Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2017

ALICE

  ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

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Caro Presidente, estamos a chegar ao fim de um mandato a zeros. Zero de dívidas, zero de obras, zero de ideias, zero de crescimento. A meu ver, melhor seria dever o que se pode pagar com respeito pelas regras estabelecidas e ter feito alguma coisa. A gestão moderna não se faz sem o recurso ao crédito e a não utilização dessa ferramenta fundamental é mais passível de críticas que de elogios. Teria sido melhor para o território, melhor para o município, melhor para o emprego, melhor para o bem-estar, melhor para as pessoas aproveitar a realidade sem a patetice da dívida! Mas isso não aconteceu, o que de facto aconteceu foi o estagnar do concelho em edis a tempo inteiro, não sabemos quantos assessores e mais uns avençados que a pouca transparência política não deixa perceber. Uma hierarquia tão grande vista pela vez primeira no executivo da Mealhada para fazer zero, é muito mau, e assim se desperdiça o mandato em coisa nenhuma.

Este não é o caminho certo, caro Presidente. Pode ser a via da clientela que a partidarite quer ou a oportuna via que os votos anunciam, mas não é o caminho correcto para num concelho pequeno, carente e acrítico que precisa, ou precisava, dum executivo inteligente e activo e duma estratégia viva e ousada para visionar e empurrar um futuro. Tive a ousadia de pensar isso acreditando que a experiência adquirida lhe tivesse trazido confiança e iniciativa, hoje não ficaria bem comigo próprio nem perante os leitores se não corrigisse nestes maus resultados as previsões iniciais totalmente furadas.

O zero verificado é o fruto maduro duma acomodação politica não prevista nos dados da balança, um erro meu, não via então este concelho na paz podre em que vive quatro anos volvidos. Parado, inerte, incapaz, ancorado em fanfarronices balofas, com uma frota politica á espera do emprego numa terceira ou quarta volta mesmo sem o crédito duma carta de alforria. Digerindo azedas maravilhas de jantares politiqueiros, propagandas gratuitas, festinhas, futebóis e crismas de paróquia e zero de trabalho. Trabalho árduo não houve, medidas inteligentes também não, mal andariam os empresários se estivessem á espera do demagógico acto da política para fazer os negócios da venda do vinho e do leitão, já que a história da água é outra coisa e o pão, viste-o! Mas é tudo uma farsa da política assente na ruina dum passado comum que não diz nada, que não merece respeito nem continuação para ocupantes da conjuntural cadeira do poder.

As velhas estratégias que aguardam há duas décadas execução, um golfe, o nó rodoferroviário, os parques industriais de Barcouço e de Barrô, além desse pomposo Luso 2007, foram substituídos pela compra de lixo imobiliário onde a autarquia se especializa na criação de ratos e, na área de maior potencialidade do concelho, o Turismo, voltamos cem anos atrás com o arremedo de termas que hoje existe, mil e tal quartos a menos e outros disparates em que o município se envolveu na defesa do poder económico do capital que ironicamente nem temos, esquecendo os verdadeiros interesses das populações, dos empresários e investidores, bem como a herança de duas centenas de anos que recebemos de mão beijada. A gestão da última década, caro presidente, foi o desastre que está á vista. Nada acrescentou ao todo municipal, manteve apagado o fogo em todas as freguesias e continuou a tarefa de destruir irresponsavelmente a hotelaria e o turismo que tinham notório peso dentro dos nossos limites e mantinham postos de trabalho na freguesia termal, na qual está hoje claramente evidente o especial zelo político na sua liquidação e a total incapacidade para a defender. O contrário do que fazem todos os municípios por Portugal além! Porquê, pergunta-se? Querem transferir a freguesia  para onde?

Uma catástrofe abalizada por autarcas incapacitados ou intencionais? Os resultados á vista  são absolutamente contrários  aos interesses do território que ocupamos !

Talvez por não ser natural do concelho lhe falte o saber acumulado ao longo dos anos em muitas das pessoas que daqui são, que aqui moram ou daqui se espalharam mundo fora com a universidade da vida no bolso curricular, o trabalho, o saber e a necessidade de sobreviver nos alforges de famílias inteiras. Podíamos fazer um rol de gente daqui e de concelhos vizinhos, mas de nada valeria, nunca os conheceu, não os conhece, não são propriamente a sua história e muito menos a sua alma. Porém sem erros aritméticos eu refiro-lhe de forma concreta que neste município existiram mais de mil e quinhentas camas de hotelaria, freguesia do Luso incluída, e hoje, incluído o seu tempo de autarca no activo, destruíram-se, e não existirão mais que duzentos ou trezentos contando com as camas casuais ou camas de horas. Esta realidade, que naturalmente não lhe pesa, espelha a diferença que existe entre quem viveu a história, participou da história e aprendeu na história e quem pouco sabe sobre o que se passa á sua volta, particularmente nesse mundo relativamente recente e rico, a que damos o nome de turismo.

Nesta matéria, o que a política da Câmara tem andado a fazer são asneiras, tão ocas e tão vazias como os almoços leitoeiros das maravilhas onde pretensiosamente pretende meter o Buçaco como se o Buçaco fosse mais uma maravilha da mesa e dos banquetes. Além de não se comer nem beber, noutros tempos apenas os burros o faziam, o Buçaco é conhecido em todo o mundo há muito tempo e não é a Mealhada das maravilhas que o vai colocar no mapa mas exactamente o contrário caro Presidente. O Buçaco e as Termas sempre deram notoriedade ao município e são ainda hoje a sua potencial riqueza maior e o seu único destino conhecido além desse repasto a que se chama leitão. O meu caro amigo não entendeu ainda estas coisas comezinhas! Se o entendesse não fazia da Mata Nacional a barraca de farturas que anda a fomentar, zelava pela recuperação das termas, da fisioterapia, não gastava o dinheiro dos munícipes naquilo que não lhes pertence. Que o dinheiro não é seu , é de todos nós , deve-o  gastar bem, essa é a sua função, para isso foi eleito, para isso o escolhemos, não para se empinar numa política de saltos altos. Antes de cá chegar, muita gente do concelho fez este património comum que agora o caro presidente ajuda a destruir, ou não o defende, como era sua obrigação enquanto edil.

Depois o Buçaco é um templo, um templo botânico. Num templo há silêncio, adoração, paz e tranquilidade. É para admirar, usufruir, para amar e reflectir, é um lugar sagrado que merece o respeito. Como uma igreja é um local de culto, o Buçaco também o é, de culto e oração e de libertação !  Para arraiais chegou sempre a Ascensão, de resto, dispensa pisoteio, vendilhões de praça pública e promotores de negócios para lhes venderem corpo e alma transformando-o numa feira de vaidades. Deixemos as bacoquices, o empirismo, a senilidade política Se queremos estar dentro da cidade temos de falar e agir com a cidadania da urbe, com a clareza da palavra e da verdade, doutro modo nunca passaremos da aldeia que desejamos.

Depois, não vivemos no país de Alice, ninguém tira coelhos de cartola nem temos poços de petróleo, não somos árabes, sabe perfeitamente que nunca haverá dinheiro suficiente na autarquia para recuperar e manter a Cerca Buçaquina ou fazer a candidatura a património Unesco. Esta será apenas a sua presunção e dum partido que só existe na Mealhada de quatro em quatro anos, quando for necessário meter os votos na urna para escolher um amo já escolhido. Este ano parece que nem é preciso, a ditadura manda! Caminhos duma democracia afunilada nos pântanos deste país de sol! Mesmo assim, hão-de chegar ao Luso, transportar os amigos á sede do concelho frente á boca da urna. Como a política não tem vergonha, esquecem nessa altura que em quatro anos fizeram nas termas uma retrete pública, se entretanto acabarem a obra! Assim não vamos lá,  meu caro presidente!

Luso,Janeiro,2017

 

publicado por Peter às 21:07
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Quinta-feira, 27 de Outubro de 2016

O BUÇACO

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Por uma acidental notícia de jornal viemos a saber um dia destes que a autarquia Câmara já gastou duzentos mil euros no Buçaco, ultrapassando até ao momento em 150 mil euros os 50 mil orçamentados no início do ano. Este é o fruto do seu envolvimento na gestão da Mata Nacional , um património que não nos pertence enquanto município, mas ao Estado, mas que a cegueira política dos eleitos levou erradamente a assumir e que nos vai custar, a nós munícipes deste território, uma boa fatia do orçamento, sem qualquer resultado a prazo. Porque de facto as contas são boas e simples de fazer e tão elementares que não se encontra uma justificação racional para este erro, a não ser na história do sapateiro que quer ir além da chinela que lhe cabe no pé. Será o caso.

De facto, bem poderia a Câmara encerrar portas por duas dúzias de anos, que os 17 milhões de euros anuais em orçamentos acumulados, não seriam suficientes para recuperar e manter o património em questão, realidade que por si só invalida o leviano envolvimento do erário municipal na solução do problema. Porque se meteu nisto a autarquia? Porque assinou com o governo de Passos esta monstruosidade financeira, substituindo-se ao dono Estado e recusando mesmo todo o seu apoio e participação? Vaidade, presunção, ambição de ultrapassar os poderes que lhes são conferidos, ou um caso de patologia política para o que não existe vacina nem medicação? Não se entende.

Para já, e raciocinando o mais simples possível, os 200 mil euros atribuídos e deitados fora são provenientes do bolo que deve ser gasto no município em favor dos munícipes , mas vão servir para satisfazer as remunerações do gestor e do assessor de imprensa da fundação, este último, soubemos recentemente, foi encaixado no sistema para refrescar com esperança notícias pré fabricadas. Porque outra das realidades evidentes é que, apesar das actividades e da venda de madeiras, as clareiras não o desmentem e não se sabe com que qualidade de controle isto é feito, as receitas são insuficientes para sustentar e recuperar o enorme património existente e que está, como qualquer cidadão pode verificar, em condições precárias. Quem conheceu o templo que era a Mata Nacional alguns anos atrás e verifica a destruição que por lá grassa hoje, pode testemunhar a ruina a que se deixou chegar um bem deste país, um estado de degradação que, francamente, a minha geração nunca presenciou!

É fácil de concluir que dos duzentos mil euros oferecidos obrigatoriamente por nós, munícipes, pouco ou nada restará desta transferência para investir na recuperação do património florestal ou construído, se é que restará alguma coisa mesmo!

Necessitava a Câmara deste concelho arcar não só com a responsabilidade financeira como com a responsabilidade moral da destruição inicial e da destruição continua que se segue, para que os seus eleitos viessem a colher medalhas e galões com a satisfação das suas mais primárias loucuras? A meu ver, claro que não. A pretensão fica-nos cara, quem paga com dinheiro alheio não tem margens.

Na semana passada fui pela segunda vez á serra de Sintra para fazer comparações e a questão é que não há comparação nenhuma. Ali , sem termas ,sem leitão e sem vinho, sem essas tão famosas maravilhas,  o património está reabilitado, classificado, o turismo numa espiral de crescimento em prol da economia local que se vê a olho nú em franco progresso. Ali até se adivinha o caminho, está ensaiada a solução, há profissionalismo e empenho no processo, aqui, bem ao contrário, brinca-se. Brinca-se com o património, com os bens, com o desenvolvimento, com o futuro e sobretudo com as pessoas que aqui vivem.

Ali o património é da UNESCO, uma coisa que eu próprio já reclamava em 2004 para a Mata Nacional do Buçaco, escrevendo-o na imprensa, aqui o anúncio da triunfante entrada do património na lista de espera onde o Buçaco já está desde esse mesmo ano de 2004. Um milagre do conteúdo funcional dum assessor de imprensa que lá tem as suas razões para transformar a reinscrição numa nova inscrição. Presta talvez o serviço que lhe pedem !

O que aconteceu é que desde 2004 a Câmara não se interessou, não pretendeu, não quis iniciar sequer o processo duma candidatura a património da Unesco. Sem ambição, sem  visão e sem estratégias, preferiu a comodidade da cadeira do poder e adormeceu tranquila nas suas redes intimas de telefone e telemóvel. O que podemos esperar hoje, destruído que está aquele património que não sendo concelhio está dentro do município?

Nada, não se pode esperar nada duma rotina partidária que sucessivos anos instalaram no poder e o encheu de vícios, cegou e esvaziou-se de ideias. O poder também se cansa, o poder está cansado. Cansado de mandar em tudo como se tudo fosse seu, incluindo as pessoas e os bens. O poder e o regime dormem o sono dos beatos!

Tão cego e tão convencido que nem sequer repara em coisas pequeninas como por exemplo o facto de eu e os meus vizinhos, talvez meia centena de famílias em quinhentos habitantes comungarem diariamente do tapete de alcatrão da estrada com automóveis, motociclos, camiões para se deslocarem nas ruas das suas casas. Comungamos a velocidade das viaturas com o perigo e a fraqueza das nossas pernas e pés. A monstruosidade dos autocarros ou camiões com as paredes e muros onde aderimos como lapas para não sermos trucidados. Eleitos que têm dinheiro para fazer festas e churrascos e distribuir por futebóis e feirantes enquanto andam em simultâneo a pedir esmolas para os pobres !  Dinheiro para contratar legítimos assessores que cuidam da sua bela imagem e apaparicam as notícias como a continuação do Buçaco na tal lista da Unesco nas esperanças dos subsídios que nos dá a CEE. Como se fossem verdades, fossem coisas consumadas quando não passam de tretas ainda por definir. Foi assim que em três eleições já foram feitos outros tantos hotéis nas mini termas do Luso. Investidores de vésperas de eleições de hotéis que nunca chegamos a ver. Políticos que retiram durante dezenas de anos aos Toscanos deste país o usufruto de terrenos que lhes fazem falta para desenvolver a economia a troco de projectos que nunca põem de pé !  Políticos que dão a uma fundação sem condições nem futuro 200 mil euros anuais e não têm uns trocados para investir nas pequenas coisas dos munícipes.

Não sei se isto se chama traficância da política das ideias ou ideias políticas da traficância. Talvez sejam uma coisa e a outra ao mesmo tempo. Talvez não sejam coisa nenhuma. È o municipio da Mealhada, perante o silêncio ruidoso dos autarcas  eleitos e da oposição que não existe. 

Mas algo vai muito mal no reino da Dinamarca!!!!! Como sugeri um dia, o rei vai nu! 

 

publicado por Peter às 19:48
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Sexta-feira, 6 de Agosto de 2010

BATALHA BUSSACO-3ª INV.GERALDINE-8

 

                                                                                                    

 

 

GERALDINE

 

Dupont  é  o fiel criado de quarto do general Simon , seu mordomo e acompanhante desde as grandes batalhas de Wagram e Frideland  e por isso bastante   afeiçoado ao intrépido  militar. Quando sabe poucas horas depois dos combates que seu amo é feito prisioneiro no Moinho de Sula frente ás forças de Crawford, resolve levar a sua dedicação mais longe decidindo acompanhar o desditoso amo no infortúnio das grilhetas. 

Junta os acessórios quotidianos do general numa maleta e munido da estima e da vontade de servir, mete-se sem hesitações a caminho das linhas inimigas para se juntar ao amo e assim cumprir a missão para que estava contratado. É por entre os destroçados homens de Loison, o Maneta e de Marchand que se mete, cruzando com os sobreviventes, ultrapassando mortos e feridos espalhados pela encosta, encetando uma luta contra o terreno e contra a mala, que era um obstáculo precioso mas incomodo em tão insólita marcha. É assim entre os vencidos que descem a montanha que o intrépido Dupond faz o caminho contrário  trepando por barrocas e penedos acenando  constantemente com um lenço branco que segura na mão esquerda em sinal de neutralidade e paz. Avança sob um ou outro tiro dos ingleses que não percebem muito bem o que está a acontecer com o homenzinho desarmado que sobe a serra na sua direcção.

Quando a barreira a transpor é mais dura de roer, enfia o lenço no bolso da jaqueta que lhe desce até aos joelhos e puxa a mala com as duas mãos para facilitar a marcha, mas logo torna a empunhar o lenço branco num frenesim de agitação enquanto aparece aqui e desaparece acolá nas dobras e nas falhas  do acidentado passo.

Não estão longe as primeiras ruínas incandescentes do que foi a pequena aldeia de Sula , já as vai  divisando  acima da cabeça, bem como ao intenso fumo que delas sobe, porém, como que a contrariar as intenções do devoto servidor o tiroteio que desaba sobre ele redobra dum momento para o outro. É agora mais frequente e assustador. Nem a frente aliada se inibe de atirar sobre tudo o que mexe, incluindo o que seja branco e movediço como o grande lenço que agita freneticamente, nem os desesperados gauleses que temerosos descem, deixam de se virar para trás pelo estalar dum tiro perdido, alvejando instintivamente  o desorientado mordomo a contas com uma tarefa que se vai agigantando à sua frente. Uma ou outra bala silva perto de si e depressa o fogo que sobre ele desaba atinge uma intensidade tal que tem de se refugiar e não consegue prosseguir. Agacha-se no recobro duma trincheira abandonada, deixando passar a fúria dos apontadores para continuar apalpando o terreno, mas por fim, exausto e convencido perante a fuzilaria que lhe cai em cima que não consegue cumprir a humanitária missão, senta-se numa racha protectora da rocha e aguarda uma pequena trégua para voltar atrás. É o que faz aproveitando a primeira oportunidade que surge, escapando assim milagrosamente ao tiroteio cerrado que o levaria ao suicídio, caso continuasse. Rebolando em conjunto com a mala pelas ravinas que tanto lhe custaram subir, atinge o bom Dupond com grandes dificuldades o lugar donde tinha partido, o comando da brigada do Maneta já na encosta da Moura, abaixo do posto de comando.

Sentado ao lado dos haveres do general comenta o sucedido e chora em simultâneo a sua incapacidade nos ombros de Geraldine, a vivandeira do regimento 26 de ligeiros que, embora não conhecendo o general Simon pessoalmente, se comove com a história do criado sobre o infortúnio do patrão. É cheia de arrojo e voluntariedade, coisas que dão  atrevimento e força aos 17 anos que espelha com sorrisos e beleza e talvez a grande afeição que nutre pelos homens em marcha, que se propõe ela própria levar os bens ao desafortunado oficial e dar-lhe nas prováveis masmorras o seu apoio servil.

Devemos esclarecer que a vivandeira era quem, entre as mulheres que acompanhavam os exércitos da época, fornecia aos seus efectivos diversos bens fora do âmbito estritamente militar, negociava de forma ambulante e supostamente livre alguns haveres de consumo comum prestando serviços vários ás tropas em movimento.

Geraldine pede ao fiel Dupont a mala do general, puxa-a pela asa polida de tantos gastos e usanças em sucessivas campanhas, arrasta-a, e perante o compulsivo choro do camarada ali garante num abraço a entrega dos bens e a ajuda no que necessário seja. Que fique sossegado, segreda-lhe, fará o seu papel como se fosse o próprio mordomo em pessoa a acompanhar o amo.

Tira depois da sua leve e exígua bagagem um amuleto prateado com que adorna o pescoço, um enorme lenço encarnado dos poucos adereços pessoais de sua posse e propriedade e montando no velho jumento da cantina que serve, o 26 de ligeiros, põe-se a caminho outeiro abaixo, decididamente apostada em passar as linhas entre os dois exércitos e cumprir a promessa tão afectivamente jurada.

É ante os gritos de apoio e aplauso dos camaradas presentes que deixa a brigada puxando o jerico pela arreata para depressa atingir o fundo do abismo que separa as vertentes. Sobe-lhe então para o costado com a ajuda de soldados que descem em sentido inverso e continua já do outro lado da vertente a procurar o melhor caminho na direcção das linhas entre os dois exércitos. Escarranchada sobre o animal, agita freneticamente o lenço enquanto segura a mala , que vai   roçando  dum lado para o outro na pança do asno, pendurada  por um improvisado arreio de couro velho. O caminho, se assim se lhe pode chamar, rasga-se na vertente nordeste onde ainda se encontram restos da brigada Marchand em retirada bem como posições avançadas postadas no terreno.

Quem desce do inferno da luta arregala os olhos ante a soberba rapariga que acena o lenço bem alto acima da cabeça do animal e pergunta se vai pelo caminho certo. Sabe-se lá se há caminho, respondem alguns, mas outros, afoitos e agradados, sugerem à moça que não existe passagem, que se deixe de missões e volte atrás que eles próprios lhe farão muito melhor companhia. Inabalável, Geraldine enxota  o burro com uma pancada nas nádegas e fá-lo trepar  mais um agressivo talude que o empina como varola de feijões e quase a atira para fora da albarda , donde já  deslisa palha pela constância de  buracos não cerzidos nas curvaturas do assento. Um pouco acima, entre leiras de carqueija e pedra que rola da serra e ali se deposita, define algo que lhe parecem fardos fumegantes e mais acima os contornos prováveis do moinho que procura. É nessa direcção que segue, mas a rudeza do chão, as moitas e carqueijas mais os taludes de cada patamar não permitem uma linha perfeita. Confirma depois, como Dupond, as fumegantes ruínas do lugar. Não lhe parecem casas, apenas restos de palha ardendo lentamente, mas percebe que este fumo é que precede as alturas, o limite das linhas e de vez em quando divisa o perfil do pequeno moinho esbatido contra o céu.

Caem-lhe dos ombros duas faixas de cabelos negros e da face, queimada por horas e horas de sol ardente das planícies castelhanas á raia do Sabugal, algumas gotas de suor, mas corajosamente assume o medo esquecendo-o e avança impulsionada por uma força interior indestrutível. Não sabe explicar o porquê da aventura nem a razão do gesto, apenas lhe faz mover o jeito a espontaneidade e a pureza das ideias. Levanta a cabeça segurando os freios para saltar dois troncos de carvalho que fazem a ponte sobre um regato seco e ajeita as ancas na acomodação aos lombos magros e duros do asno. A mala quase cai, mas consegue meter-lhe mãos e segura-la.

Curiosamente o silêncio instalou-se em redor. Não ouve um tiro, não se escuta um disparo. Sobem-lhe temores á face ao contestar o facto e redobra simultaneamente o acenar do lenço encarnado, não vá uma perdida bala desmoronar-lhe a obra ou pegarem-na á mão em qualquer barranco do caminho.

Como por encanto o silêncio sustenta-se. Não imagina o que está a acontecer, talvez tenha acabado a guerra definitivamente. Os tiros dum lado e doutro, cessaram numa hipnotização colectiva. Sem explicação, que não seja a altivez do corpo feminino, frágil e forte ao aproximar-se dos cumes e que agora se mostra cada vez mais aos beligerantes postados por todo o lado. Caiem-lhe pelos ombros madeixas de cabelos pretos e sobra-lhe sensualidade nos seios atrevidos e erectos. O rosto incógnito que começa a mostrar os traços da juventude alia-se à serenidade com que avança levando o mundo em redor a um êxtase espontâneo e incompreensível que vai permitindo a caminhada. A ousadia, a simplicidade, a coragem, dão lugar a uma empírica e instantânea trégua.

Das ruas da velha Paris á montaria inesperada do jumento do regimento, vai talvez uma infância precoce por contar. Um ciúme por dizer. Um amor por fazer. Mãos maternas por dar e vida, por viver. Talvez o próprio rosto da revolução, liberdade, igualdade, fraternidade se espelhe de algum modo, simples e ingénuo no olhar e gestos da vivandeira do 26 de ligeiros, quando aquele sorriso fraterno atinge finalmente o cume e ultrapassa  as fictícias linhas separadoras entre ambos os combatentes.

Diz-se que dum lado e doutro irrompe uma chuva de aplausos saudando o acontecimento, diz-se que ecoa por minutos sobre o dorso da serra do Bussaco  um cântico de musas que faz calar a boca das carabinas, e Geraldine passa o cume, o Moinho e é acolhida  de forma cordial e amigável entre as  tropas anglo-lusas.

Não é grande a ferida do militar. Uma bala á queima-roupa trespassou-lhe os queixos e feriu-o de raspão, mas feito prisioneiro com as deferências devidas ao seu posto de general, foi depois conduzido ao hospital de sangue da Capela das Almas onde foi assistido por um cirurgião. Na transferência para o Convento, onde lhe foi cedida uma das celas por um oficial britânico, surgiu Geraldine encavalitada no burro e acompanhada por uma pequena escolta encarregada de a fazer chegar a Simon.

Isto conta por outras palavras o general Marbot , ajudante de campo de Massena, nas suas memórias ainda frescas sobre os factos, mas pode-se acrescentar que foi frei Gerónimo do Sacramento e o irmão Silvestre, acabados de chegar das suas deambulações pela serra  que  trataram da recepção ao  insólito  par, ou  mais pormenorizadamente ao general, Geraldine, burro e mala, encarregando-se eles próprios, com a ajuda de Francisco, da sua instalação na ala  este do mosteiro, na humilde cela que fora pertença do irmão João do Espírito  Santo e depois do tenente Barnes que lha havia usurpado na sua chegada à Mata em 20 de Setembro. Isto no seguimento das ordens de Wellington sobre o aboletamento do prisioneiro depois de ter conhecimento da sua detenção.

Durou pouco esta estadia de Simon, agora assistido por Geraldine, ou pela mulher como relata Frei Silvestre na ingénua interpretação, na cela do Convento, pois no dia seguinte foram transferidos para Coimbra precedendo a retirada geral. Acompanharam depois o exército ango-luso até Redinha e Pombal e pouco antes de Leiria, por troca de mensagens entre os respectivos comandos foi feita a reposição da lei e da ordem ou seja, Dupond foi autorizado a juntar-se ao amo, o general, enquanto Geraldine , montando no burro do 26 de ligeiros , atravessou em paz e em sentido contrário á marcha todo o exército anglo luso e regressou sã e salva  ao seu posto de vivandeira do 26 de ligeiros do  2º corpo de Ney.

( FS-200 Anos da Batalha do Bussaco)

 

  

publicado por Peter às 23:04
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