Domingo, 1 de Abril de 2012

ETIMOLOGIA

 

            

 

         ETIMOLOGIA DE BUÇACO E OUTRAS HISTÓRIAS

  D esde a base da capela circular de Stº Antão , isolada no alto

dum penhasco,rompe da encosta um aglomerado rochoso que para

lá da citada capela se prolonga a oriente até ao terreiro do Calvário

e do Sepulcro. Foi neste segundo ponto que resolveram os construtores

da Via Sacra  figurar o termo da chamada‘Paixão de Cristo’,

claramente os atos finais da cerimónia evocativa

representando as últimas estações, e as ermidas do Calvário e

do Sepulcro que acrescentam á simplicidade dos Passos , a penitência

dos monges.

 Sai da rudeza deste chão, alçado sobre a penedia, uma vista livre  e

abrangente de grande beleza e solenidade. A seus pés, foi nos

finais do séc. XIX e principio do XX, destruída grande parte do velho

mosteiro de Santa Cruz do Bussaco,pertencente á Ordem dos Carmelitas

Descalços, e no seu lugar construído um palácio e pavilhão de

caça para utilização do rei D. Carlos, estruturas que a realeza não

chegou efetivamente  a utilizar  e que por falta de objectivos e dinheiro

se transformaram depois num hotel.

A beleza humilde dos pobres anacoretas , retirados de Sintra pela

presença da corte aquando da escolha do local para a instalação do

deserto, foi agora substituída,cerca de trezentos e cinquenta  anos

depois, pela presumida vinda do rei com o esplendor e o rebuliço da

mesma que incluiria sem dúvida nenhuma  o aparato duma clientela

inócua, viciada e  falida, todos os que  cronicamente sobreviviam

das gamelas reais e dos impostos lançados sobre o povo e que

impediram os frades de estabelecer o deserto em Sintra quando

da sua fundação.  

Mais ou menos como hoje, segundo os  excelentese claros

relatos de Eça de Queiroz e outros testemunhos da época entre eles as

figuras de Rafael Bordalo Pinheiro, o reino balançava na mesma

vergonha e banca rota e em lutas intestinais pela mudança de regime.

O desenho do cenógrafo italiano Manini, ao invés da voluntária pobreza

e rude talha dos eremitas apresenta-se pois conforme a ostentação de

reis e cortesãos, um conjunto arquitetónico manuelino e revivalista

que iria ser construído com o apoio da escola Coimbrã ,o calcário de

Ançã e o picão de Anacleto Garcia.

A magnificência do trabalho,dos rendilhados, da azulejaria,das salas,

do pavilhão de caça ,conferiu aos trabalhos um cunho de

beleza e qualidade que veio depois a servir para a instalação de um 

dos primeiros hotéis de luxo deste país que foi pioneiro na nova

industria nascente, a industria  do turismo e hotelaria.

Para chegar a este ponto intermédio, dele não se pretende passar,

foi preciso a perspicácia, a humildade, o misticismo e a paixão dos

frades que aqui habitaram  desde a primeira metade do séc. XVII,

dotando o espaço selvagem então existente , do convento e adereços

religiosos a par do património botânico pacientemente

plantado e garantido com amor e devoção. 

Dessa recolha transporte e plantação  com plantas do novo

mundo das mais variadas espécies, está por escrever a história

e a força com que o fizeram e assumiram em missão. 

Juntemos a estes espolios  botânicos e religiosos o pedaço  da invasão

napoleónica que se escreveu nas encostas da serra e teremos á

mão o  posto perfeito para um polo importante dedesenvolvimento

turístico de que este centro de Portugal precisa ,coisa que não

tem acontecido por falta de mãos  e de cabeças e também por

excesso de oportunismos , pensamento aldeão e

sucessivas visões tão atrasadas quanto anacrónicas.

   Esta é a história breve dum Buçaco concreto , outra  história,

a etimológica, não é clara ou não existe, resume-se a lendas e

invenções sem credibilidade, não só porque não há

testemunhos dos relatos como o enredo  de que são feitos é

pobre e frágil. Mesmo assim fala-se do berço das palavras e da

sua localização e por tal motivo vou repetir com os

costumados ingredientes,  histórias que estão contadas e que

eu próprio recontei.Vamos pois relembrar.

    Entre a capela de S. Antão por onde comecei este texto e o

terreiro do Calvário ,ziguezagueia serra acima uma estreita e

deslumbrante vereda , regra geral tão mal tratada que aqui e ali

pode desaparecer no vegetal, e que pouco antes de atingir  o já

citado terreiro no Sepulcro , margina  grossas e soltas penedias  

sobrepostas que fazem nos seus remates uma espécie de abrigo

ou gruta a que a empírica ciência popular chamou Cova do Negro.

Diz a lenda, que é disso que se trata, que em tempos não relembrados 

ali se instalou um perigoso bandido de cor negra fazendo daquele covil

um ponto de permanência  e de partida para os atos de ladroagem que

praticava sobre gados e haveres nas aldeias da vizinhança e de tal sorte

era insistente e cruel nas suas arremetidas que  chamavam as gentes 

á gruta donde  partia Cova ou Toca do Boçal, sabido que era então

o nome de Boçal aplicado aos negros de cor madura, pretos retintos

para os distinguir de mulatos e crioulos.Esta palavra boçal  terá o uso

e o tempo  burilado na gramática, dando  azo a Buzaco, Bussaco e

recentemente Buçaco.

 A contrapor a esta lenda brutal temos uma outra , a do velho e bom

ancião,um venerável habitante das redondezas que, junta com a anterior 

faz uma clara dicotomia entre o bem e entre o mal. Aqui, o bom homem

habita numa aldeia por ali perto e por questões de feitio , misticismo

ou  conveniência,muitas vezes procura a solidão do monte  para rezar

e fazer penitência ,premonizando  talvez a vinda dos eremitas.

Perder-se-á dias, semanas, meses na solitária imensidão dos montes

e , regressado ao povoado, perguntando-lhe vizinhos e conterrâneos

sobre o que fez e encontrou por lá, responde lacónico:

 --D’aquele monte saco bus !

    A mesma trama gramatical recompõe  silabas, palavras e surge a

mesma proposta,o Buzzaco, o Bussaco, o Buçaco dos nossos dias.

    Por fim, uma versão mais prática e atrevida , relaciona o Buçaco

um deserto que existiu no Lácio, Itália, no qual S. Bento, o fundador

da Ordem dos Beneditinos , passou três anos em obediente e humilde

penitência.

    Deste  facto  escreve a  cortesã e poetisa Bernarda Ferreira de

Lacerda no seu  livro Soledades do Bussaco:

 En aquellos siglos de oro

 Y venturosas idades

 Qual el Lacio Sublaco

 Solia el monte llamarse.

    A titulo de finalização,  direi que a primeira referência ao nome

Buzaco aparece em latim bárbaro no ano de 919 , numa doação do

lugar de Gondolim ao mosteiro de Lorvão. Diz assim:

com suas valles que discurrent de monte buzaco. (1)

 Em 1006 ,Froila Gundizalves doou ao mosteiro Vacariça o seu casal de 

Uillanoua subúrbio colimbrie inxta monte buzzaco…(1)

 Em 1016 , no Livro Preto da Sé de Coimbra , se refere:

in loco predicto Uaccaricia subtus mons buzaco território colimbrie.

 Sobre a primeira  lenda do negro boçal, existe um belo  texto

de Alberto Pimenta,contando em versos a história do ladrão

que terá dado origem á hipotese da primeira versão do nome.

 

(1-  ) Portugalia Monument.a História,V1,pág.14

 

( Escrito de acordo com o novo acordo ortográfico)

 

                                                                                                       

 

publicado por Peter às 22:42
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