Quinta-feira, 1 de Setembro de 2011

SE O PETROLEO DER À COSTA…

 

   Num trágico verão pleno de interrogações e crises também o mar e a praia não têm proporcionado aos seus utentes a normalidade sustentada do costume e o vento que empurra areias e as areias que fustigam a pele, têm sido os adversários principais de quem procura os raios de sol para torrar sob ele.

    Apesar disso um barco, melhor dizendo, uma nave de sofisticada tecnologia, faz na nossa frente, isto é, frente ao hipotético utilizador do banho no Oceano Atlântico, um trabalho de pesquisa intensiva sobre as camadas inferiores dos fundos marítimos procurando detectar jazidas de petróleo.

     Isto é o que lê o eventual banhista, como eu, já instalado sob o lençol de areia acima dum lençol de algodão comprado como puro a cem por cento e olhando o mar, enquanto se defende como pode das picadas da mesma areia que surge em reboliço a cada sopro mais afoito da ventania. Mais difícil ler a notícia dita acima no jornal aberto que, não sendo bem seguro, pode a qualquer momento voar e desaparecer sem que a correria consequente o consiga recuperar.

  Por enquanto diz o jornal que uma empresa canadiana pesquisa o ouro negro e que tem algumas, não afirmam que são muitas, hipóteses de o encontrar em quantidade e qualidade suficientes para uma exploração normal, isto é, rentável.

  Se assim fosse, penso á priori  e enquanto utilizador da liberdade das areias , talvez fosse algo de vantajoso para este país, não teríamos de o pagar a cem por cento como acontece agora, depois de termos passado pela rara oportunidade de o termos  encontrado em Santo António do Zaire , mas sem o engenho e arte para o poder descobrir e transformar em bombas de gasolina, urge agora quer alguém o procure por nós entre Mira , Tocha, Quiaios Figueira e Nazaré.

Talvez esse outro ouro angolano, a ter sido encontrado, fosse hoje uma empresa tipo galp , edp, tap , cp e outras mais, isto se o tivéssemos conseguido sustentar nas nossas mãos económicas safando-o á sua total entrega aos grupos da libertação. Seria no mínimo, o chorudo sustento de alguns administradores nomeados, juntamente com boas luvas e bons carros, telemóveis, viagens pagas, cartões de crédito, férias em Portofino ou nas Sheicelles, recompensa pelo suor e lágrimas de seus abnegados sacrifícios, além de famílias bem cotadas no aparelho subjacente. Este benefício para o cidadão nacional existiria neste mínimo, não duvido, outro tanto não sei quanto ao seu teor alagadiço, isto é, ao seu escorregar ao encontro do cidadão nacional, no seu todo, que é o que faz a nação.

Na nova busca, se as pesquisas tiverem êxito, duvido dos benefícios deste ouro preto e liquido para o país, pois sabemos que do ouro verdadeiro, amarelo e grátis que enchia caravelas e naus tempos depois do achamento e exploração do Brasil, nada se veio a beneficiar, excepto as enormes pedras de Mafra, alguns altares de talha dourada do mesmo e de alguns mais conventos e igrejas onde se regalam santos, e a pomposidade de reis ocos e bacocos que tiveram os habitantes deste reino sempre na conta de burros e ignorantes e portanto merecedores de grilhetas e arreios para que se não levantassem, por dever da submissão, do chão que lhes pertence.

 O ouro verdadeiro, amarelo como leitão saído dum forno a lenha, foi consumido pela importante elite da fidalguia e seus clientes, não sei se naquele tempo já existia o termo elite, se não, existiam as personagens e fará o leitor o favor de imaginar o que quero dizer com ele, certo é que o país ou o reino viu passar o ouro por um canudo, qualquer coisa como ver Braga pelo mesmíssimo instrumento nos nossos tempos modernos.

Por aqui se vê que a história não foi pródiga em cabeças, nem em solidariedades, nem em bem comum e acreditar hoje em coisa diversa perante a eventualidade de uns jactos de grude cuspidos do mar sem fim seria pura estultícia.

Olho o barco puxando cabos e cabos e imagino olhos robotizados a mapear os fundos. O petróleo não cheira, comprimido na fossilidade da sua condição. E peço para que não surja repentinamente como qualquer magia, sem tempo para fugir da praia que poderá poluir quando a grude saltar no ar ou regressar á água que a trará á costa.

Mesmo assim, alimentando temores desta natureza, deixo-me adormecer sossegado neste areal quase selvagem num intervalo do vento. Olho, talvez em sonho, não o distingo bem, e vejo a silhueta do cabo Mondego entrando pelo mar, ora diluída numa espécie de névoa esbranquiçada ora fustigada pelo soprar dos elementos na secura do ar. O barco sofisticado avança com lentidão, praticamente parou á frente do cabo, é uma espécie de ponteiro de relógio que anda constantemente sem se perceber caminhar. De certeza que a sonhar, transformei o barco em poço de petróleo. Primeiro um, depois um segundo, um terceiro e por aí fora até tudo se transformar numa floresta de torres brotando ardilosamente de sucessivos poços e nós banhistas continuando a banhar-nos no areal comprido, alguns saltando para a água dos ferros retorcidos das estruturas, outros fugindo á violência dos raios de sol encostando-se nas sombras das colunas, outros mesmo ensaboando o corpo na oleosidade do grude que ás vezes dá á costa.

Já não há cais nem barcos no outro lado, na cidade da Figueira e da Foz, e muito menos pesca e o barco sofisticado e tecnológico, cada vez mais lento, indica minuto a minuto um novo poço de matéria-prima. Surgem no horizonte outros barcos cada vez mais tecnológicos de sofisticação e o sonho transforma-se automaticamente no pesadelo que me acorda. Olho o relógio. A tarde avançou na hora que dormi. Por curiosidade observo o mar á minha frente. O espaço-tempo é o mesmo. A calmaria mantém-se, os cabos flutuam e desaparecem nas águas, o barco avançou alguns metros na sua prospecção. O sol mantém-se em explosão no seu núcleo atómico e vai começar a sua aparente descida até ao limite da curvatura terrestre sem abrandar os motores. É privilégio seu, não de aviões nem de vaivém a desnecessidade de travão para embater na terra.

Volto ao rei magnânimo e ás pedras do convento que mandou fazer. Um rei utópico e pedante. Como eu conheço bem algumas delas! Aparelhadas, custaram-nos fortunas a ouro de lei e hoje não valem nada.

Oxalá encontrem petróleo em abundância, oxalá não acabe a busca em águas de bacalhau como na malograda peça teatral do saudoso Solnado, há petróleo no Beato, devem lembrar-se, pois Portugal bem precisa duma ajuda substancial para sair da crónica crise duma existência difícil. Não para construir palácios e alimentar elites, nem aturar sábios comentadores que nascem por todo o lado a debitar palpites como tartulheira na serra, pelos vistos também a preços de ouro, mas para se desenvolver e criar riqueza para que este povo se livre um dia da crónica corda que traz pendurada ao pescoço á espera que lhe apertem a garganta.

Acredito que seja uma herança telúrica do grande Egas Moniz, mas já tem cota de herói suficiente para nos livrar definitivamente desse peso.

Mesmo assim e porque sou pessimista, custa-me a crer que se vier a ser encontrado o abastado filão, o povo beneficie alguma coisa com a riqueza que trás consigo. Entre gestores, políticos, clientelas e esclarecidas elites, se há-de consumir o produto e adiar mais uma vez o desenvolvimento para todos.

Oxalá me engane neste papel de vidente que entretanto vou aproveitando o ar puro o sol e as areias da praia para sonhar. Não com o ouro da Mina que já lá vai, mas com este ouro oleoso que é mais um deus dos nossos dias correntes.

Praia da Tocha, Agosto, 2011

 

  

publicado por Peter às 23:22
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