Sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

FORMOSA MATTA

 

                                                                                                                                

   

                           

   BUSSACO,UMA FORMOSA MATTA    (carta)             

 

  Meu amigo. Conheço o Bussaco há largos anos, e não só a cerca dos carmelitas mas também a cinta de povoações e logarejos  que o circumdam e lhe matizam as faldas. Luso e Bussaco foram em tempos já remotos o centro das minhas digressões e o retiro das minhas férias grandes.

   Mas fazem differença as duas epochas; cinco lustros de intervallo alteram tudo radicalmente. Luso é hoje uma aldeia elegante, o Bussaco uma formosa matta modelo;

e noutro tempo a primeira era uma pinha de cabanas toscas afogadas em viçosas searas, o  segundo uma floresta espessa de sombras crepusculares. Os mesmos banhos tão afamados parecem outros; vemos um palacete  em vez d’uma choupana, tinas de mármore, para onde jorram as aguas por torneiras de bronze, em vez de tanques de madeira, onde brotavam espontaneas  as lymphas salutiferas.

  Levanta-se também hoje um soberbo obelisco , comemorando as glorias do nosso exercito em 1810; mas o monumento que as recordava era dantes a capella das Almas, destelhada pelas explosões e esburacada pelas balas.

  Quando me dirijo ao Bussaco pelo caminho de ferro da Mealhada ou em commoda carruagem pela estrada de macadam , em vez de me bifurcar na alimária asinina que noutros tempos me conduzia por máos caminhos e íngremes ladeiras, ainda assim, apezar das commodidades que gózo, lembro-me com saudade dos incommodos preteridos, e quasi que prefiro a antiga rusticidade do povoado , a matta fechada e a capella- monumento.

  E porque será assim?!...Será pelos perfumes da mocidade, que então me inebriavam a alma, pelas tintas mimosas que me coloriam o quadro da vida?...è por isso, é. E a montanha também era nova, assim como a aldeia. E parece que envelheceram ambas. E que as enfeitaram e arrebicaram para lhes disfarçarem as rugas senis!...

   Quando saímos da cidade para viver vida montezinha, parece-me contrasenso transportarmos connosco os palácios e regalos urbanos; e , peior ainda, abatermos as arvores seculares para desbastar o caminho ás traquitanas de luxo. Uma casa nobre numa várzea de milho não é menos desproporcionada que uma casa de colmo em calçada sumptuosa; o desequilibrio é o mesmo. E derrubar as florestas  e desfazer as sombras, entornar o sol no intimo recesso dos bosques é desacato capital, que a razão reprova e o bom gosto condemna.

    E fui-lhe falar em bom gosto… Não há coisa mais avessa ás obras modernas do Bussaco…Cricificaram-no, coitado, depois de o terem arrastado pela via da amargura. A Fonte Fria foi o seu calvário.

  (  Gomes de Abreu ,carta dirigida a Augusto Mendes Simões de Castro, 1847, Guia Histórico do Bussaco, Coimbra, Imprensa da Universidade,1875,Grafia original ,titulo adaptado pelo autor do blog )

 

publicado por Peter às 23:50
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