Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

A TRALHA SOCRÁTICA

 

 

 

 

 

      Em recente crónica num jornal diário o cidadão Marques Mendes analisa aquilo a que chama a tralha socrática e as suas implicações junto do novo leader socialista. Talvez tenha razão. Eu próprio quando dou de caras na televisão e fora dela com algumas novas e velhas raposas cor-de-rosa fico agoniado. Políticos que transformaram o dever cívico de governar o país, numa profissão. Políticos que colaram o rabo às cadeiras dos poderes e delas fizeram o uso e o abuso até ao ponto de manipular as próprias eleições partidárias sem respeito pela democracia, pela honestidade hominídea ou pela honestidade política. Irresponsáveis e inaptos que, talvez não sabendo fazer mais nada na vida, vão procurando conservar-se enlatados como sardinha nos lugares de cidadania interpretando-os como seus e como sendo eles, pobres diabos mentais, insubstituíveis. Tão ou tão pouco que graças á persistência cega desta democracia de mediocridade e prepotência, ajudaram e levaram o país á bancarrota. E não fosse essa Europa de que os ameaçados dizem tão mal agora, quando procuram fechar aflitivamente a torneira da bagunçada que tem sido, já não teríamos sequer o que comer.

De facto os socráticos foram dos piores nesta politica contra a política, não só porque foram os últimos, mas porque se instalaram e ramificaram deliberadamente sobre a asa dum pseudo engenheiro, por todo o lado. Muitos continuam nessas cadeiras, até temos exemplos deste pequeno poder no município onde vivemos, outros até já não serão socráticos, querem um seguro porque querem segurança para os próximos combates, ainda não se convenceram, talvez por burrice congénita, que a imoralidade não sobrevive sempre e que as famílias, cedo ou tarde mudam e transformam a imundice dos abusos, dos favores, da falta de escrúpulos, esse mundo sujo movido a telemóveis e cadeias de informações quase concelho a concelho, em coisas obsoletas e ultrapassadas. Como a Pide.

Dá-me vontade de rir quando os administradores, os directores e os autarcas se queixam da falta de meios. Depois de terem ajudado a afundar o país com obras sumptuosas e insustentáveis, com assessorias tão extravagantes como desnecessárias, distribuindo lugares aos amigos em concursos inquinados, esbanjando em compras de automóveis topo de gama, em festas e donativos, em apoios inconcebíveis ao mundo do futebol, em fundações maquiavélicas e muitas outras barbaridades, queixam-se agora da libertinagem que tem sido, em termos financeiros, a gestão deste país. Queixam-se deles próprios em absurdas tiradas dirigidas aos pacóvios, pensam eles, dos eleitores.

Isto demonstra apenas que a irresponsabilidade, a incapacidade e o sentido de Estado são do absoluto desconhecimento da maioria dos políticos ou pseudo políticos. Conhecem a politica no pior sentido, se é que muitas vezes reconhecem nela alguma coisa a não ser os seus próprios interesses. Da nobreza do acto, não lhe conhecem rasto.

Terá pois razão o cidadão Marques Mendes, que respeito como homem, ao falar da tralha socrática, é verdade que sim, concordo, mas não pode esquecer o mesmo cidadão que antes da tralha socrática outras tralhas não socráticas ajudaram a cavar o fosso onde estamos caídos. E daqui, é certo que nem o cidadão em causa pode escapar, fez parte inquestionável deste rio caudaloso que se foi engrossando até um incontrolável amazonas. Ele e a sua família política, não podem pôr, á boa maneira da língua portuguesa, o rabo de fora, tal e tanto contribuíram para o caudal desta torrente, porque de facto ela não foi uma súbita tempestade como a que aconteceu na Madeira ou recentemente em Génova (as tempestades acontecem em todo o lado) mas paciente e tacticamente urdida, com duvidosas decisões, rocambolescos episódios, gastos sumptuosos, abusos de toda a ordem. Exactamente a mesma tralha que o cidadão acusa!

Admiro-me que só agora se aperceba do naufrágio quando qualquer chefe de família que governa a sua casa com o suor do seu rosto, o teria calculado há muitos anos atrás! Mas nem o dito cidadão nem nenhum dos economistas da sua larga prole familiar o calcularam, tal como o não calculou a prole socrática ou guterrista! Por não saberem? Claro que não, apenas porque o não pretenderam saber. Para um país que não cria riqueza suficiente há muito tempo, há muito tempo se previa um destino cruel. Cruel, doloroso, amargo e vergonhoso, por muitas culpas que se atirem á Europa e aos mercados. Não é preciso ser especialista nem génio da lâmpada de Aladino para ter chegado a semelhante conclusão!

Foi toda esta tralha que nos governou e enganou durante sucessivos períodos eleitorais, quer a nível do poder central, quer a nível do poder local. A tralha socrática sobrevive ainda neste pobre município, uma tralha que só vai deixar o poder quando a cadeira cair de podre por imperativo duma lei, não se sabe quanto tempo vai durar, que procura corrigir os excessos mandando embora quem, quer moral quer civicamente, não teve o senso suficiente nem compreendeu o tempo para dar lugar a outros. Uma tralha politica que vive á volta de si própria, que se apoia narcisicamente em si própria, que se amanha entre a família politica com os gadanhos de anos e anos de vícios e de cegueira colectiva, uma tralha sem ideias, pendurada em favores e benefícios que chega a filhos e enteados com o despudor de quem se julga dono politico de tudo e todos.

É necessário também que os socráticos concelhios se vão embora e deixem abrir as janelas ao ar puro duma mudança radical e saudável, capaz de tirar o município duma doença crónica cuja rotina se baseia nos favores e no oportunismo político.

Terminada há muito a quimérica patetice de campos do golf sem sustentabilidade ou de nós rodo ferroviários inventados, é tempo de ajustar contas. Arruinadas as termas por conveniente e inacreditável entendimento entre eleitos e concessionários, ao que se juntou uma fundação de família politica para destruir a Mata Nacional do Buçaco, resta a retórica bacoca de quem tem dinheiro em cofre para dar milhões de euros por uma estrutura degradada para nela enterrar outro tanto sem que se vejam vantagens para o porvir municipal. Coisa que nem os próprios calculam.

Não só o país teve a beneficiar com o fim do socratismo, também os municípios beneficiarão com a extinção das metasteses dos seus tentáculos. O tempo em que a voz do dono passava por cima das decisões democráticas deve acabar de vez, dando lugar a uma prática transparente e saudável entre as forças politicas, quer no seu interior, quer fora dele, de modo a que interesses pessoais ou partidários não se sobreponham ao interesse geral. Cabe aos partidos esta prática profilática a caminho da democracia e da dignidade perdidas.

Luso,Dezembro,2011

publicado por Peter às 00:20
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