Sexta-feira, 6 de Agosto de 2010

BATALHA BUSSACO-3ª INV.GERALDINE-8

 

                                                                                                    

 

 

GERALDINE

 

Dupont  é  o fiel criado de quarto do general Simon , seu mordomo e acompanhante desde as grandes batalhas de Wagram e Frideland  e por isso bastante   afeiçoado ao intrépido  militar. Quando sabe poucas horas depois dos combates que seu amo é feito prisioneiro no Moinho de Sula frente ás forças de Crawford, resolve levar a sua dedicação mais longe decidindo acompanhar o desditoso amo no infortúnio das grilhetas. 

Junta os acessórios quotidianos do general numa maleta e munido da estima e da vontade de servir, mete-se sem hesitações a caminho das linhas inimigas para se juntar ao amo e assim cumprir a missão para que estava contratado. É por entre os destroçados homens de Loison, o Maneta e de Marchand que se mete, cruzando com os sobreviventes, ultrapassando mortos e feridos espalhados pela encosta, encetando uma luta contra o terreno e contra a mala, que era um obstáculo precioso mas incomodo em tão insólita marcha. É assim entre os vencidos que descem a montanha que o intrépido Dupond faz o caminho contrário  trepando por barrocas e penedos acenando  constantemente com um lenço branco que segura na mão esquerda em sinal de neutralidade e paz. Avança sob um ou outro tiro dos ingleses que não percebem muito bem o que está a acontecer com o homenzinho desarmado que sobe a serra na sua direcção.

Quando a barreira a transpor é mais dura de roer, enfia o lenço no bolso da jaqueta que lhe desce até aos joelhos e puxa a mala com as duas mãos para facilitar a marcha, mas logo torna a empunhar o lenço branco num frenesim de agitação enquanto aparece aqui e desaparece acolá nas dobras e nas falhas  do acidentado passo.

Não estão longe as primeiras ruínas incandescentes do que foi a pequena aldeia de Sula , já as vai  divisando  acima da cabeça, bem como ao intenso fumo que delas sobe, porém, como que a contrariar as intenções do devoto servidor o tiroteio que desaba sobre ele redobra dum momento para o outro. É agora mais frequente e assustador. Nem a frente aliada se inibe de atirar sobre tudo o que mexe, incluindo o que seja branco e movediço como o grande lenço que agita freneticamente, nem os desesperados gauleses que temerosos descem, deixam de se virar para trás pelo estalar dum tiro perdido, alvejando instintivamente  o desorientado mordomo a contas com uma tarefa que se vai agigantando à sua frente. Uma ou outra bala silva perto de si e depressa o fogo que sobre ele desaba atinge uma intensidade tal que tem de se refugiar e não consegue prosseguir. Agacha-se no recobro duma trincheira abandonada, deixando passar a fúria dos apontadores para continuar apalpando o terreno, mas por fim, exausto e convencido perante a fuzilaria que lhe cai em cima que não consegue cumprir a humanitária missão, senta-se numa racha protectora da rocha e aguarda uma pequena trégua para voltar atrás. É o que faz aproveitando a primeira oportunidade que surge, escapando assim milagrosamente ao tiroteio cerrado que o levaria ao suicídio, caso continuasse. Rebolando em conjunto com a mala pelas ravinas que tanto lhe custaram subir, atinge o bom Dupond com grandes dificuldades o lugar donde tinha partido, o comando da brigada do Maneta já na encosta da Moura, abaixo do posto de comando.

Sentado ao lado dos haveres do general comenta o sucedido e chora em simultâneo a sua incapacidade nos ombros de Geraldine, a vivandeira do regimento 26 de ligeiros que, embora não conhecendo o general Simon pessoalmente, se comove com a história do criado sobre o infortúnio do patrão. É cheia de arrojo e voluntariedade, coisas que dão  atrevimento e força aos 17 anos que espelha com sorrisos e beleza e talvez a grande afeição que nutre pelos homens em marcha, que se propõe ela própria levar os bens ao desafortunado oficial e dar-lhe nas prováveis masmorras o seu apoio servil.

Devemos esclarecer que a vivandeira era quem, entre as mulheres que acompanhavam os exércitos da época, fornecia aos seus efectivos diversos bens fora do âmbito estritamente militar, negociava de forma ambulante e supostamente livre alguns haveres de consumo comum prestando serviços vários ás tropas em movimento.

Geraldine pede ao fiel Dupont a mala do general, puxa-a pela asa polida de tantos gastos e usanças em sucessivas campanhas, arrasta-a, e perante o compulsivo choro do camarada ali garante num abraço a entrega dos bens e a ajuda no que necessário seja. Que fique sossegado, segreda-lhe, fará o seu papel como se fosse o próprio mordomo em pessoa a acompanhar o amo.

Tira depois da sua leve e exígua bagagem um amuleto prateado com que adorna o pescoço, um enorme lenço encarnado dos poucos adereços pessoais de sua posse e propriedade e montando no velho jumento da cantina que serve, o 26 de ligeiros, põe-se a caminho outeiro abaixo, decididamente apostada em passar as linhas entre os dois exércitos e cumprir a promessa tão afectivamente jurada.

É ante os gritos de apoio e aplauso dos camaradas presentes que deixa a brigada puxando o jerico pela arreata para depressa atingir o fundo do abismo que separa as vertentes. Sobe-lhe então para o costado com a ajuda de soldados que descem em sentido inverso e continua já do outro lado da vertente a procurar o melhor caminho na direcção das linhas entre os dois exércitos. Escarranchada sobre o animal, agita freneticamente o lenço enquanto segura a mala , que vai   roçando  dum lado para o outro na pança do asno, pendurada  por um improvisado arreio de couro velho. O caminho, se assim se lhe pode chamar, rasga-se na vertente nordeste onde ainda se encontram restos da brigada Marchand em retirada bem como posições avançadas postadas no terreno.

Quem desce do inferno da luta arregala os olhos ante a soberba rapariga que acena o lenço bem alto acima da cabeça do animal e pergunta se vai pelo caminho certo. Sabe-se lá se há caminho, respondem alguns, mas outros, afoitos e agradados, sugerem à moça que não existe passagem, que se deixe de missões e volte atrás que eles próprios lhe farão muito melhor companhia. Inabalável, Geraldine enxota  o burro com uma pancada nas nádegas e fá-lo trepar  mais um agressivo talude que o empina como varola de feijões e quase a atira para fora da albarda , donde já  deslisa palha pela constância de  buracos não cerzidos nas curvaturas do assento. Um pouco acima, entre leiras de carqueija e pedra que rola da serra e ali se deposita, define algo que lhe parecem fardos fumegantes e mais acima os contornos prováveis do moinho que procura. É nessa direcção que segue, mas a rudeza do chão, as moitas e carqueijas mais os taludes de cada patamar não permitem uma linha perfeita. Confirma depois, como Dupond, as fumegantes ruínas do lugar. Não lhe parecem casas, apenas restos de palha ardendo lentamente, mas percebe que este fumo é que precede as alturas, o limite das linhas e de vez em quando divisa o perfil do pequeno moinho esbatido contra o céu.

Caem-lhe dos ombros duas faixas de cabelos negros e da face, queimada por horas e horas de sol ardente das planícies castelhanas á raia do Sabugal, algumas gotas de suor, mas corajosamente assume o medo esquecendo-o e avança impulsionada por uma força interior indestrutível. Não sabe explicar o porquê da aventura nem a razão do gesto, apenas lhe faz mover o jeito a espontaneidade e a pureza das ideias. Levanta a cabeça segurando os freios para saltar dois troncos de carvalho que fazem a ponte sobre um regato seco e ajeita as ancas na acomodação aos lombos magros e duros do asno. A mala quase cai, mas consegue meter-lhe mãos e segura-la.

Curiosamente o silêncio instalou-se em redor. Não ouve um tiro, não se escuta um disparo. Sobem-lhe temores á face ao contestar o facto e redobra simultaneamente o acenar do lenço encarnado, não vá uma perdida bala desmoronar-lhe a obra ou pegarem-na á mão em qualquer barranco do caminho.

Como por encanto o silêncio sustenta-se. Não imagina o que está a acontecer, talvez tenha acabado a guerra definitivamente. Os tiros dum lado e doutro, cessaram numa hipnotização colectiva. Sem explicação, que não seja a altivez do corpo feminino, frágil e forte ao aproximar-se dos cumes e que agora se mostra cada vez mais aos beligerantes postados por todo o lado. Caiem-lhe pelos ombros madeixas de cabelos pretos e sobra-lhe sensualidade nos seios atrevidos e erectos. O rosto incógnito que começa a mostrar os traços da juventude alia-se à serenidade com que avança levando o mundo em redor a um êxtase espontâneo e incompreensível que vai permitindo a caminhada. A ousadia, a simplicidade, a coragem, dão lugar a uma empírica e instantânea trégua.

Das ruas da velha Paris á montaria inesperada do jumento do regimento, vai talvez uma infância precoce por contar. Um ciúme por dizer. Um amor por fazer. Mãos maternas por dar e vida, por viver. Talvez o próprio rosto da revolução, liberdade, igualdade, fraternidade se espelhe de algum modo, simples e ingénuo no olhar e gestos da vivandeira do 26 de ligeiros, quando aquele sorriso fraterno atinge finalmente o cume e ultrapassa  as fictícias linhas separadoras entre ambos os combatentes.

Diz-se que dum lado e doutro irrompe uma chuva de aplausos saudando o acontecimento, diz-se que ecoa por minutos sobre o dorso da serra do Bussaco  um cântico de musas que faz calar a boca das carabinas, e Geraldine passa o cume, o Moinho e é acolhida  de forma cordial e amigável entre as  tropas anglo-lusas.

Não é grande a ferida do militar. Uma bala á queima-roupa trespassou-lhe os queixos e feriu-o de raspão, mas feito prisioneiro com as deferências devidas ao seu posto de general, foi depois conduzido ao hospital de sangue da Capela das Almas onde foi assistido por um cirurgião. Na transferência para o Convento, onde lhe foi cedida uma das celas por um oficial britânico, surgiu Geraldine encavalitada no burro e acompanhada por uma pequena escolta encarregada de a fazer chegar a Simon.

Isto conta por outras palavras o general Marbot , ajudante de campo de Massena, nas suas memórias ainda frescas sobre os factos, mas pode-se acrescentar que foi frei Gerónimo do Sacramento e o irmão Silvestre, acabados de chegar das suas deambulações pela serra  que  trataram da recepção ao  insólito  par, ou  mais pormenorizadamente ao general, Geraldine, burro e mala, encarregando-se eles próprios, com a ajuda de Francisco, da sua instalação na ala  este do mosteiro, na humilde cela que fora pertença do irmão João do Espírito  Santo e depois do tenente Barnes que lha havia usurpado na sua chegada à Mata em 20 de Setembro. Isto no seguimento das ordens de Wellington sobre o aboletamento do prisioneiro depois de ter conhecimento da sua detenção.

Durou pouco esta estadia de Simon, agora assistido por Geraldine, ou pela mulher como relata Frei Silvestre na ingénua interpretação, na cela do Convento, pois no dia seguinte foram transferidos para Coimbra precedendo a retirada geral. Acompanharam depois o exército ango-luso até Redinha e Pombal e pouco antes de Leiria, por troca de mensagens entre os respectivos comandos foi feita a reposição da lei e da ordem ou seja, Dupond foi autorizado a juntar-se ao amo, o general, enquanto Geraldine , montando no burro do 26 de ligeiros , atravessou em paz e em sentido contrário á marcha todo o exército anglo luso e regressou sã e salva  ao seu posto de vivandeira do 26 de ligeiros do  2º corpo de Ney.

( FS-200 Anos da Batalha do Bussaco)

 

  

publicado por Peter às 23:04
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