Segunda-feira, 28 de Junho de 2010

BATALHA BUSSACO-3ª INV. ASSALTO -6

 

O ASSALTO DE GRAINDORGE

 

No dia 26 á noite cabeços, outeiros e matas que circundam o lugar da Moura estavam apinhados de franceses. Das portas ou do moinho de Sula podiam ver-se as fogueiras acesas por toda a parte confirmando que o grande exército de Portugal do comando de André Massena , se preparava para  avançar  sobre a  posição do  Bussaco, também ela , nessa mesma noite, preparada para receber os invasores, com todo o exército anglo luso postado na cumieira da  serra desde o Moinho da Águia nos cabeços mais altos  do Salgueiral e Miligioso, até ao Monte Alto nos arredores de Penacova e ainda com uma posição de cavalaria na confluência do rio Alva com o Mondego.  Eram cerca de sessenta mil homens entre ingleses e portugueses, efectivos que começaram a chegar ao convento e á serra no dia 20 de Setembro. A 26, a instalação estava portanto completa e esperava-se a todo o momento um assalto, agora que as posições de ambos os contendores pareciam definidas no terreno.

Entretanto dentro do mosteiro carmelita a hora crepuscular foi marcada mais uma vez  pelo silêncio dos sinos e pelo aboletamento anárquico dos frades depois duma frugal refeição e das orações vespertinas. Wellington mandou preparar a montada e saiu com o seu ajudante de campo para uma última observação ao arraial napoleónico e uma visita de encorajamento aos seus soldados. Na Porta de Sula inspeccionou a barricada de troncos de carvalho ali erguida e tomando o novo caminho aberto dentro dos muros atingiu a porta do telegrafo. Em baixo, a multidão dos soldados adivinhava-se pela quantidade de fogueiras espalhadas ao longo dos montes em redor, completamente visíveis do alto do Bussaco. Durante este período preparatório mandara abrir o estradão militar entre a recém rasgada porta da Cruz Alta e os moinhos de vento da Portela de Oliveira, ao longo do qual posicionou o contingente militar anglo luso e organizou os preparativos finais para a defesa, escolhendo na vertente acidentada sobre Santo António do Cântaro o seu posto de comando. Um pouco á frente e abrangendo toda a parte do traçado da péssima estrada para Coimbra, um simples carreiro nalguns locais, colocou seis bocas de fogo. Seguiu paralelo aos bivaques do cume da serra encorajando os homens mas não atingiu o posto de comando que reservara para si. Quando a noite caiu completamente sobre o horizonte atlântico que se avistava ao longe, regressou ao convento e descansou algumas horas.

Às cinco da manhã do dia 27, quinta feira, mal se lobriga a luz de aurora e já o arraial de Reynier está em armas, preparado para o assalto ás cristas serranas da estrada, cujo piso, já se referiu, onde a própria estrada existe, é péssimo.

 A acção, algo precipitada, foi acertada na véspera entre Massena e os seus generais e compreende dois ataques, o primeiro a cargo do corpo de Reynier cujo efectivo, entre infantaria e cavalaria toca os dezassete mil e quinhentos homens. Tem por missão tomar a portela de Santo António e executar depois um movimento em tenaz enrolando para norte a fim de fechar sobre o exército anglo luso, enquanto a cavalaria, avançando depois pela estrada já liberta, se posicionará até ao lugar dos Palheiros na retaguarda do inimigo.

Uma hora depois e mal se presuma a chegada ao cume, desencadeará Ney a sua ofensiva á direita, pelo Moinho de Sula fechando e encurralando entre os dois exércitos, o seu e o de Reynier, as forças aliadas.

Outra versão dos acontecimentos coloca a hipótese do desfasamento dos ataques se dever ao nevoeiro cerrado que cresce com a manhã e que terá atrasado o corpo de Ney nas suas operações. Pode ter acontecido mas anote-se que o nevoeiro, aliás focado pelos dois contendores e pelos próprios frades, se dissipou cedo pois a artilharia luso-britânica veio a ter um papel e uma acção preponderante no desenrolar da luta.

Graindorge, Jean François de seu primeiro nome, nasceu em Saint-Pois, Normandia em Junho de 1870 e alistou-se como voluntário no exército do norte tendo feito carreira brilhante ao serviço do imperador em diversas campanhas tendo alcançado, mercê das suas acções o posto de general. É á sua brigada e á do general Sarrut e á divisão Merle , que cabe a árdua tarefa de trepar em primeiro lugar os declives íngremes  que desde as imediações do pequeno lugar de Santo António do Cântaro, se empinam como gigantes  arredondados até atingir o cimo da montanha  formada por uma pequena plataforma  com pouco mais de cem metros lineares que depois de ultrapassados dão acesso á descida   para o lugar dos  Palheiros , Botão e  finalmente Coimbra.

É aqui o cenário principal do desenrolar dos eventos nesta primeira arremetida cujo objectivo é arrastar e pôr em debandada o dispositivo anglo luso. Ao certo, Massena ignora o número de defensores e se se tratava dum verdadeiro exército disposto a dar-lhe luta ou de grupos de guerrilha destinados a desgastar as suas tropas como vem acontecendo desde a raia. Foi com estas dúvidas, às quais se juntavam as incertezas e hesitações dos seus generais, que se decidiu pelo avanço na noite anterior, antes de retirar para o seu quartel-general em Mortágua deixando ao 2º corpo de exército de Reynier  a difícil missão de experimentar , ao romper da manhã , as dificuldades do terreno e a força que, espera, lhe faça oposição ou se retire depois de atrasar a marcha dos franceses como vem sendo hábito.

Não é fácil nem ligeira esta subida da serra para uma infantaria equipada com uma pesada mochila de campanha e o respectivo armamento. São mil e quinhentos metros entre declives e rochas, moitas, arbustos, matos e obstáculos vários, entrecortadas por taludes e leitos de riachos secos e outros obstáculos físicos, além dos trezentos metros de cota entre o ponto de partida e o ponto da chegada, o campo de batalha.

Cedo começa a esforçada marcha pela escarpada encosta acompanhada pelo rufar ritmado dos tambores, com os ligeiros a abrir o espaço á escaramuça dos postos avançados, logo seguidos pelas casacas azuis da infantaria em colunas a cinquenta homens que se foram dispersando e reajustando conforme e á mercê das dificuldades do terreno. Ainda assim mantêm a disciplina e o sentido da marcha , pronta e decidida.

Quer Graindorge , quer Sarrut, quer outros oficiais , dão o exemplo, incentivando  homens que duma forma esforçada  e continua sobem  sem hesitações para o difícil e praticamente desconhecido objectivo. São velhos e destemidos heróis de Napoleão calejados pela dureza das lutas e arrojo das vitórias por uma Europa conquistada palma a palmo, experientes e confiantes na sua força e valor.

Uma hora depois do início, começam a surgir dispersos no topo da montanha os primeiros soldados da infantaria ligeira, os chamados voltigeurs, criados pelo imperador para preceder o grosso das colunas desorientando o inimigo e fustigando os postos avançados. Foram recebidos com cargas de fuzilaria e tiveram lugar as primeiras escaramuças. Um imberbe francês cai sobre o tambor e mantém-se agarrado a ele enquanto á sua volta se vai formando uma poça de sangue. Foi atingido pelo tiro certeiro duma carabina backer dum atirador escocês. Os companheiros seguem a marcha sobre os corpos de mais dois ligeiros abatidos igualmente pelos mortíferos disparos enquanto um sargento grita para a primeira linha: -Cerrar fileitas, cerrar fileiras !!!

A compasso com o toque dos tambores surgem então as colunas em linha dos infantes das brigada Graindorge  e  Sarrut, esta a primeira a atingir o alto . Devido ao nevoeiro desviam-se para a direita de Stº António e aproximam-se da cumieira  ao ritmo do  pas de charge  que empolga os velhos soldados e os faz disparar  correndo  com gritos de vivas ao imperador. Mas neste palco íngreme e impróprio para batalhas , os passos são pesados e o correr extenua .

 -Vive l’empereur, vive l’empereur !!!! E prosseguem.

Ainda embalados pelo esforço da subida a brigada Sarrut arrasta na sua frente o regimento português de infantaria 8 enquanto a brigada Graindorg pela direita, tenta envolver o flanco da divisão Picton. Isto acontece á frente do posto de comando onde Wellington observa o desenrolar da batalha e é ele próprio que dá ordem á artilharia para varrer os flancos dos atacantes com as seis peças postadas á sua frente.

Na primeira arremetida os franceses conseguem sustentar-se alguns momentos na posição alcançada mas logo avança a Infantaria 9 e 21 da 8ª brigada portuguesa e os ingleses do 45 e 88 de Wallace avançam á baioneta calada com grande determinação, levando de vencida o inimigo que sem forças para impor a breve posição conquistada e dar seguimento ao movimento iniciado, debanda serra abaixo depois de renhida luta corpo a corpo com perdas para os dois lados. No combate é ferido gravemente com várias cutiladas o general Graindorge que é retirado precipitadamente do cenário da luta e transportado ás costas na súbita retirada, pelos seus soldados. Estão entre os lugares do Cerquedo e Stº António e não regressam á peleja.

 Ao mesmo tempo, e a um quilómetro de distância para sul, o regimento 31 da divisão Heudelet atinge também o cume entre descargas da artilharia portuguesa sob o comando de Arentschild e por momentos apodera-se da posição fazendo estrago nos regimentos portugueses. Aqui a força dos invasores consegue manter a posição por mais tempo e só  a chegada da brigada Champalimaud , dos ingleses da Barnes, da deslocação dos batalhões da Leal Legião Lusitana,  do reforço do 88 de Wallace e do próprio Infantaria 8 vindo do primeiro combate , conseguem recuperar terreno  e suster a movimentação inimiga. Juntam-se ainda de forma impetuosa os milicianos de Tomar, a infantaria 1,9 e 33e as divisão Spencer e Leith  deslocada da Portela de Oliveira. Foi num instante que a situação mudou mercê do potencial de fogo conseguido pelos anglo lusos que num repente obrigaram os franceses a recuar e descer a serra de forma desorganizada entre gritos e impropérios. De nada valeu a aproximação da brigada Foy que a metade da encosta procurava subir e reocupar o lugar perdido pelos companheiros de Heudelet. Não conseguindo suster a retirada e perante o apoio de novo reforço inglês, as forças de Hill, retirou também Foy desorganizadamente, arrastando na fuga os sobreviventes do primeiro assalto mais os que, apanhados na debandada, a ela se juntam indiscriminadamente. A derrota é total.

Foi grande a mortandade durante a fuga, quer pela determinada carga de baioneta dos aliados, quer pelo fogo das baterias de artilharia magnificamente posicionadas na encosta e que não deram tréguas sob o comando em alguns momentos do próprio Wellington que assiste á peleja, dizimando, quer no assalto, quer na fuga, os flancos inimigos.

Refira-se que foram utilizados, depois de se terem sido ensaiados em 1808 na batalha da Roliça, os temidos srapnels a que os franceses, admirados, chamaram biscainhos e que eram nem mais nem menos que granadas ocas carregadas de balas que após o rebentamento se dispersavam para baixo a para a frente causando grandes baixas entre os franceses. Segundo alguns oficiais de Massena, foram a causa do maior número de mortes verificadas.

Às soberbas posições da artilharia aliada nunca conseguiram responder as baterias de Reynier encurraladas nos fundos dos vales, sem hipóteses de funcionar e participar na luta, manietadas pelas condições impróprias do terreno, um abismo impossível de ultrapassar pelas armas pesadas.

Entres os franceses contaram-se 300 mortes no regimento 31 de Heudelet, 670 na divisão Foy e 1000 na divisão Merle de Graindorg e Sarrut.

Do campo de batalha foram retirados mortos e feridos, entre eles muitos oficiais cuja situação particular dá a medida da ferocidade dos combates, como o caso do coronel Mounnier do 31 de ligeiros que depois de atingir o cimo da montanha á frente das suas tropas  morreu crivado de golpes, ou o coronel Amy do 6º regimento a quem foi decepada a cabeça, ou ainda Bechaud do 66 de linha partido ao meio pelo rebentar duma bomba. Merle e Foy, comandantes de divisão que participaram nos combates, saíram também gravemente feridos e o comandante da Brigada Champalimaud das tropas aliadas foi igualmente retirado em muito mau estado. Por sua vez o general Graindorge comandante da segunda brigada da divisão Merle que á frente  do quarto regimento foi dos primeiros a escalar a montanha até ao cume onde foi gravemente ferido , acompanhou  depois num carroção, em grande sofrimento, a retirada do exército pelo Sardão e Boialvo vindo a morrer ás portas de Coimbra, no lugar do Carqueijo , no dia 1 de Outubro , em consequência dos ferimentos recebidos. Tem o seu nome gravado entre os heróis de França no lado oeste do Arco do Triunfo, em Paris.

publicado por Peter às 12:28
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