarde , recordações guardadas e varapaus em riste , começava o movimento contrário com toda aquela gente em debandada serra abaixo , os ranchos tocando e dançando para alegrar as almas e facilitar o caminho de regresso , ás vezes noite cerrada pelos recantos dessa longa Bairrada onde acabavam em marchas e em bailes antes do sucumbir a um cansaço evidente. Podiamos contar neste resumo histórias e anedotas , de lutas , de pancada , do vinho ou do amor, mas não cabe no espaço essa aventura , seria um trabalho árduo e moroso , na verdade um romance de vida desta comunidade bairradina que espalha o habitat no vale do pequeno rio Cértima, entre o Mondego e o Vouga. A quem na realidade pertence a Romaria da Ascensão do Bussaco é ao seu povo simples , alegre e laborioso.

 

publicado por Peter às 17:47
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Sexta-feira, 4 de Março de 2016

BTL-LUSO-BUÇACO

deplients ff.jpg

 Março,4,BTL-Lisboa

A marca LUSO-BUÇACO, construida ao longo dos ultimos 160 anos

e hoje como tal reconhecida na Europa e no mundo, foi preterida

pela Câmara da Mealhada na presente Feira do Turismo de Lisboa

pelo ignorado recurso de 4 maravilhas , prestando assim um 

ótimo serviço  como negação do turismo ás Termas do Luso

e á municipalizada Mata Nacional do Buçaco que, andando de cavalo

para burro  é pertença duma Câmara, sendo património nacional.

É ver o estado em que está, anos depois do vendaval !!!!!

Não posso deixar de colocar  aqui o registo para a posteridade,

de como se faz o curioso turismo  de muitas edilidades deste país! 

Como positivo, registo também a união em volta dum Centro de

Portugal, o caminho a seguir no trilho do futuro imediato.

publicado por Peter às 20:25
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Sábado, 19 de Setembro de 2015

DESFILE

desfile.jpg

 

publicado por Peter às 18:59
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Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2015

PAUL GAUGUIN

gauguin

 De Paul gauguin , o quadro mais valioso do mundo,

intitulado ´'Nafea Faa Ipoip' em lingua polinesa, 'quando

te casarás' em lingua portuguesa,

O quadro a óleo acima, de Paul Gauguin, foi vendido

recentemente  a um investidor do Qatar por cerca de

300 milhões de  dolares, uma venda que  bateu todos os

records de vendas  anteriores , deixando a quarenta

milhões de distância o ex-record, agora segundo  classificado

neste rankink de pinturas, onde  o nosso Senhora 

do Leite, queimado vivo à luz da vela, não passaria dos

100 mil euros de valor. Uma ninharia!!!!!!!!

cezanne.jpg

  O agora segundo classificado, por ordem de vendas é a

tela supra

Como tudo é relativo e a nossa pobreza é endémica, o

Josefa de Óbidos era decerto valioso  dentro do nosso

mercado. Ficamos com uma ideia, ainda que mínima do

mercado respectivo. A incuria, evidente, não é a mesma!

publicado por Peter às 18:14
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Segunda-feira, 5 de Maio de 2014

CENTENARIO

 

 Desfile militar durante as comemorações dos 100

anos da Batalha do Bussaco, em 1910 , que contou

com a presença do rei D.Manuel e da sua amantissima

amiga Gaby Deslys.

publicado por Peter às 22:30
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Sexta-feira, 25 de Abril de 2014

CRUZ ALTA

         

 

Para comemorar um 25 de Abril que  deixou 

de o ser nada melhor que uma antiga imagem da

Cruz Alta numa Mata Nacional do Buçaco que  

também  não é o que foi. Um postal pintado à mão,

um documento único e bonito dum tempo criativo

e pujante nos primeiros passos do turismo

em Portugal. 

        

 

 

publicado por Peter às 18:51
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Quinta-feira, 6 de Outubro de 2011

BATALHA E CONVENTO

"A BATALHA E O CONVENTO"

UMA PERSPECTIVA INTERAGINDO A LUTA

COM OS FRADES CARMELITAS.

UMA MANEIRA DIFERENTE DE NARRAR

OS DIAS DA INVASÃO.

APRESENTADO DIA 1 DE OUTUBRO

NO HOTEL EDEN,LUSO.

PREÇO 12 EUROS

pedidos Ferrazsilva@sapo.pt

 

 

 Pormenor da apresentação

 

publicado por Peter às 14:08
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Quarta-feira, 22 de Setembro de 2010

ONDE FOI A BATALHA ?

 

 

 

 Fotografia actual do Moinho da Moura, freguesia de Trezoi, concelho de Mortágua,

que serviu de Posto de comando a  Massena.                                      (foto do autor)

 

Temos vindo a assistir ás comemorações do segundo centenário da Guerra Peninsular cujo momento principal ocorre em 27 de Setembro  próximo  no que concerne à Batalha do Bussaco.

Foi uma fase dramática do nosso percurso comum que deve e está a ser lembrada um pouco por todos os palcos de então, ainda que os tempos actuais sejam de desvalorização  e banalização dos acontecimentos, parte integrante de lutas internas que fazem ainda hoje do espaço europeu uma fronteira em consolidação.

Acontece que as comemorações no que diz respeitam à batalha em referência, são levadas a efeito no município da Mealhada, área administrativa que parece chamar a si o exclusivo do evento e, pressupõe-se também o cenário dos ditos acontecimentos. Nada de mais errado.

Não sabemos os porquês deste estranho exclusivo pois a história pátria ainda não foi mudada nem se pode mudar ao gosto de qualquer oportunidade política e sendo assim, manda essa mesma verdade histórica e o rigor que a legitima desmistificar o erro, pois na realidade em relação à Batalha do Bussaco não se deu um tiro sequer no então concelho da Vacariça, concelho entretanto extinto e que passou a chamar-se da Mealhada.

Todo o desenrolar bélico desta contenda entre o exército francês de Massena e os anglos lusos se desenrolou na sua primeira fase no concelho de Penacova, distrito de Coimbra, encostas de Santo António do Cântaro, freguesia de Carvalho,e numa segunda fase no concelho de Mortágua, distrito de Viseu, vertentes do Moinho de Sula, freguesia de Trezoi.

O então concelho da Vacariça onde se situava geograficamente o Convento Carmelita, abrangia, como abrange ainda hoje, uma parte da serra e apenas essa pertencia à então Vacariça, na freguesia do Luso. Na sua maior parte a serra pertence ao concelho de Penacova no distrito de Coimbra, tendo ainda uma pequena franja de terreno no concelho de Mortágua e uma outra no próprio concelho de Coimbra e não se limita á Mata Nacional , que é uma pequena parcela ,pouco maior que os 105 hectares que limitam o velho convento carmelita.

O concelho da Vacariça , na vertente oposta à luta, serviu  de passagem e apoio, serviu  em termos logísticos , como serviram outros concelhos limítrofes dentro das estratégias montadas pelos generais Wellington e Massena , desde os caminhos tomados por Almeida, Mangualde ou Viseu,  depois Tondela  e Santa Comba Dão e mesmo depois da luta, Anadia ou Àgueda e outros. É  verdade que funcionou na freguesia do Luso um hospital de sangue, é verdade que alguma oficialidade britânica subtraiu  aos frades carmelitas os  aposentos para ali se instalar , é verdade que a cavalaria aliada foi colocada perto da Mealhada  por se pensar ir ser inoperante face á morfologia do terreno. Mas também é verdade que a maioria dos batalhões e regimentos dum e doutro contendor permaneceram uma semana na serra, fora do concelho  da Vacariça,  percorreram durante esse tempo os  concelhos vizinhos , roubaram, destruíram e mataram populações locais e isso não aconteceu no concelho da Vacariça. Aqui , não se desenrolou o acto físico da luta e nem um tiro se deu em defesa da pátria e dos interesses ingleses.  

Por isso se estranha a exclusividade das comemorações pois a Batalha do Bussaco envolveu  populações da região sobretudo, sublinho,dos concelhos actuais de Penacova e Mortágua, se não quisermos estender os factos ao percurso entre Almeida, Viseu e o campo de batalha. Deve referir-se até, que o concelho da Vacariça foi um pequeno oásis no cenário dantesco que foi o caminhar dos dois exércitos através do país, pois a freguesia do Luso, onde presumidamente poderiam acontecer factos relacionados com o fenómeno, nada registou para lá duma súbita dormida de Beresford na Lameira de Stº Eufêmea e duma subita passagem de Massena  na Mealhada após o desvio de exército por Boialvo e Avelãs.

Porque não podemos enganar a história nem os factos e nem os lugares onde se passaram as coisas, aqui deixo a titulo de rectificação, a estranheza por ver esquecidos, ou por ignorância, ou intencionalidade, não o sei dizer, os representantes actuais dos que então sofreram nas entranhas os sacrifícios da luta, em abono da verdade e da honestidade intelectual, os municípios de Penacova e Mortágua. Deviam ser parte activa destas comemorações, pois eles foram o grande palco desta fase da  Guerra  Peninsular. Para além de Coimbra que já na retirada das forças  após o inconclusivo recontro , foi tomada e  rapinada , diga-se , por uns e por outros.

O rigor histórico não pode ser ultrapassado, nem pelo município da Mealhada, nem pelo Estado-Maior do Exército, nem pela Academia Portuguesa de História, entidades que parecem estar por trás das comemorações. Aqui fica a titulo de informação o que devia  ter sido feito e considerado por essas entidades.

publicado por Peter às 10:39
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Domingo, 19 de Setembro de 2010

BATALHA BUSSACO-3ª INV.FRADES -9

 

                                                                                                              

 A GUERRA DOS MONGES

 

 A manhã de 27 foi para os resignados monges de Santa Cruz do Bussaco de delapidação total das regras conventuais. Instalados na sua maioria no refeitório situado no extremo norte do Convento, os frades levantaram-se cedo, mal o general, eram quatro horas da manhã, saía com o seu séquito de ajudantes a demandar pela serra a disposição do exército e a perscrutar o disperso bivaque francês pelo longo binóculo que lhe chegava o adjunto a cada solicitação. Já os frades reunidos á volta da cruz central do dito refeitório, toda ela forrada a cortiça, iniciam as demoradas matinas com cantos e sacrifícios onde a autoflagelação era coisa comum. É uma sala grande a das comidas, mais comprida que larga e mais alta que as oficinas, as celas ou a própria livraria. Humilde, também forrada a cortiça tal como a cruz, janelas e portas, é ali que os monges se reunem á volta duma mesa de madeira, comprida, frugal e pobre.

Ao mesmo tempo que dão alívio ao estômago, conforme vão acabando as suas refeições, alguns deles encostam o corpo á grande cruz no meio da sala, abrem os braços como crucificados numa figuração de Cristo, o seu orago, e assim permanecem em silêncio ou a  chicoterar-se a si próprios expiando deste modo o pecado de ter comido. Em muitos dias comem no chão ajoelhados aos pares ou em trios. Colocam sobre a cabeça coroas de espinhos, vendam os olhos com largas faixas de pano preto, sorvem de mordaças que seguram na boca, entre os lábios, mistelas envinagradas e azedas. Não raro, em muitas ocasiões, carregam pesadas cruzes de madeira ou colocam sobre o dorso uma pesada albarda de asino, expiando desta estranha forma as culpas e os pecados cometidos.

Mesmo nestes dias de bulício militar, mais ou menos escondidos dos olhares curiosos de oficiais que passam oriundos das celas ocupadas, procuram mortificar-se o melhor, ou  o pior que podem , sendo o sacrifício mais comum  chicotadas nas lombares até a um rasgo de sangue assomar  na sua vermelhidão. Então cessam a cerimónia, tapam a ferida com o surrobeco do hábito e vão à sua vida. Regra geral desde a chegada do general tem-se moderado nos tormentos destes alívios de alma e a oração tem sido a principal mais valia obtida em favor do céu. O coro diário e o silêncio, contrastando com a balbúrdia instalada em toda a cerca, são onde passam o resto do tempo da penitência.

Ás quatro da manhã de 27 enxerga-se mal. Na prática é noite ainda. Acendem círios e velas trazidas da dispensa onde conservavam grande quantidade e ao passarem lentamente em frente de portas e janelas parecem sombras fantasmagóricas denunciando um culto iniciático macabro sob o esticado capuz de burel da vestimenta, ritmado no intervalo de cada passagem breve.

É pelo romper estrondoso do silêncio habitual no ermitério que dão conta da estranheza da manhã. Ainda que de longe, chegam ecos, sons dum outro mundo que lhes é diferente mas não indiferente, até aromas, enviados pela ligeireza duma brisa que lhes fere a pureza habitual dos odores da solidão cujos bálsamos, oriundos da própria natureza em sopros leves de brisa ou ventanias medonhas, conhecem bem. Hoje, quando o alvor da manhã

clarear em definitivo ,talvez bruscos e incómodos, os ruídos hão-de aumentar, os sons bailarão de direcção em direcção   e nas salas humildes forradas a cortiça penetrarão o medo e as vibrações assustadoras do troar dos canhões juntamente com  o cheiro  fresco da  pólvora que inundará as redondezas do mosteiro. È o que presumidamente pensarão estes eremitas, crentes ingénuos à medida do seu tempo, mas familiarizados com um mundo de injustiças, de violência e de guerras que conhecem bem. Permanecem um ano no refúgio para curar feridas destes desmandos mundanos, frequentemente dos seus próprios erros e exageros, na esperança dum perdão o mais tarde possível. No fim do tempo , cumpridas celas e ermo voltarão supostamente limpos e reconfortados aos malefícios da vida , depois desta limpeza intensiva dos problemas da  alma.

 Acabam orações e sacrifícios da fraca refeição e reúnem-se na igreja, o centro físico e coração do mosteiro. È um templo pequeno, cruciforme, humilde como as regras dos descalços e fechado por inteiro no interior do convento, envolvido em toda a volta pelos corredores das minúsculas celas. Não são todas assim todas as igrejas dos Descalços, mas esta é das primeiras a assumir uma arquitectura fidelizada depois da mais famosa de todas, em Batuecas nos confins de Salamanca.

 Não há riquezas à vista, banido o ouro e a prata o luxo passa pelo altar mor com um  Cristo crucificado gozando das companhias laterais  de  José , o carpinteiro,  e  Santa Teresa.  Ao fundo e separando a igreja do coro de dois degraus, um pitoresco presépio  reúne muitos figurantes à volta da manjedoura e do outro lado, em frente, olha embevecida a imagem discreta da Srª do Carmo. De realce, dum e doutro lado do altar, estão ainda duas figuras originárias dum desconhecido artista italiano, as figuras em barro de Madalena e do apóstolo Pedro. Talvez o que de mais rico possui o templo, não pelo valor intrínseco do material, mas pela expressão realista e sofredora dos actores representados. Pedro, a trair o seu mestre, Madalena, ainda jovem, expressando constrangido o fim dum amor divino. Resignada, tal como a figura barroca da Senhora do Leite numa tela datada de 1664 da autoria de Josefa de Óbidos e pendurada á direita, junto ao coro. È ali, sob o olhar materno dos leitosos seios que os frades se juntam a adivinhar o dia.

 Enquanto isto, Wellington faz um périplo á volta das suas tropas estacionadas ao longo do cume por onde corre um manto de nevoeiro matinal. Adivinhar o que se passa em baixo é a aposta mais certeira, além da tentativa de discernir entre o silêncio algo que seja diferente do fundo costumado. Sessenta mil homens armados para lá do horizonte visível falam sem dizer nada. Para lá dos sons, o ar, as ondas de calor e frio, não as de rádio que ainda não estavam descobertas, propagavam-se a instantes, o cheiro impregnava-se de cambiantes estranhos, alguns mesmo prenúncios vazios da ânsia e do medo espalhados em redor ou no silêncio dos homens esperando. A passarada, ainda que proibida por bula do papa Urbano, habita as frondosas árvores dentro da Cerca , mas também essa está calada e os galos madrugadores, ainda que o pudessem fazer, foram cozinhados por tanta gente com fome.

A expectativa é grande, o receio também, a tensão agiganta-se com o madrugar da noite. Os sinais, para militares experientes são reconhecíveis, mas não o são assim familiares para o recruta português saído da reorganização de Beresford , que  pela primeira vez vai demonstrar em combate a sua capacidade e valor, uma estreia tão imponderável como absoluta que faz tremer o comando inglês como varas verdes. Vai pertencer a estes homens mal vestidos, mal armados e mal calçados, a expensas do governo inglês, o pendor dos resultados, daí as preocupações do lado britânico.

A manhã rompe dificilmente a neblina cerrada que se prolonga desde o nascer do sol impondo segredo montanha acima não se sabe por quanto tempo. Veremos que há-de descer ao contrário lentamente, primeiro rompida pelo sol nas partes altas, depois mais rapidamente a mostrar o conteúdo total da receosa paisagem liberta de sombras e assombrações, substituída dum momento por uma vaga de soldados que hão-de surgir prontos e escanhoados a trepar a montanha.

Para o comandante, que espera o desenrolar da acção no seu posto de comando, a batalha chega assim inesperadamente. Não faz parte de qualquer estratégia previamente concebida nem de planos arquitectados com objectivo e pormenores. A luta, se acabar por acontecer, é mais fruto do acaso que de outra coisa qualquer mas é evidente que esta situação acidentalmente vantajosa o obriga na prática a receber o corpo imperial de armas em punho, tão grandes são os trunfos que a sorte, como numa mesa de pocker, lhe coloca nas mãos. Observa, corrige, encoraja e aguarda confiante o levantar do dia quando surgem das profundezas dos vales que vão do Cerquedo à ribeira de Aveledo e ao rio Mondego os comandados de Reynier.

 

 

publicado por Peter às 18:10
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Sexta-feira, 6 de Agosto de 2010

BATALHA BUSSACO-3ª INV.GERALDINE-8

 

                                                                                                    

 

 

GERALDINE

 

Dupont  é  o fiel criado de quarto do general Simon , seu mordomo e acompanhante desde as grandes batalhas de Wagram e Frideland  e por isso bastante   afeiçoado ao intrépido  militar. Quando sabe poucas horas depois dos combates que seu amo é feito prisioneiro no Moinho de Sula frente ás forças de Crawford, resolve levar a sua dedicação mais longe decidindo acompanhar o desditoso amo no infortúnio das grilhetas. 

Junta os acessórios quotidianos do general numa maleta e munido da estima e da vontade de servir, mete-se sem hesitações a caminho das linhas inimigas para se juntar ao amo e assim cumprir a missão para que estava contratado. É por entre os destroçados homens de Loison, o Maneta e de Marchand que se mete, cruzando com os sobreviventes, ultrapassando mortos e feridos espalhados pela encosta, encetando uma luta contra o terreno e contra a mala, que era um obstáculo precioso mas incomodo em tão insólita marcha. É assim entre os vencidos que descem a montanha que o intrépido Dupond faz o caminho contrário  trepando por barrocas e penedos acenando  constantemente com um lenço branco que segura na mão esquerda em sinal de neutralidade e paz. Avança sob um ou outro tiro dos ingleses que não percebem muito bem o que está a acontecer com o homenzinho desarmado que sobe a serra na sua direcção.

Quando a barreira a transpor é mais dura de roer, enfia o lenço no bolso da jaqueta que lhe desce até aos joelhos e puxa a mala com as duas mãos para facilitar a marcha, mas logo torna a empunhar o lenço branco num frenesim de agitação enquanto aparece aqui e desaparece acolá nas dobras e nas falhas  do acidentado passo.

Não estão longe as primeiras ruínas incandescentes do que foi a pequena aldeia de Sula , já as vai  divisando  acima da cabeça, bem como ao intenso fumo que delas sobe, porém, como que a contrariar as intenções do devoto servidor o tiroteio que desaba sobre ele redobra dum momento para o outro. É agora mais frequente e assustador. Nem a frente aliada se inibe de atirar sobre tudo o que mexe, incluindo o que seja branco e movediço como o grande lenço que agita freneticamente, nem os desesperados gauleses que temerosos descem, deixam de se virar para trás pelo estalar dum tiro perdido, alvejando instintivamente  o desorientado mordomo a contas com uma tarefa que se vai agigantando à sua frente. Uma ou outra bala silva perto de si e depressa o fogo que sobre ele desaba atinge uma intensidade tal que tem de se refugiar e não consegue prosseguir. Agacha-se no recobro duma trincheira abandonada, deixando passar a fúria dos apontadores para continuar apalpando o terreno, mas por fim, exausto e convencido perante a fuzilaria que lhe cai em cima que não consegue cumprir a humanitária missão, senta-se numa racha protectora da rocha e aguarda uma pequena trégua para voltar atrás. É o que faz aproveitando a primeira oportunidade que surge, escapando assim milagrosamente ao tiroteio cerrado que o levaria ao suicídio, caso continuasse. Rebolando em conjunto com a mala pelas ravinas que tanto lhe custaram subir, atinge o bom Dupond com grandes dificuldades o lugar donde tinha partido, o comando da brigada do Maneta já na encosta da Moura, abaixo do posto de comando.

Sentado ao lado dos haveres do general comenta o sucedido e chora em simultâneo a sua incapacidade nos ombros de Geraldine, a vivandeira do regimento 26 de ligeiros que, embora não conhecendo o general Simon pessoalmente, se comove com a história do criado sobre o infortúnio do patrão. É cheia de arrojo e voluntariedade, coisas que dão  atrevimento e força aos 17 anos que espelha com sorrisos e beleza e talvez a grande afeição que nutre pelos homens em marcha, que se propõe ela própria levar os bens ao desafortunado oficial e dar-lhe nas prováveis masmorras o seu apoio servil.

Devemos esclarecer que a vivandeira era quem, entre as mulheres que acompanhavam os exércitos da época, fornecia aos seus efectivos diversos bens fora do âmbito estritamente militar, negociava de forma ambulante e supostamente livre alguns haveres de consumo comum prestando serviços vários ás tropas em movimento.

Geraldine pede ao fiel Dupont a mala do general, puxa-a pela asa polida de tantos gastos e usanças em sucessivas campanhas, arrasta-a, e perante o compulsivo choro do camarada ali garante num abraço a entrega dos bens e a ajuda no que necessário seja. Que fique sossegado, segreda-lhe, fará o seu papel como se fosse o próprio mordomo em pessoa a acompanhar o amo.

Tira depois da sua leve e exígua bagagem um amuleto prateado com que adorna o pescoço, um enorme lenço encarnado dos poucos adereços pessoais de sua posse e propriedade e montando no velho jumento da cantina que serve, o 26 de ligeiros, põe-se a caminho outeiro abaixo, decididamente apostada em passar as linhas entre os dois exércitos e cumprir a promessa tão afectivamente jurada.

É ante os gritos de apoio e aplauso dos camaradas presentes que deixa a brigada puxando o jerico pela arreata para depressa atingir o fundo do abismo que separa as vertentes. Sobe-lhe então para o costado com a ajuda de soldados que descem em sentido inverso e continua já do outro lado da vertente a procurar o melhor caminho na direcção das linhas entre os dois exércitos. Escarranchada sobre o animal, agita freneticamente o lenço enquanto segura a mala , que vai   roçando  dum lado para o outro na pança do asno, pendurada  por um improvisado arreio de couro velho. O caminho, se assim se lhe pode chamar, rasga-se na vertente nordeste onde ainda se encontram restos da brigada Marchand em retirada bem como posições avançadas postadas no terreno.

Quem desce do inferno da luta arregala os olhos ante a soberba rapariga que acena o lenço bem alto acima da cabeça do animal e pergunta se vai pelo caminho certo. Sabe-se lá se há caminho, respondem alguns, mas outros, afoitos e agradados, sugerem à moça que não existe passagem, que se deixe de missões e volte atrás que eles próprios lhe farão muito melhor companhia. Inabalável, Geraldine enxota  o burro com uma pancada nas nádegas e fá-lo trepar  mais um agressivo talude que o empina como varola de feijões e quase a atira para fora da albarda , donde já  deslisa palha pela constância de  buracos não cerzidos nas curvaturas do assento. Um pouco acima, entre leiras de carqueija e pedra que rola da serra e ali se deposita, define algo que lhe parecem fardos fumegantes e mais acima os contornos prováveis do moinho que procura. É nessa direcção que segue, mas a rudeza do chão, as moitas e carqueijas mais os taludes de cada patamar não permitem uma linha perfeita. Confirma depois, como Dupond, as fumegantes ruínas do lugar. Não lhe parecem casas, apenas restos de palha ardendo lentamente, mas percebe que este fumo é que precede as alturas, o limite das linhas e de vez em quando divisa o perfil do pequeno moinho esbatido contra o céu.

Caem-lhe dos ombros duas faixas de cabelos negros e da face, queimada por horas e horas de sol ardente das planícies castelhanas á raia do Sabugal, algumas gotas de suor, mas corajosamente assume o medo esquecendo-o e avança impulsionada por uma força interior indestrutível. Não sabe explicar o porquê da aventura nem a razão do gesto, apenas lhe faz mover o jeito a espontaneidade e a pureza das ideias. Levanta a cabeça segurando os freios para saltar dois troncos de carvalho que fazem a ponte sobre um regato seco e ajeita as ancas na acomodação aos lombos magros e duros do asno. A mala quase cai, mas consegue meter-lhe mãos e segura-la.

Curiosamente o silêncio instalou-se em redor. Não ouve um tiro, não se escuta um disparo. Sobem-lhe temores á face ao contestar o facto e redobra simultaneamente o acenar do lenço encarnado, não vá uma perdida bala desmoronar-lhe a obra ou pegarem-na á mão em qualquer barranco do caminho.

Como por encanto o silêncio sustenta-se. Não imagina o que está a acontecer, talvez tenha acabado a guerra definitivamente. Os tiros dum lado e doutro, cessaram numa hipnotização colectiva. Sem explicação, que não seja a altivez do corpo feminino, frágil e forte ao aproximar-se dos cumes e que agora se mostra cada vez mais aos beligerantes postados por todo o lado. Caiem-lhe pelos ombros madeixas de cabelos pretos e sobra-lhe sensualidade nos seios atrevidos e erectos. O rosto incógnito que começa a mostrar os traços da juventude alia-se à serenidade com que avança levando o mundo em redor a um êxtase espontâneo e incompreensível que vai permitindo a caminhada. A ousadia, a simplicidade, a coragem, dão lugar a uma empírica e instantânea trégua.

Das ruas da velha Paris á montaria inesperada do jumento do regimento, vai talvez uma infância precoce por contar. Um ciúme por dizer. Um amor por fazer. Mãos maternas por dar e vida, por viver. Talvez o próprio rosto da revolução, liberdade, igualdade, fraternidade se espelhe de algum modo, simples e ingénuo no olhar e gestos da vivandeira do 26 de ligeiros, quando aquele sorriso fraterno atinge finalmente o cume e ultrapassa  as fictícias linhas separadoras entre ambos os combatentes.

Diz-se que dum lado e doutro irrompe uma chuva de aplausos saudando o acontecimento, diz-se que ecoa por minutos sobre o dorso da serra do Bussaco  um cântico de musas que faz calar a boca das carabinas, e Geraldine passa o cume, o Moinho e é acolhida  de forma cordial e amigável entre as  tropas anglo-lusas.

Não é grande a ferida do militar. Uma bala á queima-roupa trespassou-lhe os queixos e feriu-o de raspão, mas feito prisioneiro com as deferências devidas ao seu posto de general, foi depois conduzido ao hospital de sangue da Capela das Almas onde foi assistido por um cirurgião. Na transferência para o Convento, onde lhe foi cedida uma das celas por um oficial britânico, surgiu Geraldine encavalitada no burro e acompanhada por uma pequena escolta encarregada de a fazer chegar a Simon.

Isto conta por outras palavras o general Marbot , ajudante de campo de Massena, nas suas memórias ainda frescas sobre os factos, mas pode-se acrescentar que foi frei Gerónimo do Sacramento e o irmão Silvestre, acabados de chegar das suas deambulações pela serra  que  trataram da recepção ao  insólito  par, ou  mais pormenorizadamente ao general, Geraldine, burro e mala, encarregando-se eles próprios, com a ajuda de Francisco, da sua instalação na ala  este do mosteiro, na humilde cela que fora pertença do irmão João do Espírito  Santo e depois do tenente Barnes que lha havia usurpado na sua chegada à Mata em 20 de Setembro. Isto no seguimento das ordens de Wellington sobre o aboletamento do prisioneiro depois de ter conhecimento da sua detenção.

Durou pouco esta estadia de Simon, agora assistido por Geraldine, ou pela mulher como relata Frei Silvestre na ingénua interpretação, na cela do Convento, pois no dia seguinte foram transferidos para Coimbra precedendo a retirada geral. Acompanharam depois o exército ango-luso até Redinha e Pombal e pouco antes de Leiria, por troca de mensagens entre os respectivos comandos foi feita a reposição da lei e da ordem ou seja, Dupond foi autorizado a juntar-se ao amo, o general, enquanto Geraldine , montando no burro do 26 de ligeiros , atravessou em paz e em sentido contrário á marcha todo o exército anglo luso e regressou sã e salva  ao seu posto de vivandeira do 26 de ligeiros do  2º corpo de Ney.

( FS-200 Anos da Batalha do Bussaco)

 

  

publicado por Peter às 23:04
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