Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2007

LUSO , BREVE RESENHA HISTÓRICA

 

LUSO, BREVE RESENHA HISTÓRICA

          

                                                                                                                                                                       

 Tanto quanto se sabe, a certidão de nascimento do Luso tem a data de 1064, recolhida num inventário de vilas e lugares entre Vouga e Mondego, pertenças do Mosteiro da Vacariça, onde se refere, entre outras, a "villa de Luso, que fuit de Abba Noguram cum su ecclesia vocábulo Sancti Tomé", mas o Monte Buzaco onde se aninha, é já referenciado em 919. De Buzzaco, Buzaco ou Buzacco, a primeira noticia encontrada é uma doação do lugar de Gondelim feita por Gundezindo e outros ao Mosteiro de Lorvão, no ano de 919, que diz…cum suas ualles que discurrunt de monte buzaco (Portugalie Monumenta Histórica,vol 1, pág.14) .

Da primitiva paróquia da Vacariça desliga-se o Luso em 1834 quando da execução dos forais da Terceira, e mantém-se independente até à actualidade.
Terra de água, floresta, pastoreio e milheirais, foi a partir de meados do século XVIII que as virtudes do precioso líquido nascendo com abundância dum olho de água quente foram propagandeadas, tendo contribuído para tanto o Dr. José Morais, da Lameira de S. Pedro e o Dr. Costa Simões, entre outros. Por aquela altura escrevia-se que, "abaixo duma copiosíssima fonte de água fria, rebenta um olho de água quente, a que chamam o banho", isto é, então como hoje, abaixo da actual fonte de S. João rebenta a fonte termal a uma  temperatura de 28 graus. Em 1837, referenciavam-se no local cinco barracas de madeira, que a Câmara da Mealhada substituiu por uma casa de alvenaria, no ano seguinte.

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A excelência da água, a pureza, a mineralização, a radioactividade, as propriedades terapêuticas que abrangem um grosso leque de aplicações em tratamentos renais, reumáticos, hipertensão, respiratórios ou no stress citadino, canalizaram para o Luso grande número de banhistas, fenómeno que despoletou um crescimento acelerado da pequena aldeia, a que não foi alheia a acção do jornalista, ministro e conselheiro, Emídio Navarro canalizando gente e recursos para o desenvolvimento local. Tem um busto erguido na avenida de seu nome desde 1917.

Ajuda este despoletar da terapia termal a moda aristocrática dos séculos XIX e XX que, aliada á expansão do caminho-de-ferro e á industrialização, desenvolve hábitos e costumes que estão nos prenúncios da actividade turística que se estendeu até aos nossos dias e ramificou do luxo á massificação.

Mercê deste fenómeno social de grande envergadura, pequenos lugares como o Luso e outras terras ganharam uma importância que lhes trouxeram fama e condições de vida qualitativamente melhores. Esse crescimento, que foi contínuo deste a descoberta das virtudes do dito olho de água quente, elevou a aldeia á categoria de vila no ano de 1937, pois de facto o simples lugarejo sem importância, havia-se transformado numa pequena e bem urbanizada estância balnear, das primeiras a obter os benefícios da electricidade, do saneamento, do telefone, dum casino, dum teatro, além do pioneirismo que lhe coube no turismo e na hotelaria.

 Do património arquitectónico, destaca-se a Igreja Matriz com esqueleto do século XVII, donde se salienta escultura da Virgem com o Menino (Nª Srª do Rosário), do mesmo século, uma capela baptismal com retábulo seiscentista e uma imagem de S. Silvestre em pedra, do sec. XV. A igreja foi refeita em finais do séc. XIX sob o impulso de Navarro, donde lhe vem a torre sineira com traço dum arquitecto suíço. Na Fonte de S. João, ou das onze bicas, há uma capela dedicada a S. João Evangelista datada do séc. XVIII com uma pequena imagem do santo, em madeira, do tipo corrente e do mesmo século.
De referir alguns edifícios modernos pelo seu porte e valor arquitectónico, como o palacete do Marquês da Graciosa, hoje pensão Alegre, o"chalet" de Emídio Navarro, o Hotel das Termas, traço do arquitecto Cassiano Branco, o Centro de Férias do INATEL, ex-Hotel Lusitano, a Art Nova do Casino e algumas "villas" ainda hoje existentes, património não catalogado, não identificado, nalguns casos em franca degradação, mas que em qualquer caso constituem um conjunto harmonioso de ‘chalets’que marcam um estilo e uma época que ao tempo se multiplicou por todo o continente europeu.
      No Buçaco, cujo património intra muros está classificado, o Palácio Hotel é obra do arquitecto e cenógrafo italiano, Luigi Manini, encomendada no último quartel do século XIX para pavilhão de caça do rei D. Carlos, um monumento neo-manuelino de feição revivalista, obra da escola de cantaria coimbrã, enquadrado no ambiente sereno e acolhedor da mata. Os cento e cinco hectares construídos da Cerca são um recanto de rara beleza e motivo de visita de inúmeros nacionais e estrangeiros e a par de Coimbra o maior recurso turístico da região centro. No interior do palácio, como nas galerias exteriores, merece destaque a azulejaria do artista Jorge Colaço bem como toda a cantaria em pedra de Ançã, como se disse, da escola coimbrã. Mas também o complexo herdado dos frades carmelitas, Mosteiro e Via-sacra, com esculturas da paixão de autoria de Costa Mota, Sobrinho, são um património considerável, de extrema simplicidade no que toca ao espólio religioso, de boa qualidade na parte escultural da Via-sacra. No interior da igreja conventual, chama a atenção um retábulo de Nª Sª do Leite, óleo de Josefa de Óbidos.

  Também o Museu Militar, recordando a batalha que aqui teve lugar em 1810 contra o exército de Napoleão comandado por Massena, é testemunho vivo do património militar do Buçaco.

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A serra, que domina a região, aparece já como ponto de referência na doação de 919 e, rebuscando a martelo nas encostas, as "trilobites" do lugar de Louredo, são testemunhos fossilizados do Silúrico, bem no berço da criação do mundo.

Em 1628, a Ordem dos Carmelitas Descalços, resolveu fundar um cenóbio nas encostas da serra, o único aliás construído pela ordem em Portugal e assim nasceu o Mosteiro de Santa Cruz do Bussaco, cuja vida monástica teve início em 1630. Aos frades que aqui penitenciaram e á sua devoção pelo arvoredo , se deve muito da actual riqueza da floresta, um parque botânico impar na comunidade europeia.

 Em 1810, nas vésperas da Batalha do Buçaco, o Convento serviu de hospedaria e quartel ao Duque de Welington, e foi ponto de apoio na renhida luta que se travou nas imediações, fora dos muros, na vertente de Sula.  Relembram-se todos os anos, em 27 de Setembro, os acontecimentos decorrentes das invasões napoleónicas, que opuseram no local as tropas anglo-lusas ao exército francês e no museu recentemente renovado pode verificar-se o espólio dos combates em sugestivas encenações.


Hoje a freguesia é uma estância termal em franca degradação, apesar de possuir um apetrechado centro de fisioterapia, bom equipamento hoteleiro, salas de congressos e exposições, posto de turismo, museu, banco, piscinas, ténis, campos de tiro e um recente centro de estágios para diversos desportos, herança da realização do euro-2004 de futebol em Portugal. É servida pela estação dos caminhos-de-ferro da Beira Alta e dista sete quilómetros da auto-estrada Lisboa -Porto, com bons e rápidos acessos a qualquer uma destas cidades, bem como a Coimbra, Aveiro, Viseu, Guarda ou Salamanca.
Industrialmente, de anotar ainda a exploração da água mineral de mesa, a conhecidíssima Água de Luso, que é o maior empregador do concelho da Mealhada mas também o único beneficiário da riqueza que brota das nascentes, pois  a freguesia em si, está bloqueada na sua actividade principal, o turismo, de cujas termas tem a concessionária a responsabilidade. Muitas das potencialidades da freguesia continuam por despoletar mercê da prossecução sistemática de objectivos que nada tem a ver com os interesses locais.


Administrativamente pertence ao distrito de Aveiro, confinando nos seus limites com os distritos de Coimbra e Viseu. Dela fazem parte os agregados populacionais de Barrô, Buçaco, Carpinteiros, Carvalheiras Lameiras de S. Pedro e Stª Eufêmia, Louredo, Luso, Monte Novo, Salgueiral e Várzeas. Os antigos lugares de Moinhos e Venda-Nova fazem hoje parte do tecido urbano do Luso. Em termos jurídicos pertence à Comarca de Mealhada e religiosamente à Diocese de Coimbra. Teve por oragos S. Tomé, S. Silvestre e actualmente a padroeira é a Sª da Natividade. Existe na igreja matriz um retábulo dos finais do séc. XIX com a imagem da Santa em madeira tipo corrente.

Ferraz da Silva (texto actualizado em 12/2007)
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Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2007

NOVA BATALHA

 

 

   A NOVA BATALHA DO BUÇACO

 

  

                                                                                                                                                     

O DN do passado dia 4 alertou-me para um ignominioso facto: a mata do Buçaco encontra-se em estado de profunda degradação. Soares Rebelo, o autor da peça, cita o presidente da Câmara Municipal da Mealhada a pintar o futuro florestal do Buçaco como “negro, muito negro” e a atribuir a responsabilidade por essa calamidade ao Ministério da Agricultura, ou melhor, aos governantes que tutelaram esta pasta nos últimos vinte anos e que terão negligenciado o bom estado de conservação da mata. Como português, habituado que estou às más notícias que abrem os telejornais e fazem as manchetes da imprensa, pensava que nada me poderia afectar muito mais, que o sinistro 2002 me teria vacinado para os tempos mais próximos. Puro engano. Aí estão o novo ano e o renovado DN para me desenganarem.
Para melhor se perceber a razão do meu desgosto, convém informar que conheço aquela região como as minhas mãos. Ainda mal sabia andar, já os meus pais me levavam para as termas do Luso, em pleno Verão, para fazer hidroterapia -tive um problema de rins resultante de uma queda. Por mor desse precoce acidente - passados todos estes anos, só há pouco fiquei a saber que afinal foi um problema de rim, parece que só tenho um - todas as minhas mais antigas e fortes recordações estão ligadas ao Luso e ao Buçaco, duas terras que formam uma das paisagens mais deslumbrantes da terra portuguesa a par de Sintra, Castelo de Vide, Geres e poucas mais. Foi lá, na monumental piscina do Grande Hotel do Luso, que aprendi a nadar. Não tive lições, mas espreitei algumas do professor Azinhais, que tinha uma rara pachorra para crianças e devia estar farto de saber que eu e outros como eu não a tínhamos para as suas aulas, mas pirateavam os seus ensinamentos.


Recordo a oliveira que, segundo a lenda, serviu para o general Wellington prender o cavalo que montou durante a sangrenta batalha do Buçaco. Foi graças à brigada comandada pelo coronel Champalimaud, a um batalhão português, do 19 de Infantaria, a uma brigada alemã e aos nossos aliados ingleses, sob o comando do general Wellington, que lográmos derrotar as colunas dos exércitos comandados pelo marechal Massena, constituindo assim o Buçaco um marco decisivo na expulsão dos maiores generais e marechais do império, destroçados por este desaire militar que despedaçou o prestígio francês alicerçado na ambição desmedida de Napoleão. O trágico balanço dos invasores saldou-se na morte de 5000 soldados e de 250 oficiais do exército mais experiente e temível do mundo. Recordo ainda o Museu da Guerra Peninsular, com os vários fardamentos, espadas, canhões e outras peças da batalha, o Palace Hotel (onde aprendi a gostar de vinho, aliás, onde era impossível não aprender a gostar de vinho - que o lendário Alexandre Almeida armazenava ciosamente nas suas caves), as ermidas e o velho convento, a lembrar os frades Carmelitas Descalços que se comprometeram a plantar, todos os anos, após se instalarem no Buçaco, uma grande diversidade de árvores, e que impuseram uma norma inclemente - a excomunhão - para quem cometesse a heresia de abater uma que fosse, sem o consentimento de dois terços da comunidade. Resumindo: além de se proteger a mata original, foi possível transmudá-la num paraíso de verdura.


Inesquecíveis eram os passeios/corridas de burro (com algumas quedas à mistura) à Cruz Alta, no cimo da qual me sentia no topo do mundo, as românticas caminhadas no Vale dos Fetos, no meio de uma vegetação absolutamente esmagadora, de um verde incomparável, os 144 degraus, encrostados no meio da floresta, que conduzem à ‘Fonte Fria’, com água vinda das montanhas, duma pureza do princípio do mundo, as matinés dançantes no átrio do Grande Hotel com números de palhaços e ilusionistas que divertiam e fascinavam os mais pequenos, as pranchas da piscina donde executávamos saltos mais ou menos artísticos (a mais alta a que me abalancei foi a dos 5 metros), os lanches na Mealhada, nas Caves Messias ou no Pedro dos Leitões, as voltas pela Cúria, com as pedaladas nas ‘gaivotas’ do lago, os campeonatos de ténis de Portugal, que anunciavam o final das férias, com grandes nomes da época: David Cohen, Carlos Figueira, Azevedo Gomes, Maria do Carmo Arnoso, João Roquette, Alfredo Vaz Pinto; ô Casino, sem jogo, mas com bailes, e o porteiro, o vigilante Sr. Carlos, impecavelmente fardado, a Fonte de S. João com as suas bicas e os desejos dos namorados, as serenatas na Fonte dos Castanheiros... As bilharadas no casino ou as partidas de ‘negus’ no café do Julio do Casino, a farmácia da menina Graça e das gémeas, suas irmãs; as termas, propriamente ditam, com a piscina interior, antiga, com os seus mosaicos brancos e a água muito limpa, muito verde. O Hotel Lusitano, O Hotel Serra, o Hotel dos Banhos, a Pensão Lusa, com as mais do que atenciosa Nazaré e Eduarda, a Pensão Alegre e a Pensão Avenida; o Cine teatro do Luso, ao cimo da Avenida Emídio Navarro, uma espécie de ‘Cinema Paraíso’, com filmes de reprise. E os amigos mais velhos, os Navarro, os Olaio, os Messias, a Graça e a Lisette, o Aurélio, a Jacqueline, o Serge e o Pierre, o Paulo (do Cadiliac preto), o Augusto, a Leonor, a Adelaide, o França, o Moisés (“Polaco das Malhas”), e tantos outros. Lembranças que não se podem recuperar, ao contrário do que não só é possível como é imperativo urgente: restaurar a mata do Buçaco.



Pelo alerta do DN, ficámos a saber que temos de travar nova batalha, agora contra os invasores do nosso património, os mesmos que trocaram a paisagem portuguesa pelo betão, a nossa música e a nossa poesia pelo “Big Brother”, o “Masterplan” ou as casas pimbas dos reis da Pimbalândia, os mesmos que esbanjam fortunas com a construção de inúteis, mas faraónicos estádios de futebol. Esta luta pelo Buçaco torna-se, porventura, mais decisiva do que aquela outra com os franceses. Desta feita, com uma aliança que se deseja totalmente portuguesa. As organizações ecologistas, ambientalistas ou verdistas, que se deixem de merdas e unam-se nesta guerra de resistência ao laxismo, à indiferença, à ganância dos que só sonham com off-shores e que foram os grandes responsáveis pelo estertor do Parque do Buçaco. Claro que é mais cómodo e permite aparecer nos telejornais, entrar em manifestações de rua para inviabilizar a construção de um casino no Parque Mayer, refilar contra as portagens da CREL ou contra toda e qualquer obra pública nos principais centros urbanos do país. Mas isto é diferente, isto é coisa mais séria. Não podemos tolerar que desprezem o nosso ‘chão sagrado’, como dizia o poeta Pedro; e se ‘pode haver quem o defenda’, por que. Não nós? Wellington já têm: Costa Cabral, autarca da Mealhada. Mobilizem-se os soldados.



João Braga, Euronotícias, 10/01/2003

 

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Domingo, 2 de Dezembro de 2007

MANUEL ALVES

 

               

                                                                                                                         

          MANUEL ALVES

             Poeta Cavador

 

 Manuel Alves nasceu no lugar de Vale de Boi, freguesia da Moita, concelho de Anadia em 15 de Outubro de 1843, filho de Constança Alves ou Constança de Jesus, ou Constança Rosa e de pai incógnito. Foi neto materno de José Alves ou de José da Quinta e de Rosa Maria ou Maria de Jesus.

  Este bilhete de identidade simples e claro dado por um Conservador do Registo Civil pode dar e não dar uma ideia clara do que foi a sua vida, mas dará certamente que pensar a quem se interessar pelos homens e seus valores.

   Reinava em Portugal D. Maria II e o contestado ministro Costa Cabral e pouco tempo depois tinha lugar a revolução da Maria da Fonte época em que o nosso poeta cresceu entre fome, subserviência, dificuldades e, á falta de escolas públicas, no analfabetismo. Talvez por isso possamos dizer que Manuel Alves, Poeta Cavador, como mais tarde se lhe veio a chamar, foi um camponês do seu tempo que usou as grilhetas que o tempo lhe doou para sobreviver. Da fome, da miséria, dos contrastes, das revoluções, mas ainda de mães solteiras, de sofrimento, dor e morte. Talvez, mas também duma centelha de inspiração e conhecimento para reconhecer-se e realizar-se na poesia.

   Por volta de 1860 já Manuel Alves tinha uma aura de fazedor de versos e era conhecido na região da Bairrada. Como diz o seu biógrafo António da Silva Neves, pequeno, pobre, de olhar brilhante, mal vestido, espicaçado por uns, picado por outros, ia tecendo a sua fadário. Desafiava quantos cantadores e poeta populares lhe aparecessem, a todos vencia. Implantava-se no seu espaço com alguma prosápia, superioridade natural advinda das vitórias nos prelos com pimpões, safardanas.

         “ Cantar é para quem sabe

            Melhor é para quem escuta…”

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  Ora nesse tempo, a Romaria de Quinta Feira da Ascensão, no Buçaco, era na região a mais popular, aquela que juntava no ermitério deixado não havia muito tempo pelos frades conventuais, milhares de pessoas, não só toda a Bairrada ali caía, mas um centro muito mais dilatado e entre a caminhada, os folguedos, a feira, o almoço, a festa e até zangas e pancadaria, se desenrolava um dia diferente para toda a gente dos campos, alegre tradição que ainda hoje perdura na memória e nos hábitos de muitos.

   Era aí que o poeta, um grande amante do Buçaco, como iremos ver, debitava entre romeiros e oficiais do mesmo ofício a sua veia poética. Aí conheceu alguns amigos que lhe registaram as rimas, entre outro João de Deus, Guerra Junqueiro ou Tomas da Fonseca.

   O Professor Manuel Rodrigues Lapa, um anadiense autorizado, escreveu sobre o conterrâneo “ Há em Manuel Alves, o grande cantador da Bairrada, uma visão simples, ingénua, mas profunda das coisas da vida e dos homens, que nenhum poeta moderno soube ainda ter em grau tão afinado. As atribulações verdadeiras, não apenas imaginárias, dão á poesia desse cavador um tom rude de sinceridade, um acento de virilidade, que os nevróticos poetas de gabinete desconhecem em absoluto. Há mais monotonia, sem dúvida, nas trovas dos cantadores; o ritmo favorito e quase exclusivo é a décima; mas o que perde em variedade estrófica ganha em profundeza e generosidade de sentimentos.”

   Manuel Alves cantava de improviso e ao Buçaco, que era parte do seu chão, cantou

 

                 Adeus, cerca do Buçaco

                Adeus, real portaria

                Adeus, caveira mirrada

                Serás minha companhia

 

                Adeus, sagrados rochedos

                Onde vertem tantas fontes,

                Adeus, valeiros e montes,

                Adeus, altos arvoredos,

                Adeus, musgos dos penedos

                Que servem de santo ornato

                Adeus, tremendo aparato,

                Pintura do Santuário,

                Adeus, alto do Calvário,

                Adeus cerca do Buçaco.

 

                 Adeus, torres, adeus, sinos

                 Sois música dos finados;

                 Adeus, castiçais dourados,

                 Adeus, sacrários divinos,

                 Adeus, painéis cristalinos

                 Adeus, santa livraria,

                 Adeus, Filho de Maria,

                 Cravado de pés e braços

                 Adeus, memória dos paços,

                 Adeus, real portaria.

 

                 Adeus, santo monumento

                 Da santa religião,

                 Adeus quadro da Ascensão,

                 Adeus mata, adeus, convento;

                 Adeus, Cruz Alta, que ao vento

                 Ergues a fronte sagrada,

                 Adeus, tribuna dourada,

                 Adeus altar dos missais,

                 Adeus, santos imortais,

                 Adeus, caveira mirrada.

 

                  Adeus, cálix consagrado

                  Com sangue de Jesus Cristo

                  Adeus, Herodes Ministro,

                  Adeus, ó Judas malvado,

                  Adeus, alto do senado,

                  Próprio lugar de agonia,

                  Adeus, reis da gerarquia

                  Que ao mundo dais graça e luz,

                  Adeus madeiro da Cruz,

                  Serás minha companhia.

 

Bibliografia: Manuel Alves, O Poeta da Bairrada, 1991 Anadia, António Silva Neves, edição de autor;

Versos dum Cavador, 1993, Anadia, revisão de José Ferraz Diogo , Câmara Municipal, Anadia

                

 

            

 

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Sábado, 1 de Dezembro de 2007

MONUMENTO POLIVALENTE

 

UM MONUMENTO POLIVALENTE

 

                                                                                                           

             

                                                                                                                                                         

Jorge A. R. Paiva in ‘Luso no tempo e na história’
Professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, investigador botânico,
ecólogo, membro do Grupo de Arqueologia e Arte do Centro (GAAC)


A Mata do Buçaco foi conhecida primeiramente por Mata de Alcoba, não se sabendo quando mudou para o nome actual (COSTA; 1932).

Várias origens têm sido atribuídos ao nome BUÇACO, algumas de cariz popular e tradicional. Assim se conta que o nome resultou do hábito que um pastor tinha em mandar o cão BUSCAR o SACO. Dai resultou BUSCASACO “ BUSS...SAO “ BUSSACO.

Também se conta que o nome deriva de um escravo negro a que chamavam BOÇAL ou BUCAL que, fugindo ao seu senhor, se foi esconder numa gruta na Mata. O homem tornou-se depois um assassino e ladrão, transportando um SACO e atacando as gentes das redondezas. De BUCAL mais SACO resultou BUSSACO. Ainda hoje há quem indique a “cova” onde o escravo se escondia na Mata. A “Cova do Negro” ou “Cova do Boçal” é um conjunto de rochedos sobrepostos entre os penedos situados na parte posterior da Ermida do Sepulcro.

Também se conta que o termo terá derivado das respostas que dava um devoto e venerável ancião que frequentava a Mata procurando sossego e silêncio, pois ali “nem chus nem bus”. Sempre que lhe perguntavam o que ia fazer à Mata, o “santo” velho respondia sorridente: “d’aquelle monte “SACO BUS”.” Da inversão da ordem dos termos resultou BUSSACO.

Todas estas origens são fantasiosas, sem o mínimo fundamento, pois basta referir que o termo BUZACO aparece já escrito em documentos do século X (919) e os negros só aparecem entre a população portuguesa depois das descobertas (Século XVI). O nome Buçaco tem, na realidade, uma origem um pouco incerta. Segundo o versão mais corrente, o nome parece derivado de “Bosque Sagrado” ou “Bosque Sacro”, ou de “Sublaco”, ou “Subiaco”, um nome dado pêlos frades beneditinos que residiam no Mosteiro da Vacariça (Luso) em recordação da gruta de “Subiaco” perto de Roma onde o patriarca S. Bento fizera penitência e onde aquela ordem fundara 12 mosteiros.

A poetisa Bernarda Ferreira de Lacerda, nas suas “Soledades de Buçaco” (1634), refere-se a esta etimologia:
”En aquelles siglos de oro, y venturosas edades, (Qual el de Lacio) Subiaco Solia el Monte LIamarse.”


A palavra teve várias grafias como “Buzaco”, “Buzacco”, “Buzzaco”, “Bussaco” e “Buçaco”. O que é certo é que se trata de um termo conhecido apenas para designar aquele arboreto e respectiva localidade, assim como um lugar do concelho de Arcos de Valdevez. Existe ainda o nome “BUSSACOS” para um lugar do concelho de Paços de Ferreira.

A Mata do Buçaco está situada a 40° 33’ N e 8° 28’ W, a 40 km do litoral atlântico, no concelho da Mealhada, no extremo NW da Serra do Buçaco, também conhecida por Serra do Luso, Serra de Carvalho, Serra de Santo António e Serra do Cântaro, onde a montanha atinge a altitude de 547 metros na Cruz Alta e se inicia a inclinada vertente para o Luso. Tem um comprimento máximo de 1450 m e a largura máxima de 950 m entre a Porta de Sula e as Portas de Coimbra. O arboreto reveste majestosamente parte da porção do planalto próximo do cume da serra e a vertente para o Luso, estando cercado por um muro de 5750 metros de comprimento e 3 metros de altura, limitando uma área de 400 hectares.

Este muro apresenta várias entradas (Mapa): a Porta do Luso, a noroeste, a mais próxima das termas do Luso; a Porta das Ameias ou do Ramal, assim chamadas pelas ameias que lhe servem de remate, sendo uma das utilizadas pela rede rodoviária; a Porta das Lapas, a que se situa na parte mais inferior da Mata, abrindo para a estrada Luso-Penacova; Portas de Coimbra ou Portaria da Mata, com dois grandes portais e a cerca de 100 m da precedente; a Porta da Cruz Alta, perto do cimo da serro; a Porta do Telégrafo, nõo longe da precedente; a Porta de Sula, na vertente sudeste, abrindo sobre uma esplanada e cerca da povoaçâode Sula; a Porta da Rainha, cerca da Capela das Almas e da Fonte Férrea, não longe da estrada Luso-Viseu, e dando acesso ao monumento comemorativo da Batalha do Buçaco, sendo este acesso utilizado pela procissão que se realiza habitualmente a 27 de Setembro; a Porta do Serpa, que dá acesso ao Cruzeiro; a Porta dos Degraus, logo seguida da escadaria; e a Porta de S. Joáo, próxima da Capela de S. Joáo e a mais recente entrada da Mata, situada perto do final da subida da Alameda Emídio Navarro.

Além da Igreja do Bussaco, arquitectonicamente pobre, existem na Mata onze capelas designadas por Ermidas de (o):
Santa Teresa; Santo Elias; Nossa Senhora da Conceição; S. Miguel; S. José; Calvário; Sepulcro; S. Joáo; Nossa Senhora da Espectaçâo; Nossa Senhora d’Assunçâo; Sacramento.

A área ocupada pela Mata do Buçaco é constituída fundamentalmente pelo Vale do Sacramento a norte e Vale do Carregai a sul, ladeados a norte pela Costa do Sol e a sul pela Costa do Sacramento. Os dois vales estão separados por uma ligeira crista onde se encontra o Hotel e coalescem pelas alturas da Fonte Fria, formando o designado Vale dos Fetos   

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O clima da Serra do Buçaco é ameno, com raras e rápidas geadas e excepcionalmente neva. A pluviosidade anual é de cerca de 1500 mm, com cerca de 130 dias anuais de chuva. A humidade relativa apresento valores ca. 80 mm, com uma evaporação total de 690 mm.

A temperatura oscila entre os 39-40° C máxima no Verão e 1°C no Inverno e os ventos dominantes são de NW, mas no Inverno ocorrem também ventos de SE.

Na Mata do Buçaco os nevoeiros são muito frequentes e densos, sendo menos frequentes na Primavera e Inverno do que no Veráo e no Outono. A maioria das vezes o nevoeiro só se dissipa ao fim do manha, particularmente na zona da Cruz Alta (547 m) e noutros locais elevados da Serra.

A Mata do Buçaco é, indubitavelmente, uma das melhores colecções dentrológicas da Europa. Este arboreto e o Parque da Pena em Sintra constituem os dois mais ricos conjuntos de plantas lenhosas exóticas em Portugal.

A Mata
, além da humidade atmosférica própria do microclima daquela zona da Serra, tem várias linhas de água e fontes, sendo a principal a Fonte Fria. É uma obra majestosa muito degradada quando foram abolidas as ordens religiosas, tendo sido reedificada a partir de 1866, mas com uma traça diferente da original e modificada ainda em 1881. Outras fontes são a Fonte de Santa Teresa, a Fonte do Carregai, a Fonte de S. Silvestre, a Fonte de Santo Elias, a Fonte de S. Miguel, a Fonte da Espectaçáo, a Fonte da Samaritana e a Fonte Nova. Além destas, existem muitas outras com menor importância (“bicas”).
A Mata do Buçaco constitui um valioso património, por diversas circunstâncias:

 

  • Possui uma das melhores e mais majestosas colecções dendrológicas da Europa e ainda alguns retalhos da vegetação natural tipo climácica, que representa a floresta primitiva com idênticas aptidões ecológicas, que existia nas montanhas do centro de Portugal.
  • Constitui também uma “reserva paisagística”, pelo ambiente paradisíaco que ali se desfruta.
  • Possui património arquitectónico pelas obras que encerra, como o F-lotel, a 357 m de altitude e a cerca de 200 m do topo da Serra, as Portas de Coimbra, a Fonte Fria, as Ermidas e as Capelas. Na portaria da Mata (Portas de Coimbra) estão as lápidas onde se lê a tradução da Bula Papal de 1622 (GREGORIO XV), proibindo a entrada de mulheres nas casas de ermo de Espanha, e a Bula do Papa URBANO VIII (1643), que excumungava quem cortasse árvores ou praticasse outros danos nos domínios eclesiásticos da Serra.
  • É um repositório militar, nõo só pela proximidade dos campos da “Batalha do Buçaco”, como porque o General Arthur Wellesley (Lord Weilington) esteve hospedado no Mosteiro, hoje Hotel, cerca de oito dias, antes e depois de terminada a referida batalha. Além disso, entre a Porta de Sula e a Porta da Rainha, embora fora do muro que ladeia o arboreto, está um Monumento Militar, padrão comemorativo daquela batalha; cerca da Porta da Rainha está a Capela das Almas do Encarnadouro (presentemente Capela da Vitória), onde muitos feridos franceses foram tratados pêlos frades do Buçoco, tendo sido construído ao lado desta capela o Museu-Biblioteca com documentação museológica e literária referente àquele acontecimento militar.
  • A Serra do Buçaco constitui um sistema geológico muito variado, com formações desde o Arcaico (Ante-Ordovícico) até ao Quaternário; muito rico paleontogisamento, especialmente na zona designada por Bacia Carbonífera do Buçaco, de onde têm sido descritos muitos fósseis.
  • É um “santuário” para as aves e outros animais já muito raros, como a lontra e a salamandra-de-cauda-com-prida.
  •                                                                                               
  •                                                                                         
  • A Mata do Buçaco é pois um monumento polivalente:
    natural, botânico, zoológico, geológico e paleontológico, militar, religioso, histórico e tradicional.

    Náo conseguimos dados que possam garantir com exactidão a introdução de árvores exóticas no Buçaco. Como o cedro-do-bussaco (Cupressus lusitanica Miller) é a árvore mais “célebre” da Mata e aquela que julgamos ter sido a primeira espécie arbórea exótica introduzida no Buçaco, baseamos as nossas pesquisas nesta planta, citada por vários poetas, entre os quais, José Freire de Serpa Pimentel, escrita no século passado:
    ”Eil’o, que o vejo, esse sitio caro, Essa montanha sacra, esse retiro, Que busco à tanto; eil’o que o conheço Pelas pontas vergadas d’altos cedros, Pêlos prainos do mar, que ao longe brilhâo,”

    Pode garantir-se que, antes do bispo de Coimbra D. João Manuel ter dado aos Carmelitas descalços “umas matas e terras na serra de Luso” para ali fundarem “uma casa de deserto neste reino”, já se tinha processado a introdução de exóticas nas referidas “matas da Serra do Luso” em “Bussaco”. A doação, “vencidas algumas contradições e dificuldades” teve lugar em 1628. Segundo CASTRO (1932), “Quando os Carmelitas descalços alcançaram do bispo de Coimbra, em 1628, a deveza do Buçaco, já havia ali grande número de árvores corpulentas (algumas dos quais ainda hoje subsistem)”. Em 7 de Agosto de 1628 foi lançada a primeira pedra do convento “dentro da mata que já então existia” (ROXA; 1858) (“e a comunidade deu começo à regularidade eremita em 19 de Março de 1630. Podia admitir-se que a introdução de árvores exóticas se deveria ter processado após a chegada dos três primeiros frades carmelitas (Tomaz de S. Cirilo, Joáo Batista e Alberto da Virgem) ao Buçaco em princípios de 1628, mas estamos convencidos que essa introdução de exóticos é anterior a essa data (1628).
    Alguns autores consideram que a introdução da “Cedrus lusitanica Miller”, a árvore mais notável do Buçaco, sendo até conhecida por Cedro-do-Buçaco, mas, sem dúvida originária da América Central (México, Guatemala), se tenha efectuado em 1644, ano em que o Reitor M. de Saldanha inaugurou (15.08.1644) a capela de S.José (FRANCO, 1945).

    Começamos por notar que o cronista Frei Leão de Thomas, no tomo l de Benedicta lusitana, datada de 1644, no que se refere à ermida de S. José, afirma: “Entrose nelia por hü jardimsinho com sun fonte, tem seus passeyos a roda com outras fontes, & muitas árvores, & entre ellas os primeyros cedros que neste Reyno se virão plantados.” Portanto em 1644 já ali estavam essas árvores (cedros), que não têm um crescimento extraordinariamente rápido.

    Em 1634, nas “Soledades do Buçaco” a poetisa Bernarda Ferreira de Lacerda, referindo-se à rua que parte da Porta de Coimbra, afirma:
    ”...Alli el funesto cypres Con el vitorioso lauro De Ias hoyos, y saúcos Estan recibiendo abraços...”

    O “cypres” não é mais que a “Cupressus lusitonica Miller”, visto que a outra árvore conhecida em Portugal como cipreste, a “Cupressus sempervirens L.” (originária do Mediterrâneo Oriental), não existia, nessa altura, na Mata do Buçaco, pois em 1719 TOURNEFORT não a menciona, nem a cita também na lista das plantas que localizou no Buçaco e arroladas na sua “Topographie botanique”. “Cupressus mocrocarpa Hartweg” e “Cupressus goveniana Gord.”, ambas da Califórnia, são as outras espécies de “Cupressus” existentes no Buçaco, sendo os exemplares mais antigos os da última espécie existente na Cova de S. Pedro. Mas a introdução destas duas espécies é posterior a 1850, ano em que a Mato passou para a Administração Pública, assim como de mais algumas outras espécies de “Cupressus”, de introdução relativamente recente.

    Se no Buçaco houvesse desde o início da ocupação dos carmelitas descalços mais do que uma espécie de “Cupressus”, o notável botânico francês TOURNEFORT não se teria referido apenas à “Cupressus lusitanica” (“Cupressus lusitanica patula fructu minore”) quando visitou o Buçaco em 1689. O mesmo aconteceria a GOETZE, que, ao referir-se, numa carta escrita e dirigida a M. MASTERS em 1894, à visita que efectuara à Mata do Buçoco em 1866, quando conservador do Jardim Botânico de Coimbra, apenas cita magníficos exemplares de “Cupressus glauca” (C. lusitanica Miller).

    Antes dos frades carmelitas descalços se instalarem no Buçaco, a serra do Buçaco pertencera ao Mosteiro dos Beneditinos da Vacariça, povoação situada a 5 km do Buçaco. No entanto, os frades beneditinos do Mosteiro Bubulensej não podem ser responsabilizados pela introdução de árvores exóticas, particularmente esta “Cupressus” oriunda da América Central, por terem ocupado aquele Mosteiro, pelo menos, entre o século VI e IX, época ainda muito distante da descoberta do Novo Mundo. A partir de 1094 o Mosteiro da Vacariça passou a pertencer ao Bispado de Coimbra, data muito anterior à descoberta da América. Sabe-se, de qualquer modo, que os monges que residiam no que restava do Mosteiro se deslocavam periodicamente às capelas do Buçaco, já ali existentes antes da chegada dos referidos carmelitas.

                                                                                           

          

                                                                              
Assim se compreende que quando em 29 de Agosto de 1626, pela primeira vez, dois carmelitas visitaram a serra do Buçaco aconselhados por JOÃO FIGUEIREDO, um proprietário rural de Vilaredo (Vacariça), ao subirem a serra tenham visto “em Bussaco tanta variedade de árvores”. Este facto leva-nos a admitir que já ali deviam existir árvores exóticas. A floresta natural daquela zona, de que há alguns retalhos como por exemplo próximo da Cruz Alta, não só não é muito variada no que se refere a árvores, como as árvores não atingem portes que pudessem maravilhar os frades.

Na realidade parece que a floresta era já variada e rica antes dos carmelitas descalços a habitarem. Segundo alguns autores (COSTA, 1932), “Era tal o desvelo dos religiosos pela conservação e augmento da sua querida floresta, que, para obviar aos cortes e estragos que furtivamente se lhe faziam, alcançaram de Urbano VIII uma sentença de excomunhão maior, “ipso facto incurrenda”, contra quem violasse a clausura a fim de destroçar seus arvoredos. Esta sentença foi assignada pelo pontífice em 28 de Março de 1643”;

Vistando os frades eremitas de Nossa Senhora da Graça com frequência o Buçaco e permanecendo ali largos períodos de isolamento, foram, com certeza, eles que introduziram as primeiras árvores exóticas da Mata.

As árvores exóticas mais antigas do Buçaco são plantas oriundas do continente americano, particularmente da América Central, colonizada pêlos espanhóis. É natural que entre os eremitas do Colégio de Nossa Senhora da Graça de Coimbra tenha havido algum vigário espanhol nomeado para o Mosteiro da Vacariça e que tivesse “visitado” a América Central. Aliás já JÚLIO HENRIQUES (1911) admitia que a C (usitaníca Milier tivesse sido primeiramente cultivada na Espanha e deste pais trazida pêlos frades, para Portugal.

Portanto, a introdução de árvores exóticas no Buçaco parece ser anterior à chegada ali dos frades carmelitas descalços (1626) e posterior ao descobrimento do México (1518) de onde é originária a Cupressus lusitanica Miiler.

Esta espécie (Cupressus lusitonico Miiler) não é de origem asiática como se pensava inicialmente, tendo sido conhecida até por Cedro-de-Goa (SLOANE, 1684; RAY, 1688;

HERMANN, 1687; PLUKENET, 1696; MILLER, 1768; HENRIQUES, 1885 e 1895), mas sim das montanhas do México e Guatemala (HENRIQUES, 1911; FRANCO, 1945, 1986).

Quando em 1689 o notável botânico francês TOURNEFORT visitou o Buçaco, tendo herborizado na Mata, assinalou seis espécies arbóreas (1676-1690), sendo “Cupressus lusitanica Miller” a única exótica j21). Assim, julgamos que na Mata havia já bastantes exemplares desta espécie tal como hoje. A partir de 1834 a Mata passou a fazer parte dos bens nacionais e em 1850 foi entregue à Administração Geral das Matas. A maioria das árvores exóticas foram introduzidas a partir de 1856 particularmente sob a acção de R. de MORAES SOARES e S. BERNARDO LIMA.

A Mata encontra-se situada no cimo de Serra do Buçaco que, sendo uma elevação de baixa altitude, a vegetação é uniformemente luxuriante em toda a sua área.

O convento foi transformado -num sumptuoso palácio neo-manuelino, passando à actividade hoteleira a partir de 1909.

Como se disse, o microclima da Serra do Buçaco é húmido e temperado com frequentes dias de nevoeiro, Assim, muitas das árvores introduzidas no século passado, atingem, actualmente, dimensões notáveis. São exemplos os seguintes espécimes:

 

  • “Araucária bidwillii Hook”, árvore com cerca de 35 m de altura, junto ao Hotel. Esta, espécie nativa de Que-ensland (Austrália), é cultivada em vários parques de Portugal.
  • “Araucária angustifolia” (Bertol.) O. Kuntze (o “pinheiro do Pará”), originária do sul do Brasil e Argentina, cujos pinhões, com um tamanho ± duplo da amêndoa com “casca”, comestíveis, utilizados pêlos bandeirantes por isso (existem vários exemplares que não frutificam)
  • Existem vários exemplares de “Cedrus deodora” (Roxb. ex D. Don) G. Don f. espécie originária dos Himalaias e Afeganistão com cerca de 35 m de altura.
  • Entre os espécimes “Cedrus atlântica” (EndI.) Carrière originário das montanhas da Argélia e Marrocos, salienta-se o que se encontra próximo da Casa do Guarda das Portas de Serpa, com 30 m de altura.
  • “Cupressus lusitanica Miller” com vários espécimes na Mata, o mais célebre, o Cedro-de-S. José, considerado o exemplar mais velho em Portugal, com 22 m de altura. Rodeia-o um gradeamento metálico, o que parece desnecessário e, além de inestético, constitui um objecto de poluição visual.
  • Próximo da Fonte Fria estão dois belos exemplares de “Fraxinus pennsylvaca Marsh” (o freixo-vermelho) espécie originária da América do Norte.
  • Junto da Casa do Guarda da Porta das Lapas encontra-se o maior exemplar do país de “Pseudotsuga menziezii” (Mirbel) Franco (Abeto-de-Douglas), (45 m de altura). Outra espécie originária da América do Norte e de que os Serviços Florestais, devido ao seu grande interesse económico efectuaram diversos povoamentos no País, particularmente em Manteigas, Serra da Lousa e Serra da Padrela.
  •                                                                     
  •                                                                 
    - Como nõo podia deixar de ser, na Mata do Buçaco foram também introduzids as árvores mais célebres do globo, pela sua altura: as Sequoias, originárias da Costa do Pacífico dos Estados Unidos (Oregõo e Califórnia). Próximo da Fonte de Santa Teresa encontra-se a “Sequoia sempervirens” (Lamb.) EndI. plantada em 1879 e com 45 m de altura. São desta espécie as árvores mais altos do globo, atingindo cerca de 113 m de altura na Califórnia. “Sequoiadendron giganteum” (Lindiey) Buchholz é a outra espécie de Sequoias, que na Califórnia atingem cerca de 90 m de altura, mas que na Mata do Buçaco não atingem ainda altura significativa.

    - Como náo podia deixar de ser, ao que nada temos a opor num arboreto, na Mato do Buçaco também existem eucaliptos e acácias. Os eucaliptos são originários da Austrália, Tasmania e ilhas vizinhas, e as espécies de acácias que estão naturalizadas em Portugal são, na sua quase totalidade, espécies originárias da Austrália. No Buçaco merece destaque o exemplar de “Eucaliptus obliqua” L’Hér. plantado em 1877, ladeando a estrada de acesso ao hotel, com cerca de 44 metros de altura e um exemplar de “Eucalyptus regans” F. Muell. plantado em 1882, com cerca de 60 metros de altura, num vale nõo longe do Hotel. Esta última é a espécie de eucalipto mais alta no pais de origem (Austrália) e muito cultivada em Portugal, “Podocarpus mannii” Hook. f. é uma espécie endemia em S. Tomé, e, apesar de ser uma árvore pouco elevada, assinalamos o exemplar existente junto à Fonte de S. Silvestre, como uma das raridades da Mata, e que é um bom indicador do microclima húmido da Serra do Buçaco.

    Mencionamos ainda a “Araucária columnaris” (Forst.i Hook, originária da Nova Caledónia, também introduzida no Buçaco, não atingindo ainda grandes proporções. O restritivo especifico desta Araucária relaciono-
    -se com a imagem que COOK e os seus marinheiros tiveram ao avistarem a Nova Caledónia na segunda viagem ao Pacífico Sul. Ao longe as árvores pareceram-lhes grandes colunas de basalto. Na Mata do Buçaco, além de três espécies de pinheiro espontâneos em Portugal,-o pinheiro bravo (Pinus ainaster Aitonj; o pinheiro manso (xPinus pinea com um enorme exemplar (30 m de altura) ao fundo do Va!e dos Abetos; e o pinheiro-da-casquinha (Pinus sylvestris) existem outras origináris de outras zonas da Europa, Canárias e América.
    Os abetos (abias) são outras Pináceas, cultivados no Buçaco. Das varias espécies destacamos “Abios olbo” vlill., particularmente os do Vale dos Abetos situados “.a torta supeior do Vale de S. Elias e os da Costa do Sol.

    Há exemplos no Vale dos Abetos que atingem cerca de 40 m de altura.

 

  • Na Mata existem também exóticas caducifolias, sendo de assinalar a faia (“Fagus sylvatica L.”) pela cor outonal do folhagem.
  • Felizmente também se cultivam no Buçaco árvores da flora portuguesa, como o azevinho (“Ilex aquifolium L.”), havendo exemplares que frutificam abundantemente próximo da Capela de S. Elias; e o teixo (“Taxus bacca-ta L.”) cerca da Fonte Fria.
  • Ao lado do Hotel encontra-se a oliveira (“Olea euro-paea L.”) a que Weilington prendeu o cavalo após a Batalha do Buçaco.


A mata do Buçaco não é só importante por constituir um notável arboreto com muitas espécies arbóreas exóticas, pois ali também vegetam belos exemplares lenhosos e plantas raras da flora de Portugal.
Como não podia deixar de ser, na Mata do Buçaco também existem carvalhos, alguns espontâneos como o carvalho-negral (“Quercus pyrenaica Wilid.”) o carvalho-roble ou carvalho-alvarinho (“Quercus robur”) e o sobreiro (“Quercus suber”).
Da flora climática da Serra do Buçaco, salientamos algums lenhosas como o azereiro (“Prunus lusitania”), um endemismo l25) ibérico; o aderno (“Phillyrea latifolia”) com um notável exemplar de 15 m de altura cerca da capela do Jordão; o folhado (“Viburnem tinus”); a pereira brava (“Pyrus communis”); a aveleira (Coryius avellana”) e o lentisco bastardo (“Phillyrea angustifolia”).
Das espécies herbáceas realçamos bulbosas como “Narcis-sus bulbocodium” e os endemismos ibéricos “Fritiliaria lusitanica Wilkstrôm” e “Crocus serotinus Salisb.” (açafrão-bravo); várias espécies de orquídeas, como a orquídea com as flores mais pequenas da nossa flora “Neotinea maculata” (Desf.) Steam; “Serapias cordigera” “Orchis máscula” subsp. máscula (satiráo-macho); “Orchis moris”; “Ophrys apifera” Hudson subsp. apifera (erva-abelha); “Epipactis palustris” Crantz.; “Neothia nidus-avis” L. C. M. Richard, muito rara no nosso Pais; e outras herbáceas como o sêlo-de-salomão (Polygonatum odoratum (Miller) Dra-ce); o morangueiro-bravo (“Fragarias vesca”); as violetas (“Viola riviniana” Reichnb. e “Viola canina”; a “Sanicula europaea”, uma umbelifera dos sítios montanhosos e pouco frequente em Portugal.

Além de antófitas (plantas com flor), a Mata do Buçaco contém também Pteridófitas invulgares, espontâneas como “Davailia canariensis” Sm. (feto-dos-carvalhos) e “Phyilitis scolopendrium” Nowman subsp. scolopendrium (lingua-de-vaca), ou exóticas como a “Dicksonia antárctica Lab”. originária da Austrália e Tasmânia, que é o feto arbóreo no “Vale dos Fetos”.
Como testemunhos da humidade existentes na Mata salientamos a riqueza de Briófitas (hepáticas e musgos).

Das hepáticas estão assinaladas 25 espécies circumboriais e 35 espécies europeias. Não são conhecidos endemismos de hepáticas. Dos musgos estão assinaladas 113 espécies dos quais duas são endémicas, “Hyophila lusitanica” Cond. & Dix. e “Hyophila machadoana” C. Sérgio e duas são introduzidas e originárias da zona do PAcífico, “Hypopterygium muelleri Hampe” e “Clapodium whippieanum” (Sull.) Ren. & Card.

Estão também assinalados para a Mata muitos líquenes, algas e fungos mas estes grupos não foram ainda tão bem estudados na Mata do Buçaco, como os outros grupos de plantas referidas anteriormente.

Finalmente, não queremos deixar de referir a importância faunística da Mata do Buçaco.

Entre as 23 espécies de mamíferos assinalados para o Buçaco, interessa salientar a ocorrência da lontra (Lutra lutra), espécie protegida por lei e extremamente rara nos outros países europeus.

SEABRA (1905) assinala 80 espécies de aves, mas acreditamos que na Mata do Buçaco exista maior número destes vertebrados.

Estão assinaladas 10 espécies de répteis e, entre as 9 espécies de anfíbios, salienta-se a salamandra-de-cauda-comprida (Chioglossa lusitanica”), um endemismo ibérico estritamente protegido.

Conhecem-se cinco espécies de peixes, 22 de moluscos e 134 borboletas (70 diurnas e 64 nocturnas), mas tal como nas aves, acreditamos ocorrerem ali um maior número de espécies destes insectos.

Não seria curial terminarmos esta “resenha” sem realçarmos a importância geológica da Serra do Buçaco.

A designada Bacia Carbonífera do Buçaco aflora com uma orientação Norte-Sul ao longo da falha Porto - Coimbra -Badajoz -Córdova. A série sedimentar inicia-se por depósitos de leque aluvial, a que se seguem cerca de 40 m de depósitos de planície aluvial contendo uma flora fóssil do tipo do Rotii-egendes inferior, com a idade provavelmente correspondente ao Estefaniano (27) mais superior. A série termina por depósitos fluviais.

Esta Bacia Carbonífera do Buçaco é paleontologicamente muito importante e variada.

Os primeiros estudos geológicos que conhecemos sobre o Buçaco foram publicados por RIBEIRO (1850; 1853ª; 1853b). Não admira que muitas espécies fósseis estejam descritas sobre material colhido por aquele autor.

A Mata do Buçaco abrange uma área com predominância de formações do Pérmico, para norte triássico, para sudeste e Senoniano (Grés do Buçaco) (31) junto à Cruz Alta. Fora do âmbito da Mata o sistema geológico é mais complicado. A Serra do Buçaco é predominantemente constituída por formações do Estefaniano C, confinando a nordeste e oriente com o complexo xisto-grauváquico, com o Precambrico a noroeste quartzidos e xistos do Silúrico e Ordovícico a oriente; a sul confina com formações ante-ordovicicas (pre-cambrica) do complexo xisto-grouváquico. DELGADO (1908) foi o primeiro autor a publicar uma carta geológica detalhada da Serra do Buçaco e zonas limitadas.

As formações mais recentes , pertença do Plioceno - Quaternário encontram-se a noroeste e ocidente.
Devemos, no entanto realçar, além dos trabalhos já mencionados de RIBEIRO e de DELGADO, os estudos geológicos e paleontológicos de SOUSA. & WAGNER (1983), WAGNER & SOUSA (1983), WAGNER, SOUSA & WAGNER (1983), para .além dos de Décio Thadeu (1947) e W. l. Mitchell (1974).

 

publicado por Peter às 00:04
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