Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2013

A FURIA DO VENDAVAL

 

 No Telejornal da Televisão

 

 Não é a primeira vez que a Mata do Buçaco é destruída por causas naturais. De facto, o terrível ciclone de 15 de Fevereiro de 1941, ainda na memória de alguns sobreviventes, entrou na floresta com idêntica violência e causou graves prejuízos abatendo centenas de árvores. O proprietário, no caso o Estado português, ressuscitou-a replantando e levando a cabo as obras de reconstrução e o tempo alongou-se por anos e anos para dar tempo  ao tempo necessário  para a regeneração natural.

Não sabemos se irá acontecer o mesmo desta vez, esperemos que sim, que os responsáveis e os que aqui acorreram para fins de  prestígio  próprio, arranjos de fundos comunitários e outras bem aventuranças, estejam á altura dos acontecimentos.

Nós, os que escrevemos estas linhas sem um cartão partidário, não temos força para exigir, somos uns pobres de Cristo quer na cidadania, quer na consideração que o poder instituído, a democracia, tem por nós, para além da medida em que servimos para lhes governar os bolsos. Por tal motivo não há muito mais a dizer, para lá do choradinho habitual, para lá da estranha  ditadura democratica em que vivemos.

Numa página dessa também estranha coisa que se chama facebook deixei uma nota pessoal ainda a quente que vou deixar aqui transcrita a frio. Dizia assim:

 

 Cedro de S.José,forte de tronco,frágil de copa

 

“Á maneira pouco cuidada com que tem sido tratada pela fundação a Mata Politica do Buçaco, mas que na verdade é uma Mata Nacional, juntou-se a violência das forças da natureza como que a completar o serviço. Castigo, diriam frades, se deambulassem ainda pelas ermidas em sofrimentos osseos e dores de alma precisas de arrependimento.

 Os paroquianos da política porém choram sobre a sobranceria, a arrogância e as habilidades das gestões da curiosidade confundida entre bosques e cimento. Os primeiros gritos aflitivos perante o problema  foram por dinheiro, por peditórios até! Diga-se que os 44% da avaliação de que a gestora foi alvo estão bem assentes, ela terá a responsabilidade dos mesmos 44% que lhe são devidos pelas brincadeiras que  vão levando a cabo.

A Mata vai continuar a ser amada da mesma maneira por quem verdadeiramente a ama, se é que se pode amar uma Mata. Mas não é o soldo, nem o cartão partidário nem o oportunismo que amam a Mata do Buçaco. Quem a ama é a população da freguesia a quem ela é recusada. Aqueles que se lembram ou sabem do ciclone de 41 por testemunho directo ou transmissão oral . Os turistas bem informados por livros de todo o mundo e que percorrem os sitios por paixão .  Ingleses militaristas com a fobia das guerras,saudosos do passado, ambientalistas, caminheiros,  até os que, crentemente, sobem da Bairrada na Romaria da Ascenção ou recalcam a Via-sacra por orações  de penitência.

 

 Ermida sob ramos

 Hão-de chorar com o sentimento do amor ás coisas simples, ao berço, ás plantas, aos muros, aos liquenes, aos silêncios. Os mangas-de-alpaca, por outro lado, hão-de chorar o sentimento do metal, do partido, da regalia, do desenrasca, do oportunismo.Fazem-me rir as lamúrias dos milionários!

Porque a Mata, todas as Matas, por mais estima que se lhes possa dedicar, estão sujeitas aos rigores da natureza, á destruição das forças que nos superam a vontade e muitas vezes a vida. Nascem, crescem,vivem,morrem.

Se for recuperada por quem sabe destas coisas, felizmente este país já forma engenheiros na matéria florestal, há-de regenerar e voltar a ser o que era.

O tempo, o saber, o amor e a profissão farão o milagre natural, não se dúvide e mais e melhores cuidados de futuro podem ajudar a conservar o património agora destruído.

Os arbustos cortados, o chão rapado e arroteado, as regueiras entupidas, os cortes desenfreados de árvores, as clareiras abertas, o cedro de S. José ao abandono partido que foi o suporte de aço que o sustentava á anos, as ribeiras obstruídas, a proibição de entrada no bosque dada aos primeiros socorristas do espaço que são os moradores da freguesia, a criação de anticorpos entre a gestão e os naturais, deram a todo o processo da Mata Nacional do Buçaco um ar de intrusão e posse de muito pouca sensibilidade para o coberto e para os humanos.

Mas não foram estes factos que destruíram a Mata, tal como em 1941, foi o ciclone, o vendaval, a tempestade, porém, não pode passar em claro uma advertência, se a gestão fosse profissional, cuidada e de sabedoria, bem poderia ter sido mais reduzida a dimensão dos estragos provocados.

 Antigas cocheiras e garagem

 

 Tal e qual como aquela história dos azevinheiros no inicio do mandato, também ali, se houvesse uma gestão com um mínimo de bom senso, dezenas de azevinheiros, árvore protegida, não teriam sido cortados pelo tronco rente á terra  mãe e não teria passado em claro mais um crime, entre os muitos que nesta nação são branqueados pelo poder.

Nesta conformidade, faço votos por uma rápida recuperação da floresta do Buçaco, mas duvido que, na mão da gente que ali opera, seja feita com a eficiência que se exige. Se assim não for, pode a cura ser bem pior que o vendaval da natureza.

É uma opinião pessoal.

publicado por Peter às 19:12
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