Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

BURRIQUEIROS

 

                                                                                                                         

                  

 

               

 

                                                                                                                                

                                                                                                                                 

                                                      

 

 

   HISTÓRIA BURRIQUEIRA

   

    Em 1950 ainda existiam burros no Luso e no Buçaco em plena actividade empresarial, isto é, fazendo o transporte de clientes para a serra, do Buçaco para as Almas, para a Cruz Alta ou para qualquer outro percurso combinado entre ofertante e utilizador.

   Cavaleiro sentado na macieza dumas gastas albardas, o burro conhecedor instintivo do caminho e o burriqueiro atrás, de vergasta na mão, tocando a azémola ou sacudindo as moscas procurando transmitir ao ocasional ocupante o prazer de sentir as rédeas sobre as orelhas do asno imaginando-se veloz na garupa dum puro sangue ou a com a leveza dum Aladino sobre crinas enfeitiçadas cavalgando para um etéreo harém. O marketing não é descoberta de espertos dos nossos dias que apenas o elevaram á condição da cátedra para sacar uns cobres, pois como se vê, um simples e modesto burriqueiro do século passado pode testemunhar a necessidade, a que agora chamam ciência, de vender ilusões. Pelo melhor preço.

   Ir ao Palace Hotel custava cinco escudos, á Cruz Alta sete e quinhentos e á fonte do Castanheiro com paragem no garoto para beber um copo de água fresca e volta pelo Lusitano, ficava por vinte e cinco tostões. Para famílias, a viagem podia ter um desconto consoante as burras requeridas e as burricadas, brincadeiras mais abrangentes sujeitas a imprevistos e demoras, tinham uma taxa fixa um pouco mais elevada, mas tudo dependia da habilidade em fazer, para um e outro lado, um bom negócio.

  À noite, o Zé Posta recolhia as burras no Luso d’Além numas arcadas antigas debaixo da casa própria e fazia contas aos ganhos, á despesa dos animais, ao sustento, ás doenças e era depois da refeição comida á pressa noite dentro que as sacudia, limpava e deixava ficar prontas para na manhã seguinte reiniciar o negócio com a barriga cheia, estacionadas na avenida, acima das onze bicas.

    Coexistiam com um fotógrafo á la minuta na mesma fonte de S. João que fazia os sábados e domingos no Buçaco, por isso não é raro encontrarmos fotografias de burricadas, gratas recordações dos nossos avós, bisavós e veraneantes.

   No monte de Santa Luzia, em Viana do Castelo, ainda hoje existem estes velhos fotógrafos que são museus vivos dum passado não muito longínquo que nada tinha a ver com a rapidez dos nossos dias nem com a proliferação de aparelhos que surgiram depois desde os kodakes às câmaras digitais, aos próprios telemóveis e ás filmadoras de mão. Não há muito tempo ali me fiz fotografar com elegante companhia ao estilo antigo a quem dei fotos e chapas em preto e branco que hoje, por curiosidade, gostaria de ter.

   Coexistiam ainda no negócio dos transportes uma dezena de táxis (quem se lembra dum fiat balilla?) e não consta que existissem desavenças entre a competitividade duns e doutros, sinal de que os tempos corriam melhor nas termas e de que a mata do Buçaco era também um lugar de passagem, mas também motivo para estadia prolongada.

  Não precisei na exactidão da data em que nascem estas burricadas, mas não será difícil imagina-las em paralelo com o desenvolvimento termal e parecem ser um produto pioneiro do nosso turismo, o que significa, traduzindo para linguagem actual, um dos primeiros recursos entre a diversidade que faz hoje a oferta do pacote da actividade. Podemos rir destes primórdios recentes mas de facto em toda a primeira metade do século passado há noticias do recurso um pouco por todo o lado e ainda hoje restam nalguns lugares, por reactivação em experiências interessantes, algumas delas catalogadas como turismo de aventura, se bem que tenha sido sempre uma aventura andar de burro. Para além da teimosia, nos dias que correm o burro burro é uma raridade, embora o burro metafórico seja mais comum que a legitima e nos puxe, teimoso, para trás. Há ainda muitos.

  Ora um dia, nesses conturbados anos de cinquenta do século passado, regressava do Buçaco o Zé Posta com um par de burros no fim de mais um dia de jornada. Encarrapitava-se em cima da beltrana uma burra mansa, serena, tão habituada aos mimos do freguês como á chibata do dono ou ás ferradas das moscas e segurava pela trela o várzeas, um burro nascido debaixo da ponte, o que se pode dizer um burro burro de todo, de nascença e de ensinanças, á maneira da azémola do prodigioso Sancho Pança e de seu amo o senhor D. Quixote para sermos mais verdadeiros. Anoitecia. Na sineta do Convento deram sete badaladas finas, arremessadas em bruto como Frei Thomas das Mazelas gostava de fazer durante as guerras liberais, costume depois continuado por sucessivos guardas do mosteiro ciosos da tradição, desde que houve a confiscação dos bens em 1834 salvo erro.

   A mata estava em silêncio total como naqueles fins de tarde aprazíveis, quase divinos em que podemos escutar o nada que nos envolve como se não existíssemos. Nem o próprio mundo tem existência real nesses solenes momentos em que se ouve apenas o silêncio em toda a redondeza e as árvores são sentinelas mudas dos espectros soturnos duma tarde em queda lenta. Apenas o arre burro do Zé cortava de vez em quando a solenidade divina e o enxoto era empurrado pela aragem com a suavidade dum sonho. Foi neste marear sereno e cálido que se precipitou o acontecimento, pois dá-se que á mansidão da beltrana se opõe a brusquidão lazarenta do outro e quando desciam ao campo da bola para atalhar o caminho não é que o várzeas dá de zurrar e escoicinhar a beltrana num pinoteio de palco com cagatório de birra!!!!??? De imediato, o Zé, apertando nos calos a rédea que se soltava, foi no desequilíbrio, tombou no chão e por pouco não foi arrastado estrada abaixo a morder o pó nas tamancas. A custo, sozinho, puxou a burricada para casa com a vergasta em sarilho num badanal dos infernos.

  Tão maltratado que nem lhe apeteceu comer e ao outro dia, não de burra, mas de táxi, foi, por insistência da mulher, á endireita de Paraimo para lhe pôr duas costelas no sítio, tanto quanto o manso asno, por simpatia do outro, lhe pôs abaixo.

 -E se não vinha tão depressa, disse a curandeira depois duma massagem e de o entrapar em panos e aguardente, amanhã não se podia levantar.

   Deitado por alguns dias sobre uma arca de broa antiga, esticou-se quanto pode para endireitar a ossatura, descanso que a dureza da vida cedo atirou para a necessidade do trabalho que o verão não se podia perder ao sabor dos luxos da doença, sobretudo de quedas de burras , o pão nosso de todos os dias !

   Mas foi porém quando se queixou á santinha da aspereza e das dificuldades, da numerosa família e do azar que lhe batia á porta que a mulher, condoída de tanta mazela e chorosa lamuria o mandou em paz sem lhe cobrar um tostão.

  E o Zé, reconhecido, puxando da humildade e da gratidão que lhe perpassou pela alma, sinceramente, disparou:

  -Quando for ao Luso, pergunte pelo Zé da Posta, que lhe dou uma barrigada de burro como nunca levou na sua vida!!!!!

  Maio,2008   (Ferrazsilva in JM de 11/6/08)                                

 

                                                                                                                                            

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