Sábado, 12 de Novembro de 2011

IR À LENHA AO BUÇACO

 

   

Ainda não eram oito horas da manhã já as mulheres subiam a serra

em grupos numa algaraviada de ditos e comentários alusivos ás

novidades da manhã ou ao trabalho a fazer,donde eram sempre

pródigas e muitas vezes jocosas no linguajar comum .

Juntavam-se aqui e ali nos sítios combinados e em pequenos ranchos

se iam engrossando nos caminhos para as entradas da Mata.

A maior parte subia a Avenida Navarro, as escadas do Teatro

Avenida e penetrava dentro dos muros pela pequena

Porta dos Degraus, uma brecha aberta, a mais recente, dois

pilares espaçados por um metro de degrau, o suficiente para

entrar uma pessoa. (hoje no chão, em completa ruína).

Mas outras,em menor número, faziam-no pelo Portão dos

Passarinhos e do Luso, * ef inalmente em menor número ainda

algumas  utilizavam, consoante os lugares de residência donde

provinham, as Porta das Ameias e do Serpa.

Fosse por onde fosse o caminho das mulheres a subida

era sempre difícil de fazer, mas é verdade que quem se levantava

de madrugada e ia apara aquele serviço semanal sabia

perfeitamente ao que ia, podia mesmo imaginar passo por passo,

metro por metro, a jornada que se ia seguir, tão enraizado

estava o hábito no conteúdo das gentes e na ligeireza dos pés

sobretudo quando tocava a descer.

Foram dezenas, talvez centenas de anos que enraizaram o

costume, nos tempos em que se cozinhava nas lareiras ou nos

fogões de ferro, se acendiam os fornos para cozer a boroa

e o ar condicionado se resumia à fogueira familiar á volta

da qual se aqueciam todos os membros quando apertavam os

rigores do inverno.

Quanto mais grosso o madeiro, melhor o lar!

Só mais tarde surgiriam os fogareiros a petróleo com bombeamento

de pressão e depois o gás.

Na subida íngreme das veredas até ao campo da bola, a algazarra

subia de tom e o falatório seguia a par sobre a geada da manhã

ou calando o vento suão que empurrava e levava á sua frente quanto

pudesse arrastar, nos dias em que soprava como indesejado vilão que

nestas terras era e é. Vestiam roupas simples de simples mulheres do

campo, mulheres de lides caseiras, de agricultura,

moleiras, desempregadas da hotelaria que desde o cantar do pisco

até ao recomeço da época no mês de Maio,cuidavam dos afazeres domésticos.

Numa blusa de chita, acima dum casaco velho de ir ao pinhal ou ao rio

ou duma velha camisola de inverno já no fio, escondiam os corpos esguios,

abaixo da maçã rubra do rosto, afogueada pelo frio e pelo cansaço da

subida. Sobre a cabeça, empoleirava-se em equilíbrio uma rodilha de trapos

que parecia colada aos cabelos como extensão daqueles e seria
o símbolo, se simbologia houvesse, daquela ida ao Buçaco.

Era um trabalho árduo,mas misturado com a festa de subir àquela mansão

de ex-frades que deu sempre um certo encantamento e orgulho ás

gentes das redondezas.

Entre o cruzamento do Serpa e o cruzeiro de Vopeliares na antiga

Quinta da Graciosa, incorporada na mata em 1887, se reuniam

finalmente as mulheres tagarelando em grande burburinho até

á chegada do guarda-florestal.

As cordas, preparadas,pendiam-lhes das mãos ou enrolavam-se

no braço ou na cintura e um podão, além da ligeireza das mãos,

era o único instrumento de trabalho permitido.

Chegado o Mestre, o Cupido, o Santos, o Pimenta ou outro guarda de

serviço, impunha-se quase automaticamente o abaixar das vozes

e quando a autoridade florestal ensaiava as primeiras palavras

seguia-se um leve sussurro e depois o silêncio total.

-Quantas são?

E contavam-se as operárias que se juntavam como abelhas

umas de encontro ás outras. Depois faziam contas de cabeça.

Eram doze os guardiões florestais existentes no perímetro da

administração florestal do Buçaco sob as ordens dum administrador

residente e ocupavam na totalidade as doze casas que se prolongavam

pela serra até ao rio Mondego.

Nove dentro dos 105 hectares murados do antigo Carmelo , três em

plena serra, Carvalho, Espinheira e Ninho do Corvo. 

Faça-se aqui uma justa ressalva lembrando o facto de então a preocupação

ambiental ser efectiva e implantada no terreno com a presença dos doze

guardas residentes ao serviço constante da natureza, hoje tão badalada

como se fosse novidade e não mais que umapreocupação requentada,

reajustada, no caso do Buçaco, para muitíssimo pior.O guarda fazia a

contagem e dava entrada àquele rancho de operárias por conta própria,

o que consistia na indicação do local ou dos locais onde na semana tinha

lugar o desbaste  ou seja, onde se podia colher a lenha.

E depois em grupo, ou divididas em vários molhos mais pequenos se os

locais eram diversos,acompanhavam os guardas até aos respectivos

sítios onde de imediato tinha lugar a safra e o arranjo dos

feixes. No Sacramento, na Costa do Sol, na Cova daRaposa, em S. Miguel,

à Cascata,a Santo Antão, etc. etc.

Era uma limpeza gratuita ao coberto inútil da floresta feita pelo povo

vizinho, com proveitos para ambos os lados, pois ambos estavam i

nteressados na consequência dos actos,se a uns fazia jeito a lenha

para consumo energético, outros viam-se livres dumproduto que de

qualquer maneira haveriam de destruir.

Tal como nos fogos, que sempre os ouve por perto, onde na defesa

também sempre colaboraram as gentes das vizinhanças,hábito e

sentimento ganho depois que aos monges foi fechado o cenóbio

com a extinção daOrdem.

E não fosse a ajuda dos populares já teria ardido concerteza.

A faina, que tinha por limite de horas o badalar do meio dia, terminava

á hora que cada uma regressasse, ensarilhadas as arrancas de loiro,

carvalho, cedro, nogueira ou medronheiro no aperto do cordame,

posto o feixe á cabeça com a ajuda duma vizinha ou num cômoro

ali a jeito e o regresso de corpos direitos, mãos levantadas segurando

o feixe e ligeireza de pés. Muitas, descalças correndo sobre as pedras,

lama ou pó no labirinto das descidas.

Era assim que se ia ao Buçaco nesta função local de apanhar lenha, uma

função que se manteve até ao declínio do produto e sua substituição por

meios actuais.

Não é com espanto que me apercebo agora que se vende a lenha do Buçaco

a dez  euros o metro. O Buçaco já esteve á venda, já fez parte dum rol de bens

a alienar, tudo se pode esperar, mas lenha, dentro desta velha tradição

que se esgotou, não, é apenas a febre de fazer dinheiro seja de que modo for.

Com o registo escrito desta tradição, pretendo trazer á superfície

a apropriação fundamentalista por que está a passar a Mata,

uma espécie de feira da ladra de gestão amadora, folclórica, que me desculpem

os abnegados carolas da modalidade, onde tudo se trafica sem costumes,

tradições ou alma.

Como os azevinhos, dizimados pela ignorância de quem não é especialista

mas nomeado.

E sublinho também o caso da entrada automóvel cuja proibição ás gente

da freguesia é um absurdo intolerável. Como aos taxistas do concelho,

um crime contra o turismo!

Não só porque nunca foi vedado a esta população a entrada num território

que emprimeiro lugar é eticamente seu mas também porque,

como se sabe, a autarquiaCâmara da Mealhada tem pago algumas das

contas ou dos trabalhos executados naMata com o dinheiro que lhe

pertence gastar com o cidadão do município. Porquea Mata continua

a ser do Estado, não da Câmara, é o Estado que nela tem deverde investir.

Como está a acontecer, os munícipes do concelho que entram no
espaço pagam por duas vezes entrada. Através dos seus impostos por

parte da participação da Câmara e através do seu dinheiro retirado da

carteira no pagamento do acesso.

Coisa que não acontece com qualquer outro cidadão deste país,

que paga apenas uma vez a entrada.

Com cartão ou sem cartão, este trata apenas dum subterfúgio para

realizar mais alguns patacos, inserido dentro das sucessivas operações

de charme com que vêem tentando defenderinteresses próprios.

Por outro lado, é incompreensível que o Estado despeça
funcionários públicos por falta de dinheiro e mantenha as clientelas

políticas nomeados ao sabor das amizades e dos cartões partidários.

É desonesto einsustentável.

Ir buscar lenha ao Buçaco era tradição antiga, a apropriação do património

e o proibir o usufruto dum espaço comum, se fosse tradição era moderna,

faltar-lhe-ia o hábito do tempo para entrar no coração das gentes.

Fruto do desemprego e do atropelo partidário duma fundação de família?

É o mais natural, mas apesar de parecer coisa pequena, em minha opinião,

tem a mesma falta de ética com que o madeirense Jardim faz as suas

fantásticas  tropelias.

As autarquias, onde cai todos os meses o dinheiro dos nossos impostos

sem que para isso produzam seja que riqueza for para o país, são apenas

gastadoras,  terão que entender que as vacas gordas vão acabar e que

o respeito pelo cidadão é coisa bem diferente do que montar agências

de empregos que muitos querem controlar, lá saberão porquê. 

No Buçaco, não faltam mangas de alpaca, faltam porém jardineiros

para tratar da botânica. 

Muitos deles, alpacas milionários, sem qualquer tradução no trabalho

que fazem.É um regabofe para muita gente, mas que nos custa caro

a nós cidadão, espezinhado de todas as maneiras na sua dignidade e

cidadania.

*Cabe aqui referir que a Porta do Luso foi
transferida do seu lugar primitivo adiante da actual Porta do Serpa, quando se
acrescentou á Mata a Quinta da Graciosa e encontra-se actualmente, na estrada
de Penacova. O portão em ferro, obra fundida na Fábrica da Companhia
Perseverança, de Lisboa, foi colocado no dia 10 de Maio de 1866 no seu lugar
inicial e tem hoje um valor que não corresponde ao estado de ruína em que
também está, mercê duma gestão politica irresponsável.

Luso, Setembro,2011

 

 

publicado por Peter às 00:45
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