Terça-feira, 29 de Agosto de 2017

SILVEIRAS DA VIA SACRA

DSC_0809[1].JPG

Um "bonito" aspecto da Via Sacra da Mata Nacional

do Buçaco, ou seja, uma das muitas silveiras que

abundam no espaço entregue á fundação que a gere. 

Esta foto, e centenas de outras que se  podem

reproduzir , não fazem parte duma exposição que 

ocupa todo o Verão o salão do chamado "Casino do

Luso", para tapar os olhos do cidadão.

O perigo de incêndio que pesa sobre o património

nacional é grande perante a leviandade dos que 

fazem e representam os políticos. 

Na foto,de ontem, se pode ver, limpo, sem tretas!

publicado por Peter às 13:11
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Quinta-feira, 16 de Abril de 2015

1904-POSTAL

1904.jpg

 Este postal do Buçaco, carimbado em Lisboa Central em

23 de Junho de 1904 é do tempo da monarquia e dos primeiros

tempos também da existência do  Grande Hotel do Bussaco,

como é chamado na legenda. Tem quase 111 anos desde

a circulação e mostra a pujança da freguesia do Luso á época.

Deixamos o  postal para contrastar o mundo de então com

o mundo de declínio em que vivemos nos dias de hoje.

O espirito era bem diferente e as pessoas também, numa era

em que se davam primeiros passos no mundo da hotelaria

e do Turismo

 

publicado por Peter às 21:48
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Segunda-feira, 6 de Abril de 2015

SEGUNDA-FEIRA

pascoafeliz.jpg

 Esta fotografia batida há 25 anos em Vale dos Fetos não tem

grande qualidade, mas tem a virtude de  mostrar vegetação 

abundante e tratada. Na segunda feira de Páscoa, era hábito 

antigo na freguesia fazer  um regalado farnel, juntar o folar pascal

e subir á Mata para almoçar e passar a tarde. Em família. 

A Mata do Buçaco era um pouco  da morfologia interior de

cada um,  batia no coração  do burgo com um  amor diferente

e  correspondido.Hoje, novos tempos, novas gentes ,

é propriedade de causalidades, objecto de interesses  e

poderes que a tem destruido e descaracterizado . 

Para os leitores que tem a bondade e paciência de me ler, 

desejo uma boa quadra Pascal.

 

publicado por Peter às 18:01
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Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2015

PORTA DO LUSO

 

porta luso.jpg

 A Porta do Luso (ex-Serpa) da Fundição Perseverança colocada em 1860

178- PORTA DO SERPA E DO LUSO

 Em 1860 era a porta do Serpa de que falamos no post anterior estreita e acanhada e já não suportava o movimento que desde a sua abertura, cerca de vinte anos antes, tomara como entrada principal, enquanto as duas antigas portas, de Coimbra e de Sula, perdiam a sua primordial importância. A pequena Porta do Serpa e a Porta da Rainha, esta desentaipada desde 1852 eram agora por onde mais gente entrava na Mata, mercê da expansão do termalismo e da elevação progressiva do Buçaco a estância de repouso.  Isto levou  á remodelação da velha Porta do Serpa que em 1866 foi alargada e dotada dum moderno portão em ferro, fundido em Lisboa pela Companhia Perseverança, mestres da fundição em Portugal. Um pórtico com grades em ferro, pilastras e cantarias, as armas Reais e as armas do Carmelo a encimar a obra de arte e a definir a autoridade e a propriedade da floresta. Foi rebaptizada a porta com o nome de Porta do Luso, que abria para um terreiro espaçoso que passou depois a dar acesso á nova estrada da meia encosta que rasgada sobranceira ao Vale de S. Silvestre, passou a proporcionar um melhor acesso aos muitos visitantes do extinto mosteiro.

Ao movimento oferecido pela estância de repouso situada no âmago da floresta junta-se entretanto o dos aquistas das Termas do Luso que no ano de 1852, quando se começaram a registar e contabilizar os dados, foram 498 e no ano seguinte 602, curiosamente mais banhistas que no ano recente de 2013. Em 1856, o número de termalistas subia para 1447, portanto seis anos após a instalação da primeira Comissão dos Banhos do Luso em 27 de Fevereiro de 1850. Esta população estival repartia-se entre o Luso e o Bussaco e veio a crescer até aos quatro mil utentes nos melhores anos de exploração.

alegre.jpg

 Fotografia do Luso na segunda metade do séc.XlX onde se pode

ver a Igreja e  o edificio do Conde da Graciosa, à direita,

construido a partir do ano de 1859, hoje Hotel.

Em 1887 foram comprados e anexados à Mata os 15 hectares de terreno pertencentes ao Marquês da Graciosa, que fez erguer em 1859 um belo edifício destinado a casa de férias do dito conde, e que hoje é um soberbo hotel, o hotel Alegre. Foi a primeira casa nobre, digamos assim, construída no Luso. Com a adição dos novos 15 hectares feita pelos serviços florestais, o espaço intramuros veio a perfazer os 105 hectares actuais.

Este facto deu origem á alteração nos muros da Cerca antiga e a porta do Luso, ex-Serpa,  no seu conteúdo físico foi transferida para a actual estrada de Penacova, metros antes do bairro dos Morgados, onde se encontra hoje em deplorável estado de ruína, igualando nesta matéria quase a totalidade do património nacional classificado do Buçaco. Chama-se oficialmente Porta do Luso, tal como se denominou nos seus derradeiros anos no sítio original, mas a população, mercê da representação de quatro aves no gradeamento do portão, baptizou o portão da Companhia Perseverança de Portão dos Passarinhos. Vamos voltar a falar dele no próximo post e documentar o  estado ruinoso em que se encontra esta obra de arte da fundição nacional , mais um património a perder-se na inconsciência da pátria.

publicado por Peter às 16:00
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Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2015

PAUL GAUGUIN

gauguin

 De Paul gauguin , o quadro mais valioso do mundo,

intitulado ´'Nafea Faa Ipoip' em lingua polinesa, 'quando

te casarás' em lingua portuguesa,

O quadro a óleo acima, de Paul Gauguin, foi vendido

recentemente  a um investidor do Qatar por cerca de

300 milhões de  dolares, uma venda que  bateu todos os

records de vendas  anteriores , deixando a quarenta

milhões de distância o ex-record, agora segundo  classificado

neste rankink de pinturas, onde  o nosso Senhora 

do Leite, queimado vivo à luz da vela, não passaria dos

100 mil euros de valor. Uma ninharia!!!!!!!!

cezanne.jpg

  O agora segundo classificado, por ordem de vendas é a

tela supra

Como tudo é relativo e a nossa pobreza é endémica, o

Josefa de Óbidos era decerto valioso  dentro do nosso

mercado. Ficamos com uma ideia, ainda que mínima do

mercado respectivo. A incuria, evidente, não é a mesma!

publicado por Peter às 18:14
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Sábado, 9 de Agosto de 2014

ERMIDA DA ASSUNÇÃO

Ermida de Nª Srª da Assunção, fundada pelo Conde de Miranda

D.Diogo Lopes de Sousa que deixou de esmola quarenta

alqueires de trigo, pagos anualmente para sustento do ermitão.

É hoje uma edificação despedida , em ruina completa,

acima da Fonte Fria. (Novo Guia Histórico do Buçaco)

 

O interior da mesma Ermida e uma pergunta :

Onde estão os milagres e a eficiência das fundações???

Para que servem?

È assim que se respeita e reconstrui o património?

 

 

publicado por Peter às 19:28
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Quarta-feira, 22 de Setembro de 2010

ONDE FOI A BATALHA ?

 

 

 

 Fotografia actual do Moinho da Moura, freguesia de Trezoi, concelho de Mortágua,

que serviu de Posto de comando a  Massena.                                      (foto do autor)

 

Temos vindo a assistir ás comemorações do segundo centenário da Guerra Peninsular cujo momento principal ocorre em 27 de Setembro  próximo  no que concerne à Batalha do Bussaco.

Foi uma fase dramática do nosso percurso comum que deve e está a ser lembrada um pouco por todos os palcos de então, ainda que os tempos actuais sejam de desvalorização  e banalização dos acontecimentos, parte integrante de lutas internas que fazem ainda hoje do espaço europeu uma fronteira em consolidação.

Acontece que as comemorações no que diz respeitam à batalha em referência, são levadas a efeito no município da Mealhada, área administrativa que parece chamar a si o exclusivo do evento e, pressupõe-se também o cenário dos ditos acontecimentos. Nada de mais errado.

Não sabemos os porquês deste estranho exclusivo pois a história pátria ainda não foi mudada nem se pode mudar ao gosto de qualquer oportunidade política e sendo assim, manda essa mesma verdade histórica e o rigor que a legitima desmistificar o erro, pois na realidade em relação à Batalha do Bussaco não se deu um tiro sequer no então concelho da Vacariça, concelho entretanto extinto e que passou a chamar-se da Mealhada.

Todo o desenrolar bélico desta contenda entre o exército francês de Massena e os anglos lusos se desenrolou na sua primeira fase no concelho de Penacova, distrito de Coimbra, encostas de Santo António do Cântaro, freguesia de Carvalho,e numa segunda fase no concelho de Mortágua, distrito de Viseu, vertentes do Moinho de Sula, freguesia de Trezoi.

O então concelho da Vacariça onde se situava geograficamente o Convento Carmelita, abrangia, como abrange ainda hoje, uma parte da serra e apenas essa pertencia à então Vacariça, na freguesia do Luso. Na sua maior parte a serra pertence ao concelho de Penacova no distrito de Coimbra, tendo ainda uma pequena franja de terreno no concelho de Mortágua e uma outra no próprio concelho de Coimbra e não se limita á Mata Nacional , que é uma pequena parcela ,pouco maior que os 105 hectares que limitam o velho convento carmelita.

O concelho da Vacariça , na vertente oposta à luta, serviu  de passagem e apoio, serviu  em termos logísticos , como serviram outros concelhos limítrofes dentro das estratégias montadas pelos generais Wellington e Massena , desde os caminhos tomados por Almeida, Mangualde ou Viseu,  depois Tondela  e Santa Comba Dão e mesmo depois da luta, Anadia ou Àgueda e outros. É  verdade que funcionou na freguesia do Luso um hospital de sangue, é verdade que alguma oficialidade britânica subtraiu  aos frades carmelitas os  aposentos para ali se instalar , é verdade que a cavalaria aliada foi colocada perto da Mealhada  por se pensar ir ser inoperante face á morfologia do terreno. Mas também é verdade que a maioria dos batalhões e regimentos dum e doutro contendor permaneceram uma semana na serra, fora do concelho  da Vacariça,  percorreram durante esse tempo os  concelhos vizinhos , roubaram, destruíram e mataram populações locais e isso não aconteceu no concelho da Vacariça. Aqui , não se desenrolou o acto físico da luta e nem um tiro se deu em defesa da pátria e dos interesses ingleses.  

Por isso se estranha a exclusividade das comemorações pois a Batalha do Bussaco envolveu  populações da região sobretudo, sublinho,dos concelhos actuais de Penacova e Mortágua, se não quisermos estender os factos ao percurso entre Almeida, Viseu e o campo de batalha. Deve referir-se até, que o concelho da Vacariça foi um pequeno oásis no cenário dantesco que foi o caminhar dos dois exércitos através do país, pois a freguesia do Luso, onde presumidamente poderiam acontecer factos relacionados com o fenómeno, nada registou para lá duma súbita dormida de Beresford na Lameira de Stº Eufêmea e duma subita passagem de Massena  na Mealhada após o desvio de exército por Boialvo e Avelãs.

Porque não podemos enganar a história nem os factos e nem os lugares onde se passaram as coisas, aqui deixo a titulo de rectificação, a estranheza por ver esquecidos, ou por ignorância, ou intencionalidade, não o sei dizer, os representantes actuais dos que então sofreram nas entranhas os sacrifícios da luta, em abono da verdade e da honestidade intelectual, os municípios de Penacova e Mortágua. Deviam ser parte activa destas comemorações, pois eles foram o grande palco desta fase da  Guerra  Peninsular. Para além de Coimbra que já na retirada das forças  após o inconclusivo recontro , foi tomada e  rapinada , diga-se , por uns e por outros.

O rigor histórico não pode ser ultrapassado, nem pelo município da Mealhada, nem pelo Estado-Maior do Exército, nem pela Academia Portuguesa de História, entidades que parecem estar por trás das comemorações. Aqui fica a titulo de informação o que devia  ter sido feito e considerado por essas entidades.

publicado por Peter às 10:39
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Domingo, 19 de Setembro de 2010

BATALHA BUSSACO-3ª INV.FRADES -9

 

                                                                                                              

 A GUERRA DOS MONGES

 

 A manhã de 27 foi para os resignados monges de Santa Cruz do Bussaco de delapidação total das regras conventuais. Instalados na sua maioria no refeitório situado no extremo norte do Convento, os frades levantaram-se cedo, mal o general, eram quatro horas da manhã, saía com o seu séquito de ajudantes a demandar pela serra a disposição do exército e a perscrutar o disperso bivaque francês pelo longo binóculo que lhe chegava o adjunto a cada solicitação. Já os frades reunidos á volta da cruz central do dito refeitório, toda ela forrada a cortiça, iniciam as demoradas matinas com cantos e sacrifícios onde a autoflagelação era coisa comum. É uma sala grande a das comidas, mais comprida que larga e mais alta que as oficinas, as celas ou a própria livraria. Humilde, também forrada a cortiça tal como a cruz, janelas e portas, é ali que os monges se reunem á volta duma mesa de madeira, comprida, frugal e pobre.

Ao mesmo tempo que dão alívio ao estômago, conforme vão acabando as suas refeições, alguns deles encostam o corpo á grande cruz no meio da sala, abrem os braços como crucificados numa figuração de Cristo, o seu orago, e assim permanecem em silêncio ou a  chicoterar-se a si próprios expiando deste modo o pecado de ter comido. Em muitos dias comem no chão ajoelhados aos pares ou em trios. Colocam sobre a cabeça coroas de espinhos, vendam os olhos com largas faixas de pano preto, sorvem de mordaças que seguram na boca, entre os lábios, mistelas envinagradas e azedas. Não raro, em muitas ocasiões, carregam pesadas cruzes de madeira ou colocam sobre o dorso uma pesada albarda de asino, expiando desta estranha forma as culpas e os pecados cometidos.

Mesmo nestes dias de bulício militar, mais ou menos escondidos dos olhares curiosos de oficiais que passam oriundos das celas ocupadas, procuram mortificar-se o melhor, ou  o pior que podem , sendo o sacrifício mais comum  chicotadas nas lombares até a um rasgo de sangue assomar  na sua vermelhidão. Então cessam a cerimónia, tapam a ferida com o surrobeco do hábito e vão à sua vida. Regra geral desde a chegada do general tem-se moderado nos tormentos destes alívios de alma e a oração tem sido a principal mais valia obtida em favor do céu. O coro diário e o silêncio, contrastando com a balbúrdia instalada em toda a cerca, são onde passam o resto do tempo da penitência.

Ás quatro da manhã de 27 enxerga-se mal. Na prática é noite ainda. Acendem círios e velas trazidas da dispensa onde conservavam grande quantidade e ao passarem lentamente em frente de portas e janelas parecem sombras fantasmagóricas denunciando um culto iniciático macabro sob o esticado capuz de burel da vestimenta, ritmado no intervalo de cada passagem breve.

É pelo romper estrondoso do silêncio habitual no ermitério que dão conta da estranheza da manhã. Ainda que de longe, chegam ecos, sons dum outro mundo que lhes é diferente mas não indiferente, até aromas, enviados pela ligeireza duma brisa que lhes fere a pureza habitual dos odores da solidão cujos bálsamos, oriundos da própria natureza em sopros leves de brisa ou ventanias medonhas, conhecem bem. Hoje, quando o alvor da manhã

clarear em definitivo ,talvez bruscos e incómodos, os ruídos hão-de aumentar, os sons bailarão de direcção em direcção   e nas salas humildes forradas a cortiça penetrarão o medo e as vibrações assustadoras do troar dos canhões juntamente com  o cheiro  fresco da  pólvora que inundará as redondezas do mosteiro. È o que presumidamente pensarão estes eremitas, crentes ingénuos à medida do seu tempo, mas familiarizados com um mundo de injustiças, de violência e de guerras que conhecem bem. Permanecem um ano no refúgio para curar feridas destes desmandos mundanos, frequentemente dos seus próprios erros e exageros, na esperança dum perdão o mais tarde possível. No fim do tempo , cumpridas celas e ermo voltarão supostamente limpos e reconfortados aos malefícios da vida , depois desta limpeza intensiva dos problemas da  alma.

 Acabam orações e sacrifícios da fraca refeição e reúnem-se na igreja, o centro físico e coração do mosteiro. È um templo pequeno, cruciforme, humilde como as regras dos descalços e fechado por inteiro no interior do convento, envolvido em toda a volta pelos corredores das minúsculas celas. Não são todas assim todas as igrejas dos Descalços, mas esta é das primeiras a assumir uma arquitectura fidelizada depois da mais famosa de todas, em Batuecas nos confins de Salamanca.

 Não há riquezas à vista, banido o ouro e a prata o luxo passa pelo altar mor com um  Cristo crucificado gozando das companhias laterais  de  José , o carpinteiro,  e  Santa Teresa.  Ao fundo e separando a igreja do coro de dois degraus, um pitoresco presépio  reúne muitos figurantes à volta da manjedoura e do outro lado, em frente, olha embevecida a imagem discreta da Srª do Carmo. De realce, dum e doutro lado do altar, estão ainda duas figuras originárias dum desconhecido artista italiano, as figuras em barro de Madalena e do apóstolo Pedro. Talvez o que de mais rico possui o templo, não pelo valor intrínseco do material, mas pela expressão realista e sofredora dos actores representados. Pedro, a trair o seu mestre, Madalena, ainda jovem, expressando constrangido o fim dum amor divino. Resignada, tal como a figura barroca da Senhora do Leite numa tela datada de 1664 da autoria de Josefa de Óbidos e pendurada á direita, junto ao coro. È ali, sob o olhar materno dos leitosos seios que os frades se juntam a adivinhar o dia.

 Enquanto isto, Wellington faz um périplo á volta das suas tropas estacionadas ao longo do cume por onde corre um manto de nevoeiro matinal. Adivinhar o que se passa em baixo é a aposta mais certeira, além da tentativa de discernir entre o silêncio algo que seja diferente do fundo costumado. Sessenta mil homens armados para lá do horizonte visível falam sem dizer nada. Para lá dos sons, o ar, as ondas de calor e frio, não as de rádio que ainda não estavam descobertas, propagavam-se a instantes, o cheiro impregnava-se de cambiantes estranhos, alguns mesmo prenúncios vazios da ânsia e do medo espalhados em redor ou no silêncio dos homens esperando. A passarada, ainda que proibida por bula do papa Urbano, habita as frondosas árvores dentro da Cerca , mas também essa está calada e os galos madrugadores, ainda que o pudessem fazer, foram cozinhados por tanta gente com fome.

A expectativa é grande, o receio também, a tensão agiganta-se com o madrugar da noite. Os sinais, para militares experientes são reconhecíveis, mas não o são assim familiares para o recruta português saído da reorganização de Beresford , que  pela primeira vez vai demonstrar em combate a sua capacidade e valor, uma estreia tão imponderável como absoluta que faz tremer o comando inglês como varas verdes. Vai pertencer a estes homens mal vestidos, mal armados e mal calçados, a expensas do governo inglês, o pendor dos resultados, daí as preocupações do lado britânico.

A manhã rompe dificilmente a neblina cerrada que se prolonga desde o nascer do sol impondo segredo montanha acima não se sabe por quanto tempo. Veremos que há-de descer ao contrário lentamente, primeiro rompida pelo sol nas partes altas, depois mais rapidamente a mostrar o conteúdo total da receosa paisagem liberta de sombras e assombrações, substituída dum momento por uma vaga de soldados que hão-de surgir prontos e escanhoados a trepar a montanha.

Para o comandante, que espera o desenrolar da acção no seu posto de comando, a batalha chega assim inesperadamente. Não faz parte de qualquer estratégia previamente concebida nem de planos arquitectados com objectivo e pormenores. A luta, se acabar por acontecer, é mais fruto do acaso que de outra coisa qualquer mas é evidente que esta situação acidentalmente vantajosa o obriga na prática a receber o corpo imperial de armas em punho, tão grandes são os trunfos que a sorte, como numa mesa de pocker, lhe coloca nas mãos. Observa, corrige, encoraja e aguarda confiante o levantar do dia quando surgem das profundezas dos vales que vão do Cerquedo à ribeira de Aveledo e ao rio Mondego os comandados de Reynier.

 

 

publicado por Peter às 18:10
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