Quarta-feira, 24 de Março de 2010

BATALHA BUSSACO-3ª INV -FRANCISCO-4

 

  

FRANCISCO E O GENERAL  ARTHUR

 

  Francisco nasceu no Cerquedo em 1798 filho duma numerosa família de pequenos agricultores de subsistência nas abas nordestes da serra do Bussaco. Criado entre dificuldades domésticas e uma mãe repartida por muitos, repartiu ele próprio a meninice entre os gadanhos paternos e o pastoreio do planalto, mas frente aos muros da cerca  dos frades onde terminava muitas vezes a caminhada, deixava que os animais se encostassem ao sol tentador que se entornava nas pedras e sentava-se a pensar no misterioso mundo daquele interior ignorado e proibido á sua pobre conjectura. Um dia subiu o muro, escancarou-se sobre as pedras nuas e mal assentes em massa de lama e palha e quando regressou disse aos progenitores que gostaria de servir no Convento. Aconteceu que por aqueles dias Frei Bernardo do Espírito Santo, também conhecido entre os irmãos como o Frade das Coisas Terrenas  , andou por ali á procura de moços para as hortas e calhou simpatizar com a figura pequena e risonha do frágil Francisco. Insistiu com os pais e levou-o consigo para moço da horta e vinha, primeiro á experiência, depois, passado um mês, já rendido á humilde docilidade do garoto, voltou para sublinhar a satisfação do mosteiro e fazer, por contrato de palavra, um contrato de trabalho.

Bonacheirão, o monge deixou satisfeitos pai e mãe, uma boca a menos e a garantia duma carreira futura ali ás portas de casa era afinal tudo quanto podiam desejar e agradeceram ao frade a boa nova por alma de todos os santos do ermo e redondezas. Estava-se no Outono de 1809 e o rapaz já passou o natal dentro da Cerca entre os irmãos, aprendendo a humilde e penitente tarefa de louvar o nascimento do Senhor no pobre isolamento da congregação.

De facto o Francisco era educado, carinhoso e maleável como um pedaço de barro aos artifícios dos devotos penitentes e tanto lhes agradavam as boas maneiras e a prontidão de atitudes que pouco tempo depois as suas faltas, como a sua ignorância, eram coisas tratadas como a pureza dos anjos nas delicadezas do céu. Ensinaram o garoto, das hortas á cozinha, ao refeitório, á livraria, iniciaram-no na leitura e no missal e arranjaram-lhe até um pequeno cubículo por quarto encostado á hospedaria, um sítio silencioso e recatado, como prova do seu reconhecimento e familiaridade. E o miúdo era, como se diz vulgarmente, pau para toda a colher e mercê da sua simpatia e disponibilidade, tornou-se um ai Jesus percorrido entre toda a comunidade, obrigada por votos e intenções ao silêncio e á contemplação. Com anjos porém, era diferente!

 Foi por estes motivos que no dia 21 de Outubro pelas nove horas da manhã o Francisco foi chamado ao Prelado Maior, Frei Domingues de Deus, a fim de o acompanhar na recepção a Artur Wellesley na portaria do Convento. Pelas oito, havia já chegado, vindo de Lorvão, o quartel mestre general, hoje para obviar o assunto diríamos o staff, mas custava ao bom do frade dirigir-se sozinho ao encontro do poder. Não que não tivesse já visto generais, comandantes, navegadores ou reis, mas retirado dessa vida mundana como estava por razões do desprendimento das coisas terrenas, custava-lhe repartir o espaço interior da sua imolação com o que há tanto tempo deixara. Muito menos só. Achou por bem levar uma alavanca, como que uma bengala ou consolação e encontrou na presença do angélico garoto, talvez a figura com que Miguel Ângelo, Giotto ou Rafael pintaram o renascimento. Ciente ou não das obras referidas, Frei Domingues encontrou ali o aconchego e refúgio que perdera da vida e o melhor acompanhamento para ultrapassar a situação enquanto os irmãos, depois da primeira hora de oração matinal, dispersaram para a solene rotina da regra conventual. Por pouco tempo.

O Francisco, admirado com o garbo dos oficiais que iam chegando em luzidios amarelos e com a fruta cor dos enfeites que adornavam as bestas a todo o comprimento até aos rabos penteados, abria os olhos de espanto, mas encostado á veste protectora do prelado, mantinha-se em cerimonioso silêncio, se bem que lhe apetecesse saltar pelo átrio da entrada e segurar com a própria mão os arreios pretos e castanhos dos animais e dar duas corridas de contentamento e liberdade por sua conta e risco á volta deles. Conteve-se porém, entre o dito espanto e o medo e o olhar benevolente do geral.

Quando por fim o prelado informou o general do quarto que lhe reservara, o melhor da hospedaria, limpo e pintado para receber com dignidade o ilustre hospede, foi ao Francisco que incumbiu de lho mostrar, porém o general não gostou do aposento, não só por ser no interior do claustro mas porque tinha apenas uma entrada. Acabou por escolher o quarto da portaria á esquerda do átrio, tinha duas portas e abria uma pequena janela para fora, o que lhe dava uma rápida visão sobre o terreiro da frente. E sobre uma oliveira nova, nascediça, cujo caule tanto dava para prender as rédeas da cavalgadura como para o próprio cavalo, num puxão mais atrevido, a levar atrás de si.

Foi para ali que alguns soldados da escolta despejaram as malas e depois as transportaram ás costas para o interior, após o próprio prelado o ter mandado lavar e enxugar á pressa, com fogo que mandou atear em duas taças grandes de latão bronzeado cheias de madeira bem seca, deixando depois o brasido a terminar a secagem. Foi dali que todas as manhãs os mesmos impedidos retiraram as malas para fora e as recolocaram de novo ao fim da tarde durante sete noites, tantas quantas as que Wellington pernoitou no Convento do Buçaco.

Pelo meio-dia já toda a cerca murada estava pejada de militares ingleses, entre os quais os oficiais que se aboletavam em quanto sítio abrigado acharam de melhor, desde o convento ás ermidas. A vida da clausura foi interrompida, os frades retornaram ao mosteiro, coisa que nunca tinha acontecido no ermitério desde 1628 e as suas próprias celas foram ocupadas pela oficialidade britânica. Apenas ao Prelado foi consentido, por uma questão de cortesia politica, manter o seu quarto habitual. E a Frei António dos Anjos porque ninguém quis ocupar a sua cela por estar entulhada de farrapos, cacaréus e ferro velho, relíquias que o bom do monge vinha amontoando á revelia do prior durante grande parte da contemplação.

O resto da jornada passou Wellesley a percorrer a serra e a organizar as defesas, obras que se prolongaram até 26. Mandou erguer uma paliçada frente á Porta de Sula, rasgar o muro entre esta e o planalto á maneira de o dotar de improvisadas ameias, abrir uma porta perto da Cruz Alta, aquela que existe actualmente e abrir um estradão militar entre este ponto e a portela de Oliveira por onde facilmente e a coberto do inimigo movimentasse os homens, como aconteceu. Mandou igualmente aplanar plataformas onde colocou as peças de artilharia, empenhando em todos estes preparativos não só militares como muitos civis recrutados em redor ou dos que caminhavam com o próprio exército e as milícias. Ao princípio da tarde de 24 mandou abrir a Porta da Rainha que se encontrava tapada com um muro de pedra e cal desde 1704, altura em que passou pelo Bussaco o rei D. Pedro II e o Arquiduque Carlos de Áustria. Esta porta havia sido construída em 1693 para dar passagem á Rainha de Inglaterra D. Catarina de Bragança, visita que não se veio a verificar e com medo de que aumentasse a devassidão intra muros com nova entrada, foi entaipada pela comunidade dos Descalços.

Desde a chegada dos militares, coisa nunca vista no ermitério, a vida da clausura foi interrompida, proibido o toque dos sinos do convento bem como das sinetas das ermidas durante a noite e abertas as portas á tropa, ficou a cerca aberta a toda a gente que, durante a permanência dos militares, entrou e saiu á vontade dentro dos muros. Os frades, desalojados dos seus humildes aposentos, dormiram pela igreja, pela livraria, pela sacristia, ou até na dispensa, onde os parcos haveres foram, por ordem do comandante em chefe, protegidos, a par do respeito devido ás suas próprias pessoas.

Acabaram por sair do Cenóbio apenas no dia 28, aconselhados pelo próprio Wellington a fazê-lo uma vez que abandonada a Mata, ficaria aberta á chegada dos franceses. Se bem que a 22 tivessem seguido para Coimbra alguns irmãos mais velhos e um carro carregado dos bens mais preciosos do mosteiro!

No fim, acabariam por ficar Frei Gerónimo do Sacramento, Frei António da Soledade , o irmão Inácio da Natividade pois ao pretenderem abandonar o mosteiro na noite de 28, ela era já cerrada e a chuva tão abundante que resolveram partir na manhã seguinte. Encostaram-se no chão a dois cantos na hospedaria e adormeceram. No pequeno cubículo, do lado de fora, o Francisco já tinha adormecido há muito tempo, nem deu pela chegada dos bons frades que em silêncio passaram para descansar no interior.

 Luso, Março.2010 ( 200 anos da Batalha)

 

publicado por Peter às 19:37
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Terça-feira, 2 de Março de 2010

BATALHA BUSSACO-3ªINV-ALMEIDA-3

 

 

 

 ALMEIDA

 

 A história da batalha do Buçaco está contada e mais que recontada, não me cabe a mim ter a pretensão de fabricar novos modelos ou interpretações para que melhor se entendam os fenómenos pátrios e sobretudo humanos, porém, a duzentos anos do evento, atiça-me a curiosidade para uma descrição jornalística leve e acessível dos acontecimentos, texto despretensioso que seguindo uma linha coincidente com a realidade tal como nos é contada e transmitida, seja fácil, tanto na leitura como no assimilar pelos leitores para que em conjunto, quem escreve e quem lê, reflictam sobre o facto de a pátria ser feita de todos nós, daqueles que vivem e suportam os momentos difíceis e constroem, muitas vezes reconstroem, o que outros avaramente consomem.

Também hoje vivemos tempos conturbados de grande diferenciação entre nós, mas a história, como lição, tem em si própria a virtude de nos mostrar os erros cometidos e de nos permitir a volta a um destino como povo, se esse mesmo povo, por força dos laços biológicos, físicos, linguísticos e culturais for digno de destino próprio. É neste sentido e também com a pretensão de assinalar os dois centenários do evento que me proponho a reescreve-lo á nossa medida e limitado portanto á nossa geografia.

 A manhã de 26 de Agosto de 1810 nasceu de sol e o calor cedo começou a fustigar a pedra grossa da fortificação de Almeida, na Beira Alta. Feita para defesa da raia castelhana em tempos medievais, adaptou-se á época pouco sólida das invasões vindas de além Pirenéus e engrossou os muros com substancial arrogância e rigidez.

Á catorze dias que a guarnição defende heroicamente a praça-forte e as ajudas solicitadas ao exército anglo luso não surgem. Mesmo assim, depois do combate no Côa onde deixaram mortos, estão dispostos a continuar na defesa porfiada da vila, pesem as futuras dificuldades com os aprovisionamentos que se avizinham.

Ciudad Rodrigo caiu após 24 dias de cerco, Almeida vai no décimo quarto dia duma luta constante pela manutenção do baluarte beirão, o último obstáculo do caminho invasor. Em redor, Massena aquartelou os seus exércitos e entre ataques pontuais e algumas manobras de diversão aguarda a rendição da praça. É uma questão de tempo, pensa. Para lá dos bivaques, Trant e as suas milícias portuguesas ensaiam um combate de guerrilha contra os corpos napoleónicos sem resultados práticos e o grosso do exército luso-britânico comandado por Wellington afasta-se para os lados de Celorico, expectante entre vias da Beira Alta e Beira Baixa. É por uma delas que há-de caminhar o príncipe de Esseling nesta terceira tentativa de subjugar Portugal á vontade de Napoleão Bonaparte.

È então que subitamente, na vigilante calma da tarde quase crepuscular, sete horas, o inesperado acontece, um enorme estrondo faz ir pelos ares o paiol da pólvora situado no velho castelo medieval, onde se acoitam e juntam, em quantidade, armas, explosivos e munições. O mundo parou uns segundos no estrondo do rebentamento, mas á expansão do trovão que se arrasta por largos minutos junta-se depois a vida, gritos, vozes, ordens, correrias, enquanto voam pelo ar pedaços de material diverso entre pedras e telhas e destroços de edifícios. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu no fim da tarde quente enquanto o fogo irrompe de dentro das muralhas antigas com grande violência. Não se escutaram tiros dum lado nem do doutro, nem o canhão rugiu em vómitos de morte. O sossego da guerra, paradoxo, era o que reinava antes, talvez que o fim de Agosto não convidasse á luta imposta, a morosidade das soluções impusesse algum descanso, enquanto os homens, sabendo o que fazer e como fazê-lo, se aquartelavam em expectativa correctamente arquivada. Só minutos após a perplexidade dá lugar ao medo, o espanto á organização defensiva e o instinto, ao viver.

  Aos de dentro, logo se tornou claro face á destruição patente na muralha fortificada que a resistência se tornara impossível e a capitulação com honra passou a ser, após este trágico instantâneo, a única alternativa aos valorosos defensores deixando assim abertas as entradas beirãs aos invasores. Se o armazém rebentou por descuido, por mecha sobreaquecida pelos raios do sol da tarde, por mazela ou sabotagem dum introduzido francófono não foi esclarecido. Nunca o viria a ser. Mas como o que não tem remédio, diz a populum vox , remediado está , Massena  aproveitou de mão beijada a desgraça da praça ,negociou  com alguma honra para a destroçada guarnição e tomou posse ,como lhe convinha, da fortaleza dois dias depois, a 28.

Festejou o facto como vitória. Está gravada na Place D’Etoile, em Paris entre dezenas de batalhas, combates e escaramuças que teve o grande exército, mas esta, sem honra nem glória perante a história, porque de facto a não teve.

Instalado do lado de dentro por troca com os nossos, ali permaneceu o general alguns dias após o que, deixando uma pequena guarda na praça  prossegue  o seu caminho com  o objectivo de tomar essa praça maior  que trazia por incumbência imperial , a resistente e teimosa fortaleza lusitana,  auxiliada e empurrada pelos  ingleses, apostados numa estratégia de abandono e desertificação, uma politica de terra queimada  como mais tarde faria Kutuzov na Rússia, enclausurando os franceses na falta de estruturas e viveres e por fim nas amarguras do clima.   Por isso mesmo, quando mais tarde chegaram ás Linhas de Torres, o exército era seguido por grande parte das populações, uma multidão de maltrapilhos miseráveis, esfomeados, estropiados, doentes, uma turba que servia de tampão, muitas vezes a jeito, entre a retaguarda anglo lusa e a vanguarda francesa, a cavalaria de Montbrun.

Não teremos jeito, nem vocação, nem dinheiro para recriar realidades históricas na quimera do cinema mas não andaremos longe, corrigindo as dimensões á relatividade, de ver a população retratada fielmente em muitas das fitas para salas e televisão que reconstroem a marcha do imperador sobre Moscovo. Esta é uma parte que se não recorda muitas vezes nas evocações do fenómeno, mas que se lembra aqui como lição da dita história, pois foi parte inseparável do drama das invasões e da população que as viveu de forma presente e activa entre mortes, dores e resignado sofrimento.

Acalmadas as Praças de Ciudad Rodrigo e Almeida, Massena encaminhou-se então para Viseu. O 2º corpo de exército, do general Reynier, por Sabugal e Guarda onde chegou a 18 de Setembro. O 6º corpo, de Ney, passado o rio Coa seguiu por Alverca e o 8º corpo de Junot em direcção a Pinhel donde seguiu para Viseu.

A 18 de Setembro encontram-se estes dois corpos na cidade beirã completamente abandonada. O 2º corpo ocupava entretanto Mangualde, donde seguiu depois para o Carregal do Sal ao mesmo tempo que os 6º e 8º tomavam a estrada de Tondela e Santa Comba Dão, um percurso difícil e demorado por caminhos que algumas vezes tiveram de ser abertos a pá e pica para possibilitar a passagem das carroças e carroções da artilharia imperial. Sob a pressão de Trant e suas milícias que ajudavam a atrasar a marcha militar como aconteceu na passagem do rio Criz. Aqui, destruídas as pontes, coube aos sapadores franceses construir nova passagem, o que atrasou o avanço e formou longas filas ao longo dos caminhos.

No dia 23 de Setembro os frades carmelitas do Buçaco começaram a ouvir e distinguir para os lados de Mortágua bastante tiroteio e quando ao cair da tarde se deslocaram curiosos até á Porta de Sula , a entrada nordeste do convento , divisaram á distância vários focos de incêndios em toda a região presumindo pois a chegada dos soldados.

Na época, chegada a estrada a Vale de Açores em percurso comum, dividia-se então em duas, a real, chamada estrada de Lisboa, dirigia-se a Coimbra dobrando a crista do Buçaco por Santo António do Cântaro, Palheiros, Botão e Fornos, outra, mais recente, dirigia-se de Mortágua ao lugar da Moura e dali subia á pequena aldeia de Sula para depois descer na vertente litoral, passando cinquenta metros abaixo e á direita da Capela das Almas em direcção ao Luso e á Mealhada onde entroncava na estrada real Lisboa /Porto. Da chamada estrada de Lisboa saia ainda após Vale de Açores, um outro caminho em péssimo estado, a partir do pequeno lugar do Alcordal e em direcção á Portela de Oliveira, Figueira de Lorvão e Celas.

Era entre as duas primeiras vias que faziam vida cenobítica desde o tempo dos Filipes os Frades Carmelitas Descalços. Ali mantinham á século e meio um deserto onde expiavam pecados seus e do mundo e procuravam pela humildade e simplicidade de vida alcançar a perfeição dos céus.

Vamos deixar os exércitos nos respectivos percursos em direcção ao Bussaco e tentar penetrar, com a boa vontade do nosso já conhecido Frei Jerónimo do Sacramento, dentro dos muros  para chegar ao Convento.

Luso, Fev.2010 ,FS. (200 anos da Batalhada do Bussaco)

  

publicado por Peter às 20:26
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