Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2011

CINE TEATRO AVENIDA

 

 

Foi nas vésperas do Natal que arranjei um espaço da tarde para ir ao cinema ao centro comercial, pouco há de fitas noutros locais deste país arregimentado sobre o monopólio político da união europeia e o monopólio cinematográfico de Hollywood. Noutros tempos ainda restava alguma liberdade de escolha e alguma identidade própria a esta boa gente da Lusitânia, para o fazer, hoje está tudo hipotecado, quer em ideias quer em obras, quer em dinheiro, a um mundo que é estranho ao nosso cerne mais intimo, coisa que também não se percebe muito bem o que seja.
Eram seis da tarde, comprei o bilhete junto com umas pipocas importadas na febre do consumismo desesperado onde vegeta o mundo e entrei numa das muitas salas, aquela onde se ia projectar a fita. Um paralelepípedo, mais ângulo menos ângulo, com um anfiteatro e umas escadas por onde subir. A meio do percurso estava sentada uma irmã religiosa com um hábito que me pareceu azul, ao lado duma senhora civil, digamos assim para abreviar a questão, únicas clientes preparadas para presenciar a sessão.
É normal, já tenho estado sozinho e sinto-me mal, ás vezes desisto mesmo por falta daquele ambiente acolhedor que tinham as velhas salas do Teatro Avenida, do Tivoli, do Sousa Bastos, no caso de Coimbra, mas retenho perfeitamente o S. Jorge, o Tivoli, o Monumental , o Politeama, o Restelo , entre outros, na Lisboa da década de sessenta e quando a ida ao cinema se fazia com encanto e uma certa cerimónia. Então na reciprocidade duma agradável companhia, era das coisas máximas que podiam acontecer.
Quando subi os degraus a irmã sorriu-me e cumprimentou-me, eu respondi ao seu aceno e sentei-me três ou quatro filas atrás. No silêncio que antecedia a obra atirei-me ao pacote das pipocas e substitui-o, a ele silêncio, pelo mastigar de roedor, mas entretanto entrou outra senhora, não irmã, não vestia hábito ou costume, e foi sentar-se umas filas atrás de mim. Éramos quatro á espera do início da sessão distribuídos em três grupos, admitindo, ainda que erradamente, cada espaça fazer um grupo. Estava portanto no grupo do meio, o das pipocas. Ou dos roedores.
Ora aconteceu que a sessão começou e esteve seguramente um quarto de hora sem haver imagens. Bem pregavam os anunciadores dos produtos que nos entravam no ouvido, mas imagens nada. Arrumei as pipocas no banco do lado, comentei com a irmã que algo estava errado e fui á bilheteira pedir que colocassem os bonecos, ao menos no filme, já que agora estamos sujeitos a meia hora de anúncios com a curiosidade de pagarmos para os ver ainda que não queiramos, como acontece comigo.
Cinco minutos depois, alguém situado no vazio do outro lado dos buracos da projecção, colocou a geringonça digital a funcionar e começou o filme. Tratava-se, como dizia o critico que me levou lá, dum belo filme francês, Dos Homens e dos Deuses, uma história equilibrada entre guerra e paz, vencedor do festival de Cannes, afinal uma excepção á regra  do monopolismo estado unidense da exibição em Portugal. No título e no guião, uma comunidade monacal do alto Atlas, a justificar a presença da religiosa que me cumprimentou tão simpaticamente. 
Voltei satisfeito por ter ido ver o que devia ser visto, ver o que me agradou, mas logo que cheguei á minha pacata vila, cada vez mais pobre , patética e pacata e dei de caras com o cinema que existiu noutros tempos e hoje é uma ruína, fiquei saudoso e  deveras desagradado com a entidade que o comprou, a câmara municipal, que o fez em nossa representação, isto é, com o nosso dinheiro e não deu um passo ainda pela sua reconstrução. Não deu nem vai dar, porque segundo me apercebo não consta do plano de actividades do ano que vai entrar uma verba senão para ter aberta a rubrica, um euro, um faz de conta que já conheço de ginjeira, já estamos habituados a ele, apesar da nossa terra proporcionar ao município uma receita anual de noventa a cem mil contos de mão beijada, uma importância de águas que câmaras anteriores conseguiram obter mas que a minha terra viu, e vê, por um óculo. Estranhamente, não se escuta um grito de protesto pela voz dos eleitos locais. É fácil perceber porquê.
Um edil da terra, ao contrário do que eu pensava, não adianta nada e assim, para dizer ámen e embatucar na importância não faz falta nenhuma. Sempre pensei e até manifestei em publico o pensamento de que era necessário, como continuo a pensar, que sempre seria melhor que nada, ter na autarquia um bom representante. A coisa não é bem assim, um yes man não faz falta em lado nenhum e nesta matéria o Luso é um muro de Jerusalém sem lamentações!
Passei com estes raciocínios pelo velho Teatro Avenida da minha infância tal qual como passo ás vezes pelo verão que enchia de fitas as semanas e os sábados de bailes. O cinema do Luso não tem história porque ninguém a escreveu, ninguém teve a curiosidade de guardar uns papeis velhos nas gavetas do tempo para lha construir, mas tem-na igual ou maior que muitas outras casas de província e como muitas estâncias termais, no tempo em que as termas se faziam e funcionavam com a dimensão das pequenas cidades em que se transformavam os lugares. Bem diferente dos tempos actuais que correm propícios á destruição e ao roubo e se baseiam na irresponsabilidade absoluta.
Por ali passou o grande Alves da Cunha, o grande António Silva, a grande Maria Matos.
A Maria Matos que esteve para levar para o Parque Mayer o meu segundo primo, o Álvaro, um grande artista cómico das revistas locais que a encantou em duas ou três rábulas de representação. Seu pai e meu tio-avô Ernesto, não permitiram a transferência e assim se fez gorar a oportunidade, para ele, filho, de vir a ser um artista nacional.
Se tivesse história escrita, este cinema, modesto em comodidades mas com uma arquitectura comum a muitas outras salas pelo país, seria grande na dimensão da minha terra, pois por ali passaram muitas das encenações locais que se fizeram durante dezenas de anos, até á altura em que a televisão destruiu implacavelmente o associativismo e a vida social de então.
Hoje há quem me peça para escrever sobre a sala de espectáculos. Estou muito longe de ser um José Hermano Saraiva, mas estes pedidos denunciam de facto que não há ninguém que defenda o património das termas, que os eleitos não estão á altura dos acontecimentos, que os problemas não são discutidos e muito menos resolvidos.
Que não há na vila uma sala para cinema, para teatro, para ensaios, para reuniões, para congressos! É verdade. Também lamento que ainda há pouco tempo um congresso sobre a Batalha do Bussaco fosse feito no teatro vizinho. Mas lamento igualmente que levem o pouco património existente, como livros, peças de mobiliário, medalhas e outras coisas mais que são parte da nossa essência, da nossa matriz, da nossa alma, para os arquivos da Mealhada. Um povo sem alma é o pior que há. Como lamento os disparates que se fazem no trânsito, a insensibilidade para os problemas do estacionamento, a vergonhosa situação da avenida do Castanheiro, a leviandade com que se deixam reduzir as termas a um terço do que eram, matando-as. A irresponsabilidade com que se ajudam a destruir as unidades hoteleiras em vez de as ajudar a viver, e o amadorismo curioso com que é tratada em família a Mata do Buçaco.
Mas que fazem os eleitos locais pela defesa da minha e nossa terra??? E quem foi que os lá colocou ?
Quem me pede para escrever, pergunte-lhes. Há que exercer esse direito de cidadania, igual para todos, como o acto de votar. Por mim, estou farto de escrever! Hei-de ser sempre o mau da fita???
Luso, Dezembro,2010                                            Buçaco.blogs.sapo.pt

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Sexta-feira, 3 de Dezembro de 2010

BUDAPESTE

 

BUDAPESTE, UMA CRÓNICA DE JORNAL

 

Se bem se lembram os leitores que fazem o favor de me ler estas croniquetas desinibidas, foi em Agosto de 2009 que escrevi o episódio do salame gigante de Buda e Peste, saboreado no bar de tavolla freda ao fundo do apartamento, 109 da Via Betollo, na cidade de Génova. E lembram-se que prometi pagar a divida e representar ao mesmo tempo a gastronomia deste nosso país da beira mar atlântica, levando um avinhado salpicão da beira á numerosa tertúlia do crepúsculo, dizia, gente do quartiere que se junta ali ao fim da tarde para chiachierare sobre tudo e sobre todos.

Foi um ano depois, em Agosto de 2010 que cumpri o prometido, e esmerado como pretendo ser nestas representações, levei meia dúzia de salpicões caseiros do talho de Penacova, um naco de presunto que me trouxe de Chaves o novo genro e outra meia dúzia de alheiras de Mirandela que só de as observar faziam crescer água na boca. Tudo emalado num saco hermeticamente fechado, foi o Verão a época escolhida, pela simples razão de me deslocar em viatura e fugir assim ao controle dos aeroportos, não me admiraria que me abrissem a mala de porão e me controlassem o tesouro para boca de saco alheio. E para levar meia dúzia garrafas de vinho branco bical da Adega da Mealhada para o dar a saborear àquela gente de lá.

No bar já não servia a ragazza da Antonella, a Paola, mas Giovana , uma mulher feita que tomou o bar de trespasse e o administra com a sua própria presença. Trinta e poucos anos, face bonita, corpo bem feito, divorciada, dois filhos, um rapazinho no último ano do básico e uma menina mais crescida com a cara, dizem, da Maria Madalena de Da Vinci, num corpo quase feito de mulher.

Simpática e profissional a tirar da máquina do café um cheio de se lhe tirar o chapéu, quente e saboroso como é de minha feição e gosto. Foi a primeira coisa que fiz quando cheguei, elogiar o café que fez o favor de me servir na pequena esplanada do lado de fora do bar. Grazzie mille, respondeu!

E comecei a ler o jornal ,o Século XIX.

Ao fim da tarde não falhou a tertúlia. Cumprimentos para aqui e para acolá, a saúde, a vida, Portugal, Berlusconni, o genoa, a samp, enfim uma panóplia de assuntos que decorrem dum novo encontro, embora não fosse assim tão distante a precedente partida. E uma garrafa de Asti, um espumante adocicado que me não enche as medidas selou a reentrada entre os tertulianos.

-Salvé professore Giusephe Borgogni  ! Hip! Hip!

E assim se mandou chamar a Teresa do Marinella, decana do gourmet e ex patroa do restaurante da passiegiatta Anita Garibaldi que se debruça sobre o mar Ligure. Demorou a chegar nos seus noventa e tal anos de idade, mas depois de se evocar em conjunto o salame do ano anterior, serviu-nos uma respeitável dissertação sobre o próprio e sobre Budapeste, onde se fabrica, na beira do Danúbio e entre as três cidades unidas de Buda, Peste e Obuda. Confesso que nunca fui a Budapeste, mas fiquei a conhecer a cidade como se lá tivesse estado, das estreitas ruas de Peste á ponte Elisabeth, ao Castelo Real, á Opera, á Basílica de Stº Estêvão, ao Palacio da Imperatriz ou á Praça Liszt onde se pode comer uma sopa de goulash, uma deliciosa panqueca ou saborear queijos, salames e salsichas, tudo aliás do tamanho da própria urbe, a sexta, em extensão, na Europa.

Acreditei então que a virtualidade se pode transformar facilmente em coisa real, como aliás já vinha desconfiando desde que a net é net e arranjamos conhecimentos, amizades e até amores em qualquer parte do mundo e nos afeiçoamos a eles criando laços como se estivéssemos em boa verdade presentes. Às vezes, falta apenas o pequeno periférico, um ship transportador de partículas que não existe ainda, para tocar no outro, beijar, abraçar ou apalpar. Assim fiquei a conhecer Budapeste, lá onde morou a Sissi de Romy Schneider , dos velhos filmes e sonhos cor-de-rosa num mundo de fantasia. E fiquei a gostar, passei a fã com a promessa de verificar in loco na primeira oportunidade.

Bem, com outra taça de Asti o professor queria seguir já no outro dia, mas adiantei que nada se poderia fazer antes da merendola lusitana. E a tertúlia decidiu que não.

No fim aprazámos o dia, melhor dizendo, o fim da tarde, primeiro provisório, dias depois tornado definitivo. Tudo por minha conta excepto o doce, que ficou reservado ao bar esse serviço, a par do Asti adocicado e da refrigeração de seis garrafas do branco bical da Adega da Mealhada que havia de trazer para baixo juntamente com os enchidos na manhã respectiva.

E assim foi, depois de requisitar os serviços da ragazzina, a Giovana, para me ajudar nos preparos. Apesar do bar ser de frios, cozinha a rapariga muito bem os quentes e quando é preciso, acende o fogão de gás e faz uns deliciosos pratos de spaghetti alla putanesca ,pasta di mandorle, risotto al sugo,  raviolis ou tagliatela , que são o anti primo e o primo de muita gente , além de fazer uma dobrada á moda genovese que nada fica a dever á dobradinha tripeira.  Excepto na apresentação, aqui não se juntam os componentes do prato numa miscela ou mistura de sabores, come-se primeiro a massa e só depois a dobrada embebida nuns molhos de zafferano, burro e peperone que lhe dão divinos aromas. O único senão é eu não poder comer destas coisas. É que há oito anos a esta parte, namorava uma viúva que gostava do passeio. Então corríamos Portugal de lés a lés, do Vau ao Castro Laboreiro, da Foz do Arelho a Segura, gozando dos rendimentos, da paisagem, do gourmet e doutros prazeres carnais, dançando para digerir as gorduras, correndo para evitar o colesterol, o que não foi suficiente para escapar a fraquezas do coração entre um tango e um passe doble numa sexta-feira á noite, e ser hoje obrigado a não abusar dos temperos.

O professor, que sabe destas mazelas que as teve também na pele, nos seus tempos de director da cardiologia do Hospital de S. Martino, se me vê a abusar destas tentações e pecar, põe-me rispidamente a mão no ombro e quase me grita ao ouvido: Non Madonna mia, fermate !!!!  e repete, Nera Madonna  ! Nera Madonna ! E eu procuro fermare, ou travar, que é a mesma coisa.

Na tarde aprazada estava um calor recalcitrante. Insuportável. Os trinta quilómetros de falésias que marginam a cidade ao longo do mediterrâneo eram um vespeiro de gente, mas á hora marcada, seis da tarde, a Teresa, a Maura, a Graça, a Stefanie, o Professor, o Saviano e o resto da tertúlia apresentaram-se ao toque.

Da cozinha elevava-se o cheiro das chouriças penacovenses grelhando com lentidão, enquanto a Giovana mais um candidato a namorado, um emigrante esloveno que trabalhava lá para os lados de Sampierdarena e se apresentava ali com um BMW em segunda mão depois de ter deixado mulher e cinco filhos para lá da fronteira de Trieste, ajudava a cortar o presunto de Chaves em tiras tão finas que se podia ver o sol, ladeadas por uma lasca branca que abria o apetite por pouca fome que houvesse. Não era o caso.

Tudo na mesa em meia dúzia de travessas e abriu-se o bical, gelado como recomendava o menu e que satisfez plenamente os exigentes bebedores, melhor que o asti que se seguiu, doce demais para estes pratos picantes e salgados, mas que acompanhou muito bem as alheiras de Mirandela quando saltaram crocantes da frigideira para o prato e se trouxe a última garrafa do bical da porta do frigorifico.

Só então me sentei no topo da mesa desemborcando a cadeira de plástico que me era destinada, para saborear o prazer da degustação lusitana perante a toalha aberta que pouco a pouco se foi esvaziando até ás migalhas, com a aprovação, por fora e por dentro, da acalorada tertúlia.

Juntamos o malhão e o vira ao sole mio do ano anterior e quase me senti o rei de Portugal, plastificado naquela cadeira de cor azul do martini quando limpa a mesa de comestíveis se acabou no espumante.

Ninguém se lembrou mais do salame de Budapeste, em boa verdade, também porque do enchido português não restou naco nem pele para fazer um caldo verde.

Quando se arrumou tudo, se fechou a porta do bar de tavolla freda e se foi embora o esloveno no BMW em segunda mão, com o discernimento toldado pelas borbulhas do espumante, ainda disse á Giovanna, não sejas louca, não vás para a Eslovénia atrás dele que a mulher tira-te a pele!

E chamando o elevador fui para casa, no quarto andar, já os meus netos clamavam pela minha presença para lhes contar uma história antes de adormecer. Inventei uma história com a Sissi, a imperatriz.

Mas depois sonhei com Budapeste. Hei-de lá ir sim senhor!                                  Génova, Agosto,2010     

publicado por Peter às 22:06
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Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010

BATALHA BUSSACO 3ª INV. RETIRADA-11

                                                                                 

     General Montbrun procura caminho alternativo                                                      

 

 A RETIRADA PARA  COIMBRA E LINHAS DE TORRES

 

Na tarde do dia 27 , suspenso o ataque francês , enquanto Wellington se mostrava aos seus regimentos e celebrava cautelosamente o que parecia o triunfo obtido sobre a primeira arremetida dos franceses, reunia Massena no  seu posto de comando do Moinho da Moura com os comandantes de  exército a fim de encontrar uma rápida saída  contornando a serra. Encarregou então o general Montbrun de enviar patrulhas de cavalaria em todas as direcções na busca duma passagem. Soult encontrou um caminho que de Mortágua a conduzia a Carvalho e Gondelim onde se podia passar a vau o Mondego para o lugar do Coiço e seguir depois para a ponte da Mucela a fim de tomar a estrada da beira, mas veio a verificar que o terreno estava nas mãos da cavalaria inglesa, o 13º de Dragões e a cavalaria portuguesa, ambas do comando de Fane e ainda da infantaria portuguesa de Lecor.

 Ao general Sainte-Croix , que explorava em Mortágua uma idêntica passagem  que contornasse a serra pela direita, apareceu porém um camponês que, depois de interrogado informou da existência dum caminho  por  Boialvo e Avelãs de Caminho, onde encontrariam a estrada real do Porto para Coimbra e Lisboa. Foi uma brigada de cavalaria encarregada de fazer um reconhecimento mais aturado do percurso em toda a sua extensão, no que se fez ajudar pelo dito camponês, acabando por encontrar um caminho capaz de suportar a passagem do exército e do respectivo equipamento. Conhecedor desta alternativa na manhã do dia seguinte, sexta-feira 28, Massena mandou de imediato ocupar posições estratégicas, tendo o próprio Sainte-Criox ocupado Boialvo, e outros regimentos estabeleceram-se em Vale de Carneiros e Aveleira.

No mesmo dia mandou reforçar os postos avançados ainda espalhados pela serra e reabriu o fogo em toda a frente, convencendo Wellington que a batalha prosseguia. Deu então inicio à retirada dos seus regimentos de forma discreta e imperceptível, enganando desta maneira os vencedores que se mantinham nos postos de combate esperando por novo assalto.

Eram onze horas da noite, Wellington descansava, quando foi acordado pelos seus oficiais e tomou conhecimento dos movimentos inimigos. Saltou rápido do improvisado aposento e também com extrema rapidez deu as ordens de retirada. A partir da meia-noite as tropas anglo-lusas iniciaram precipitadamente o movimento descendo as vertentes da serra em direcção a Coimbra em tal desorganização, que  dava a ideia de fuga.

Noite escura e de chuva, os frades que ainda se conservam no convento são aconselhados a abandonar o ermitério acompanhando as tropas o que fazem sem hesitações, excepto Frei António da Soledade, frei Inácio da Natividade e Frei Silvestre que se atrasam e decidem seguir na manhã do dia seguinte.

É sábado, 29, manhã cedo, os derradeiros regimentos ingleses deixam a serra apressadamente. Ficam equipamentos, diverso material, barris de pólvora e além de algumas sentinelas dispersas fica na serra um batalhão inglês, uma espécie de carro vassoura destinado á liquidação do negócio inacabado. Além da observação sobre os movimentos inimigos, percorrem os locais dos combates, prestam ajuda aos muitos feridos abandonados e queimam do lado de fora da Porta da Rainha a grande quantidade de pólvora que constituía a reserva ainda guardada junto ao Convento que não conseguem transportar na pressa da retirada. Quanto isto acontece, o estrondo é enorme, ouve-se léguas em redor e além de provocar o abatimento de algumas árvores destrói o muro da cerca por muitos metros escancarando o ermo a toda a gente. No edifício do mosteiro, a onda sonora parte janelas e vidraças causando alguns prejuízos á ordem religiosa. Depois, deixam sessenta feridos franceses na mão dos eremitas e partem.

Para Wellington , a retirada é  vital e  a confusão gerada pressupõe que nem batalha nem vitória serviram para nada. Numa análise simples há todo um contra-senso na situação com os vencedores a retirar á frente dos vencidos comprovando que na altura foi assumida como mais uma das muitas escaramuças que tiveram lugar desde a fronteira, embora a batalha do Côa tenha ultrapassado a simples troca de tiroteio entre soldados.

Numa leitura desapaixonada, a vitória acabou por ser, á posteriori, um prémio de consolação. Dum episódio de passagem transformou-se numa batalha, mercê do momento que depois se considerou como sendo o do começo da derrota de Napoleão. Mais valor simbólico que real. Inócua, em termos militares, ela foi desastrosa em termos humanos causando perdas inúteis em vidas.

Espalhado entre a Mealhada, Carqueijo, Botão e Eiras, o exército de Massena está ás portas de Coimbra em 1 de Outubro e entra na cidade. Estupefacta e horrorizada, ainda a apagar as cinzas das fogueiras e festas organizadas para comemorar a vitória do Bussaco, a pouca população que ficou assiste á chegada da cavalaria de Montbrum á ponte de Santa Clara, ainda a tempo de empurrar á cutilada alguns dos retardatários que fogem. A cidade fica abandonada á posse dos franceses que ensaiam uma rapina concertada aos supostos celeiros existentes no burgo, iniciando o roubo com marcas de ferocidade logo na freguesia de Eiras. As ordens dimanadas do comandante em chefe não são cumpridas e a politica de terra queimada do inglês dá lugar ao roubo do francês. As favas que paga sempre o inocente, recaem agora sobre os poucos habitantes que ficaram na cidade. Á maioria que seguiu o exército não cabe porém melhor sorte. Os caminhos são miseráveis, a lama que se começa rapidamente a amontoar é um obstáculo medonho, a fome começa a grassar enquanto a população em debandada se encolhe entre as colunas dos soldados em movimento ou atrás daquele macabro cortejo onde vivos, feridos e agonizantes se misturam e vão morrendo á mercê única da sorte de cada um.

E vão assim por Condeixa, Pombal, Leiria, e finalmente Alenquer já na entrada das Linhas, sempre acossados pela vanguarda dos franceses apostada em dificultar a vida e a caminhada de quem os procede no tabuleiro da guerra. O Bussaco ficava definitivamente atrás.

Encerramos o relato duma memória local sobre as invasões, sem deixar de agradecer a paciência dos leitores que nos leram bem como o estímulo recebido de alguns. Ao mesmo tempo, concluir dizendo que a vida no mosteiro continuou até 1834, ano em que foram extintas as ordens religiosas. A vida monástica tornou-se porém mais difícil, não só porque os muros levaram tempo a reparar, o que permitiu o acesso de outras pessoas estranhas ao local como pelo facto de passar a ser visitada por inúmeros participantes na luta, entre eles muitos ingleses, a quem os frades sempre prestaram auxilio, atenções e deram alojamento.

Depois da extinção da ordem, a Cerca foi praticamente abandonada pelo poder monárquico, só por milagre não foi vendida a terceiros mas invadida por autênticas romarias de gente das redondezas, em pouco tempo a maior parte do património foi destruído. Quanto ao servente Francisco, Francisco António, de seu nome verdadeiro, ainda em 1864 se mantinha como sacristão, cicerone e guardião da Mata. Sabia o que procurava guardar, não sabia porém para quem guardava. Sem família, era no cenóbio que encontrava o último laço duma existência também de eremita, com um zelo e uma eficiência que mereceu registos na época. Aqui deixo uma homenagem póstuma á sua memória, ao primeiro leigo conhecido que amou o Bussaco desinteressadamente, quando, talvez como agora, precisava de amigos para poder ressurgir. Então, como hoje, a devassa é a mesma! Mas amigos do Bussaco, este é sem dúvida, o primeiro de todos. FS

PS-A pedido de alguns leitores aqui deixo referidos alguns dos livros consultados durante a publicação destas crónicas relativas á batalha do Bussaco :

200 Anos da Guerra Peninsular, Exército Português; História Popular da Guerra Peninsular de Teixeira Botelho; Linhas de   Torres Vedras, de António Ventura; Guerra Peninsular 1801-1814;Batalha do Buçaco, Museu Militar; Buçaco, de Paulo Varela Gomes; Luso, no Tempo e na História ,Junta de Freguesia do Luso, O Tempo de Napoleão em Portugal, Comissão Portuguesa de História Militar, Bussaco, de G.L.Chambres; Bussaco 1810,Rene Chartrand; Portal da História ,Internet ;História de Portugal, Damião Peres; Dicionário de História de Portugal de Joel Serrão; Inventário Artístico de Portugal, Aveiro; História de Portugal de Oliveira Martins; História de Portugal de Oliveira  Marques; O Bussaco, de Silva Matos e Lopes Mendes; Guia Histórico do Bussaco, de Simões de Castro ; A História de Portugal, Jose Matoso;História de Portugal , de Rui Ramos ; Crónica dos Carmelitas Descalços; Memórias de Massena, de General Koch; A campanha de Portugal de A. Guingret; D.Maria I , de Luís Olivª Ramos; D.João VI , de Jorge Pedreira e Fernando Costa; História Geral Invasões Francesas, de Acursio Neves; O Combate do Côa , de Gabriel Santos ; A batalha do Bussaco de Brito Limpo; A Guerra Peninsular, de Pinheiro Chagas;Memórias do Bussaco de Adrião Forjaz de Sampaio.

Agradeço ao meu amigo querido Carlos Ferraz o material que me forneceu durante a elaboração dos artigos e ao Jornal da Mealhada pela disponibilidade da sua publicação. 

  

publicado por Peter às 22:42
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Sexta-feira, 22 de Outubro de 2010

BATALHA BUSSACO-3ª INV. FRADES-10

 

 

                   FRADES

 

Confusa e de certo modo alheia á trama que se desenrola á sua volta pois só lhe ouvem o som, a comunidade carmelita que deixamos reunida junto á Senhora do Leite, ou do suposto quadro de Josefa de Óbidos se assim se preferir, decide preparar a livraria para a eventualidade de receber alguns evacuados da luta.

Atarefados nas breves arrumações, ouvem distintamente pouco tempo depois o trovejar de canhões para os lados de Stº António do Cântaro e mantêm-se silenciosos e expectantes ainda que sobre forte pressão nervosa e alguma desorientação. Wellington garantiu-lhes na noite anterior uma segura evacuação para Coimbra em caso de perigo, mas isso parece não bastar para os manter sossegados, enquanto o ribombar do bronze da artilharia vai subindo de tom, ás vezes troando longe, outras mais perto, outras ainda a intervalos, alongando-se no tempo e distanciando-se no espaço como se decorresse em diferentes locais e em permanente mudança. Depois deixam aturdidos a igreja e alguns deles, os de melhor sustentação física sobretudo, vão procurar na serra o trabalho de auxilio a que se propuseram, não sabem muito bem o quê, mas há sempre esse humanitário objectivo à mão das congregações religiosas, que tem a ver com o conforto do corpo e o aconchego das almas de quem precisa. Com as prováveis feridas e a extrema-unção na bagagem voluntaria, distribuíram entre si alguns nacos de boroa que meteram nos bolsos escondidos nas largas vestes e aos pares e trios diversificaram os caminhos.

O mosteiro ficou praticamente entregue a Frei António dos Anjos, também oficial da dispensa e a Francisco, nomeado pelo prior para lhe prestar ajuda. O rapaz, ao tempo que se maravilha com os apetrechos da tropa, já um soldado o quisera ensinar a disparar o engatilhado cão da espingarda a troco duma mão cheia de espigas de milho, e com todo o arraial consequente, anda desorientado, pouco afoito e à rédea solta. Frei António mandou-lhe ter o olho permanente na fechadura da adega e na arrecadação dos bens, onde mantém escondidas algumas barricas de sardinha, um pouco de milho e uma pia de azeite que são o governo do mosteiro. Incumbiu-o de pronto alarme caso veja perigar estes haveres, única garantia real, apesar de parca, da sobrevivência dele próprio e dos irmão, mas com a saída da quase totalidade do clã militar das imediações, o perigo diminuiu e se reside em alguém é  em alguns civis que por aqui passam a caminho dos teatros dos sucessos. Armados e desarmados.

  Frei Geónimo do Sacramento e o irmão Silvestre, cronista de serviço ao convento, já estão fora do átrio do mosteiro e observam os poucos soldados que manuseiam no terreiro da portaria, pólvora e munições. É uma montanha de material trazida para ali em dezenas de carroças, tratado e posteriormente distribuído pelas unidades da serra.

Duas das derradeiras cargas saem na direcção da Porta de Sula e os dois frades acompanham o pequeno cortejo. As rodas chiam enterradas no pó da íngreme subida que começa à direita depois que acaba o pátio das traseiras. Os soldados gritam incentivando as mulas e espicaçando-as brutalmente com as pontas das baionetas até se verem umas gotas de sangue a escorrer pelas ancas. Outros, enervados com a lentidão dos animais vergados ao peso da carga e da rampa de S. Silvestre dão-lhe coronhadas sem cerimónias à medida que avançam e é cada vez mais nítido o troar da artilharia á mistura com disparos de armas ligeiras cujo som parece vir de todos os lados. Ao tanque da nascente os dois frades deixam os carroções entregues à brutalidade dos guardas costas e viram à esquerda na direcção da Porta da Rainha recentemente desentaipada. Quando atingem a Capela das Almas já fora do muro , encontram um grupo de franceses em estado lastimoso. São dos primeiros frutos da batalha. Um deles tem o nariz e o pescoço esfacelados por uma bala e expele entre coágulos de sangue sons incompreensíveis. Dois outros, caídos na beira do caminho,  consomem gemendo o que lhes resta de vida antes de chegarem ao improvisado hospital. Ali ficam inertes encostados ao talude seco da estrada. Soldados ingleses e alguns paisanos acendem uma pequena fogueira por misericórdia e colocam os desgraçados em redor dela. Têm frio e gemem por uma morte breve. Os dois frades aconchegam-nos com duas mantas velhas e debruçam-se sobre eles em rezas e orações, mas os infelizes não dão acordo de si. Pedem água e alguns, em agonia ,gritam pelo consolo definitivo dum golpe de misericórdia. Passam mais uma dezena de estropiados antecedendo uma carroça militar dirigida por um maqueiro inglês. Outros irmãos entretanto chegados põem-lhe a mão já próximo do hospital, empurram o transporte ao tempo que se dirigem a eles com santíssimas palavras que não produzem efeito. Ninguém espera bênçãos divinas em horas de aflição.

Os dois primeiros frades dão meia volta , voltam atrás e sobem rente ao muro  da Cerca em direcção à Porta de Sula onde os combates estão acesos  com os franceses , que  quase atingiram a paliçada de rolos de carvalho ali montada se batem pela conquista duma posição sustentada. É a Divisão Marchand procurando repetidamente conquistar o terreno à qual responde energicamente a Brigada Portuguesa Pack constituída pela Infantaria 1 e 16 e pelo 4 de Caçadores que aguentam com valentia o assalto e tentam colocar em fuga as colunas francesas. Infantes e caçadores descarregaram sobre eles com tanta intensidade que  as primeiras filas são dizimadas e os frades que inadvertidamente sobem por ali perto  escutam os gritos e gemidos dos que tombam. Um oficial grita-lhes para que se retirem e se aproximem do muro. Correm embrulhados na espessura das vestes até que dois soldados se destacam dos atiradores e os puxam como fardos por uma abertura feita no muro. Ficam surpresos e atónitos mas continuam da parte de dentro a exploração. Por cima das suas cabeças e silvando na ramaria da vegetação passam alguns inofensivos projecteis vindos de fora enquanto a Brigada Pack , agora apoiada por três baterias inglesas executa uma carga á baioneta que põe Marchand em debandada encosta abaixo. Os de cima ficam aliviados e preparam-se para uma segunda defesa que não virá.

Ultrapassada a porta, dão-se os irmãos conta do novo caminho militar aberto pelo interior até às portas do telégrafo e atingindo o planalto encontram um segundo e rudimentar hospital onde se prestam os primeiros socorros às vitimas que se encontram na parte mais alta da serra. É uma mesa comprida feita de tábuas aplainadas onde são estendidos os corpos e analisados por cirurgiões de mangas arregaçadas. Nos casos mais graves a exigir cortes de membros, amarram os doentes com largas correias de couro, encharcam-lhes a boca de aguardente e serram a sangue frio uma perna ou um braço. A vitima contorce-se, grita e mas acaba por ceder à força bruta, esvair-se em sangue e sossegar por fim.

São quase todos feridos do assalto de Santo António do Cântaro que vão chegando em carroças vagarosas por improvisados caminhos com o apoio de enfermeiros e maqueiros.

Do cirurgião António Teixeira que iniciou a sua carreira no improvisado hospital de sangue da Capela do Encarnadouro a 27 de Setembro de 1810 e faleceu em 28 de Fevereiro de 1873 como cirurgião-mor depois de fazer toda a campanha  do Bussaco até Bayona  em perseguição do exército francês , são as seguintes palavras quando se refere aos horrores  duma batalha … montes de cadáveres, charcos de sangue, mutilações horríveis, agonias violentas , em suma, a morte nas suas estupendas manifestações .

Os irmãos, não suportando o sofrimento físico á vista e verificando a ineficácia da consolação religiosa abandonam depois estes deserdados da sorte e descendo pela capela de S. João Batista regressam ao convento.

Neste trajecto lembram-se dos bocados de borôa guardadas de manhã nas profundezas do hábito e sem dizerem palavra um ao outro vão-lhe roendo as côdeas sem manifestações de apetite. A tarde, que não demora nestes dias finais do mês de Setembro, estende-se até ao oceano atlântico que se vê brilhar no horizonte crepuscular, laranja e branco como fio de pérolas levemente cintilantes.

 Quando chegam finalmente ao convento num lusco-fusco súbito, dão-se conta que os espera uma mulher num burro e um general blindado à volta do pescoço. Com eles está Francisco, desorientado pelos acontecimentos do dia e pasmado perante a beleza de Geraldine, uma rapariga maravilhosa como nunca vira antes na vida. È do seu alojamento que vão tratar em seguida. No olival , onde mandara abrir covas para enterrar os mortos, o Superior  murmurava as orações fúnebres umas atrás das outras e procedia á encomenda das almas conforme iam chegando corpos ou morrendo os moribundos que se espalhavam  em   redor. Quando a noite caiu definitivamente, os gemidos rasgaram o silêncio com mais força  a espaços que se foram alongando  cada vez mais, os gritos de raiva e estertor  fragilizaram-se na fraqueza das forças, até que um manto de leve neblina surgiu do arvoredo  e  se espalhou sobre  o convento  escondendo e abafando simultaneamente  os sons  e o sofrimento dos desgraçados em agonia.

publicado por Peter às 22:09
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Sexta-feira, 8 de Outubro de 2010

200 ANOS

 Um pelotão inglês em manobras na recriação da batalha

  (Foto gentilmente cedida por  C. Ferraz )

VÃO 200 ANOS SOBRE A BATALHA DO BUSSACO

CONTRA AS IDEIAS NOVAS DA REVOLUÇÂO FRANCESA.

PORTUGAL, È A MESMA  PASMACEIRA  

MONARQUIA OU REPUBLICA ! TANTO FAZ !

publicado por Peter às 15:03
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Quarta-feira, 22 de Setembro de 2010

ONDE FOI A BATALHA ?

 

 

 

 Fotografia actual do Moinho da Moura, freguesia de Trezoi, concelho de Mortágua,

que serviu de Posto de comando a  Massena.                                      (foto do autor)

 

Temos vindo a assistir ás comemorações do segundo centenário da Guerra Peninsular cujo momento principal ocorre em 27 de Setembro  próximo  no que concerne à Batalha do Bussaco.

Foi uma fase dramática do nosso percurso comum que deve e está a ser lembrada um pouco por todos os palcos de então, ainda que os tempos actuais sejam de desvalorização  e banalização dos acontecimentos, parte integrante de lutas internas que fazem ainda hoje do espaço europeu uma fronteira em consolidação.

Acontece que as comemorações no que diz respeitam à batalha em referência, são levadas a efeito no município da Mealhada, área administrativa que parece chamar a si o exclusivo do evento e, pressupõe-se também o cenário dos ditos acontecimentos. Nada de mais errado.

Não sabemos os porquês deste estranho exclusivo pois a história pátria ainda não foi mudada nem se pode mudar ao gosto de qualquer oportunidade política e sendo assim, manda essa mesma verdade histórica e o rigor que a legitima desmistificar o erro, pois na realidade em relação à Batalha do Bussaco não se deu um tiro sequer no então concelho da Vacariça, concelho entretanto extinto e que passou a chamar-se da Mealhada.

Todo o desenrolar bélico desta contenda entre o exército francês de Massena e os anglos lusos se desenrolou na sua primeira fase no concelho de Penacova, distrito de Coimbra, encostas de Santo António do Cântaro, freguesia de Carvalho,e numa segunda fase no concelho de Mortágua, distrito de Viseu, vertentes do Moinho de Sula, freguesia de Trezoi.

O então concelho da Vacariça onde se situava geograficamente o Convento Carmelita, abrangia, como abrange ainda hoje, uma parte da serra e apenas essa pertencia à então Vacariça, na freguesia do Luso. Na sua maior parte a serra pertence ao concelho de Penacova no distrito de Coimbra, tendo ainda uma pequena franja de terreno no concelho de Mortágua e uma outra no próprio concelho de Coimbra e não se limita á Mata Nacional , que é uma pequena parcela ,pouco maior que os 105 hectares que limitam o velho convento carmelita.

O concelho da Vacariça , na vertente oposta à luta, serviu  de passagem e apoio, serviu  em termos logísticos , como serviram outros concelhos limítrofes dentro das estratégias montadas pelos generais Wellington e Massena , desde os caminhos tomados por Almeida, Mangualde ou Viseu,  depois Tondela  e Santa Comba Dão e mesmo depois da luta, Anadia ou Àgueda e outros. É  verdade que funcionou na freguesia do Luso um hospital de sangue, é verdade que alguma oficialidade britânica subtraiu  aos frades carmelitas os  aposentos para ali se instalar , é verdade que a cavalaria aliada foi colocada perto da Mealhada  por se pensar ir ser inoperante face á morfologia do terreno. Mas também é verdade que a maioria dos batalhões e regimentos dum e doutro contendor permaneceram uma semana na serra, fora do concelho  da Vacariça,  percorreram durante esse tempo os  concelhos vizinhos , roubaram, destruíram e mataram populações locais e isso não aconteceu no concelho da Vacariça. Aqui , não se desenrolou o acto físico da luta e nem um tiro se deu em defesa da pátria e dos interesses ingleses.  

Por isso se estranha a exclusividade das comemorações pois a Batalha do Bussaco envolveu  populações da região sobretudo, sublinho,dos concelhos actuais de Penacova e Mortágua, se não quisermos estender os factos ao percurso entre Almeida, Viseu e o campo de batalha. Deve referir-se até, que o concelho da Vacariça foi um pequeno oásis no cenário dantesco que foi o caminhar dos dois exércitos através do país, pois a freguesia do Luso, onde presumidamente poderiam acontecer factos relacionados com o fenómeno, nada registou para lá duma súbita dormida de Beresford na Lameira de Stº Eufêmea e duma subita passagem de Massena  na Mealhada após o desvio de exército por Boialvo e Avelãs.

Porque não podemos enganar a história nem os factos e nem os lugares onde se passaram as coisas, aqui deixo a titulo de rectificação, a estranheza por ver esquecidos, ou por ignorância, ou intencionalidade, não o sei dizer, os representantes actuais dos que então sofreram nas entranhas os sacrifícios da luta, em abono da verdade e da honestidade intelectual, os municípios de Penacova e Mortágua. Deviam ser parte activa destas comemorações, pois eles foram o grande palco desta fase da  Guerra  Peninsular. Para além de Coimbra que já na retirada das forças  após o inconclusivo recontro , foi tomada e  rapinada , diga-se , por uns e por outros.

O rigor histórico não pode ser ultrapassado, nem pelo município da Mealhada, nem pelo Estado-Maior do Exército, nem pela Academia Portuguesa de História, entidades que parecem estar por trás das comemorações. Aqui fica a titulo de informação o que devia  ter sido feito e considerado por essas entidades.

publicado por Peter às 10:39
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Domingo, 19 de Setembro de 2010

BATALHA BUSSACO-3ª INV.FRADES -9

 

                                                                                                              

 A GUERRA DOS MONGES

 

 A manhã de 27 foi para os resignados monges de Santa Cruz do Bussaco de delapidação total das regras conventuais. Instalados na sua maioria no refeitório situado no extremo norte do Convento, os frades levantaram-se cedo, mal o general, eram quatro horas da manhã, saía com o seu séquito de ajudantes a demandar pela serra a disposição do exército e a perscrutar o disperso bivaque francês pelo longo binóculo que lhe chegava o adjunto a cada solicitação. Já os frades reunidos á volta da cruz central do dito refeitório, toda ela forrada a cortiça, iniciam as demoradas matinas com cantos e sacrifícios onde a autoflagelação era coisa comum. É uma sala grande a das comidas, mais comprida que larga e mais alta que as oficinas, as celas ou a própria livraria. Humilde, também forrada a cortiça tal como a cruz, janelas e portas, é ali que os monges se reunem á volta duma mesa de madeira, comprida, frugal e pobre.

Ao mesmo tempo que dão alívio ao estômago, conforme vão acabando as suas refeições, alguns deles encostam o corpo á grande cruz no meio da sala, abrem os braços como crucificados numa figuração de Cristo, o seu orago, e assim permanecem em silêncio ou a  chicoterar-se a si próprios expiando deste modo o pecado de ter comido. Em muitos dias comem no chão ajoelhados aos pares ou em trios. Colocam sobre a cabeça coroas de espinhos, vendam os olhos com largas faixas de pano preto, sorvem de mordaças que seguram na boca, entre os lábios, mistelas envinagradas e azedas. Não raro, em muitas ocasiões, carregam pesadas cruzes de madeira ou colocam sobre o dorso uma pesada albarda de asino, expiando desta estranha forma as culpas e os pecados cometidos.

Mesmo nestes dias de bulício militar, mais ou menos escondidos dos olhares curiosos de oficiais que passam oriundos das celas ocupadas, procuram mortificar-se o melhor, ou  o pior que podem , sendo o sacrifício mais comum  chicotadas nas lombares até a um rasgo de sangue assomar  na sua vermelhidão. Então cessam a cerimónia, tapam a ferida com o surrobeco do hábito e vão à sua vida. Regra geral desde a chegada do general tem-se moderado nos tormentos destes alívios de alma e a oração tem sido a principal mais valia obtida em favor do céu. O coro diário e o silêncio, contrastando com a balbúrdia instalada em toda a cerca, são onde passam o resto do tempo da penitência.

Ás quatro da manhã de 27 enxerga-se mal. Na prática é noite ainda. Acendem círios e velas trazidas da dispensa onde conservavam grande quantidade e ao passarem lentamente em frente de portas e janelas parecem sombras fantasmagóricas denunciando um culto iniciático macabro sob o esticado capuz de burel da vestimenta, ritmado no intervalo de cada passagem breve.

É pelo romper estrondoso do silêncio habitual no ermitério que dão conta da estranheza da manhã. Ainda que de longe, chegam ecos, sons dum outro mundo que lhes é diferente mas não indiferente, até aromas, enviados pela ligeireza duma brisa que lhes fere a pureza habitual dos odores da solidão cujos bálsamos, oriundos da própria natureza em sopros leves de brisa ou ventanias medonhas, conhecem bem. Hoje, quando o alvor da manhã

clarear em definitivo ,talvez bruscos e incómodos, os ruídos hão-de aumentar, os sons bailarão de direcção em direcção   e nas salas humildes forradas a cortiça penetrarão o medo e as vibrações assustadoras do troar dos canhões juntamente com  o cheiro  fresco da  pólvora que inundará as redondezas do mosteiro. È o que presumidamente pensarão estes eremitas, crentes ingénuos à medida do seu tempo, mas familiarizados com um mundo de injustiças, de violência e de guerras que conhecem bem. Permanecem um ano no refúgio para curar feridas destes desmandos mundanos, frequentemente dos seus próprios erros e exageros, na esperança dum perdão o mais tarde possível. No fim do tempo , cumpridas celas e ermo voltarão supostamente limpos e reconfortados aos malefícios da vida , depois desta limpeza intensiva dos problemas da  alma.

 Acabam orações e sacrifícios da fraca refeição e reúnem-se na igreja, o centro físico e coração do mosteiro. È um templo pequeno, cruciforme, humilde como as regras dos descalços e fechado por inteiro no interior do convento, envolvido em toda a volta pelos corredores das minúsculas celas. Não são todas assim todas as igrejas dos Descalços, mas esta é das primeiras a assumir uma arquitectura fidelizada depois da mais famosa de todas, em Batuecas nos confins de Salamanca.

 Não há riquezas à vista, banido o ouro e a prata o luxo passa pelo altar mor com um  Cristo crucificado gozando das companhias laterais  de  José , o carpinteiro,  e  Santa Teresa.  Ao fundo e separando a igreja do coro de dois degraus, um pitoresco presépio  reúne muitos figurantes à volta da manjedoura e do outro lado, em frente, olha embevecida a imagem discreta da Srª do Carmo. De realce, dum e doutro lado do altar, estão ainda duas figuras originárias dum desconhecido artista italiano, as figuras em barro de Madalena e do apóstolo Pedro. Talvez o que de mais rico possui o templo, não pelo valor intrínseco do material, mas pela expressão realista e sofredora dos actores representados. Pedro, a trair o seu mestre, Madalena, ainda jovem, expressando constrangido o fim dum amor divino. Resignada, tal como a figura barroca da Senhora do Leite numa tela datada de 1664 da autoria de Josefa de Óbidos e pendurada á direita, junto ao coro. È ali, sob o olhar materno dos leitosos seios que os frades se juntam a adivinhar o dia.

 Enquanto isto, Wellington faz um périplo á volta das suas tropas estacionadas ao longo do cume por onde corre um manto de nevoeiro matinal. Adivinhar o que se passa em baixo é a aposta mais certeira, além da tentativa de discernir entre o silêncio algo que seja diferente do fundo costumado. Sessenta mil homens armados para lá do horizonte visível falam sem dizer nada. Para lá dos sons, o ar, as ondas de calor e frio, não as de rádio que ainda não estavam descobertas, propagavam-se a instantes, o cheiro impregnava-se de cambiantes estranhos, alguns mesmo prenúncios vazios da ânsia e do medo espalhados em redor ou no silêncio dos homens esperando. A passarada, ainda que proibida por bula do papa Urbano, habita as frondosas árvores dentro da Cerca , mas também essa está calada e os galos madrugadores, ainda que o pudessem fazer, foram cozinhados por tanta gente com fome.

A expectativa é grande, o receio também, a tensão agiganta-se com o madrugar da noite. Os sinais, para militares experientes são reconhecíveis, mas não o são assim familiares para o recruta português saído da reorganização de Beresford , que  pela primeira vez vai demonstrar em combate a sua capacidade e valor, uma estreia tão imponderável como absoluta que faz tremer o comando inglês como varas verdes. Vai pertencer a estes homens mal vestidos, mal armados e mal calçados, a expensas do governo inglês, o pendor dos resultados, daí as preocupações do lado britânico.

A manhã rompe dificilmente a neblina cerrada que se prolonga desde o nascer do sol impondo segredo montanha acima não se sabe por quanto tempo. Veremos que há-de descer ao contrário lentamente, primeiro rompida pelo sol nas partes altas, depois mais rapidamente a mostrar o conteúdo total da receosa paisagem liberta de sombras e assombrações, substituída dum momento por uma vaga de soldados que hão-de surgir prontos e escanhoados a trepar a montanha.

Para o comandante, que espera o desenrolar da acção no seu posto de comando, a batalha chega assim inesperadamente. Não faz parte de qualquer estratégia previamente concebida nem de planos arquitectados com objectivo e pormenores. A luta, se acabar por acontecer, é mais fruto do acaso que de outra coisa qualquer mas é evidente que esta situação acidentalmente vantajosa o obriga na prática a receber o corpo imperial de armas em punho, tão grandes são os trunfos que a sorte, como numa mesa de pocker, lhe coloca nas mãos. Observa, corrige, encoraja e aguarda confiante o levantar do dia quando surgem das profundezas dos vales que vão do Cerquedo à ribeira de Aveledo e ao rio Mondego os comandados de Reynier.

 

 

publicado por Peter às 18:10
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Sexta-feira, 6 de Agosto de 2010

BATALHA BUSSACO-3ª INV.GERALDINE-8

 

                                                                                                    

 

 

GERALDINE

 

Dupont  é  o fiel criado de quarto do general Simon , seu mordomo e acompanhante desde as grandes batalhas de Wagram e Frideland  e por isso bastante   afeiçoado ao intrépido  militar. Quando sabe poucas horas depois dos combates que seu amo é feito prisioneiro no Moinho de Sula frente ás forças de Crawford, resolve levar a sua dedicação mais longe decidindo acompanhar o desditoso amo no infortúnio das grilhetas. 

Junta os acessórios quotidianos do general numa maleta e munido da estima e da vontade de servir, mete-se sem hesitações a caminho das linhas inimigas para se juntar ao amo e assim cumprir a missão para que estava contratado. É por entre os destroçados homens de Loison, o Maneta e de Marchand que se mete, cruzando com os sobreviventes, ultrapassando mortos e feridos espalhados pela encosta, encetando uma luta contra o terreno e contra a mala, que era um obstáculo precioso mas incomodo em tão insólita marcha. É assim entre os vencidos que descem a montanha que o intrépido Dupond faz o caminho contrário  trepando por barrocas e penedos acenando  constantemente com um lenço branco que segura na mão esquerda em sinal de neutralidade e paz. Avança sob um ou outro tiro dos ingleses que não percebem muito bem o que está a acontecer com o homenzinho desarmado que sobe a serra na sua direcção.

Quando a barreira a transpor é mais dura de roer, enfia o lenço no bolso da jaqueta que lhe desce até aos joelhos e puxa a mala com as duas mãos para facilitar a marcha, mas logo torna a empunhar o lenço branco num frenesim de agitação enquanto aparece aqui e desaparece acolá nas dobras e nas falhas  do acidentado passo.

Não estão longe as primeiras ruínas incandescentes do que foi a pequena aldeia de Sula , já as vai  divisando  acima da cabeça, bem como ao intenso fumo que delas sobe, porém, como que a contrariar as intenções do devoto servidor o tiroteio que desaba sobre ele redobra dum momento para o outro. É agora mais frequente e assustador. Nem a frente aliada se inibe de atirar sobre tudo o que mexe, incluindo o que seja branco e movediço como o grande lenço que agita freneticamente, nem os desesperados gauleses que temerosos descem, deixam de se virar para trás pelo estalar dum tiro perdido, alvejando instintivamente  o desorientado mordomo a contas com uma tarefa que se vai agigantando à sua frente. Uma ou outra bala silva perto de si e depressa o fogo que sobre ele desaba atinge uma intensidade tal que tem de se refugiar e não consegue prosseguir. Agacha-se no recobro duma trincheira abandonada, deixando passar a fúria dos apontadores para continuar apalpando o terreno, mas por fim, exausto e convencido perante a fuzilaria que lhe cai em cima que não consegue cumprir a humanitária missão, senta-se numa racha protectora da rocha e aguarda uma pequena trégua para voltar atrás. É o que faz aproveitando a primeira oportunidade que surge, escapando assim milagrosamente ao tiroteio cerrado que o levaria ao suicídio, caso continuasse. Rebolando em conjunto com a mala pelas ravinas que tanto lhe custaram subir, atinge o bom Dupond com grandes dificuldades o lugar donde tinha partido, o comando da brigada do Maneta já na encosta da Moura, abaixo do posto de comando.

Sentado ao lado dos haveres do general comenta o sucedido e chora em simultâneo a sua incapacidade nos ombros de Geraldine, a vivandeira do regimento 26 de ligeiros que, embora não conhecendo o general Simon pessoalmente, se comove com a história do criado sobre o infortúnio do patrão. É cheia de arrojo e voluntariedade, coisas que dão  atrevimento e força aos 17 anos que espelha com sorrisos e beleza e talvez a grande afeição que nutre pelos homens em marcha, que se propõe ela própria levar os bens ao desafortunado oficial e dar-lhe nas prováveis masmorras o seu apoio servil.

Devemos esclarecer que a vivandeira era quem, entre as mulheres que acompanhavam os exércitos da época, fornecia aos seus efectivos diversos bens fora do âmbito estritamente militar, negociava de forma ambulante e supostamente livre alguns haveres de consumo comum prestando serviços vários ás tropas em movimento.

Geraldine pede ao fiel Dupont a mala do general, puxa-a pela asa polida de tantos gastos e usanças em sucessivas campanhas, arrasta-a, e perante o compulsivo choro do camarada ali garante num abraço a entrega dos bens e a ajuda no que necessário seja. Que fique sossegado, segreda-lhe, fará o seu papel como se fosse o próprio mordomo em pessoa a acompanhar o amo.

Tira depois da sua leve e exígua bagagem um amuleto prateado com que adorna o pescoço, um enorme lenço encarnado dos poucos adereços pessoais de sua posse e propriedade e montando no velho jumento da cantina que serve, o 26 de ligeiros, põe-se a caminho outeiro abaixo, decididamente apostada em passar as linhas entre os dois exércitos e cumprir a promessa tão afectivamente jurada.

É ante os gritos de apoio e aplauso dos camaradas presentes que deixa a brigada puxando o jerico pela arreata para depressa atingir o fundo do abismo que separa as vertentes. Sobe-lhe então para o costado com a ajuda de soldados que descem em sentido inverso e continua já do outro lado da vertente a procurar o melhor caminho na direcção das linhas entre os dois exércitos. Escarranchada sobre o animal, agita freneticamente o lenço enquanto segura a mala , que vai   roçando  dum lado para o outro na pança do asno, pendurada  por um improvisado arreio de couro velho. O caminho, se assim se lhe pode chamar, rasga-se na vertente nordeste onde ainda se encontram restos da brigada Marchand em retirada bem como posições avançadas postadas no terreno.

Quem desce do inferno da luta arregala os olhos ante a soberba rapariga que acena o lenço bem alto acima da cabeça do animal e pergunta se vai pelo caminho certo. Sabe-se lá se há caminho, respondem alguns, mas outros, afoitos e agradados, sugerem à moça que não existe passagem, que se deixe de missões e volte atrás que eles próprios lhe farão muito melhor companhia. Inabalável, Geraldine enxota  o burro com uma pancada nas nádegas e fá-lo trepar  mais um agressivo talude que o empina como varola de feijões e quase a atira para fora da albarda , donde já  deslisa palha pela constância de  buracos não cerzidos nas curvaturas do assento. Um pouco acima, entre leiras de carqueija e pedra que rola da serra e ali se deposita, define algo que lhe parecem fardos fumegantes e mais acima os contornos prováveis do moinho que procura. É nessa direcção que segue, mas a rudeza do chão, as moitas e carqueijas mais os taludes de cada patamar não permitem uma linha perfeita. Confirma depois, como Dupond, as fumegantes ruínas do lugar. Não lhe parecem casas, apenas restos de palha ardendo lentamente, mas percebe que este fumo é que precede as alturas, o limite das linhas e de vez em quando divisa o perfil do pequeno moinho esbatido contra o céu.

Caem-lhe dos ombros duas faixas de cabelos negros e da face, queimada por horas e horas de sol ardente das planícies castelhanas á raia do Sabugal, algumas gotas de suor, mas corajosamente assume o medo esquecendo-o e avança impulsionada por uma força interior indestrutível. Não sabe explicar o porquê da aventura nem a razão do gesto, apenas lhe faz mover o jeito a espontaneidade e a pureza das ideias. Levanta a cabeça segurando os freios para saltar dois troncos de carvalho que fazem a ponte sobre um regato seco e ajeita as ancas na acomodação aos lombos magros e duros do asno. A mala quase cai, mas consegue meter-lhe mãos e segura-la.

Curiosamente o silêncio instalou-se em redor. Não ouve um tiro, não se escuta um disparo. Sobem-lhe temores á face ao contestar o facto e redobra simultaneamente o acenar do lenço encarnado, não vá uma perdida bala desmoronar-lhe a obra ou pegarem-na á mão em qualquer barranco do caminho.

Como por encanto o silêncio sustenta-se. Não imagina o que está a acontecer, talvez tenha acabado a guerra definitivamente. Os tiros dum lado e doutro, cessaram numa hipnotização colectiva. Sem explicação, que não seja a altivez do corpo feminino, frágil e forte ao aproximar-se dos cumes e que agora se mostra cada vez mais aos beligerantes postados por todo o lado. Caiem-lhe pelos ombros madeixas de cabelos pretos e sobra-lhe sensualidade nos seios atrevidos e erectos. O rosto incógnito que começa a mostrar os traços da juventude alia-se à serenidade com que avança levando o mundo em redor a um êxtase espontâneo e incompreensível que vai permitindo a caminhada. A ousadia, a simplicidade, a coragem, dão lugar a uma empírica e instantânea trégua.

Das ruas da velha Paris á montaria inesperada do jumento do regimento, vai talvez uma infância precoce por contar. Um ciúme por dizer. Um amor por fazer. Mãos maternas por dar e vida, por viver. Talvez o próprio rosto da revolução, liberdade, igualdade, fraternidade se espelhe de algum modo, simples e ingénuo no olhar e gestos da vivandeira do 26 de ligeiros, quando aquele sorriso fraterno atinge finalmente o cume e ultrapassa  as fictícias linhas separadoras entre ambos os combatentes.

Diz-se que dum lado e doutro irrompe uma chuva de aplausos saudando o acontecimento, diz-se que ecoa por minutos sobre o dorso da serra do Bussaco  um cântico de musas que faz calar a boca das carabinas, e Geraldine passa o cume, o Moinho e é acolhida  de forma cordial e amigável entre as  tropas anglo-lusas.

Não é grande a ferida do militar. Uma bala á queima-roupa trespassou-lhe os queixos e feriu-o de raspão, mas feito prisioneiro com as deferências devidas ao seu posto de general, foi depois conduzido ao hospital de sangue da Capela das Almas onde foi assistido por um cirurgião. Na transferência para o Convento, onde lhe foi cedida uma das celas por um oficial britânico, surgiu Geraldine encavalitada no burro e acompanhada por uma pequena escolta encarregada de a fazer chegar a Simon.

Isto conta por outras palavras o general Marbot , ajudante de campo de Massena, nas suas memórias ainda frescas sobre os factos, mas pode-se acrescentar que foi frei Gerónimo do Sacramento e o irmão Silvestre, acabados de chegar das suas deambulações pela serra  que  trataram da recepção ao  insólito  par, ou  mais pormenorizadamente ao general, Geraldine, burro e mala, encarregando-se eles próprios, com a ajuda de Francisco, da sua instalação na ala  este do mosteiro, na humilde cela que fora pertença do irmão João do Espírito  Santo e depois do tenente Barnes que lha havia usurpado na sua chegada à Mata em 20 de Setembro. Isto no seguimento das ordens de Wellington sobre o aboletamento do prisioneiro depois de ter conhecimento da sua detenção.

Durou pouco esta estadia de Simon, agora assistido por Geraldine, ou pela mulher como relata Frei Silvestre na ingénua interpretação, na cela do Convento, pois no dia seguinte foram transferidos para Coimbra precedendo a retirada geral. Acompanharam depois o exército ango-luso até Redinha e Pombal e pouco antes de Leiria, por troca de mensagens entre os respectivos comandos foi feita a reposição da lei e da ordem ou seja, Dupond foi autorizado a juntar-se ao amo, o general, enquanto Geraldine , montando no burro do 26 de ligeiros , atravessou em paz e em sentido contrário á marcha todo o exército anglo luso e regressou sã e salva  ao seu posto de vivandeira do 26 de ligeiros do  2º corpo de Ney.

( FS-200 Anos da Batalha do Bussaco)

 

  

publicado por Peter às 23:04
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Terça-feira, 13 de Julho de 2010

BATALHA BUSSACO-3ªINV.CRAWFORD-7

  Gravura de Charles Turner (1773-1855) baseada

   num desenhodo major Thomas Siant Clair .

 

NO MOINHO DE  SULA

O ataque ás posições do Moinho de Sula que dariam acesso ao Convento dos Carmelitas começa uma hora  mais tarde  e foi efectuado pelas divisões Marchand , Loison e Mermet  do 2º  corpo de exército do marechal Ney. São sete horas da manhã.

Se o assalto a partir de Santo António era de difícil de executar, este outro do lado norte da serra parecia tarefa igualmente espinhosa, a subida era mais curta, mais visível, a estrada ainda que má existia, mas á medida que se entrava na vertente da pequena aldeia de Sula para culminar no Moinho que lhe era superior, quase se transformava numa fortaleza inexpugnável. Abrupta, violenta, agreste, constituía de facto uma defesa natural intransponível perante as posições altaneiras dos defensores. Vertical em muitos pontos, plena de ladeiras e declives onde o avanço ordenado das colunas assaltantes era coisa impraticável. Assim, o assalto, precedido por difícil caminhada das divisões gaulesas em mal organizadas colunas, saldou-se por uma punhado de acções decididas quase momento a momento em paralelo com o avanço, consequência de inúmeros sucessos ou reveses ocasionais, uma guerra aos bocados sem táctica ou coerência. Avançar em linha em tal configuração de terreno não era possível, em colunas organizadas era difícil, trepar por penedias, quebradas, abismos, tojos, arbustos e uma infinidade de obstáculos físicos pregados ao chão, era um constante abrir de novas e desconhecidas vias, tarefa já de si suficientemente dura para criar problemas á simples passagem do exército, tarefa extrema para um exército em luta. Andaram nesta demanda durante parte da manhã, os de baixo a ensaiar um assalto que não podia ser eficaz, os de cima a observar e a rechaçar as tentativas.

Depois o nevoeiro dissipa-se completamente. É o costume nesta serra ardilosa que dum lado beija a secura do interior até ás neves da Estrela, do outro recebe as nuvens oceânicas que lhe descarregam no dorso verdadeiros dilúvios.

Levanta o nevoeiro e o dia que está para estar é de sol. Já se tinha silenciado à muito a artilharia de Ney que, de baixo para cima e a 900 metros de distância tentara limpar o terreno sem resultados visíveis.

No alto, onde se abre uma larga portela em torno do caminho, Crawford sai do moinho de Sula.  Brilha o vermelho da jaqueta e os galões de oficial enquanto assesta pela centésima vez o binóculo sobre o vale que o separa da aldeia da Moura e repara que há movimentos de infantaria por todo o lado. Alguns bem perto da pequena aldeia de Sula, proprietária do moinho onde tem montada uma pequena mesa e uns mapas seguros por uma pedra arrancada do chão. É o seu posto de comando. O nevoeiro dissipa-se com rapidez  e sol começa a aquecer, como a paisagem.

Da divisão de  Marchand surgem e desaparecem fileiras de atiradores  seguindo as dobras da encosta e da estrada. Saltam fora dela quando a brigada Pack postada entre o moinho e a porta de Sula abre fogo. Aninham-se, desaparecem, surgem depois um pouco mais acima. Á sua frente, em linha recta com a Moura mas no abismo do vale que o separa, Loison procura manter ordem na sua divisão que caminha como pode pelas pregas sinuosas e abruptas do monte. Á frente, deambulando entre penhascos e arbustos os nossos já conhecidos voltigeurs da artilharia ligeira, saltam e sobem trepando quando podem para lugares superiores. Se observam os postos avançados aliados, ajoelham, apontam, fazem fogo. Vestem uma casaca azul sobre colete e calça branca e sobre os cabelos assenta uma barretina encarnada repuxada até ás orelhas.

Num repente saltam em pequena nuvem junto á aldeia logo seguidos por duas colunas de infantaria que trepam corajosamente até ás três primeiras baterias do capitão Hew Ross . É o general Simon , comandante de brigada quem comanda o  súbito assalto. A surpresa do movimento arrasta na frente  o batalhão de Caçadores 3 e obriga a artilharia a retirar deixando três peças no terreno. Sobre uma delas salta o general como que a querer tomar-lhe posse. No mesmo instante surgem de surpresa, os ingleses do 43,45 e 52 que se abrigavam atrás da crista e efectuam uma descarga a vinte metros caindo ferido o próprio general que ficou prisioneiro. Seguiu-se uma tremenda carga á baioneta que empurrou com violência a coluna francesa pela montanha abaixo deixando inúmeras vítimas espalhadas em redor. O mesmo sucedeu á brigada Ferrey que foi dizimada pela brigada Coleman enquanto a artilharia britânica e portuguesa varrem os flancos e o centro dos franceses em fuga.

A luta é dura e breve. É quase meio-dia batido na sineira do mosteiro e praticamente tudo está terminado. O dispositivo de defesa conserva-se nos seus postos convencidos duma segunda arremetida. Vão esperando o segundo ataque francês que tarda em chegar enquanto o dia avança, mas os franceses, reagrupados nos abismos do monte, acodem aos feridos e contam as baixas. Que são muitas. Massena, instalado no moinho da Moura, suspende o ataque.

As duas divisões de Ney que participaram no assalto estão dizimadas, a de Loison registou 1255 vítimas, a de Marchand 1173. Do lado aliado, foram registados 600 mortos ingleses e 602 portugueses.

 O resto do dia 27 é passado entre trocas de tiros esporádicos das posições avançadas de um e outro lado e um bombardeamento da artilharia aliada sobre a aldeia de Sula onde se alojaram algumas dezenas de franceses durante a tarde.

Conserta-se entre combatentes um momento de tréguas que serve para recolher os mortos e os feridos e até para confraternizações entre soldados de ambos os lados quando se cruzam em plena aldeia.

 Na Capela das Almas, o hospital de sangue fervilha de movimento e os cirurgiões não tem mãos a medir concertando indiscriminadamente ambos os contendores. Os horrores da morte estão presentes nas agonias de muitos, os cadáveres amontoavam-se por todo o lado, os mutilados pela luta ou pela intervenção cirúrgica oferecem um espectáculo dantesco, poças de sangue ou membros decepados quase se misturam com gente que trabalha, ajuda e tenta mitigar a sede de tanto sofrimento.

(200 anos da Batalha do Bussaco.)

 

publicado por Peter às 20:09
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Segunda-feira, 28 de Junho de 2010

BATALHA BUSSACO-3ª INV. ASSALTO -6

 

O ASSALTO DE GRAINDORGE

 

No dia 26 á noite cabeços, outeiros e matas que circundam o lugar da Moura estavam apinhados de franceses. Das portas ou do moinho de Sula podiam ver-se as fogueiras acesas por toda a parte confirmando que o grande exército de Portugal do comando de André Massena , se preparava para  avançar  sobre a  posição do  Bussaco, também ela , nessa mesma noite, preparada para receber os invasores, com todo o exército anglo luso postado na cumieira da  serra desde o Moinho da Águia nos cabeços mais altos  do Salgueiral e Miligioso, até ao Monte Alto nos arredores de Penacova e ainda com uma posição de cavalaria na confluência do rio Alva com o Mondego.  Eram cerca de sessenta mil homens entre ingleses e portugueses, efectivos que começaram a chegar ao convento e á serra no dia 20 de Setembro. A 26, a instalação estava portanto completa e esperava-se a todo o momento um assalto, agora que as posições de ambos os contendores pareciam definidas no terreno.

Entretanto dentro do mosteiro carmelita a hora crepuscular foi marcada mais uma vez  pelo silêncio dos sinos e pelo aboletamento anárquico dos frades depois duma frugal refeição e das orações vespertinas. Wellington mandou preparar a montada e saiu com o seu ajudante de campo para uma última observação ao arraial napoleónico e uma visita de encorajamento aos seus soldados. Na Porta de Sula inspeccionou a barricada de troncos de carvalho ali erguida e tomando o novo caminho aberto dentro dos muros atingiu a porta do telegrafo. Em baixo, a multidão dos soldados adivinhava-se pela quantidade de fogueiras espalhadas ao longo dos montes em redor, completamente visíveis do alto do Bussaco. Durante este período preparatório mandara abrir o estradão militar entre a recém rasgada porta da Cruz Alta e os moinhos de vento da Portela de Oliveira, ao longo do qual posicionou o contingente militar anglo luso e organizou os preparativos finais para a defesa, escolhendo na vertente acidentada sobre Santo António do Cântaro o seu posto de comando. Um pouco á frente e abrangendo toda a parte do traçado da péssima estrada para Coimbra, um simples carreiro nalguns locais, colocou seis bocas de fogo. Seguiu paralelo aos bivaques do cume da serra encorajando os homens mas não atingiu o posto de comando que reservara para si. Quando a noite caiu completamente sobre o horizonte atlântico que se avistava ao longe, regressou ao convento e descansou algumas horas.

Às cinco da manhã do dia 27, quinta feira, mal se lobriga a luz de aurora e já o arraial de Reynier está em armas, preparado para o assalto ás cristas serranas da estrada, cujo piso, já se referiu, onde a própria estrada existe, é péssimo.

 A acção, algo precipitada, foi acertada na véspera entre Massena e os seus generais e compreende dois ataques, o primeiro a cargo do corpo de Reynier cujo efectivo, entre infantaria e cavalaria toca os dezassete mil e quinhentos homens. Tem por missão tomar a portela de Santo António e executar depois um movimento em tenaz enrolando para norte a fim de fechar sobre o exército anglo luso, enquanto a cavalaria, avançando depois pela estrada já liberta, se posicionará até ao lugar dos Palheiros na retaguarda do inimigo.

Uma hora depois e mal se presuma a chegada ao cume, desencadeará Ney a sua ofensiva á direita, pelo Moinho de Sula fechando e encurralando entre os dois exércitos, o seu e o de Reynier, as forças aliadas.

Outra versão dos acontecimentos coloca a hipótese do desfasamento dos ataques se dever ao nevoeiro cerrado que cresce com a manhã e que terá atrasado o corpo de Ney nas suas operações. Pode ter acontecido mas anote-se que o nevoeiro, aliás focado pelos dois contendores e pelos próprios frades, se dissipou cedo pois a artilharia luso-britânica veio a ter um papel e uma acção preponderante no desenrolar da luta.

Graindorge, Jean François de seu primeiro nome, nasceu em Saint-Pois, Normandia em Junho de 1870 e alistou-se como voluntário no exército do norte tendo feito carreira brilhante ao serviço do imperador em diversas campanhas tendo alcançado, mercê das suas acções o posto de general. É á sua brigada e á do general Sarrut e á divisão Merle , que cabe a árdua tarefa de trepar em primeiro lugar os declives íngremes  que desde as imediações do pequeno lugar de Santo António do Cântaro, se empinam como gigantes  arredondados até atingir o cimo da montanha  formada por uma pequena plataforma  com pouco mais de cem metros lineares que depois de ultrapassados dão acesso á descida   para o lugar dos  Palheiros , Botão e  finalmente Coimbra.

É aqui o cenário principal do desenrolar dos eventos nesta primeira arremetida cujo objectivo é arrastar e pôr em debandada o dispositivo anglo luso. Ao certo, Massena ignora o número de defensores e se se tratava dum verdadeiro exército disposto a dar-lhe luta ou de grupos de guerrilha destinados a desgastar as suas tropas como vem acontecendo desde a raia. Foi com estas dúvidas, às quais se juntavam as incertezas e hesitações dos seus generais, que se decidiu pelo avanço na noite anterior, antes de retirar para o seu quartel-general em Mortágua deixando ao 2º corpo de exército de Reynier  a difícil missão de experimentar , ao romper da manhã , as dificuldades do terreno e a força que, espera, lhe faça oposição ou se retire depois de atrasar a marcha dos franceses como vem sendo hábito.

Não é fácil nem ligeira esta subida da serra para uma infantaria equipada com uma pesada mochila de campanha e o respectivo armamento. São mil e quinhentos metros entre declives e rochas, moitas, arbustos, matos e obstáculos vários, entrecortadas por taludes e leitos de riachos secos e outros obstáculos físicos, além dos trezentos metros de cota entre o ponto de partida e o ponto da chegada, o campo de batalha.

Cedo começa a esforçada marcha pela escarpada encosta acompanhada pelo rufar ritmado dos tambores, com os ligeiros a abrir o espaço á escaramuça dos postos avançados, logo seguidos pelas casacas azuis da infantaria em colunas a cinquenta homens que se foram dispersando e reajustando conforme e á mercê das dificuldades do terreno. Ainda assim mantêm a disciplina e o sentido da marcha , pronta e decidida.

Quer Graindorge , quer Sarrut, quer outros oficiais , dão o exemplo, incentivando  homens que duma forma esforçada  e continua sobem  sem hesitações para o difícil e praticamente desconhecido objectivo. São velhos e destemidos heróis de Napoleão calejados pela dureza das lutas e arrojo das vitórias por uma Europa conquistada palma a palmo, experientes e confiantes na sua força e valor.

Uma hora depois do início, começam a surgir dispersos no topo da montanha os primeiros soldados da infantaria ligeira, os chamados voltigeurs, criados pelo imperador para preceder o grosso das colunas desorientando o inimigo e fustigando os postos avançados. Foram recebidos com cargas de fuzilaria e tiveram lugar as primeiras escaramuças. Um imberbe francês cai sobre o tambor e mantém-se agarrado a ele enquanto á sua volta se vai formando uma poça de sangue. Foi atingido pelo tiro certeiro duma carabina backer dum atirador escocês. Os companheiros seguem a marcha sobre os corpos de mais dois ligeiros abatidos igualmente pelos mortíferos disparos enquanto um sargento grita para a primeira linha: -Cerrar fileitas, cerrar fileiras !!!

A compasso com o toque dos tambores surgem então as colunas em linha dos infantes das brigada Graindorge  e  Sarrut, esta a primeira a atingir o alto . Devido ao nevoeiro desviam-se para a direita de Stº António e aproximam-se da cumieira  ao ritmo do  pas de charge  que empolga os velhos soldados e os faz disparar  correndo  com gritos de vivas ao imperador. Mas neste palco íngreme e impróprio para batalhas , os passos são pesados e o correr extenua .

 -Vive l’empereur, vive l’empereur !!!! E prosseguem.

Ainda embalados pelo esforço da subida a brigada Sarrut arrasta na sua frente o regimento português de infantaria 8 enquanto a brigada Graindorg pela direita, tenta envolver o flanco da divisão Picton. Isto acontece á frente do posto de comando onde Wellington observa o desenrolar da batalha e é ele próprio que dá ordem á artilharia para varrer os flancos dos atacantes com as seis peças postadas á sua frente.

Na primeira arremetida os franceses conseguem sustentar-se alguns momentos na posição alcançada mas logo avança a Infantaria 9 e 21 da 8ª brigada portuguesa e os ingleses do 45 e 88 de Wallace avançam á baioneta calada com grande determinação, levando de vencida o inimigo que sem forças para impor a breve posição conquistada e dar seguimento ao movimento iniciado, debanda serra abaixo depois de renhida luta corpo a corpo com perdas para os dois lados. No combate é ferido gravemente com várias cutiladas o general Graindorge que é retirado precipitadamente do cenário da luta e transportado ás costas na súbita retirada, pelos seus soldados. Estão entre os lugares do Cerquedo e Stº António e não regressam á peleja.

 Ao mesmo tempo, e a um quilómetro de distância para sul, o regimento 31 da divisão Heudelet atinge também o cume entre descargas da artilharia portuguesa sob o comando de Arentschild e por momentos apodera-se da posição fazendo estrago nos regimentos portugueses. Aqui a força dos invasores consegue manter a posição por mais tempo e só  a chegada da brigada Champalimaud , dos ingleses da Barnes, da deslocação dos batalhões da Leal Legião Lusitana,  do reforço do 88 de Wallace e do próprio Infantaria 8 vindo do primeiro combate , conseguem recuperar terreno  e suster a movimentação inimiga. Juntam-se ainda de forma impetuosa os milicianos de Tomar, a infantaria 1,9 e 33e as divisão Spencer e Leith  deslocada da Portela de Oliveira. Foi num instante que a situação mudou mercê do potencial de fogo conseguido pelos anglo lusos que num repente obrigaram os franceses a recuar e descer a serra de forma desorganizada entre gritos e impropérios. De nada valeu a aproximação da brigada Foy que a metade da encosta procurava subir e reocupar o lugar perdido pelos companheiros de Heudelet. Não conseguindo suster a retirada e perante o apoio de novo reforço inglês, as forças de Hill, retirou também Foy desorganizadamente, arrastando na fuga os sobreviventes do primeiro assalto mais os que, apanhados na debandada, a ela se juntam indiscriminadamente. A derrota é total.

Foi grande a mortandade durante a fuga, quer pela determinada carga de baioneta dos aliados, quer pelo fogo das baterias de artilharia magnificamente posicionadas na encosta e que não deram tréguas sob o comando em alguns momentos do próprio Wellington que assiste á peleja, dizimando, quer no assalto, quer na fuga, os flancos inimigos.

Refira-se que foram utilizados, depois de se terem sido ensaiados em 1808 na batalha da Roliça, os temidos srapnels a que os franceses, admirados, chamaram biscainhos e que eram nem mais nem menos que granadas ocas carregadas de balas que após o rebentamento se dispersavam para baixo a para a frente causando grandes baixas entre os franceses. Segundo alguns oficiais de Massena, foram a causa do maior número de mortes verificadas.

Às soberbas posições da artilharia aliada nunca conseguiram responder as baterias de Reynier encurraladas nos fundos dos vales, sem hipóteses de funcionar e participar na luta, manietadas pelas condições impróprias do terreno, um abismo impossível de ultrapassar pelas armas pesadas.

Entres os franceses contaram-se 300 mortes no regimento 31 de Heudelet, 670 na divisão Foy e 1000 na divisão Merle de Graindorg e Sarrut.

Do campo de batalha foram retirados mortos e feridos, entre eles muitos oficiais cuja situação particular dá a medida da ferocidade dos combates, como o caso do coronel Mounnier do 31 de ligeiros que depois de atingir o cimo da montanha á frente das suas tropas  morreu crivado de golpes, ou o coronel Amy do 6º regimento a quem foi decepada a cabeça, ou ainda Bechaud do 66 de linha partido ao meio pelo rebentar duma bomba. Merle e Foy, comandantes de divisão que participaram nos combates, saíram também gravemente feridos e o comandante da Brigada Champalimaud das tropas aliadas foi igualmente retirado em muito mau estado. Por sua vez o general Graindorge comandante da segunda brigada da divisão Merle que á frente  do quarto regimento foi dos primeiros a escalar a montanha até ao cume onde foi gravemente ferido , acompanhou  depois num carroção, em grande sofrimento, a retirada do exército pelo Sardão e Boialvo vindo a morrer ás portas de Coimbra, no lugar do Carqueijo , no dia 1 de Outubro , em consequência dos ferimentos recebidos. Tem o seu nome gravado entre os heróis de França no lado oeste do Arco do Triunfo, em Paris.

publicado por Peter às 12:28
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