Sábado, 8 de Dezembro de 2012

PORTARIA

   

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     

A velha Portaria da Mata, hoje em dia Portas de Coimbra,

começou a ser construída em 1830 pela comunidade

carmelita e era então principal acesso ao eremitério.

Ali residia em permanência o egresso porteiro encarregado 

de receber quem chegava, um lugar de relações públicas

destinado a proporcionar o primeiro contacto com os eventuais visitantes.

Era a chamada porta de fora, considerando a outra porta de entrada já no

sítio do Convento como uma porta de dentro.

Para os eremitas regrantes, tinha lógica esta distinção.

Daquele ponto, donde se continua a desfrutar de uma soberba paisagem

sobre a Bairrada, a Gândara, e o mar Atlântico, se alcançava a cidade de

Coimbra por um caminho que logo de inicio era íngreme para quem subia

e que ao contrário, descendo a serra pelo lugar que é hoje

Stª Cristina,se dirigia por Botão e Brasfemes para a cidade

do Mondego.Rio que nos confins da serra lhe faz limite, separando-a,

na célebre Livraria do Mondego, dos últimos contrafortes da Lousã.

Conserva o nome original da cidade que lhe foi berço, mãe e amparo

no estabelecimento do mosteiro.Em 1831 pelos monges e em 1866

pelo poder civil foi objecto de necessárias reparações.

Depois da extinção da Ordem em 1834 foi a pouco e pouco perdendo

a importância como porta principal de entrada na floresta e resta

hoje como miradouro privilegiado, uma varanda aberta um pouco 

abaixo da Cruz Alta, sobre o horizonte em redor.

 

                                                                                                                                                                                                                                        

A construção, como toda a obra carmelita é pobre e de traço simples,

decorada com as armas dos monges em pacientes embrechados de

quartzo e de basalto, dando á humildade da arquitectura ,uma beleza singela

e de natural pureza.Trata-se duma construção recortada no muro da Cerca

onde se inserem duas portas de passagem em arco separadas por um corpo

central que contem transcritas a picão, em duas lápides de pedra, duas bulas 

pontifícias.A primeira, do lado esquerdo e do ano de 1822, lembra na palavra

de Gregório XV a pena de excomunhão que pende sobre as mulheres

(bendita emancipação)que entrem nos ermitérios carmelitas, a segunda,

á direita é expressamente dirigida ao Convento do Bussaco pela mão não

menos pesada do papa UrbanoVIII que em 1643 estende a mesma pena a

quem,de forma abusiva, cortar árvores ou fizer danos na mata.

Mal comparado,bem se pode dizer que não é do presente o castigo dos

poderes sobre o cidadão, só que então,  um imposto que nos dilacerava

a alma chamado excomunhão , uma pena do foro espiritual de peso

variável, conforme a crença do virtual pagante, hoje um imposto que

nos arrasa a vida caindo sobre o corpo com a insolvência do país mas

o mesmo abuso de quem comanda as redeas.

Sobre o comprimento da estrutura que suporta estes elementos corre uma

cimalha de pedra donde se elevam três frontões em semicírculo rematados

por cruzes e separados por quatro colunas de cantaria. Na parte inferior um

comprido banco de pedra serve o descanso de quem espera.

As duas portas em arco encontram-se hoje dotadas de portões de madeira,

mas a da esquerda,considerado o terreiro de fora, era uma porta tapada

a parede de alvenaria, sobre qual parede se abria outra pequena porta em

arco que dava acesso a visitantes. Por ali se entrava, segundo os relatos

existentes, para um pequeno recinto que servia de sala de espera a quem

aguardava autorização. Desta pequena sala se abria então para o lado

de dentro uma outra porta sobre a qual acima de dois ossos postos em cruz

se podia ler a seguinte quadra

.Ó tu mortal, que me vês,

Reflete bem comoestou;

Eu já fui o que tu és,

E tu serás o que eu sou. 

A esta simples quadra que se destinava a alertar os “incautos” para a

difícil e temerosa tarefa que os aguardava dentro ou fora, juntam alguns

autores,entre eles Forjaz de Sampaio em Memórias do Bussaco,

um outro textode maior arroubo  e força que vou deixar aqui

transcrito da obra referenciada:



                                                                                    

Em solitária morada,

Onde a humana voz não soa,

Onde o terreno povoa

Matta de escura ramada,

Feia caveira mirrada

O acaso encontrar me fez;

Cresce o susto, a timidez

Quando ella me diz e grita

-Um pouco pára e medita

Ó tu mortal, que me vês!

 

 

“Imóvel então ficando,

Sem querer lhe obedeci;

E com violência senti

O coração palpitando;

De todo os olhos fechando

Frio suor me banhou,

Ella de novo clamou

-Não feches teus olhos, não;

Presta-me mais atenção

Reflete bem como estou.

 

“com secco tronco me abraço,

Mal podendo respirar

Porque sentia apertar

Da garganta o curto espaço.

Não sei que estranho embaraço

Immoveis torna meus pés,

Falla-me terceira vez,

Ó desengano fatal!

-Eu também fui racional;

Eu já fui o que tu és.

 

“Eu vendo já de tão perto

Ali o retrato meu,

Os olhos levanto ao céo

Bem dizendo este deserto,

Diz-me então:-D’este decreto

O Deus que tudo creou,

Nenhum mortal isemptou,

Nem condição, nem idade;

Ou mais cedo ou mais tarde

Tu será o que eu sou.

 

publicado por Peter às 15:36
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