Sexta-feira, 22 de Outubro de 2010

BATALHA BUSSACO-3ª INV. FRADES-10

 

 

                   FRADES

 

Confusa e de certo modo alheia á trama que se desenrola á sua volta pois só lhe ouvem o som, a comunidade carmelita que deixamos reunida junto á Senhora do Leite, ou do suposto quadro de Josefa de Óbidos se assim se preferir, decide preparar a livraria para a eventualidade de receber alguns evacuados da luta.

Atarefados nas breves arrumações, ouvem distintamente pouco tempo depois o trovejar de canhões para os lados de Stº António do Cântaro e mantêm-se silenciosos e expectantes ainda que sobre forte pressão nervosa e alguma desorientação. Wellington garantiu-lhes na noite anterior uma segura evacuação para Coimbra em caso de perigo, mas isso parece não bastar para os manter sossegados, enquanto o ribombar do bronze da artilharia vai subindo de tom, ás vezes troando longe, outras mais perto, outras ainda a intervalos, alongando-se no tempo e distanciando-se no espaço como se decorresse em diferentes locais e em permanente mudança. Depois deixam aturdidos a igreja e alguns deles, os de melhor sustentação física sobretudo, vão procurar na serra o trabalho de auxilio a que se propuseram, não sabem muito bem o quê, mas há sempre esse humanitário objectivo à mão das congregações religiosas, que tem a ver com o conforto do corpo e o aconchego das almas de quem precisa. Com as prováveis feridas e a extrema-unção na bagagem voluntaria, distribuíram entre si alguns nacos de boroa que meteram nos bolsos escondidos nas largas vestes e aos pares e trios diversificaram os caminhos.

O mosteiro ficou praticamente entregue a Frei António dos Anjos, também oficial da dispensa e a Francisco, nomeado pelo prior para lhe prestar ajuda. O rapaz, ao tempo que se maravilha com os apetrechos da tropa, já um soldado o quisera ensinar a disparar o engatilhado cão da espingarda a troco duma mão cheia de espigas de milho, e com todo o arraial consequente, anda desorientado, pouco afoito e à rédea solta. Frei António mandou-lhe ter o olho permanente na fechadura da adega e na arrecadação dos bens, onde mantém escondidas algumas barricas de sardinha, um pouco de milho e uma pia de azeite que são o governo do mosteiro. Incumbiu-o de pronto alarme caso veja perigar estes haveres, única garantia real, apesar de parca, da sobrevivência dele próprio e dos irmão, mas com a saída da quase totalidade do clã militar das imediações, o perigo diminuiu e se reside em alguém é  em alguns civis que por aqui passam a caminho dos teatros dos sucessos. Armados e desarmados.

  Frei Geónimo do Sacramento e o irmão Silvestre, cronista de serviço ao convento, já estão fora do átrio do mosteiro e observam os poucos soldados que manuseiam no terreiro da portaria, pólvora e munições. É uma montanha de material trazida para ali em dezenas de carroças, tratado e posteriormente distribuído pelas unidades da serra.

Duas das derradeiras cargas saem na direcção da Porta de Sula e os dois frades acompanham o pequeno cortejo. As rodas chiam enterradas no pó da íngreme subida que começa à direita depois que acaba o pátio das traseiras. Os soldados gritam incentivando as mulas e espicaçando-as brutalmente com as pontas das baionetas até se verem umas gotas de sangue a escorrer pelas ancas. Outros, enervados com a lentidão dos animais vergados ao peso da carga e da rampa de S. Silvestre dão-lhe coronhadas sem cerimónias à medida que avançam e é cada vez mais nítido o troar da artilharia á mistura com disparos de armas ligeiras cujo som parece vir de todos os lados. Ao tanque da nascente os dois frades deixam os carroções entregues à brutalidade dos guardas costas e viram à esquerda na direcção da Porta da Rainha recentemente desentaipada. Quando atingem a Capela das Almas já fora do muro , encontram um grupo de franceses em estado lastimoso. São dos primeiros frutos da batalha. Um deles tem o nariz e o pescoço esfacelados por uma bala e expele entre coágulos de sangue sons incompreensíveis. Dois outros, caídos na beira do caminho,  consomem gemendo o que lhes resta de vida antes de chegarem ao improvisado hospital. Ali ficam inertes encostados ao talude seco da estrada. Soldados ingleses e alguns paisanos acendem uma pequena fogueira por misericórdia e colocam os desgraçados em redor dela. Têm frio e gemem por uma morte breve. Os dois frades aconchegam-nos com duas mantas velhas e debruçam-se sobre eles em rezas e orações, mas os infelizes não dão acordo de si. Pedem água e alguns, em agonia ,gritam pelo consolo definitivo dum golpe de misericórdia. Passam mais uma dezena de estropiados antecedendo uma carroça militar dirigida por um maqueiro inglês. Outros irmãos entretanto chegados põem-lhe a mão já próximo do hospital, empurram o transporte ao tempo que se dirigem a eles com santíssimas palavras que não produzem efeito. Ninguém espera bênçãos divinas em horas de aflição.

Os dois primeiros frades dão meia volta , voltam atrás e sobem rente ao muro  da Cerca em direcção à Porta de Sula onde os combates estão acesos  com os franceses , que  quase atingiram a paliçada de rolos de carvalho ali montada se batem pela conquista duma posição sustentada. É a Divisão Marchand procurando repetidamente conquistar o terreno à qual responde energicamente a Brigada Portuguesa Pack constituída pela Infantaria 1 e 16 e pelo 4 de Caçadores que aguentam com valentia o assalto e tentam colocar em fuga as colunas francesas. Infantes e caçadores descarregaram sobre eles com tanta intensidade que  as primeiras filas são dizimadas e os frades que inadvertidamente sobem por ali perto  escutam os gritos e gemidos dos que tombam. Um oficial grita-lhes para que se retirem e se aproximem do muro. Correm embrulhados na espessura das vestes até que dois soldados se destacam dos atiradores e os puxam como fardos por uma abertura feita no muro. Ficam surpresos e atónitos mas continuam da parte de dentro a exploração. Por cima das suas cabeças e silvando na ramaria da vegetação passam alguns inofensivos projecteis vindos de fora enquanto a Brigada Pack , agora apoiada por três baterias inglesas executa uma carga á baioneta que põe Marchand em debandada encosta abaixo. Os de cima ficam aliviados e preparam-se para uma segunda defesa que não virá.

Ultrapassada a porta, dão-se os irmãos conta do novo caminho militar aberto pelo interior até às portas do telégrafo e atingindo o planalto encontram um segundo e rudimentar hospital onde se prestam os primeiros socorros às vitimas que se encontram na parte mais alta da serra. É uma mesa comprida feita de tábuas aplainadas onde são estendidos os corpos e analisados por cirurgiões de mangas arregaçadas. Nos casos mais graves a exigir cortes de membros, amarram os doentes com largas correias de couro, encharcam-lhes a boca de aguardente e serram a sangue frio uma perna ou um braço. A vitima contorce-se, grita e mas acaba por ceder à força bruta, esvair-se em sangue e sossegar por fim.

São quase todos feridos do assalto de Santo António do Cântaro que vão chegando em carroças vagarosas por improvisados caminhos com o apoio de enfermeiros e maqueiros.

Do cirurgião António Teixeira que iniciou a sua carreira no improvisado hospital de sangue da Capela do Encarnadouro a 27 de Setembro de 1810 e faleceu em 28 de Fevereiro de 1873 como cirurgião-mor depois de fazer toda a campanha  do Bussaco até Bayona  em perseguição do exército francês , são as seguintes palavras quando se refere aos horrores  duma batalha … montes de cadáveres, charcos de sangue, mutilações horríveis, agonias violentas , em suma, a morte nas suas estupendas manifestações .

Os irmãos, não suportando o sofrimento físico á vista e verificando a ineficácia da consolação religiosa abandonam depois estes deserdados da sorte e descendo pela capela de S. João Batista regressam ao convento.

Neste trajecto lembram-se dos bocados de borôa guardadas de manhã nas profundezas do hábito e sem dizerem palavra um ao outro vão-lhe roendo as côdeas sem manifestações de apetite. A tarde, que não demora nestes dias finais do mês de Setembro, estende-se até ao oceano atlântico que se vê brilhar no horizonte crepuscular, laranja e branco como fio de pérolas levemente cintilantes.

 Quando chegam finalmente ao convento num lusco-fusco súbito, dão-se conta que os espera uma mulher num burro e um general blindado à volta do pescoço. Com eles está Francisco, desorientado pelos acontecimentos do dia e pasmado perante a beleza de Geraldine, uma rapariga maravilhosa como nunca vira antes na vida. È do seu alojamento que vão tratar em seguida. No olival , onde mandara abrir covas para enterrar os mortos, o Superior  murmurava as orações fúnebres umas atrás das outras e procedia á encomenda das almas conforme iam chegando corpos ou morrendo os moribundos que se espalhavam  em   redor. Quando a noite caiu definitivamente, os gemidos rasgaram o silêncio com mais força  a espaços que se foram alongando  cada vez mais, os gritos de raiva e estertor  fragilizaram-se na fraqueza das forças, até que um manto de leve neblina surgiu do arvoredo  e  se espalhou sobre  o convento  escondendo e abafando simultaneamente  os sons  e o sofrimento dos desgraçados em agonia.

publicado por Peter às 22:09
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