Domingo, 2 de Dezembro de 2007

MANUEL ALVES

 

               

                                                                                                                         

          MANUEL ALVES

             Poeta Cavador

 

 Manuel Alves nasceu no lugar de Vale de Boi, freguesia da Moita, concelho de Anadia em 15 de Outubro de 1843, filho de Constança Alves ou Constança de Jesus, ou Constança Rosa e de pai incógnito. Foi neto materno de José Alves ou de José da Quinta e de Rosa Maria ou Maria de Jesus.

  Este bilhete de identidade simples e claro dado por um Conservador do Registo Civil pode dar e não dar uma ideia clara do que foi a sua vida, mas dará certamente que pensar a quem se interessar pelos homens e seus valores.

   Reinava em Portugal D. Maria II e o contestado ministro Costa Cabral e pouco tempo depois tinha lugar a revolução da Maria da Fonte época em que o nosso poeta cresceu entre fome, subserviência, dificuldades e, á falta de escolas públicas, no analfabetismo. Talvez por isso possamos dizer que Manuel Alves, Poeta Cavador, como mais tarde se lhe veio a chamar, foi um camponês do seu tempo que usou as grilhetas que o tempo lhe doou para sobreviver. Da fome, da miséria, dos contrastes, das revoluções, mas ainda de mães solteiras, de sofrimento, dor e morte. Talvez, mas também duma centelha de inspiração e conhecimento para reconhecer-se e realizar-se na poesia.

   Por volta de 1860 já Manuel Alves tinha uma aura de fazedor de versos e era conhecido na região da Bairrada. Como diz o seu biógrafo António da Silva Neves, pequeno, pobre, de olhar brilhante, mal vestido, espicaçado por uns, picado por outros, ia tecendo a sua fadário. Desafiava quantos cantadores e poeta populares lhe aparecessem, a todos vencia. Implantava-se no seu espaço com alguma prosápia, superioridade natural advinda das vitórias nos prelos com pimpões, safardanas.

         “ Cantar é para quem sabe

            Melhor é para quem escuta…”

.

       

                                                                                             

  Ora nesse tempo, a Romaria de Quinta Feira da Ascensão, no Buçaco, era na região a mais popular, aquela que juntava no ermitério deixado não havia muito tempo pelos frades conventuais, milhares de pessoas, não só toda a Bairrada ali caía, mas um centro muito mais dilatado e entre a caminhada, os folguedos, a feira, o almoço, a festa e até zangas e pancadaria, se desenrolava um dia diferente para toda a gente dos campos, alegre tradição que ainda hoje perdura na memória e nos hábitos de muitos.

   Era aí que o poeta, um grande amante do Buçaco, como iremos ver, debitava entre romeiros e oficiais do mesmo ofício a sua veia poética. Aí conheceu alguns amigos que lhe registaram as rimas, entre outro João de Deus, Guerra Junqueiro ou Tomas da Fonseca.

   O Professor Manuel Rodrigues Lapa, um anadiense autorizado, escreveu sobre o conterrâneo “ Há em Manuel Alves, o grande cantador da Bairrada, uma visão simples, ingénua, mas profunda das coisas da vida e dos homens, que nenhum poeta moderno soube ainda ter em grau tão afinado. As atribulações verdadeiras, não apenas imaginárias, dão á poesia desse cavador um tom rude de sinceridade, um acento de virilidade, que os nevróticos poetas de gabinete desconhecem em absoluto. Há mais monotonia, sem dúvida, nas trovas dos cantadores; o ritmo favorito e quase exclusivo é a décima; mas o que perde em variedade estrófica ganha em profundeza e generosidade de sentimentos.”

   Manuel Alves cantava de improviso e ao Buçaco, que era parte do seu chão, cantou

 

                 Adeus, cerca do Buçaco

                Adeus, real portaria

                Adeus, caveira mirrada

                Serás minha companhia

 

                Adeus, sagrados rochedos

                Onde vertem tantas fontes,

                Adeus, valeiros e montes,

                Adeus, altos arvoredos,

                Adeus, musgos dos penedos

                Que servem de santo ornato

                Adeus, tremendo aparato,

                Pintura do Santuário,

                Adeus, alto do Calvário,

                Adeus cerca do Buçaco.

 

                 Adeus, torres, adeus, sinos

                 Sois música dos finados;

                 Adeus, castiçais dourados,

                 Adeus, sacrários divinos,

                 Adeus, painéis cristalinos

                 Adeus, santa livraria,

                 Adeus, Filho de Maria,

                 Cravado de pés e braços

                 Adeus, memória dos paços,

                 Adeus, real portaria.

 

                 Adeus, santo monumento

                 Da santa religião,

                 Adeus quadro da Ascensão,

                 Adeus mata, adeus, convento;

                 Adeus, Cruz Alta, que ao vento

                 Ergues a fronte sagrada,

                 Adeus, tribuna dourada,

                 Adeus altar dos missais,

                 Adeus, santos imortais,

                 Adeus, caveira mirrada.

 

                  Adeus, cálix consagrado

                  Com sangue de Jesus Cristo

                  Adeus, Herodes Ministro,

                  Adeus, ó Judas malvado,

                  Adeus, alto do senado,

                  Próprio lugar de agonia,

                  Adeus, reis da gerarquia

                  Que ao mundo dais graça e luz,

                  Adeus madeiro da Cruz,

                  Serás minha companhia.

 

Bibliografia: Manuel Alves, O Poeta da Bairrada, 1991 Anadia, António Silva Neves, edição de autor;

Versos dum Cavador, 1993, Anadia, revisão de José Ferraz Diogo , Câmara Municipal, Anadia

                

 

            

 

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publicado por Peter às 23:43
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