Quinta-feira, 28 de Março de 2013

O POETA MANUEL ALVES

 

                                                                                

  

UM AMANTE DO BUSSACO

 

 Manuel Alves nasceu no lugar de Vale de Boi, freguesia da Moita, concelho de Anadia em 15 de Outubro de 1843, filho de Constança Alves ou Constança de Jesus, ou Constança Rosa e de pai incógnito. Foi neto materno de José Alves ou de José da Quinta e de Rosa Maria ou Maria de Jesus.

  Este bilhete de identidade simples e claro dado por um Conservador do Registo Civil pode dar e não dar uma ideia clara do que foi a sua vida, mas dará certamente que pensar a quem se interessar pelos homens e seus valores.

   Reinava em Portugal D. Maria II e o contestado ministro Costa Cabral e pouco tempo depois tinha lugar a revolução da Maria da Fonte época em que o nosso poeta cresceu entre fome, servilismo, dificuldades e, á falta de escolas públicas, no analfabetismo. Talvez por isso possamos dizer que Manuel Alves, Poeta Cavador, como mais tarde se lhe veio a chamar, foi um camponês do seu tempo que usou as grilhetas que o tempo lhe doou para sobreviver. Da fome, da miséria, dos contrastes, das revoluções, mas ainda de mães solteiras, de sofrimento, dor e morte. Talvez, mas também duma centelha de inspiração e conhecimento para reconhecer-se e realizar-se na poesia.

   Por volta de 1860 já Manuel Alves tinha uma aura de fazedor de versos e era conhecido na região da Bairrada. Como diz o seu biógrafo António da Silva Neves, pequeno, pobre, de olhar brilhante, mal vestido, espicaçado por uns, picado por outros, ia tecendo o seu fadário. Desafiava quantos cantadores e poeta populares lhe aparecessem, a todos vencia. Implantava-se no seu espaço com alguma prosápia, superioridade natural advinda das vitórias nos prelos com pimpões, safardanas.

         “ Cantar é para quem sabe

            Melhor é para quem escuta…”

  Ora nesse tempo, a Romaria de Quinta Feira da Ascensão, no Buçaco, era na região a mais popular, aquela que juntava no ermitério deixado não havia muito tempo pelos frades conventuais, milhares de pessoas, não só toda a Bairrada ali caía, mas um centro muito mais dilatado e entre a caminhada, os folguedos, a feira, o almoço, a festa e até zangas e pancadaria, se desenrolava um dia diferente para toda a gente dos campos, alegre tradição que ainda hoje perdura na memória e nos hábitos de muitos.

   Era aí que o poeta, um grande amante do Buçaco, como iremos ver, debitava entre romeiros e oficiais do mesmo ofício a sua veia poética. Aí conheceu alguns amigos que lhe registaram as rimas, entre outros João de Deus, Guerra Junqueiro ou Tomas da Fonseca.

   O Professor Manuel Rodrigues Lapa, um anadiense autorizado, escreveu sobre o conterrâneo “ Há em Manuel Alves, o grande cantador da Bairrada, uma visão simples, ingénua, mas profunda das coisas da vida e dos homens, que nenhum poeta moderno soube ainda ter em grau tão afinado. As atribulações verdadeiras, não apenas imaginárias, dão á poesia desse cavador um tom rude de sinceridade, um acento de virilidade, que os nevróticos poetas de gabinete desconhecem em absoluto. Há mais monotonia, sem dúvida, nas trovas dos cantadores; o ritmo favorito e quase exclusivo é a décima; mas o que perde em variedade estrófica ganha em profundeza e generosidade de sentimentos.”

   Manuel Alves cantava de improviso e ao Buçaco, que era parte do seu chão, cantou

 

                Adeus, cerca do Buçaco

                Adeus, real portaria

                Adeus, caveira mirrada

                Serás minha companhia

 

                Adeus, sagrados rochedos

                Onde vertem tantas fontes,

                Adeus, valeiros e montes,

                Adeus, altos arvoredos,

                Adeus, musgos dos penedos

                Que servem de santo ornato

                Adeus, tremendo aparato,

                Pintura do Santuário,

                Adeus, alto do Calvário,

                Adeus cerca do Buçaco.

 

                 Adeus, torres, adeus, sinos

                 Sois música dos finados;

                 Adeus, castiçais dourados,

                 Adeus, sacrários divinos,

                 Adeus, painéis cristalinos

                 Adeus, santa livraria,

                 Adeus, Filho de Maria,

                 Cravado de pés e braços

                 Adeus, memória dos paços,

                 Adeus, real portaria.

 

                 Adeus, santo monumento

                 Da santa religião,

                 Adeus quadro da Ascensão,

                 Adeus mata, adeus, convento;

                 Adeus, Cruz Alta, que ao vento

                 Ergues a fronte sagrada,

                 Adeus, tribuna dourada,

                 Adeus altar dos missais,

                 Adeus, santos imortais,

                 Adeus, caveira mirrada.

 

                  Adeus, cálix consagrado

                  Com sangue de Jesus Cristo

                  Adeus, Herodes Ministro,

                  Adeus, ó Judas malvado,

                  Adeus, alto do senado,

                  Próprio lugar de agonia,

                  Adeus, reis da gerarquia

                  Que ao mundo dais graça e luz,

                  Adeus madeiro da Cruz,

                  Serás minha companhia.

 

Bibliografia: Manuel Alves, O Poeta da Bairrada, 1991 Anadia, António Silva Neves, edição de autor;

Versos dum Cavador, 1993, Anadia, revisão de José Ferraz Diogo , Câmara Municipal, Anadia

 FS

                

 

publicado por Peter às 13:12
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Quarta-feira, 13 de Março de 2013

BUÇACO, REPOR A VERDADE

 


 O Conselho de Ministros de 8 de Março último suspendeu o apoio á Fundação Mata do Buçaco. O diploma aprovado exclui as ajudas  através da atribuição de dinheiros públicos via Orçamento do Estado ou via Municípios. Esta decisão veio  criar a contestação entre as forças politicas concelhias sobretudo entre aquelas que criaram a Fundação e se apoderaram e envolveram na gestão daquele espaço acreditando que a solução Fundação resolveria o problema da Mata Nacional.

A meu ver, como venho defendendo, estão enganados. Por várias razões  a primeira das quais e principal tem a ver com a propriedade da Mata Nacional. Se a Mata é Nacional é do Estado e se é do Estado é ao Estado que compete fazer a respectiva gestão com dinheiro do Orçamento respectivo e não, como vem acontecendo, com o dinheiro da Câmara, que pertence e deve ser gasto em favor do património municipal.

 Tirar aos munícipes para gastar no nacional, não me parece correcto e não sei se os executivos municipais o podem e devem fazer. Desde a nacionalização de 1834 resultante da confiscação dos bens das ordens religiosas foi a floresta gerida pelo mesmo Estado através do Ministério da Agricultura, mas hoje, por insistências das autarquias, ciosas de lugares para colocar clientes e amigos, a Mata do Buçaco, como muitos outros bens, beneficiaram da leviandade do consulado de Sócrates para serem entregues a quem precisava de conservar e aumentar o poder do partido e controlar os votos internos do conjunto paroquial.

 Nesta linha, para a Mata do Buçaco foi escolhido pelos políticos um técnico de engenharia civil  , sem curriculum portanto, face aos muitos engenheiros florestais que tem hoje o país, aptos a satisfazer as exigências específicas do cargo. É a segunda razão, a da transparência na vida pública e da desarticulação do compadrio partidário que se forma após cada eleição. A credibilidade do sistema exige mudanças neste campo e é preciso que  as coisas sejam feitas com seriedade e profissiolismo e não como brincadeiras de crianças desrenposabilizadas.

  A terceira é sem dúvida o  estado degradado em que se encontra a Mata em termos de conservação, bastante pior do que no tempo em que imperava o Ministério, embora se lhe assacassem criticas nesta matéria. Hoje, quem conheceu o espaço, verifica que a degradação se agravou com a actuação da Fundação e os 105 hectares  estão bem piores  que na gestão anterior embora os actuais gestores defendam, por desconhecimento e turbação pessoal, os factos. É uma razão de peso, a terceira, que pode até comprovar-se através dos mapas Google streets recentemente postos em rede com algumas partes filmadas antes e nos princípios da gestão criada.

   Outra razão, a quarta, reside no facto de que no inicio deste  pouco eficiente mandato, por incúria dos novos  gestores , foram destruídos dezenas de pés de azevinheiro, arvore protegida, facto abafado nos caminhos das averiguações . Também no recente temporal que abalou o bosque, o cedro de S. José, o mais antigo da Mata, ruiu porque estavam partidos os cabos de aço que há dezenas de anos suportavam o exemplar. E a gestão sabia-o, foi alertada para o facto e nada fez pela defesa da árvore. É um fenómeno de importância extrema para a Cerca murada, a destruição deste recurso botânico secular.

 As relações entre a Fundação e as pessoas locais, os residentes da freguesia do Luso, Carvalho ou Trezoi, os primeiros apoiantes em catástrofes, que já várias vezes salvaram o espaço do alastrar dos fogos, degradaram-se pelas toscas normas e ridículas proibições impostas pelos novos proprietários senhoriais , absolutamente ditadores , cegos e sem qualquer sensibilidade ou respeito para com o meio onde se insere o bem. No próximo verão, se houver um incêndio na floresta, duvido que alguém acorra ao chamamento por socorro. Ou se virão a correr os brincalhões de Aveiro ou de Coimbra que se entretem aos domingos a espanejar as árvores .Quinta e pesadíssima razão da falência  do espaço e prova segura da insensibilidade botânica de quem o dirige.

   Finalmente, para não ir mais longe, é preciso não esquecer que esta Fundação foi recentemente avaliada em termos do trabalho levado a efeito. Pago por nós, portugueses e contribuintes.

Ora qual foi a nota atribuída á gestão? Um medíocre 44% , foi quanto valeu o trabalho realizado na ponderação mandada efectuar pelo próprio Estado , legitimo possuidor do bem.

  Será correcto colocar o dinheiro dos nossos impostos  a sustentar  serviços medíocres quando se passa fome neste país? Este é um facto mensurado e um facto grave. O dinheiro não é da Fundação, é dos impostos de cada português e em mercado, amigos amigos, negócios aparte. Em qualquer país  sério ou se demitiam os responsáveis ou seriam substituídos. Não percebo  mesmo porque razão se mantém em funções, contrariando a lógica duma sã e eficaz gestão da coisa pública. Será o bicho a espalhar as raízes? 

   Por isso, que se lhe retire o dinheiro dos contribuintes, é um passo sério e bem dado, mas falta ao Governo não deixar em suspenso o que diz respeito á Mata e para tanto, a solução correcta é fazer retornar o espaço á gestão anterior do próprio Estado proprietário, que não se pode abster nem alhear do quanto nos pertence a todos nós. Caso concreto da Mata Nacional do Buçaco.

  Se o Estado se alhear da Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, do Mosteiro dos Jerónimos, do Panteão Nacional, do Mosteiro da Batalha ,ou  doutro património comum, em que transformamos a memória e a alma dum povo já se si pobre , explorado e deprimido?

  

publicado por Peter às 23:31
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