Terça-feira, 13 de Julho de 2010

BATALHA BUSSACO-3ªINV.CRAWFORD-7

  Gravura de Charles Turner (1773-1855) baseada

   num desenhodo major Thomas Siant Clair .

 

NO MOINHO DE  SULA

O ataque ás posições do Moinho de Sula que dariam acesso ao Convento dos Carmelitas começa uma hora  mais tarde  e foi efectuado pelas divisões Marchand , Loison e Mermet  do 2º  corpo de exército do marechal Ney. São sete horas da manhã.

Se o assalto a partir de Santo António era de difícil de executar, este outro do lado norte da serra parecia tarefa igualmente espinhosa, a subida era mais curta, mais visível, a estrada ainda que má existia, mas á medida que se entrava na vertente da pequena aldeia de Sula para culminar no Moinho que lhe era superior, quase se transformava numa fortaleza inexpugnável. Abrupta, violenta, agreste, constituía de facto uma defesa natural intransponível perante as posições altaneiras dos defensores. Vertical em muitos pontos, plena de ladeiras e declives onde o avanço ordenado das colunas assaltantes era coisa impraticável. Assim, o assalto, precedido por difícil caminhada das divisões gaulesas em mal organizadas colunas, saldou-se por uma punhado de acções decididas quase momento a momento em paralelo com o avanço, consequência de inúmeros sucessos ou reveses ocasionais, uma guerra aos bocados sem táctica ou coerência. Avançar em linha em tal configuração de terreno não era possível, em colunas organizadas era difícil, trepar por penedias, quebradas, abismos, tojos, arbustos e uma infinidade de obstáculos físicos pregados ao chão, era um constante abrir de novas e desconhecidas vias, tarefa já de si suficientemente dura para criar problemas á simples passagem do exército, tarefa extrema para um exército em luta. Andaram nesta demanda durante parte da manhã, os de baixo a ensaiar um assalto que não podia ser eficaz, os de cima a observar e a rechaçar as tentativas.

Depois o nevoeiro dissipa-se completamente. É o costume nesta serra ardilosa que dum lado beija a secura do interior até ás neves da Estrela, do outro recebe as nuvens oceânicas que lhe descarregam no dorso verdadeiros dilúvios.

Levanta o nevoeiro e o dia que está para estar é de sol. Já se tinha silenciado à muito a artilharia de Ney que, de baixo para cima e a 900 metros de distância tentara limpar o terreno sem resultados visíveis.

No alto, onde se abre uma larga portela em torno do caminho, Crawford sai do moinho de Sula.  Brilha o vermelho da jaqueta e os galões de oficial enquanto assesta pela centésima vez o binóculo sobre o vale que o separa da aldeia da Moura e repara que há movimentos de infantaria por todo o lado. Alguns bem perto da pequena aldeia de Sula, proprietária do moinho onde tem montada uma pequena mesa e uns mapas seguros por uma pedra arrancada do chão. É o seu posto de comando. O nevoeiro dissipa-se com rapidez  e sol começa a aquecer, como a paisagem.

Da divisão de  Marchand surgem e desaparecem fileiras de atiradores  seguindo as dobras da encosta e da estrada. Saltam fora dela quando a brigada Pack postada entre o moinho e a porta de Sula abre fogo. Aninham-se, desaparecem, surgem depois um pouco mais acima. Á sua frente, em linha recta com a Moura mas no abismo do vale que o separa, Loison procura manter ordem na sua divisão que caminha como pode pelas pregas sinuosas e abruptas do monte. Á frente, deambulando entre penhascos e arbustos os nossos já conhecidos voltigeurs da artilharia ligeira, saltam e sobem trepando quando podem para lugares superiores. Se observam os postos avançados aliados, ajoelham, apontam, fazem fogo. Vestem uma casaca azul sobre colete e calça branca e sobre os cabelos assenta uma barretina encarnada repuxada até ás orelhas.

Num repente saltam em pequena nuvem junto á aldeia logo seguidos por duas colunas de infantaria que trepam corajosamente até ás três primeiras baterias do capitão Hew Ross . É o general Simon , comandante de brigada quem comanda o  súbito assalto. A surpresa do movimento arrasta na frente  o batalhão de Caçadores 3 e obriga a artilharia a retirar deixando três peças no terreno. Sobre uma delas salta o general como que a querer tomar-lhe posse. No mesmo instante surgem de surpresa, os ingleses do 43,45 e 52 que se abrigavam atrás da crista e efectuam uma descarga a vinte metros caindo ferido o próprio general que ficou prisioneiro. Seguiu-se uma tremenda carga á baioneta que empurrou com violência a coluna francesa pela montanha abaixo deixando inúmeras vítimas espalhadas em redor. O mesmo sucedeu á brigada Ferrey que foi dizimada pela brigada Coleman enquanto a artilharia britânica e portuguesa varrem os flancos e o centro dos franceses em fuga.

A luta é dura e breve. É quase meio-dia batido na sineira do mosteiro e praticamente tudo está terminado. O dispositivo de defesa conserva-se nos seus postos convencidos duma segunda arremetida. Vão esperando o segundo ataque francês que tarda em chegar enquanto o dia avança, mas os franceses, reagrupados nos abismos do monte, acodem aos feridos e contam as baixas. Que são muitas. Massena, instalado no moinho da Moura, suspende o ataque.

As duas divisões de Ney que participaram no assalto estão dizimadas, a de Loison registou 1255 vítimas, a de Marchand 1173. Do lado aliado, foram registados 600 mortos ingleses e 602 portugueses.

 O resto do dia 27 é passado entre trocas de tiros esporádicos das posições avançadas de um e outro lado e um bombardeamento da artilharia aliada sobre a aldeia de Sula onde se alojaram algumas dezenas de franceses durante a tarde.

Conserta-se entre combatentes um momento de tréguas que serve para recolher os mortos e os feridos e até para confraternizações entre soldados de ambos os lados quando se cruzam em plena aldeia.

 Na Capela das Almas, o hospital de sangue fervilha de movimento e os cirurgiões não tem mãos a medir concertando indiscriminadamente ambos os contendores. Os horrores da morte estão presentes nas agonias de muitos, os cadáveres amontoavam-se por todo o lado, os mutilados pela luta ou pela intervenção cirúrgica oferecem um espectáculo dantesco, poças de sangue ou membros decepados quase se misturam com gente que trabalha, ajuda e tenta mitigar a sede de tanto sofrimento.

(200 anos da Batalha do Bussaco.)

 

publicado por Peter às 20:09
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