Quinta-feira, 11 de Outubro de 2012

LINHAS DE WELLINGTON

     

                         


     Apesar de não ser crítico de cinema, apenas um curioso cultor da coisa ou arte, atrevo-me a deixar a minha opinião pessoal sobre este filme pelo simples motivo de estar inserido na paisagem que antecede o assunto e supor ter tido, que me desculpem diatribes ou loucuras da intuição e da idade, a sensação de que a ela tenham assistido velhos ascendentes familiares.

     Fala-se há muito tempo sobre esta obra cinematográfica denominada Linhas de Wellington, a qual seria uma presumida epopeia sobre a retirada dos exércitos francês e anglo-luso após a batalha do Bussaco até ás Linhas de Torres. A verdade é que a fita está aí e procura, à sua maneira, relatar essa histórica aventura.

    Se alguém esperava, como se calcula pelas referências que se tem escutado, que o Buçaco estaria em foco ou seria palco de alguma coisa, desengane-se porém. Na prática, a obra pouco tem a ver com a batalha do Bussaco travada em 27 de Setembro de 1810, senão na referência que faz ao sucedido através de duas ou três pequenas e estilizadas cenas de poucos segundos para dar inicio á narrativa. De resto, não teria que ser sobre a batalha, o próprio título da obra é claro sobre o assunto e tanto poderia começar ali como em pleno percurso, a luta do Bussaco é nesta fita, secundária.

   É de estranhar o facto de terem aparecido por aí umas tabuletas meio anuncio meio peditório afirmando que o filme terá sido feito no sitio, transcrevo”…onde tudo aconteceu” Esta mania do tudo aconteceu ou acontece é deveras curiosa, porque de facto onde tenho visto isso anunciado não aconteceu nada que tenha um mínimo de mérito, como no caso das Termas do Luso onde o que aconteceu no Verão foi a catástrofe esperada.

   Para além da ignorância sobre o que se estava a passar, a paroquialidade de quem assenta o rabo em cadeiras de família e não de competência, um estigma deste país,está bem de ver numa afundação que ficou aquém  dos cinquenta por cento na avaliação que o Estado levou a efeito, e muito bem, para tentar cheirar o que se anda por aí a fazer com o dinheiro de todos nós. Pena que não a tenham extinto entregando o seu a seu dono, neste caso o Buçaco ao Estado que é a quem pertence como Sintra ou o Gerês e a quem compete zelar pelas condições dos bens públicos. Não pertence a autarquias que gastam o dinheiro dos nossos impostos naquilo que não lhes pertence, fundações incluídas, onde os escolhidos ganham rendas milionárias que ajudaram e ajudam a levar á bancarrota Portugal e os portugueses. Cedo ou tarde há-de chegar a hora de acabar com estes malabarismos sem vergonha porque não somos nós, povo, que haveremos de pagar eternamente estes desmandos de oportunistas munidos de cartão de partidos políticos e de descaramento sem fronteiras ou limites.

    A partir duma Coimbra não identificável se entra na narrativa que depois passa por Pombal e só depois chega a Torres Vedras. Mas logo desta primeira abordagem, dias após a debandada, pouco retira a história dos escritos sobre o assunto e da complexidade da fuga na passagem pela cidade. Cenas ilustrativas e esclarecedoras como seriam expectáveis, não há.

   Por sua vez o percurso da retirada, penoso nos relatos quando uma persistente chuva que começou a cair transformou os caminhos em lamaçais onde se afogaram vidas e se morreu da doença e da fome, acontece afinal no relato visionado em dias de sol e dessas agruras de quem foge, apenas umas leves escapadelas burgueso-românticas a justificar brandos costumes. Mas parece não ter sido assim tão almofadada a apressada fuga. Depois conta-se a história do sargento Francisco Xavier, bem interpretado aliás pelo português Nuno Lopes, ao qual se pegam alguns episódios soltos não muito fáceis de encaixar na sucessão da trama.

    Há uma certa anarquia na história, para que nos dê uma ideia consequente do sucedido. Comparando a película com o drama que foi para os portugueses o evento das invasões, nomeadamente a terceira, fica-se com a sensação que Pinheiro Chagas e outros autores relataram com demasiado pessimismo o que realmente aconteceu, pois o filme pouco pega no povo, nos seus tormentos e sofrimento.

Acaba com uma personagem que faz lembrar o Pierre Bezukhov de Tolstoi e do realizador King Vidor em Guerra e Paz, regressando, no nosso caso, pela terra queimada ás ruínas dos seus bens, onde a pequenez do acervo material e das concepções retrógradas e conservadoras são o contraste claro em relação ás grandezas da Rússia dizimada. Com intenção ou sem ela, as personagens são opostas, no primeiro caso um rico intelectual a renascer, no segundo um provinciano fidalgo nas ruínas. Dão no entanto para se fazer uma hipotética leitura dum passado amordaçado, como hoje, pelas nações estrangeiras. Então a Inglaterra, aliados e colonizadores, hoje a Alemanha, credora e proprietária politica. Fogos de verão, serviram para disponibilizar á equipa da fotografia esse excelente cenário de terra queimada em algumas cenas.

  Nem tudo é mau no filme. Pela positiva é de registar a boa fotografia, os diálogos bem conseguidos em quatro línguas, o desempenho dos actores, belos cenários naturais. Pela negativa uma banda sonora tecnicamente imperfeita que deixa diálogos por perceber, bem como a extensão da película que se repete em tomadas de imagens repetitivas. Fotografias cujo prolongamento conduzem ao cansaço pelo tempo excessivo de duas horas e meia de projecção.

    Como relato que respeita ás invasões francesas em Portugal e como primeira longa-metragem sobre o assunto, não temos melhor por não existirem meios de comparação. Era bom que a esta primeira tentativa se sucedessem outras já que a história pátria cada vez é menos conhecida dos portugueses através dos manuais escolares, e tudo o que seja para criar um espírito novo de coesão, solidariedade e cumplicidade á volta dela, da ética pura e dos valores humanos poderia e deveria ser estimulado. O cinema, como a televisão, coisas por conjuntura divorciadas dessa cultura dos povos, poderiam ser fundamentais nesse sentido.

 Voltando ás Linhas de Wellington, a meu ver, não sendo nenhuma obra-prima, é uma obra honesta e válida feita com os meios que realização e produção tiveram ao dispor, em Portugal, por razões óbvias, escassos.

    No que á Batalha do Bussaco diz respeito, repito, apenas a sugestão breve do fim dela. Nenhuma filmagem aqui foi efectuada, os flashs que a sugerem, tem assinatura da região do oeste.

   A realização é da argentina Valeria Sarmiento. Das interpretações destacam-se Nuno Lopes, Soraia Chaves, Marisa Paredes, John Malckovich, entre outros. Em pequenos papeis, de sublinhar Catherine Deneuve, Michel Piccoli, Chiara Mastroiani.

   Quem gosta de história e da matéria deve ver, quem quer saber sobre o assunto, tem que recorrer á muita literatura que acerca dele existe.

    Luso, Outubro,2012                                           Buçaco.blogs.sapo.pt

 

 

 

publicado por Peter às 17:36
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