Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010

BATALHA BUSSACO 3ª INV. RETIRADA-11

                                                                                 

     General Montbrun procura caminho alternativo                                                      

 

 A RETIRADA PARA  COIMBRA E LINHAS DE TORRES

 

Na tarde do dia 27 , suspenso o ataque francês , enquanto Wellington se mostrava aos seus regimentos e celebrava cautelosamente o que parecia o triunfo obtido sobre a primeira arremetida dos franceses, reunia Massena no  seu posto de comando do Moinho da Moura com os comandantes de  exército a fim de encontrar uma rápida saída  contornando a serra. Encarregou então o general Montbrun de enviar patrulhas de cavalaria em todas as direcções na busca duma passagem. Soult encontrou um caminho que de Mortágua a conduzia a Carvalho e Gondelim onde se podia passar a vau o Mondego para o lugar do Coiço e seguir depois para a ponte da Mucela a fim de tomar a estrada da beira, mas veio a verificar que o terreno estava nas mãos da cavalaria inglesa, o 13º de Dragões e a cavalaria portuguesa, ambas do comando de Fane e ainda da infantaria portuguesa de Lecor.

 Ao general Sainte-Croix , que explorava em Mortágua uma idêntica passagem  que contornasse a serra pela direita, apareceu porém um camponês que, depois de interrogado informou da existência dum caminho  por  Boialvo e Avelãs de Caminho, onde encontrariam a estrada real do Porto para Coimbra e Lisboa. Foi uma brigada de cavalaria encarregada de fazer um reconhecimento mais aturado do percurso em toda a sua extensão, no que se fez ajudar pelo dito camponês, acabando por encontrar um caminho capaz de suportar a passagem do exército e do respectivo equipamento. Conhecedor desta alternativa na manhã do dia seguinte, sexta-feira 28, Massena mandou de imediato ocupar posições estratégicas, tendo o próprio Sainte-Criox ocupado Boialvo, e outros regimentos estabeleceram-se em Vale de Carneiros e Aveleira.

No mesmo dia mandou reforçar os postos avançados ainda espalhados pela serra e reabriu o fogo em toda a frente, convencendo Wellington que a batalha prosseguia. Deu então inicio à retirada dos seus regimentos de forma discreta e imperceptível, enganando desta maneira os vencedores que se mantinham nos postos de combate esperando por novo assalto.

Eram onze horas da noite, Wellington descansava, quando foi acordado pelos seus oficiais e tomou conhecimento dos movimentos inimigos. Saltou rápido do improvisado aposento e também com extrema rapidez deu as ordens de retirada. A partir da meia-noite as tropas anglo-lusas iniciaram precipitadamente o movimento descendo as vertentes da serra em direcção a Coimbra em tal desorganização, que  dava a ideia de fuga.

Noite escura e de chuva, os frades que ainda se conservam no convento são aconselhados a abandonar o ermitério acompanhando as tropas o que fazem sem hesitações, excepto Frei António da Soledade, frei Inácio da Natividade e Frei Silvestre que se atrasam e decidem seguir na manhã do dia seguinte.

É sábado, 29, manhã cedo, os derradeiros regimentos ingleses deixam a serra apressadamente. Ficam equipamentos, diverso material, barris de pólvora e além de algumas sentinelas dispersas fica na serra um batalhão inglês, uma espécie de carro vassoura destinado á liquidação do negócio inacabado. Além da observação sobre os movimentos inimigos, percorrem os locais dos combates, prestam ajuda aos muitos feridos abandonados e queimam do lado de fora da Porta da Rainha a grande quantidade de pólvora que constituía a reserva ainda guardada junto ao Convento que não conseguem transportar na pressa da retirada. Quanto isto acontece, o estrondo é enorme, ouve-se léguas em redor e além de provocar o abatimento de algumas árvores destrói o muro da cerca por muitos metros escancarando o ermo a toda a gente. No edifício do mosteiro, a onda sonora parte janelas e vidraças causando alguns prejuízos á ordem religiosa. Depois, deixam sessenta feridos franceses na mão dos eremitas e partem.

Para Wellington , a retirada é  vital e  a confusão gerada pressupõe que nem batalha nem vitória serviram para nada. Numa análise simples há todo um contra-senso na situação com os vencedores a retirar á frente dos vencidos comprovando que na altura foi assumida como mais uma das muitas escaramuças que tiveram lugar desde a fronteira, embora a batalha do Côa tenha ultrapassado a simples troca de tiroteio entre soldados.

Numa leitura desapaixonada, a vitória acabou por ser, á posteriori, um prémio de consolação. Dum episódio de passagem transformou-se numa batalha, mercê do momento que depois se considerou como sendo o do começo da derrota de Napoleão. Mais valor simbólico que real. Inócua, em termos militares, ela foi desastrosa em termos humanos causando perdas inúteis em vidas.

Espalhado entre a Mealhada, Carqueijo, Botão e Eiras, o exército de Massena está ás portas de Coimbra em 1 de Outubro e entra na cidade. Estupefacta e horrorizada, ainda a apagar as cinzas das fogueiras e festas organizadas para comemorar a vitória do Bussaco, a pouca população que ficou assiste á chegada da cavalaria de Montbrum á ponte de Santa Clara, ainda a tempo de empurrar á cutilada alguns dos retardatários que fogem. A cidade fica abandonada á posse dos franceses que ensaiam uma rapina concertada aos supostos celeiros existentes no burgo, iniciando o roubo com marcas de ferocidade logo na freguesia de Eiras. As ordens dimanadas do comandante em chefe não são cumpridas e a politica de terra queimada do inglês dá lugar ao roubo do francês. As favas que paga sempre o inocente, recaem agora sobre os poucos habitantes que ficaram na cidade. Á maioria que seguiu o exército não cabe porém melhor sorte. Os caminhos são miseráveis, a lama que se começa rapidamente a amontoar é um obstáculo medonho, a fome começa a grassar enquanto a população em debandada se encolhe entre as colunas dos soldados em movimento ou atrás daquele macabro cortejo onde vivos, feridos e agonizantes se misturam e vão morrendo á mercê única da sorte de cada um.

E vão assim por Condeixa, Pombal, Leiria, e finalmente Alenquer já na entrada das Linhas, sempre acossados pela vanguarda dos franceses apostada em dificultar a vida e a caminhada de quem os procede no tabuleiro da guerra. O Bussaco ficava definitivamente atrás.

Encerramos o relato duma memória local sobre as invasões, sem deixar de agradecer a paciência dos leitores que nos leram bem como o estímulo recebido de alguns. Ao mesmo tempo, concluir dizendo que a vida no mosteiro continuou até 1834, ano em que foram extintas as ordens religiosas. A vida monástica tornou-se porém mais difícil, não só porque os muros levaram tempo a reparar, o que permitiu o acesso de outras pessoas estranhas ao local como pelo facto de passar a ser visitada por inúmeros participantes na luta, entre eles muitos ingleses, a quem os frades sempre prestaram auxilio, atenções e deram alojamento.

Depois da extinção da ordem, a Cerca foi praticamente abandonada pelo poder monárquico, só por milagre não foi vendida a terceiros mas invadida por autênticas romarias de gente das redondezas, em pouco tempo a maior parte do património foi destruído. Quanto ao servente Francisco, Francisco António, de seu nome verdadeiro, ainda em 1864 se mantinha como sacristão, cicerone e guardião da Mata. Sabia o que procurava guardar, não sabia porém para quem guardava. Sem família, era no cenóbio que encontrava o último laço duma existência também de eremita, com um zelo e uma eficiência que mereceu registos na época. Aqui deixo uma homenagem póstuma á sua memória, ao primeiro leigo conhecido que amou o Bussaco desinteressadamente, quando, talvez como agora, precisava de amigos para poder ressurgir. Então, como hoje, a devassa é a mesma! Mas amigos do Bussaco, este é sem dúvida, o primeiro de todos. FS

PS-A pedido de alguns leitores aqui deixo referidos alguns dos livros consultados durante a publicação destas crónicas relativas á batalha do Bussaco :

200 Anos da Guerra Peninsular, Exército Português; História Popular da Guerra Peninsular de Teixeira Botelho; Linhas de   Torres Vedras, de António Ventura; Guerra Peninsular 1801-1814;Batalha do Buçaco, Museu Militar; Buçaco, de Paulo Varela Gomes; Luso, no Tempo e na História ,Junta de Freguesia do Luso, O Tempo de Napoleão em Portugal, Comissão Portuguesa de História Militar, Bussaco, de G.L.Chambres; Bussaco 1810,Rene Chartrand; Portal da História ,Internet ;História de Portugal, Damião Peres; Dicionário de História de Portugal de Joel Serrão; Inventário Artístico de Portugal, Aveiro; História de Portugal de Oliveira Martins; História de Portugal de Oliveira  Marques; O Bussaco, de Silva Matos e Lopes Mendes; Guia Histórico do Bussaco, de Simões de Castro ; A História de Portugal, Jose Matoso;História de Portugal , de Rui Ramos ; Crónica dos Carmelitas Descalços; Memórias de Massena, de General Koch; A campanha de Portugal de A. Guingret; D.Maria I , de Luís Olivª Ramos; D.João VI , de Jorge Pedreira e Fernando Costa; História Geral Invasões Francesas, de Acursio Neves; O Combate do Côa , de Gabriel Santos ; A batalha do Bussaco de Brito Limpo; A Guerra Peninsular, de Pinheiro Chagas;Memórias do Bussaco de Adrião Forjaz de Sampaio.

Agradeço ao meu amigo querido Carlos Ferraz o material que me forneceu durante a elaboração dos artigos e ao Jornal da Mealhada pela disponibilidade da sua publicação. 

  

publicado por Peter às 22:42
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