
Em recente crónica num jornal diário o cidadão Marques Mendes analisa aquilo a que chama a tralha socrática e as suas implicações junto do novo leader socialista. Talvez tenha razão. Eu próprio quando dou de caras na televisão e fora dela com algumas novas e velhas raposas cor-de-rosa fico agoniado. Políticos que transformaram o dever cívico de governar o país, numa profissão. Políticos que colaram o rabo às cadeiras dos poderes e delas fizeram o uso e o abuso até ao ponto de manipular as próprias eleições partidárias sem respeito pela democracia, pela honestidade hominídea ou pela honestidade política. Irresponsáveis e inaptos que, talvez não sabendo fazer mais nada na vida, vão procurando conservar-se enlatados como sardinha nos lugares de cidadania interpretando-os como seus e como sendo eles, pobres diabos mentais, insubstituíveis. Tão ou tão pouco que graças á persistência cega desta democracia de mediocridade e prepotência, ajudaram e levaram o país á bancarrota. E não fosse essa Europa de que os ameaçados dizem tão mal agora, quando procuram fechar aflitivamente a torneira da bagunçada que tem sido, já não teríamos sequer o que comer.
De facto os socráticos foram dos piores nesta politica contra a política, não só porque foram os últimos, mas porque se instalaram e ramificaram deliberadamente sobre a asa dum pseudo engenheiro, por todo o lado. Muitos continuam nessas cadeiras, até temos exemplos deste pequeno poder no município onde vivemos, outros até já não serão socráticos, querem um seguro porque querem segurança para os próximos combates, ainda não se convenceram, talvez por burrice congénita, que a imoralidade não sobrevive sempre e que as famílias, cedo ou tarde mudam e transformam a imundice dos abusos, dos favores, da falta de escrúpulos, esse mundo sujo movido a telemóveis e cadeias de informações quase concelho a concelho, em coisas obsoletas e ultrapassadas. Como a Pide.
Dá-me vontade de rir quando os administradores, os directores e os autarcas se queixam da falta de meios. Depois de terem ajudado a afundar o país com obras sumptuosas e insustentáveis, com assessorias tão extravagantes como desnecessárias, distribuindo lugares aos amigos em concursos inquinados, esbanjando em compras de automóveis topo de gama, em festas e donativos, em apoios inconcebíveis ao mundo do futebol, em fundações maquiavélicas e muitas outras barbaridades, queixam-se agora da libertinagem que tem sido, em termos financeiros, a gestão deste país. Queixam-se deles próprios em absurdas tiradas dirigidas aos pacóvios, pensam eles, dos eleitores.
Isto demonstra apenas que a irresponsabilidade, a incapacidade e o sentido de Estado são do absoluto desconhecimento da maioria dos políticos ou pseudo políticos. Conhecem a politica no pior sentido, se é que muitas vezes reconhecem nela alguma coisa a não ser os seus próprios interesses. Da nobreza do acto, não lhe conhecem rasto.
Terá pois razão o cidadão Marques Mendes, que respeito como homem, ao falar da tralha socrática, é verdade que sim, concordo, mas não pode esquecer o mesmo cidadão que antes da tralha socrática outras tralhas não socráticas ajudaram a cavar o fosso onde estamos caídos. E daqui, é certo que nem o cidadão em causa pode escapar, fez parte inquestionável deste rio caudaloso que se foi engrossando até um incontrolável amazonas. Ele e a sua família política, não podem pôr, á boa maneira da língua portuguesa, o rabo de fora, tal e tanto contribuíram para o caudal desta torrente, porque de facto ela não foi uma súbita tempestade como a que aconteceu na Madeira ou recentemente em Génova (as tempestades acontecem em todo o lado) mas paciente e tacticamente urdida, com duvidosas decisões, rocambolescos episódios, gastos sumptuosos, abusos de toda a ordem. Exactamente a mesma tralha que o cidadão acusa!
Admiro-me que só agora se aperceba do naufrágio quando qualquer chefe de família que governa a sua casa com o suor do seu rosto, o teria calculado há muitos anos atrás! Mas nem o dito cidadão nem nenhum dos economistas da sua larga prole familiar o calcularam, tal como o não calculou a prole socrática ou guterrista! Por não saberem? Claro que não, apenas porque o não pretenderam saber. Para um país que não cria riqueza suficiente há muito tempo, há muito tempo se previa um destino cruel. Cruel, doloroso, amargo e vergonhoso, por muitas culpas que se atirem á Europa e aos mercados. Não é preciso ser especialista nem génio da lâmpada de Aladino para ter chegado a semelhante conclusão!
Foi toda esta tralha que nos governou e enganou durante sucessivos períodos eleitorais, quer a nível do poder central, quer a nível do poder local. A tralha socrática sobrevive ainda neste pobre município, uma tralha que só vai deixar o poder quando a cadeira cair de podre por imperativo duma lei, não se sabe quanto tempo vai durar, que procura corrigir os excessos mandando embora quem, quer moral quer civicamente, não teve o senso suficiente nem compreendeu o tempo para dar lugar a outros. Uma tralha politica que vive á volta de si própria, que se apoia narcisicamente em si própria, que se amanha entre a família politica com os gadanhos de anos e anos de vícios e de cegueira colectiva, uma tralha sem ideias, pendurada em favores e benefícios que chega a filhos e enteados com o despudor de quem se julga dono politico de tudo e todos.
É necessário também que os socráticos concelhios se vão embora e deixem abrir as janelas ao ar puro duma mudança radical e saudável, capaz de tirar o município duma doença crónica cuja rotina se baseia nos favores e no oportunismo político.
Terminada há muito a quimérica patetice de campos do golf sem sustentabilidade ou de nós rodo ferroviários inventados, é tempo de ajustar contas. Arruinadas as termas por conveniente e inacreditável entendimento entre eleitos e concessionários, ao que se juntou uma fundação de família politica para destruir a Mata Nacional do Buçaco, resta a retórica bacoca de quem tem dinheiro em cofre para dar milhões de euros por uma estrutura degradada para nela enterrar outro tanto sem que se vejam vantagens para o porvir municipal. Coisa que nem os próprios calculam.
Não só o país teve a beneficiar com o fim do socratismo, também os municípios beneficiarão com a extinção das metasteses dos seus tentáculos. O tempo em que a voz do dono passava por cima das decisões democráticas deve acabar de vez, dando lugar a uma prática transparente e saudável entre as forças politicas, quer no seu interior, quer fora dele, de modo a que interesses pessoais ou partidários não se sobreponham ao interesse geral. Cabe aos partidos esta prática profilática a caminho da democracia e da dignidade perdidas.
Luso,Dezembro,2011
Ainda não eram oito horas da manhã já as mulheres subiam a serra
em grupos numa algaraviada de ditos e comentários alusivos ás
novidades da manhã ou ao trabalho a fazer,donde eram sempre
pródigas e muitas vezes jocosas no linguajar comum .
Juntavam-se aqui e ali nos sítios combinados e em pequenos ranchos
se iam engrossando nos caminhos para as entradas da Mata.
A maior parte subia a Avenida Navarro, as escadas do Teatro
Avenida e penetrava dentro dos muros pela pequena
Porta dos Degraus, uma brecha aberta, a mais recente, dois
pilares espaçados por um metro de degrau, o suficiente para
entrar uma pessoa. (hoje no chão, em completa ruína).
Mas outras,em menor número, faziam-no pelo Portão dos
Passarinhos e do Luso, * ef inalmente em menor número ainda
algumas utilizavam, consoante os lugares de residência donde
provinham, as Porta das Ameias e do Serpa.
Fosse por onde fosse o caminho das mulheres a subida
era sempre difícil de fazer, mas é verdade que quem se levantava
de madrugada e ia apara aquele serviço semanal sabia
perfeitamente ao que ia, podia mesmo imaginar passo por passo,
metro por metro, a jornada que se ia seguir, tão enraizado
estava o hábito no conteúdo das gentes e na ligeireza dos pés
sobretudo quando tocava a descer.
Foram dezenas, talvez centenas de anos que enraizaram o
costume, nos tempos em que se cozinhava nas lareiras ou nos
fogões de ferro, se acendiam os fornos para cozer a boroa
e o ar condicionado se resumia à fogueira familiar á volta
da qual se aqueciam todos os membros quando apertavam os
rigores do inverno.
Quanto mais grosso o madeiro, melhor o lar!
Só mais tarde surgiriam os fogareiros a petróleo com bombeamento
de pressão e depois o gás.
Na subida íngreme das veredas até ao campo da bola, a algazarra
subia de tom e o falatório seguia a par sobre a geada da manhã
ou calando o vento suão que empurrava e levava á sua frente quanto
pudesse arrastar, nos dias em que soprava como indesejado vilão que
nestas terras era e é. Vestiam roupas simples de simples mulheres do
campo, mulheres de lides caseiras, de agricultura,
moleiras, desempregadas da hotelaria que desde o cantar do pisco
até ao recomeço da época no mês de Maio,cuidavam dos afazeres domésticos.
Numa blusa de chita, acima dum casaco velho de ir ao pinhal ou ao rio
ou duma velha camisola de inverno já no fio, escondiam os corpos esguios,
abaixo da maçã rubra do rosto, afogueada pelo frio e pelo cansaço da
subida. Sobre a cabeça, empoleirava-se em equilíbrio uma rodilha de trapos
que parecia colada aos cabelos como extensão daqueles e seria
o símbolo, se simbologia houvesse, daquela ida ao Buçaco.
Era um trabalho árduo,mas misturado com a festa de subir àquela mansão
de ex-frades que deu sempre um certo encantamento e orgulho ás
gentes das redondezas.
Entre o cruzamento do Serpa e o cruzeiro de Vopeliares na antiga
Quinta da Graciosa, incorporada na mata em 1887, se reuniam
finalmente as mulheres tagarelando em grande burburinho até
á chegada do guarda-florestal.
As cordas, preparadas,pendiam-lhes das mãos ou enrolavam-se
no braço ou na cintura e um podão, além da ligeireza das mãos,
era o único instrumento de trabalho permitido.
Chegado o Mestre, o Cupido, o Santos, o Pimenta ou outro guarda de
serviço, impunha-se quase automaticamente o abaixar das vozes
e quando a autoridade florestal ensaiava as primeiras palavras
seguia-se um leve sussurro e depois o silêncio total.
-Quantas são?
E contavam-se as operárias que se juntavam como abelhas
umas de encontro ás outras. Depois faziam contas de cabeça.
Eram doze os guardiões florestais existentes no perímetro da
administração florestal do Buçaco sob as ordens dum administrador
residente e ocupavam na totalidade as doze casas que se prolongavam
pela serra até ao rio Mondego.
Nove dentro dos 105 hectares murados do antigo Carmelo , três em
plena serra, Carvalho, Espinheira e Ninho do Corvo.
Faça-se aqui uma justa ressalva lembrando o facto de então a preocupação
ambiental ser efectiva e implantada no terreno com a presença dos doze
guardas residentes ao serviço constante da natureza, hoje tão badalada
como se fosse novidade e não mais que umapreocupação requentada,
reajustada, no caso do Buçaco, para muitíssimo pior.O guarda fazia a
contagem e dava entrada àquele rancho de operárias por conta própria,
o que consistia na indicação do local ou dos locais onde na semana tinha
lugar o desbaste ou seja, onde se podia colher a lenha.
E depois em grupo, ou divididas em vários molhos mais pequenos se os
locais eram diversos,acompanhavam os guardas até aos respectivos
sítios onde de imediato tinha lugar a safra e o arranjo dos
feixes. No Sacramento, na Costa do Sol, na Cova daRaposa, em S. Miguel,
à Cascata,a Santo Antão, etc. etc.
Era uma limpeza gratuita ao coberto inútil da floresta feita pelo povo
vizinho, com proveitos para ambos os lados, pois ambos estavam i
nteressados na consequência dos actos,se a uns fazia jeito a lenha
para consumo energético, outros viam-se livres dumproduto que de
qualquer maneira haveriam de destruir.
Tal como nos fogos, que sempre os ouve por perto, onde na defesa
também sempre colaboraram as gentes das vizinhanças,hábito e
sentimento ganho depois que aos monges foi fechado o cenóbio
com a extinção daOrdem.
E não fosse a ajuda dos populares já teria ardido concerteza.
A faina, que tinha por limite de horas o badalar do meio dia, terminava
á hora que cada uma regressasse, ensarilhadas as arrancas de loiro,
carvalho, cedro, nogueira ou medronheiro no aperto do cordame,
posto o feixe á cabeça com a ajuda duma vizinha ou num cômoro
ali a jeito e o regresso de corpos direitos, mãos levantadas segurando
o feixe e ligeireza de pés. Muitas, descalças correndo sobre as pedras,
lama ou pó no labirinto das descidas.
Era assim que se ia ao Buçaco nesta função local de apanhar lenha, uma
função que se manteve até ao declínio do produto e sua substituição por
meios actuais.
Não é com espanto que me apercebo agora que se vende a lenha do Buçaco
a dez euros o metro. O Buçaco já esteve á venda, já fez parte dum rol de bens
a alienar, tudo se pode esperar, mas lenha, dentro desta velha tradição
que se esgotou, não, é apenas a febre de fazer dinheiro seja de que modo for.
Com o registo escrito desta tradição, pretendo trazer á superfície
a apropriação fundamentalista por que está a passar a Mata,
uma espécie de feira da ladra de gestão amadora, folclórica, que me desculpem
os abnegados carolas da modalidade, onde tudo se trafica sem costumes,
tradições ou alma.
Como os azevinhos, dizimados pela ignorância de quem não é especialista
mas nomeado.
E sublinho também o caso da entrada automóvel cuja proibição ás gente
da freguesia é um absurdo intolerável. Como aos taxistas do concelho,
um crime contra o turismo!
Não só porque nunca foi vedado a esta população a entrada num território
que emprimeiro lugar é eticamente seu mas também porque,
como se sabe, a autarquiaCâmara da Mealhada tem pago algumas das
contas ou dos trabalhos executados naMata com o dinheiro que lhe
pertence gastar com o cidadão do município. Porquea Mata continua
a ser do Estado, não da Câmara, é o Estado que nela tem deverde investir.
Como está a acontecer, os munícipes do concelho que entram no
espaço pagam por duas vezes entrada. Através dos seus impostos por
parte da participação da Câmara e através do seu dinheiro retirado da
carteira no pagamento do acesso.
Coisa que não acontece com qualquer outro cidadão deste país,
que paga apenas uma vez a entrada.
Com cartão ou sem cartão, este trata apenas dum subterfúgio para
realizar mais alguns patacos, inserido dentro das sucessivas operações
de charme com que vêem tentando defenderinteresses próprios.
Por outro lado, é incompreensível que o Estado despeça
funcionários públicos por falta de dinheiro e mantenha as clientelas
políticas nomeados ao sabor das amizades e dos cartões partidários.
É desonesto einsustentável.
Ir buscar lenha ao Buçaco era tradição antiga, a apropriação do património
e o proibir o usufruto dum espaço comum, se fosse tradição era moderna,
faltar-lhe-ia o hábito do tempo para entrar no coração das gentes.
Fruto do desemprego e do atropelo partidário duma fundação de família?
É o mais natural, mas apesar de parecer coisa pequena, em minha opinião,
tem a mesma falta de ética com que o madeirense Jardim faz as suas
fantásticas tropelias.
As autarquias, onde cai todos os meses o dinheiro dos nossos impostos
sem que para isso produzam seja que riqueza for para o país, são apenas
gastadoras, terão que entender que as vacas gordas vão acabar e que
o respeito pelo cidadão é coisa bem diferente do que montar agências
de empregos que muitos querem controlar, lá saberão porquê.
No Buçaco, não faltam mangas de alpaca, faltam porém jardineiros
para tratar da botânica.
Muitos deles, alpacas milionários, sem qualquer tradução no trabalho
que fazem.É um regabofe para muita gente, mas que nos custa caro
a nós cidadão, espezinhado de todas as maneiras na sua dignidade e
cidadania.
*Cabe aqui referir que a Porta do Luso foi
transferida do seu lugar primitivo adiante da actual Porta do Serpa, quando se
acrescentou á Mata a Quinta da Graciosa e encontra-se actualmente, na estrada
de Penacova. O portão em ferro, obra fundida na Fábrica da Companhia
Perseverança, de Lisboa, foi colocado no dia 10 de Maio de 1866 no seu lugar
inicial e tem hoje um valor que não corresponde ao estado de ruína em que
também está, mercê duma gestão politica irresponsável.
Luso, Setembro,2011
Três Fetos Arbórios secos e completamente mortos
em Vale dos Fetos, uma jóia do Buçaco.
No local, contamos dezoito nestas condições
e mais alguns a caminho dum fim rápido.
No Pinhal do Marquês cortaram as àrvores seculares
para lenha e deram lugar á infestação de acácias que
se vê na imagem.
Na Fonte Fria, um novo modelo de banco de tampo
invisivel, banco tipo Afundação, enquanto do outro
lado mais um Feto arbório caminha para a morte.
O cisne, curioso, espreita o banco vazio.
Enquanto isto e outras barbaridades se constatam
facilmente, de forma mais subtil a Câmara da Mealhada
tem abertos quatro concursos para técnicos superiores
de Engenharia Florestal, Engenharia civil,Arquitetura
e Comunicação Social , acautelando a hipotese de
encerramento da Fundação com a colocação vergonhosa
da família politica nos quadros da Câmara.
"A BATALHA E O CONVENTO"
UMA PERSPECTIVA INTERAGINDO A LUTA
COM OS FRADES CARMELITAS.
UMA MANEIRA DIFERENTE DE NARRAR
OS DIAS DA INVASÃO.
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Pormenor da apresentação
Num trágico verão pleno de interrogações e crises também o mar e a praia não têm proporcionado aos seus utentes a normalidade sustentada do costume e o vento que empurra areias e as areias que fustigam a pele, têm sido os adversários principais de quem procura os raios de sol para torrar sob ele.
Apesar disso um barco, melhor dizendo, uma nave de sofisticada tecnologia, faz na nossa frente, isto é, frente ao hipotético utilizador do banho no Oceano Atlântico, um trabalho de pesquisa intensiva sobre as camadas inferiores dos fundos marítimos procurando detectar jazidas de petróleo.
Isto é o que lê o eventual banhista, como eu, já instalado sob o lençol de areia acima dum lençol de algodão comprado como puro a cem por cento e olhando o mar, enquanto se defende como pode das picadas da mesma areia que surge em reboliço a cada sopro mais afoito da ventania. Mais difícil ler a notícia dita acima no jornal aberto que, não sendo bem seguro, pode a qualquer momento voar e desaparecer sem que a correria consequente o consiga recuperar.
Por enquanto diz o jornal que uma empresa canadiana pesquisa o ouro negro e que tem algumas, não afirmam que são muitas, hipóteses de o encontrar em quantidade e qualidade suficientes para uma exploração normal, isto é, rentável.
Se assim fosse, penso á priori e enquanto utilizador da liberdade das areias , talvez fosse algo de vantajoso para este país, não teríamos de o pagar a cem por cento como acontece agora, depois de termos passado pela rara oportunidade de o termos encontrado em Santo António do Zaire , mas sem o engenho e arte para o poder descobrir e transformar em bombas de gasolina, urge agora quer alguém o procure por nós entre Mira , Tocha, Quiaios Figueira e Nazaré.
Talvez esse outro ouro angolano, a ter sido encontrado, fosse hoje uma empresa tipo galp , edp, tap , cp e outras mais, isto se o tivéssemos conseguido sustentar nas nossas mãos económicas safando-o á sua total entrega aos grupos da libertação. Seria no mínimo, o chorudo sustento de alguns administradores nomeados, juntamente com boas luvas e bons carros, telemóveis, viagens pagas, cartões de crédito, férias em Portofino ou nas Sheicelles, recompensa pelo suor e lágrimas de seus abnegados sacrifícios, além de famílias bem cotadas no aparelho subjacente. Este benefício para o cidadão nacional existiria neste mínimo, não duvido, outro tanto não sei quanto ao seu teor alagadiço, isto é, ao seu escorregar ao encontro do cidadão nacional, no seu todo, que é o que faz a nação.
Na nova busca, se as pesquisas tiverem êxito, duvido dos benefícios deste ouro preto e liquido para o país, pois sabemos que do ouro verdadeiro, amarelo e grátis que enchia caravelas e naus tempos depois do achamento e exploração do Brasil, nada se veio a beneficiar, excepto as enormes pedras de Mafra, alguns altares de talha dourada do mesmo e de alguns mais conventos e igrejas onde se regalam santos, e a pomposidade de reis ocos e bacocos que tiveram os habitantes deste reino sempre na conta de burros e ignorantes e portanto merecedores de grilhetas e arreios para que se não levantassem, por dever da submissão, do chão que lhes pertence.
O ouro verdadeiro, amarelo como leitão saído dum forno a lenha, foi consumido pela importante elite da fidalguia e seus clientes, não sei se naquele tempo já existia o termo elite, se não, existiam as personagens e fará o leitor o favor de imaginar o que quero dizer com ele, certo é que o país ou o reino viu passar o ouro por um canudo, qualquer coisa como ver Braga pelo mesmíssimo instrumento nos nossos tempos modernos.
Por aqui se vê que a história não foi pródiga em cabeças, nem em solidariedades, nem em bem comum e acreditar hoje em coisa diversa perante a eventualidade de uns jactos de grude cuspidos do mar sem fim seria pura estultícia.
Olho o barco puxando cabos e cabos e imagino olhos robotizados a mapear os fundos. O petróleo não cheira, comprimido na fossilidade da sua condição. E peço para que não surja repentinamente como qualquer magia, sem tempo para fugir da praia que poderá poluir quando a grude saltar no ar ou regressar á água que a trará á costa.
Mesmo assim, alimentando temores desta natureza, deixo-me adormecer sossegado neste areal quase selvagem num intervalo do vento. Olho, talvez em sonho, não o distingo bem, e vejo a silhueta do cabo Mondego entrando pelo mar, ora diluída numa espécie de névoa esbranquiçada ora fustigada pelo soprar dos elementos na secura do ar. O barco sofisticado avança com lentidão, praticamente parou á frente do cabo, é uma espécie de ponteiro de relógio que anda constantemente sem se perceber caminhar. De certeza que a sonhar, transformei o barco em poço de petróleo. Primeiro um, depois um segundo, um terceiro e por aí fora até tudo se transformar numa floresta de torres brotando ardilosamente de sucessivos poços e nós banhistas continuando a banhar-nos no areal comprido, alguns saltando para a água dos ferros retorcidos das estruturas, outros fugindo á violência dos raios de sol encostando-se nas sombras das colunas, outros mesmo ensaboando o corpo na oleosidade do grude que ás vezes dá á costa.
Já não há cais nem barcos no outro lado, na cidade da Figueira e da Foz, e muito menos pesca e o barco sofisticado e tecnológico, cada vez mais lento, indica minuto a minuto um novo poço de matéria-prima. Surgem no horizonte outros barcos cada vez mais tecnológicos de sofisticação e o sonho transforma-se automaticamente no pesadelo que me acorda. Olho o relógio. A tarde avançou na hora que dormi. Por curiosidade observo o mar á minha frente. O espaço-tempo é o mesmo. A calmaria mantém-se, os cabos flutuam e desaparecem nas águas, o barco avançou alguns metros na sua prospecção. O sol mantém-se em explosão no seu núcleo atómico e vai começar a sua aparente descida até ao limite da curvatura terrestre sem abrandar os motores. É privilégio seu, não de aviões nem de vaivém a desnecessidade de travão para embater na terra.
Volto ao rei magnânimo e ás pedras do convento que mandou fazer. Um rei utópico e pedante. Como eu conheço bem algumas delas! Aparelhadas, custaram-nos fortunas a ouro de lei e hoje não valem nada.
Oxalá encontrem petróleo em abundância, oxalá não acabe a busca em águas de bacalhau como na malograda peça teatral do saudoso Solnado, há petróleo no Beato, devem lembrar-se, pois Portugal bem precisa duma ajuda substancial para sair da crónica crise duma existência difícil. Não para construir palácios e alimentar elites, nem aturar sábios comentadores que nascem por todo o lado a debitar palpites como tartulheira na serra, pelos vistos também a preços de ouro, mas para se desenvolver e criar riqueza para que este povo se livre um dia da crónica corda que traz pendurada ao pescoço á espera que lhe apertem a garganta.
Acredito que seja uma herança telúrica do grande Egas Moniz, mas já tem cota de herói suficiente para nos livrar definitivamente desse peso.
Mesmo assim e porque sou pessimista, custa-me a crer que se vier a ser encontrado o abastado filão, o povo beneficie alguma coisa com a riqueza que trás consigo. Entre gestores, políticos, clientelas e esclarecidas elites, se há-de consumir o produto e adiar mais uma vez o desenvolvimento para todos.
Oxalá me engane neste papel de vidente que entretanto vou aproveitando o ar puro o sol e as areias da praia para sonhar. Não com o ouro da Mina que já lá vai, mas com este ouro oleoso que é mais um deus dos nossos dias correntes.
Praia da Tocha, Agosto, 2011
A floresta faz parte da despedida. Talvez seja até a despedida a fazer parte da floresta. Há uma certa empatia entre uma coisa e outra, entre o berço onde se nasce e o berço onde se morre, entre os aromas da infância e perfumes das tardes nas horas crepusculares. Por isso se me abre o apetite de deambular improvisamente entre as veredas das árvores, ou as árvores das veredas, trocando os termos acho que o conteúdo acaba por ser o mesmo, pelo menos aquele que verificamos dentro de nós. E constata-se que também os bosques tem manhãs radiosas, manhãs menos radiosas, horas crepusculares e outras coisas mais que podemos viver e saborear nas deambulações de crentes e amantes da natureza lar. E morrem, tanto por descuido do homem, como pela infestação viral ou por um acidental incêndio provocado pela própria natureza mãe. Claro que isto não é novidade nenhuma, a matéria é tal e qual como a vemos, não é outra coisa senão a realidade da nossa própria visão e caso se dê o caso da nossa visão ser uma visão errada, ou insuficiente, podemos não ter acesso a toda a realidade. É sabido que não temos acesso directo a imagens de raios x ou raios gama ou a ondas de rádio e no entanto elas existem. Um daltónico não tem acesso á cor, e ela aparece aos outros com gama de cores que nem a paleta dum pintor consegue reunir.
Subi assim ao Buçaco para simplificar ,há por aí quem o faça diariamente, não é o meu caso, e sempre que o faço venho mal contente com o estado da Mata. Entristecido. Entristecido com o amadorismo e inconsciência posto pela chamada fundação, a que galhardamente chamo afundação , no tratamento daquele espaço. Conheço-o á tantos anos como aqueles que tenho e a verdade dolorosa é que nada ganhou com a gestão pseudo camarária em que está metida ou afundada.
Parece haver ali um regimento de gestores ou mangas de alpaca e nenhum jardineiro, como aliás parece suceder com as forças da policia nacional, onde noventa coronéis não conseguem pôr ordem num pequeno país quase diariamente assaltado por explosões no multibanco, quer na via pública quer em instalações apropriadas, conforme recentes notícias da imprensa.
Uma herança de Sócrates? Não só. Este país é assim, precisamos de comandantes, de generais, de administradores, de políticos profissionais, de heróis, de santos e claro, de oportunistas. Afinal de quem comande para nada se comandar. Basta existir o posto, a ideia, o lugar, o benefício, o soldo? É quase a realidade, eu diria que é a própria alma lusa, coisa vinda dum passado de improvisados fidalgos, morgados e capatazes, uma hierarquia conservadora e obscura e a fatalidade sempre a abater-se sobre quem endireita o dorso e põe a massa a pensar. Leiam a História!
Tanto dá para manter a ordem na desordem como para levar a pátria ao lixo nas avaliações actuais, ainda que os avaliadores sejam igualmente lixo, avaliadores que avaliaram o lixo das sub primes como lixo de valor e avaliam os palermas dos países que lhes pagam como o rasca e mafioso lixo que inunda de vez em quando a cidade de Nápoles, a ponto de lhe fazer interromper o trânsito por semanas. Mas isto é obra de legisladores e políticos, não é obra do cidadão não doutorado em inócua sapiência.
Vem a propósito aquela história pertinente dos trabalhadores autárquicos de quem se diz pouco fazerem. Nunca chegaremos a saber se quem o diz é mais sério e diligente, mas como reza por aí o anedotário português, quando rebenta um cano de água são três ou quadro funcionários em volta do buraco observando o único que trabalha de pá e pica na mão! O mal, se existe mal no basismo desta cultura, vem de cima, de quem gere e ganha rios de dinheiro para dirigir. Se não dirige, como pode exigir que quem não ganha para comer não se escape igualmente aos seus deveres?
Também o quadro de pessoal da dita afundação , como muitas outras que por aí há (e não sei se mandam embora os funcionários públicos antes de acabarem com estes compadres !) terá mais mangas-de-alpaca que jardineiros, supõe-se mesmo que jardineiros não tenha nenhum, a não ser que os presidiários tenham tirado entretanto algum curso simplex e já tenham diploma.
Neste faz de conta de oportunismo deficitário se afundam estas fundações apadrinhadas por partidos e entregues á total incompetência e falta de bom senso, já não digo sentido de estado, de grande parte dos eleitos, a quem se atribui tantas vezes, como último recurso das incapacidades, a boa vontade e ser um ‘gajo’ porreiro. Porreiramente se tapam uns aos outros como se fossem um bando organizado, não de ocasionais e conscientes defensores do bem comum, mas de incessantes polícias de costumes e controle do hipotético futuro dos votos. É um ciclo vicioso que alastrou na democracia á portuguesa!
Os reclusos terão já o seu posto de jardineiros, não se sabe, mas mesmo assim, tirando os locais de passagem obrigatória mais ou menos limpos, tudo o resto deixa muito a desejar. Para não falar da serra onde os azevinheiros, segundo recente notícia da Querqus , foi e continua a ser delapidado sem apuramento de responsabilidades.
Parece que o adjudicatário do corte das árvores será o culpado, a gestão afundadora, essa, politicamente correcta, não terá nada a ver com o assunto.
Bom, também já estamos habituados. No processo das sucatas só há um bode expiatório á espera de julgamento, o sucateiro. O resto, são um purgatório de almas ingénuas e santas. Ámen!
Julho, 2011.FS
Esta imagem, feita em 11/01/2010 é o resultado dum temporal que
assolou a região. Hoje, continua a aguardar a reparação .
Este Buçaco de Vias Sacras na hora das orações , é também do
desaproveitamento total. Não é com rezas domésticas que se
acena ao turista do dinheiro e a nova dimensão que lhe é dada
por algozes servirá apenas algozes e familias.
Quando os sapateiros se poêm a tocar violino, o resultado é este.
Por falta de virtuosos tocadores a charanga vai nua e o circo
é uma pobreza.
A Mata continua por limpar em grandes extensões e ir à Cruz
Alta ou aos Moinhos de Vento não se pode dar de conselho a
ninguém, apesar do convite da paisagem e da excelência
do piso das estradas !!!!!!!Na cara, amadorismo de compadres
para não destoar do amadorismo do poder central que levou
isto á bancarrota.
Portas fechadas e cobrança de entradas são a principal grande
obra que se pode atribuir aos novos demolidores. E uns mecos
na Fonte Fria ,só lá faltam uns cobradores de charros
á beira da estrada,podia ser mais uma pequena fonte de
rendimento.Quanto ás receitas das Ameias, do Serpa, ou do
Museu, presumo que não cheguem para pagar o ordenado
minimo dos porteiros.
Chegados assim à Páscoa, não sei se sucessivas Vias Sacras não
farão parte das intenções da sua salvação , no reino dos céus!!
Quanto a turistas, mercê dessas iniciativas que espevitam
a actividade, a propaganda e a cultura, prisioneiros incluidos,
é vê-los por um óculo!!!
Este ano nem a avalanche de espanhois do costume se
abalançou pelas auto estradas!!!! Àmen!
Foi nas vésperas do Natal que arranjei um espaço da tarde para ir ao cinema ao centro comercial, pouco há de fitas noutros locais deste país arregimentado sobre o monopólio político da união europeia e o monopólio cinematográfico de Hollywood. Noutros tempos ainda restava alguma liberdade de escolha e alguma identidade própria a esta boa gente da Lusitânia, para o fazer, hoje está tudo hipotecado, quer em ideias quer em obras, quer em dinheiro, a um mundo que é estranho ao nosso cerne mais intimo, coisa que também não se percebe muito bem o que seja.
Eram seis da tarde, comprei o bilhete junto com umas pipocas importadas na febre do consumismo desesperado onde vegeta o mundo e entrei numa das muitas salas, aquela onde se ia projectar a fita. Um paralelepípedo, mais ângulo menos ângulo, com um anfiteatro e umas escadas por onde subir. A meio do percurso estava sentada uma irmã religiosa com um hábito que me pareceu azul, ao lado duma senhora civil, digamos assim para abreviar a questão, únicas clientes preparadas para presenciar a sessão.
É normal, já tenho estado sozinho e sinto-me mal, ás vezes desisto mesmo por falta daquele ambiente acolhedor que tinham as velhas salas do Teatro Avenida, do Tivoli, do Sousa Bastos, no caso de Coimbra, mas retenho perfeitamente o S. Jorge, o Tivoli, o Monumental , o Politeama, o Restelo , entre outros, na Lisboa da década de sessenta e quando a ida ao cinema se fazia com encanto e uma certa cerimónia. Então na reciprocidade duma agradável companhia, era das coisas máximas que podiam acontecer.
Quando subi os degraus a irmã sorriu-me e cumprimentou-me, eu respondi ao seu aceno e sentei-me três ou quatro filas atrás. No silêncio que antecedia a obra atirei-me ao pacote das pipocas e substitui-o, a ele silêncio, pelo mastigar de roedor, mas entretanto entrou outra senhora, não irmã, não vestia hábito ou costume, e foi sentar-se umas filas atrás de mim. Éramos quatro á espera do início da sessão distribuídos em três grupos, admitindo, ainda que erradamente, cada espaça fazer um grupo. Estava portanto no grupo do meio, o das pipocas. Ou dos roedores.
Ora aconteceu que a sessão começou e esteve seguramente um quarto de hora sem haver imagens. Bem pregavam os anunciadores dos produtos que nos entravam no ouvido, mas imagens nada. Arrumei as pipocas no banco do lado, comentei com a irmã que algo estava errado e fui á bilheteira pedir que colocassem os bonecos, ao menos no filme, já que agora estamos sujeitos a meia hora de anúncios com a curiosidade de pagarmos para os ver ainda que não queiramos, como acontece comigo.
Cinco minutos depois, alguém situado no vazio do outro lado dos buracos da projecção, colocou a geringonça digital a funcionar e começou o filme. Tratava-se, como dizia o critico que me levou lá, dum belo filme francês, Dos Homens e dos Deuses, uma história equilibrada entre guerra e paz, vencedor do festival de Cannes, afinal uma excepção á regra do monopolismo estado unidense da exibição em Portugal. No título e no guião, uma comunidade monacal do alto Atlas, a justificar a presença da religiosa que me cumprimentou tão simpaticamente.
Voltei satisfeito por ter ido ver o que devia ser visto, ver o que me agradou, mas logo que cheguei á minha pacata vila, cada vez mais pobre , patética e pacata e dei de caras com o cinema que existiu noutros tempos e hoje é uma ruína, fiquei saudoso e deveras desagradado com a entidade que o comprou, a câmara municipal, que o fez em nossa representação, isto é, com o nosso dinheiro e não deu um passo ainda pela sua reconstrução. Não deu nem vai dar, porque segundo me apercebo não consta do plano de actividades do ano que vai entrar uma verba senão para ter aberta a rubrica, um euro, um faz de conta que já conheço de ginjeira, já estamos habituados a ele, apesar da nossa terra proporcionar ao município uma receita anual de noventa a cem mil contos de mão beijada, uma importância de águas que câmaras anteriores conseguiram obter mas que a minha terra viu, e vê, por um óculo. Estranhamente, não se escuta um grito de protesto pela voz dos eleitos locais. É fácil perceber porquê.
Um edil da terra, ao contrário do que eu pensava, não adianta nada e assim, para dizer ámen e embatucar na importância não faz falta nenhuma. Sempre pensei e até manifestei em publico o pensamento de que era necessário, como continuo a pensar, que sempre seria melhor que nada, ter na autarquia um bom representante. A coisa não é bem assim, um yes man não faz falta em lado nenhum e nesta matéria o Luso é um muro de Jerusalém sem lamentações!
Passei com estes raciocínios pelo velho Teatro Avenida da minha infância tal qual como passo ás vezes pelo verão que enchia de fitas as semanas e os sábados de bailes. O cinema do Luso não tem história porque ninguém a escreveu, ninguém teve a curiosidade de guardar uns papeis velhos nas gavetas do tempo para lha construir, mas tem-na igual ou maior que muitas outras casas de província e como muitas estâncias termais, no tempo em que as termas se faziam e funcionavam com a dimensão das pequenas cidades em que se transformavam os lugares. Bem diferente dos tempos actuais que correm propícios á destruição e ao roubo e se baseiam na irresponsabilidade absoluta.
Por ali passou o grande Alves da Cunha, o grande António Silva, a grande Maria Matos.
A Maria Matos que esteve para levar para o Parque Mayer o meu segundo primo, o Álvaro, um grande artista cómico das revistas locais que a encantou em duas ou três rábulas de representação. Seu pai e meu tio-avô Ernesto, não permitiram a transferência e assim se fez gorar a oportunidade, para ele, filho, de vir a ser um artista nacional.
Se tivesse história escrita, este cinema, modesto em comodidades mas com uma arquitectura comum a muitas outras salas pelo país, seria grande na dimensão da minha terra, pois por ali passaram muitas das encenações locais que se fizeram durante dezenas de anos, até á altura em que a televisão destruiu implacavelmente o associativismo e a vida social de então.
Hoje há quem me peça para escrever sobre a sala de espectáculos. Estou muito longe de ser um José Hermano Saraiva, mas estes pedidos denunciam de facto que não há ninguém que defenda o património das termas, que os eleitos não estão á altura dos acontecimentos, que os problemas não são discutidos e muito menos resolvidos.
Que não há na vila uma sala para cinema, para teatro, para ensaios, para reuniões, para congressos! É verdade. Também lamento que ainda há pouco tempo um congresso sobre a Batalha do Bussaco fosse feito no teatro vizinho. Mas lamento igualmente que levem o pouco património existente, como livros, peças de mobiliário, medalhas e outras coisas mais que são parte da nossa essência, da nossa matriz, da nossa alma, para os arquivos da Mealhada. Um povo sem alma é o pior que há. Como lamento os disparates que se fazem no trânsito, a insensibilidade para os problemas do estacionamento, a vergonhosa situação da avenida do Castanheiro, a leviandade com que se deixam reduzir as termas a um terço do que eram, matando-as. A irresponsabilidade com que se ajudam a destruir as unidades hoteleiras em vez de as ajudar a viver, e o amadorismo curioso com que é tratada em família a Mata do Buçaco.
Mas que fazem os eleitos locais pela defesa da minha e nossa terra??? E quem foi que os lá colocou ?
Quem me pede para escrever, pergunte-lhes. Há que exercer esse direito de cidadania, igual para todos, como o acto de votar. Por mim, estou farto de escrever! Hei-de ser sempre o mau da fita???
Luso, Dezembro,2010

Cá me queria parecer que nada sabiam de turismo ou florestas. E particularmente da floresta do Buçaco.
Primeiro porque só quem não conhece o ciclo da Mata se aventura a fazer festas e arraiais em pleno Inverno, porque para isso o lugar é impróprio, incómodo e impossível. O Inverno da Mata do Buçaco, para quem conhece minimamente a floresta, é frio, diluviano, enevoado, húmido, inclemente e as noites sobretudo, são por consequência insuportáveis. Cabe aos mais bem aventurados haver um hotel de cinco estrelas e só ali, sinceramente, se poderá aguentar a regularidade do clima. Os frades não o tinham, recolhiam cedo ás celas e ao aconchego das ermidas. Coziam o pão nas fogueiras dos borralhos, como dizemos nós, os de baixo, quando as nuvens se arrebitam pelo costado da serra.
Daí que as festas, como a grande maioria das visitas, se guardem para o Verão, para a romaria da Ascensão, para o renascer da primavera e depois para o calores estivais quando em realidade a Mata se torna num sítio fresco e apetecível, mercê do lençol de água onde assenta o comprimento do corpo e daquela que, teimosa, lhe fura os órgãos e assoma á superfície. São as fontes, os ribeiros, os regatos onde nos apraz sossegar das queimaduras do estio.
Por outro lado, no Inverno este chão precisa que se encharque a serra, que apodreça a folhagem e se mantenha o húmus natural que dá força e vida á vegetação abundante. A floresta é viva, precisa de descanso e de tranquilidade, precisa de dormir para se recompor da carga demográfica do verão que lhe calcou a pele e lhe destruiu muito das entranhas. Por tal motivo precisa de tempo não de agressões. Como qualquer mortal, também o coberto vegetal precisa respirar e só assim quando chegar a primavera, renasce com força e com defesas para seguir para cima e se revestir de verdes. E continuar o caminho que quatro séculos atrás abnegados monges começaram. Com devoção e amor.
Falta a estes compadres de algibeira algum dinheiro na bolsa e muito caco no miolo e na ânsia de vender seja o que for, acabam por destruir aquilo que está. Fazem-no por ignorância, acredito, não nasceram para técnicos de florestas nem para tal se prepararam, tomaram conta do terreno como se fossem família ou se tratasse dum trono, ainda que, quero acreditar, um dia se esclarecerão os porquês! E tanto assim é que, na ganância do corte de pinheiros, foram abaixo por insensatez ou ignorância, não sabemos, vinte pés de azevinheiro, uma espécie protegida por lei, que subsiste e reproduz na encosta norte da serra o que, a par com as bolsas do Gerês, será dos locais onde melhor se pode conservar a árvore em extinção. Proibido por lei, o corte é crime, tanto quanto suponho extensivo a toda a gente, a não ser que algum decreto-lei desconhecido tenha isentado da própria alguns grupos sociais ou políticos, o que não me admiraria. De qualquer maneira ninguém se vai lembrar mais disto e naturalmente, como neste país é tudo natural para algumas pessoas, é a impunidade que vai fazer esquecer o acto.
Como o seria em relação á enorme fogueira que queriam atear frente ao hotel, se tivessem público para a saltar e que adiaram a tempo para não deitar fogo á Mata, mas na verdade, porque não apareceu ninguém.
A propósito não resisto a transcrever da internet o comentário dum visitante, talvez dos únicos, que se apresentou nos festejos e escreveu a sua
opinião no sitio do diário As Beiras, de Coimbra. Diz assim:
Fui ao Buçaco com a família ver o tal presépio ao vivo. Á entrada cobraram-me 5 euros para percorrer uma estrada cheia de lama e de árvores cortadas. Depois fui ao palácio, estacionei o carro e 30 minutos depois já estava de arrancada porque sinceramente, foi uma desilusão. Muito arcaico, sem brio ou interesse e ainda me queriam cobrar mais 2 euros por cabeça (somos 5 pessoas) para visitar o Convento. Nem uma casa de banho digna desse nome para apoio! Metemo-nos no carro e regressamos a Coimbra com a sensação de que fomos enganados.
Para além destes absurdos natalícios, este ano a Mata está fechada aos habitantes da região, aqueles que a visitam no inverno porque a Mata também é deles através dos impostos que pagam e que lhe acodem no calor do Verão se algum incêndio ameaçar avanço muros adentro. Essa cota parte, é pouco lúcido restringi-la por todas as razões. A febre do dinheiro não justifica passar por cima do respeito que se deve pelo menos ás gentes do município, para não ir mais longe. O tomar conta do espaço como coisa familiar não é correcto e abona pouco os autores desta proeza.
Não só se está a destruir o Buçaco físico, como o nome do Buçaco em termos de turismo. Os compadres, que na feira do Cartaxo já tinham dado um ar da sua graça, não aprenderam nada desde então.
Na demagogia duma propaganda laparota vejo escrito milhares de turistas de visita. Não os vi, mas muito mais significativo do que não os ver é que nenhum desses numerosos turistas fez uma dormida na freguesia do Luso nem no município, o mesmo acontecendo em relação a refeições ou outros gastos, nos limites cá de cima. Aí por baixo, talvez possuam oculares diferentes e vejam alguma coisa e caso não vejam, sempre podem inventar e inscrever na propaganda que pagamos.
De qualquer modo fica a pergunta: serão estes turistas que os especialistas da fundação procuram? Ou serão turistas da afundação? FS
Buçaco.blogs.sapo.pt
Santo António é de Lisboa, onde nasceu, de Coimbra, onde estudou e finalmente de Pádua onde morreu. É lá que tem á sua conta um majestoso templo na cidade, a Basílica de Santo António de Pádua.
De Lisboa, nascido nas traseiras da Sé em 1195, 15 de Agosto supõe-se, filho de Martins de Bulhões e de Maria Teresa Azevedo e foi baptizado com o nome de Fernando de Bulhões. Aos 15 anos iniciou os estudos teológicos na Ordem dos Regrantes de Santo Agostinho no Mosteiro de São Vicente de Fora, e aos 18 anos de idade chega a Coimbra para frequentar o Mosteiro de Santa Cruz onde estudou Teologia , Filosofia e se ordenou. Trocou então a Ordem dos Agostinhos pela dos Franciscanos e á mudança juntou-se mudança para casa nova, para o Ermitério dos Olivais, depois Convento de Santo António nos subúrbios da cidade. Muda o nome para António, Frei António
Por esta altura, 1219, passam por Coimbra cinco frades italianos mandados por S. Francisco de Assis para evangelizar os sarracenos. Toca ao coração do irmão a força da crença e a convicção dos evangelizadores que da capital do reino seguem para Lisboa e de Sevilha para Marrocos, onde se hospedam em casa dum cristão ali residente. Trocam as roupas seculares que lhes haviam dado na corte, pelos hábitos da ordem e uma semana depois, num dia destinado pelos mouros ao culto de Maomé, entram na mesquita da cidade e procuram convencer os muçulmanos a converter-se ao cristianismo. Tomados por bêbados e desordeiros são empurrados para a rua sob um arraial de pancadaria que os deixou mal tratados. Recompostos da aventura, vão os frades a casa do califa para o evangelizarem. Tentam converter o sultão dizendo mal de Maomé e este chama os seus soldados para que os executem como infiéis. Salva-os o filho Abosaide que havia simpatizado com a juventude dos frades e por sua intercepção acabou o califa por os mandar embora. Foram então pregar a casa do Miramolim que os expulsou da cidade.
Acontecia que por aqueles tempos andava por Marrocos o Infante D. Pedro, irmão do rei D. Afonso, no cumprimento de tratados e alianças entre os reinos e tomando conhecimento da situação levou consigo os frades para Ceuta. No caminho porém, os frades fugiram, voltaram a Marrocos e tentaram de novo evangelizar os sarracenos pregando as virtudes de Jesus contra as falsidades de Mafoma. Tentativas infrutíferas a que se seguiu uma morte trágica ás mãos do sultão e do filho, depois de terem sido brutalmente torturados e finalmente decapitados. Mas de tal forma se escusaram ao perdão que os mouros lhe propunham que se convenceram que era o martírio e a morte que os frades procuravam.
D. Pedro resgatou os corpos e trouxe-os consigo para Portugal como relíquias, sucedendo-se então uma série de graças e milagres como não podia deixar de ser, no cumprimento do ritual iconográfico português e católico até á canonização. Quando voltaram a passar por Coimbra como mártires defuntos, António sentiu no sofrimento alheio um vigoroso chamamento e impressionado pela evangelização falhada destes santos mártires, como vieram a ser chamados, em 1220 o então Frei António decide repetir a pregação precedente embarcando para Marrocos com esse fito. Acometido de doença depois de chegar, foi obrigado a regressar a Portugal, altura para uma tempestade arrastar o barco para a Sicília onde desembarcou. Dali seguiu para Assis para se encontrar com S. Francisco e em Maio do ano de 1221 vemo-lo a participar no capítulo geral da ordem.
Excelente orador e pregador, Frei António impressionou irmãos e fiéis de tal maneira que o provincial o incumbiu de fazer apostolado na região da Emília Romagna, no norte de Itália. Os seus sermões arrastaram multidões e proporcionaram-lhe algumas missões e cargos, como o de leitor em Bolonha e provincial da Romagna. Instalou-se com os irmãos franciscanos no Convento de Arcella na vizinhança de Pádua. Aí pregou e morreu.
Posta neste pé a notícia da lenda histórica do santo, vamos á lenda militar, não apenas lenda, mas ideias e factos, não só porque a sua imagem percorreu muitos palcos de guerra tendo sem dúvida motivado exércitos ou colaborado no achamento de terras e tesoiros, mas também pelo motivo com que ainda hoje colabora na procura de objectos perdidos ou é alcoviteiro de noivos nos casamentos de Santo António, a 13 de Junho, na sua terra natal, Lisboa. Coisas do foro da fé, da crença e da verdade ou mentira de cada um.
Do Militar, sabe-se que foi incorporado no tempo do rei D. Afonso VI, por alvará do irmão, D. Pedro , no 2º regimento de infantaria de Lagos em 24 de Janeiro de 1668 ainda que apareça via tradição oral, como generalíssimo de D. João IV na batalha de Montes Claros. Mas é de Lagos o registo, tal como a fiança dada por Maria Santíssima, responsabilizando-se, como o costume da época, pela deserção do recruta. Não foi preciso até hoje. Mas são tantas as datas para o mesmo santo encontradas em todo o mundo português de então, que havemos de tomar nota do primeiro assento do praça como soldado raso, o de Lagos, sem posto mas com pré, a aplicar na obra de auxilio a soldados doentes, coisa que se aplicou até hoje.
Em 1683 é promovido a capitão pelo rei D. Pedro II, depois deste de tomar posse do reino, com 10.000 reis de soldo e logo se destacou em lutas levadas a cabo em Jorumenha e Olivença á frente do regimento. Em 1762 , reinava D. José ,destaca-se de novo na praça de Almeida contra arremetidas da Espanha, permanecendo firme a sua imagem nas muralhas do forte e assim contribuindo para a vitória alcançada. Por este acto heróico, bem como pelos milagres cometidos e despoletados, foi promovido a major por D. Maria I, depois de 100 anos de capitão exemplar.
É nesta condição que aparece em 1810 ao serviço do Regimento de Infantaria de Cascais, o célebre 19 , na Batalha do Bussaco, bem como em toda a Guerra Peninsular . No Bussaco, em certa altura da luta, chegou a ser capturado pelos franceses, mas isso transtornou de tal maneira o 19 português, que de imediato caiu sobre ao gauleses, não só para resgatar o santo como para pôr em debandada o atrevido invasor, que graças a mais esta milagrosa intervenção do António, major, acabou por perder em toda a linha.
Valeu-lhe a Guerra Peninsular uma cruz de oiro e a promoção a tenente-coronel por alvará
do príncipe regente D. João, outorgado na Baía e confirmado no Rio de Janeiro então capital do reino .
A esta folha de serviço prestado na metrópole, junta-se ainda uma larga participação em guerras coloniais, mormente no Brasil onde está na capitania de Pernambuco, na guerra dos Quilombos e na capitania do Rio na captura do pirata francês Jean François Duclerc.
No Brasil, na Guiné, em Angola ou em Goa, onde foi muito venerado, teve o santo grande influência em sucessivos acontecimentos por tal motivo foi igualmente alistado e igualmente promovido por agentes locais como recompensa pelos seus serviços. Foi coronel, marechal, generalíssimo em outras ocasiões e a sua imagem, melhor, as suas imagens correram igrejas e quartéis.
Dentro deste simbolismo arreigado á tradição portuguesa, parece conservar ainda o posto de tenente coronel, não sei se na reserva se na aposentação se ainda no activo, mas quem o quiser visitar, pode faze-lo na capela de Nossa Senhora da Vitória, anexa ao Museu Militar do Buçaco e dedicar-lhe uns momentos de atenção, ou devoção.
Quanto ao santo em si, faleceu no dia 13 de Junho de 1231 com 36 anos de idade e repousa na bela Basílica de Stº António, em Pádua, Itália. É o santo de maior fervor popular na cristandade latina. Santo António de Lisboa, mais conhecido por Santo António de Pádua !
E porque não do Bussaco? FS
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