Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2010

SANTO ANTÓNIO MILITAR

 

 

Santo António é de Lisboa, onde nasceu, de Coimbra, onde estudou e finalmente de Pádua onde morreu. É lá que tem á sua conta um majestoso templo na cidade, a Basílica de Santo António de Pádua.

De Lisboa, nascido nas traseiras da Sé em 1195, 15 de Agosto supõe-se, filho de Martins de Bulhões e de Maria Teresa Azevedo e foi baptizado com o nome de Fernando de Bulhões. Aos 15 anos iniciou os estudos teológicos na Ordem dos Regrantes de Santo Agostinho no Mosteiro de São Vicente de Fora, e aos 18 anos de idade chega a Coimbra para frequentar o Mosteiro de Santa Cruz onde estudou Teologia , Filosofia e se ordenou. Trocou então a Ordem dos Agostinhos pela dos Franciscanos e á mudança juntou-se mudança para casa nova, para o Ermitério dos Olivais, depois Convento de Santo António nos subúrbios da cidade. Muda o nome para António, Frei António

Por esta altura, 1219, passam por Coimbra cinco frades italianos mandados por S. Francisco de Assis para evangelizar os sarracenos. Toca ao coração do irmão a força da crença e a convicção dos evangelizadores que da capital do reino seguem para Lisboa e de Sevilha para Marrocos, onde se hospedam em casa dum cristão ali residente. Trocam as roupas seculares que lhes haviam dado na corte, pelos hábitos da ordem e uma semana depois, num dia destinado pelos mouros ao culto de Maomé, entram na mesquita da cidade e procuram convencer os muçulmanos a converter-se ao cristianismo. Tomados por bêbados e desordeiros são empurrados para a rua sob um arraial de pancadaria que os deixou mal tratados. Recompostos da aventura, vão os frades a casa do califa para o evangelizarem. Tentam converter o sultão dizendo mal de Maomé e este chama os seus soldados para que os executem como infiéis. Salva-os o filho Abosaide que havia simpatizado com a juventude dos frades e por sua intercepção acabou o califa por os mandar embora. Foram então pregar a casa do Miramolim que os expulsou da cidade.

Acontecia que por aqueles tempos andava por Marrocos o Infante D. Pedro, irmão do rei D. Afonso, no cumprimento de tratados e alianças entre os reinos e tomando conhecimento da situação levou consigo os frades para Ceuta. No caminho porém, os frades fugiram, voltaram a Marrocos e tentaram de novo evangelizar os sarracenos pregando as virtudes de Jesus contra as falsidades de Mafoma. Tentativas infrutíferas a que se seguiu uma morte trágica ás mãos do sultão e do filho, depois de terem sido brutalmente torturados e finalmente decapitados. Mas de tal forma se escusaram ao perdão que os mouros lhe propunham que se convenceram que era o martírio e a morte que os frades procuravam.

D. Pedro resgatou os corpos e trouxe-os consigo para Portugal como relíquias, sucedendo-se então uma série de graças e milagres como não podia deixar de ser, no cumprimento do ritual iconográfico português e católico até á canonização. Quando voltaram a passar por Coimbra como mártires defuntos, António sentiu no sofrimento alheio um vigoroso chamamento e impressionado pela evangelização falhada destes santos mártires, como vieram a ser chamados, em 1220 o então Frei António decide repetir a pregação precedente embarcando para Marrocos com esse fito. Acometido de doença depois de chegar, foi obrigado a regressar a Portugal, altura para uma tempestade arrastar o barco para a Sicília onde desembarcou. Dali seguiu para Assis para se encontrar com S. Francisco e em Maio do ano de 1221 vemo-lo a participar no capítulo geral da ordem.

Excelente orador e pregador, Frei António impressionou irmãos e fiéis de tal maneira que o provincial o incumbiu de fazer apostolado na região da Emília Romagna, no norte de Itália. Os seus sermões arrastaram multidões e proporcionaram-lhe algumas missões e cargos, como o de leitor em Bolonha e provincial da Romagna. Instalou-se com os irmãos franciscanos no Convento de Arcella na vizinhança de Pádua. Aí pregou e morreu.

Posta neste pé a notícia da lenda histórica do santo, vamos á lenda militar, não apenas lenda, mas ideias e factos, não só porque a sua imagem percorreu muitos palcos de guerra tendo sem dúvida motivado exércitos ou colaborado no achamento de terras e tesoiros, mas também pelo motivo com que ainda hoje colabora na procura de objectos perdidos ou é alcoviteiro de noivos nos casamentos de Santo António, a 13 de Junho, na sua terra natal, Lisboa. Coisas do foro da fé, da crença e da verdade ou mentira de cada um.

Do Militar, sabe-se que foi incorporado no tempo do rei D. Afonso VI, por alvará do irmão, D. Pedro , no 2º regimento de infantaria de Lagos em 24 de Janeiro de 1668 ainda que apareça via tradição oral, como generalíssimo de D. João IV na batalha de Montes Claros. Mas é de Lagos o registo, tal como a fiança dada por Maria Santíssima, responsabilizando-se, como o costume da época, pela deserção do recruta. Não foi preciso até hoje. Mas são tantas as datas para o mesmo santo encontradas em todo o mundo português de então, que havemos de tomar nota do primeiro assento do praça como soldado raso, o de Lagos, sem posto mas com pré, a aplicar na obra de auxilio a soldados doentes, coisa que se aplicou até hoje.

Em 1683 é promovido a capitão pelo rei D. Pedro II, depois deste de tomar posse do reino, com 10.000 reis de soldo e logo se destacou em lutas levadas a cabo em Jorumenha e Olivença á frente do regimento. Em 1762 , reinava D. José ,destaca-se de novo na praça de Almeida contra arremetidas da Espanha, permanecendo firme a sua imagem nas muralhas do forte e assim contribuindo para a vitória alcançada. Por este acto heróico, bem como pelos milagres cometidos e despoletados, foi promovido a major por D. Maria I, depois de 100 anos de capitão exemplar.

É nesta condição que aparece em 1810 ao serviço do Regimento de Infantaria de Cascais, o célebre 19 , na Batalha do Bussaco, bem como em toda a Guerra Peninsular . No Bussaco, em certa altura da luta, chegou a ser capturado pelos franceses, mas isso transtornou de tal maneira o 19 português, que de imediato caiu sobre ao gauleses, não só para resgatar o santo como para pôr em debandada o atrevido invasor, que graças a mais esta milagrosa intervenção do António, major, acabou por perder em toda a linha.

Valeu-lhe a Guerra Peninsular uma cruz de oiro e a promoção a tenente-coronel por alvará

do príncipe regente D. João, outorgado na Baía e confirmado no Rio de Janeiro então capital do reino .

A esta folha de serviço prestado na metrópole, junta-se ainda uma larga participação em guerras coloniais, mormente no Brasil onde está na capitania de Pernambuco, na guerra dos Quilombos e na capitania do Rio na captura do pirata francês Jean François Duclerc.

No Brasil, na Guiné, em Angola ou em Goa, onde foi muito venerado, teve o santo grande influência em sucessivos acontecimentos por tal motivo foi igualmente alistado e igualmente promovido por agentes locais como recompensa pelos seus serviços. Foi coronel, marechal, generalíssimo em outras ocasiões e a sua imagem, melhor, as suas imagens correram igrejas e quartéis.

Dentro deste simbolismo arreigado á tradição portuguesa, parece conservar ainda o posto de tenente coronel, não sei se na reserva se na aposentação se ainda no activo, mas quem o quiser visitar, pode faze-lo na capela de Nossa Senhora da Vitória, anexa ao Museu Militar do Buçaco e dedicar-lhe uns momentos de atenção, ou devoção.

Quanto ao santo em si, faleceu no dia 13 de Junho de 1231 com 36 anos de idade e repousa na bela Basílica de  Stº António, em Pádua, Itália.  É o santo de maior fervor popular na cristandade latina. Santo António de Lisboa, mais conhecido por Santo António de Pádua !

E porque não do Bussaco?     FS                                             

 

publicado por Peter às 23:06
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Sexta-feira, 3 de Dezembro de 2010

BUDAPESTE

 

BUDAPESTE, UMA CRÓNICA DE JORNAL

 

Se bem se lembram os leitores que fazem o favor de me ler estas croniquetas desinibidas, foi em Agosto de 2009 que escrevi o episódio do salame gigante de Buda e Peste, saboreado no bar de tavolla freda ao fundo do apartamento, 109 da Via Betollo, na cidade de Génova. E lembram-se que prometi pagar a divida e representar ao mesmo tempo a gastronomia deste nosso país da beira mar atlântica, levando um avinhado salpicão da beira á numerosa tertúlia do crepúsculo, dizia, gente do quartiere que se junta ali ao fim da tarde para chiachierare sobre tudo e sobre todos.

Foi um ano depois, em Agosto de 2010 que cumpri o prometido, e esmerado como pretendo ser nestas representações, levei meia dúzia de salpicões caseiros do talho de Penacova, um naco de presunto que me trouxe de Chaves o novo genro e outra meia dúzia de alheiras de Mirandela que só de as observar faziam crescer água na boca. Tudo emalado num saco hermeticamente fechado, foi o Verão a época escolhida, pela simples razão de me deslocar em viatura e fugir assim ao controle dos aeroportos, não me admiraria que me abrissem a mala de porão e me controlassem o tesouro para boca de saco alheio. E para levar meia dúzia garrafas de vinho branco bical da Adega da Mealhada para o dar a saborear àquela gente de lá.

No bar já não servia a ragazza da Antonella, a Paola, mas Giovana , uma mulher feita que tomou o bar de trespasse e o administra com a sua própria presença. Trinta e poucos anos, face bonita, corpo bem feito, divorciada, dois filhos, um rapazinho no último ano do básico e uma menina mais crescida com a cara, dizem, da Maria Madalena de Da Vinci, num corpo quase feito de mulher.

Simpática e profissional a tirar da máquina do café um cheio de se lhe tirar o chapéu, quente e saboroso como é de minha feição e gosto. Foi a primeira coisa que fiz quando cheguei, elogiar o café que fez o favor de me servir na pequena esplanada do lado de fora do bar. Grazzie mille, respondeu!

E comecei a ler o jornal ,o Século XIX.

Ao fim da tarde não falhou a tertúlia. Cumprimentos para aqui e para acolá, a saúde, a vida, Portugal, Berlusconni, o genoa, a samp, enfim uma panóplia de assuntos que decorrem dum novo encontro, embora não fosse assim tão distante a precedente partida. E uma garrafa de Asti, um espumante adocicado que me não enche as medidas selou a reentrada entre os tertulianos.

-Salvé professore Giusephe Borgogni  ! Hip! Hip!

E assim se mandou chamar a Teresa do Marinella, decana do gourmet e ex patroa do restaurante da passiegiatta Anita Garibaldi que se debruça sobre o mar Ligure. Demorou a chegar nos seus noventa e tal anos de idade, mas depois de se evocar em conjunto o salame do ano anterior, serviu-nos uma respeitável dissertação sobre o próprio e sobre Budapeste, onde se fabrica, na beira do Danúbio e entre as três cidades unidas de Buda, Peste e Obuda. Confesso que nunca fui a Budapeste, mas fiquei a conhecer a cidade como se lá tivesse estado, das estreitas ruas de Peste á ponte Elisabeth, ao Castelo Real, á Opera, á Basílica de Stº Estêvão, ao Palacio da Imperatriz ou á Praça Liszt onde se pode comer uma sopa de goulash, uma deliciosa panqueca ou saborear queijos, salames e salsichas, tudo aliás do tamanho da própria urbe, a sexta, em extensão, na Europa.

Acreditei então que a virtualidade se pode transformar facilmente em coisa real, como aliás já vinha desconfiando desde que a net é net e arranjamos conhecimentos, amizades e até amores em qualquer parte do mundo e nos afeiçoamos a eles criando laços como se estivéssemos em boa verdade presentes. Às vezes, falta apenas o pequeno periférico, um ship transportador de partículas que não existe ainda, para tocar no outro, beijar, abraçar ou apalpar. Assim fiquei a conhecer Budapeste, lá onde morou a Sissi de Romy Schneider , dos velhos filmes e sonhos cor-de-rosa num mundo de fantasia. E fiquei a gostar, passei a fã com a promessa de verificar in loco na primeira oportunidade.

Bem, com outra taça de Asti o professor queria seguir já no outro dia, mas adiantei que nada se poderia fazer antes da merendola lusitana. E a tertúlia decidiu que não.

No fim aprazámos o dia, melhor dizendo, o fim da tarde, primeiro provisório, dias depois tornado definitivo. Tudo por minha conta excepto o doce, que ficou reservado ao bar esse serviço, a par do Asti adocicado e da refrigeração de seis garrafas do branco bical da Adega da Mealhada que havia de trazer para baixo juntamente com os enchidos na manhã respectiva.

E assim foi, depois de requisitar os serviços da ragazzina, a Giovana, para me ajudar nos preparos. Apesar do bar ser de frios, cozinha a rapariga muito bem os quentes e quando é preciso, acende o fogão de gás e faz uns deliciosos pratos de spaghetti alla putanesca ,pasta di mandorle, risotto al sugo,  raviolis ou tagliatela , que são o anti primo e o primo de muita gente , além de fazer uma dobrada á moda genovese que nada fica a dever á dobradinha tripeira.  Excepto na apresentação, aqui não se juntam os componentes do prato numa miscela ou mistura de sabores, come-se primeiro a massa e só depois a dobrada embebida nuns molhos de zafferano, burro e peperone que lhe dão divinos aromas. O único senão é eu não poder comer destas coisas. É que há oito anos a esta parte, namorava uma viúva que gostava do passeio. Então corríamos Portugal de lés a lés, do Vau ao Castro Laboreiro, da Foz do Arelho a Segura, gozando dos rendimentos, da paisagem, do gourmet e doutros prazeres carnais, dançando para digerir as gorduras, correndo para evitar o colesterol, o que não foi suficiente para escapar a fraquezas do coração entre um tango e um passe doble numa sexta-feira á noite, e ser hoje obrigado a não abusar dos temperos.

O professor, que sabe destas mazelas que as teve também na pele, nos seus tempos de director da cardiologia do Hospital de S. Martino, se me vê a abusar destas tentações e pecar, põe-me rispidamente a mão no ombro e quase me grita ao ouvido: Non Madonna mia, fermate !!!!  e repete, Nera Madonna  ! Nera Madonna ! E eu procuro fermare, ou travar, que é a mesma coisa.

Na tarde aprazada estava um calor recalcitrante. Insuportável. Os trinta quilómetros de falésias que marginam a cidade ao longo do mediterrâneo eram um vespeiro de gente, mas á hora marcada, seis da tarde, a Teresa, a Maura, a Graça, a Stefanie, o Professor, o Saviano e o resto da tertúlia apresentaram-se ao toque.

Da cozinha elevava-se o cheiro das chouriças penacovenses grelhando com lentidão, enquanto a Giovana mais um candidato a namorado, um emigrante esloveno que trabalhava lá para os lados de Sampierdarena e se apresentava ali com um BMW em segunda mão depois de ter deixado mulher e cinco filhos para lá da fronteira de Trieste, ajudava a cortar o presunto de Chaves em tiras tão finas que se podia ver o sol, ladeadas por uma lasca branca que abria o apetite por pouca fome que houvesse. Não era o caso.

Tudo na mesa em meia dúzia de travessas e abriu-se o bical, gelado como recomendava o menu e que satisfez plenamente os exigentes bebedores, melhor que o asti que se seguiu, doce demais para estes pratos picantes e salgados, mas que acompanhou muito bem as alheiras de Mirandela quando saltaram crocantes da frigideira para o prato e se trouxe a última garrafa do bical da porta do frigorifico.

Só então me sentei no topo da mesa desemborcando a cadeira de plástico que me era destinada, para saborear o prazer da degustação lusitana perante a toalha aberta que pouco a pouco se foi esvaziando até ás migalhas, com a aprovação, por fora e por dentro, da acalorada tertúlia.

Juntamos o malhão e o vira ao sole mio do ano anterior e quase me senti o rei de Portugal, plastificado naquela cadeira de cor azul do martini quando limpa a mesa de comestíveis se acabou no espumante.

Ninguém se lembrou mais do salame de Budapeste, em boa verdade, também porque do enchido português não restou naco nem pele para fazer um caldo verde.

Quando se arrumou tudo, se fechou a porta do bar de tavolla freda e se foi embora o esloveno no BMW em segunda mão, com o discernimento toldado pelas borbulhas do espumante, ainda disse á Giovanna, não sejas louca, não vás para a Eslovénia atrás dele que a mulher tira-te a pele!

E chamando o elevador fui para casa, no quarto andar, já os meus netos clamavam pela minha presença para lhes contar uma história antes de adormecer. Inventei uma história com a Sissi, a imperatriz.

Mas depois sonhei com Budapeste. Hei-de lá ir sim senhor!                                  Génova, Agosto,2010     

publicado por Peter às 22:06
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