ETIMOLOGIA DE BUÇACO E OUTRAS HISTÓRIAS
D esde a base da capela circular de Stº Antão , isolada no alto
dum penhasco,rompe da encosta um aglomerado rochoso que para
lá da citada capela se prolonga a oriente até ao terreiro do Calvário
e do Sepulcro. Foi neste segundo ponto que resolveram os construtores
da Via Sacra figurar o termo da chamada‘Paixão de Cristo’,
claramente os atos finais da cerimónia evocativa
representando as últimas estações, e as ermidas do Calvário e
do Sepulcro que acrescentam á simplicidade dos Passos , a penitência
dos monges.
Sai da rudeza deste chão, alçado sobre a penedia, uma vista livre e
abrangente de grande beleza e solenidade. A seus pés, foi nos
finais do séc. XIX e principio do XX, destruída grande parte do velho
mosteiro de Santa Cruz do Bussaco,pertencente á Ordem dos Carmelitas
Descalços, e no seu lugar construído um palácio e pavilhão de
caça para utilização do rei D. Carlos, estruturas que a realeza não
chegou efetivamente a utilizar e que por falta de objectivos e dinheiro
se transformaram depois num hotel.
A beleza humilde dos pobres anacoretas , retirados de Sintra pela
presença da corte aquando da escolha do local para a instalação do
deserto, foi agora substituída,cerca de trezentos e cinquenta anos
depois, pela presumida vinda do rei com o esplendor e o rebuliço da
mesma que incluiria sem dúvida nenhuma o aparato duma clientela
inócua, viciada e falida, todos os que cronicamente sobreviviam
das gamelas reais e dos impostos lançados sobre o povo e que
impediram os frades de estabelecer o deserto em Sintra quando
da sua fundação.
Mais ou menos como hoje, segundo os excelentese claros
relatos de Eça de Queiroz e outros testemunhos da época entre eles as
figuras de Rafael Bordalo Pinheiro, o reino balançava na mesma
vergonha e banca rota e em lutas intestinais pela mudança de regime.
O desenho do cenógrafo italiano Manini, ao invés da voluntária pobreza
e rude talha dos eremitas apresenta-se pois conforme a ostentação de
reis e cortesãos, um conjunto arquitetónico manuelino e revivalista
que iria ser construído com o apoio da escola Coimbrã ,o calcário de
Ançã e o picão de Anacleto Garcia.
A magnificência do trabalho,dos rendilhados, da azulejaria,das salas,
do pavilhão de caça ,conferiu aos trabalhos um cunho de
beleza e qualidade que veio depois a servir para a instalação de um
dos primeiros hotéis de luxo deste país que foi pioneiro na nova
industria nascente, a industria do turismo e hotelaria.
Para chegar a este ponto intermédio, dele não se pretende passar,
foi preciso a perspicácia, a humildade, o misticismo e a paixão dos
frades que aqui habitaram desde a primeira metade do séc. XVII,
dotando o espaço selvagem então existente , do convento e adereços
religiosos a par do património botânico pacientemente
plantado e garantido com amor e devoção.
Dessa recolha transporte e plantação com plantas do novo
mundo das mais variadas espécies, está por escrever a história
e a força com que o fizeram e assumiram em missão.
Juntemos a estes espolios botânicos e religiosos o pedaço da invasão
napoleónica que se escreveu nas encostas da serra e teremos á
mão o posto perfeito para um polo importante dedesenvolvimento
turístico de que este centro de Portugal precisa ,coisa que não
tem acontecido por falta de mãos e de cabeças e também por
excesso de oportunismos , pensamento aldeão e
sucessivas visões tão atrasadas quanto anacrónicas.
Esta é a história breve dum Buçaco concreto , outra história,
a etimológica, não é clara ou não existe, resume-se a lendas e
invenções sem credibilidade, não só porque não há
testemunhos dos relatos como o enredo de que são feitos é
pobre e frágil. Mesmo assim fala-se do berço das palavras e da
sua localização e por tal motivo vou repetir com os
costumados ingredientes, histórias que estão contadas e que
eu próprio recontei.Vamos pois relembrar.
Entre a capela de S. Antão por onde comecei este texto e o
terreiro do Calvário ,ziguezagueia serra acima uma estreita e
deslumbrante vereda , regra geral tão mal tratada que aqui e ali
pode desaparecer no vegetal, e que pouco antes de atingir o já
citado terreiro no Sepulcro , margina grossas e soltas penedias
sobrepostas que fazem nos seus remates uma espécie de abrigo
ou gruta a que a empírica ciência popular chamou Cova do Negro.
Diz a lenda, que é disso que se trata, que em tempos não relembrados
ali se instalou um perigoso bandido de cor negra fazendo daquele covil
um ponto de permanência e de partida para os atos de ladroagem que
praticava sobre gados e haveres nas aldeias da vizinhança e de tal sorte
era insistente e cruel nas suas arremetidas que chamavam as gentes
á gruta donde partia Cova ou Toca do Boçal, sabido que era então
o nome de Boçal aplicado aos negros de cor madura, pretos retintos
para os distinguir de mulatos e crioulos.Esta palavra boçal terá o uso
e o tempo burilado na gramática, dando azo a Buzaco, Bussaco e
recentemente Buçaco.
A contrapor a esta lenda brutal temos uma outra , a do velho e bom
ancião,um venerável habitante das redondezas que, junta com a anterior
faz uma clara dicotomia entre o bem e entre o mal. Aqui, o bom homem
habita numa aldeia por ali perto e por questões de feitio , misticismo
ou conveniência,muitas vezes procura a solidão do monte para rezar
e fazer penitência ,premonizando talvez a vinda dos eremitas.
Perder-se-á dias, semanas, meses na solitária imensidão dos montes
e , regressado ao povoado, perguntando-lhe vizinhos e conterrâneos
sobre o que fez e encontrou por lá, responde lacónico:
--D’aquele monte saco bus !
A mesma trama gramatical recompõe silabas, palavras e surge a
mesma proposta,o Buzzaco, o Bussaco, o Buçaco dos nossos dias.
Por fim, uma versão mais prática e atrevida , relaciona o Buçaco
um deserto que existiu no Lácio, Itália, no qual S. Bento, o fundador
da Ordem dos Beneditinos , passou três anos em obediente e humilde
penitência.
Deste facto escreve a cortesã e poetisa Bernarda Ferreira de
Lacerda no seu livro Soledades do Bussaco:
En aquellos siglos de oro
Y venturosas idades
Qual el Lacio Sublaco
Solia el monte llamarse.
A titulo de finalização, direi que a primeira referência ao nome
Buzaco aparece em latim bárbaro no ano de 919 , numa doação do
lugar de Gondolim ao mosteiro de Lorvão. Diz assim:
…com suas valles que discurrent de monte buzaco. (1)
Em 1006 ,Froila Gundizalves doou ao mosteiro Vacariça o seu casal de
Uillanoua subúrbio colimbrie inxta monte buzzaco…(1)
Em 1016 , no Livro Preto da Sé de Coimbra , se refere:
in loco predicto Uaccaricia subtus mons buzaco território colimbrie.
Sobre a primeira lenda do negro boçal, existe um belo texto
de Alberto Pimenta,contando em versos a história do ladrão
que terá dado origem á hipotese da primeira versão do nome.
(1- ) Portugalia Monument.a História,V1,pág.14
( Escrito de acordo com o novo acordo ortográfico)
Três romeiros ( o do meio senhora)apoiadosem varapaus, descansam da jornada.
As duas imagens representadas nos postais, uma a preto e
branco, outra toscamente pintada á mão assinando a sua
antiguidade, dizem respeitam á Ermida do Calvário
no fim da Via-Sacra do Buçaco. Situadas a meio da encosta
entre o Convento e a Cruz Alta sobre um agregado de
imponentes rochedos, delas se alonga a vista até ao Oceano,
ao Caramulo, á Estrela.
Diz o poeta J.F.de Serpa:
Surgindo majestoso d’entre as cúpulas
D’altos annosos cedros,
Como das crespas ondas se alevanta
Rochedo colossal co’o pé no abismo
E co’a fronte nas nuvens
Mandada construir por D.João de Melo, Bispo e Conde
de Coimbra, foi a Ermida consagrada pelo próprio fundador
em 3 de Outubro de 1694. O oratório sextavado, era dotado
de várias pinturas, entre elas a dum Cristo crucificado
executado por um leigo do deserto da Arrábida e oferecida
pelo Bispo depois de transportado em procissão na solene
cerimónia desse mesmo dia.
Acompanhado de toda a comunidade saiu o bispo conde do
convento percorrendo os passos da Via Crucis estação a estação.
Chegados á nova ermida benzeu o Oratório onde disse
a primeira missa e depositou a sugestiva imagem.
Na parte traseira deste oratório há um mirante formado
por um corredor entremeado de ameias que acompanha
exteriormente a construção, local onde se encontra uma
cisterna que recebia águas pluviais para consumo na ermida.
Em frente, no abismo sobre a serra, quase se sobrevoa a
exuberante vegetação que desliza em harmonia silenciosa
pelos limites do cenóbio e ultrapassando-os largamente na
grandiosidade da paisagem.
Recorremos á rima de Miguel Osório Cabral
para sublinhar a opulência da visão:
Vejo o convento estar na falda assente
Vejo d’alta lameda a verde cima,
E os verdes pavilhões, que as nuvens tocam,
Vejo dobrar a fronte.
E muda-se o matiz de folha a folha,
E tremula a ramada-o sol lampeja
De varia cor se rasga a olhos ávidos
Estranho,ignoto quadro.

Em recente crónica num jornal diário o cidadão Marques Mendes analisa aquilo a que chama a tralha socrática e as suas implicações junto do novo leader socialista. Talvez tenha razão. Eu próprio quando dou de caras na televisão e fora dela com algumas novas e velhas raposas cor-de-rosa fico agoniado. Políticos que transformaram o dever cívico de governar o país, numa profissão. Políticos que colaram o rabo às cadeiras dos poderes e delas fizeram o uso e o abuso até ao ponto de manipular as próprias eleições partidárias sem respeito pela democracia, pela honestidade hominídea ou pela honestidade política. Irresponsáveis e inaptos que, talvez não sabendo fazer mais nada na vida, vão procurando conservar-se enlatados como sardinha nos lugares de cidadania interpretando-os como seus e como sendo eles, pobres diabos mentais, insubstituíveis. Tão ou tão pouco que graças á persistência cega desta democracia de mediocridade e prepotência, ajudaram e levaram o país á bancarrota. E não fosse essa Europa de que os ameaçados dizem tão mal agora, quando procuram fechar aflitivamente a torneira da bagunçada que tem sido, já não teríamos sequer o que comer.
De facto os socráticos foram dos piores nesta politica contra a política, não só porque foram os últimos, mas porque se instalaram e ramificaram deliberadamente sobre a asa dum pseudo engenheiro, por todo o lado. Muitos continuam nessas cadeiras, até temos exemplos deste pequeno poder no município onde vivemos, outros até já não serão socráticos, querem um seguro porque querem segurança para os próximos combates, ainda não se convenceram, talvez por burrice congénita, que a imoralidade não sobrevive sempre e que as famílias, cedo ou tarde mudam e transformam a imundice dos abusos, dos favores, da falta de escrúpulos, esse mundo sujo movido a telemóveis e cadeias de informações quase concelho a concelho, em coisas obsoletas e ultrapassadas. Como a Pide.
Dá-me vontade de rir quando os administradores, os directores e os autarcas se queixam da falta de meios. Depois de terem ajudado a afundar o país com obras sumptuosas e insustentáveis, com assessorias tão extravagantes como desnecessárias, distribuindo lugares aos amigos em concursos inquinados, esbanjando em compras de automóveis topo de gama, em festas e donativos, em apoios inconcebíveis ao mundo do futebol, em fundações maquiavélicas e muitas outras barbaridades, queixam-se agora da libertinagem que tem sido, em termos financeiros, a gestão deste país. Queixam-se deles próprios em absurdas tiradas dirigidas aos pacóvios, pensam eles, dos eleitores.
Isto demonstra apenas que a irresponsabilidade, a incapacidade e o sentido de Estado são do absoluto desconhecimento da maioria dos políticos ou pseudo políticos. Conhecem a politica no pior sentido, se é que muitas vezes reconhecem nela alguma coisa a não ser os seus próprios interesses. Da nobreza do acto, não lhe conhecem rasto.
Terá pois razão o cidadão Marques Mendes, que respeito como homem, ao falar da tralha socrática, é verdade que sim, concordo, mas não pode esquecer o mesmo cidadão que antes da tralha socrática outras tralhas não socráticas ajudaram a cavar o fosso onde estamos caídos. E daqui, é certo que nem o cidadão em causa pode escapar, fez parte inquestionável deste rio caudaloso que se foi engrossando até um incontrolável amazonas. Ele e a sua família política, não podem pôr, á boa maneira da língua portuguesa, o rabo de fora, tal e tanto contribuíram para o caudal desta torrente, porque de facto ela não foi uma súbita tempestade como a que aconteceu na Madeira ou recentemente em Génova (as tempestades acontecem em todo o lado) mas paciente e tacticamente urdida, com duvidosas decisões, rocambolescos episódios, gastos sumptuosos, abusos de toda a ordem. Exactamente a mesma tralha que o cidadão acusa!
Admiro-me que só agora se aperceba do naufrágio quando qualquer chefe de família que governa a sua casa com o suor do seu rosto, o teria calculado há muitos anos atrás! Mas nem o dito cidadão nem nenhum dos economistas da sua larga prole familiar o calcularam, tal como o não calculou a prole socrática ou guterrista! Por não saberem? Claro que não, apenas porque o não pretenderam saber. Para um país que não cria riqueza suficiente há muito tempo, há muito tempo se previa um destino cruel. Cruel, doloroso, amargo e vergonhoso, por muitas culpas que se atirem á Europa e aos mercados. Não é preciso ser especialista nem génio da lâmpada de Aladino para ter chegado a semelhante conclusão!
Foi toda esta tralha que nos governou e enganou durante sucessivos períodos eleitorais, quer a nível do poder central, quer a nível do poder local. A tralha socrática sobrevive ainda neste pobre município, uma tralha que só vai deixar o poder quando a cadeira cair de podre por imperativo duma lei, não se sabe quanto tempo vai durar, que procura corrigir os excessos mandando embora quem, quer moral quer civicamente, não teve o senso suficiente nem compreendeu o tempo para dar lugar a outros. Uma tralha politica que vive á volta de si própria, que se apoia narcisicamente em si própria, que se amanha entre a família politica com os gadanhos de anos e anos de vícios e de cegueira colectiva, uma tralha sem ideias, pendurada em favores e benefícios que chega a filhos e enteados com o despudor de quem se julga dono politico de tudo e todos.
É necessário também que os socráticos concelhios se vão embora e deixem abrir as janelas ao ar puro duma mudança radical e saudável, capaz de tirar o município duma doença crónica cuja rotina se baseia nos favores e no oportunismo político.
Terminada há muito a quimérica patetice de campos do golf sem sustentabilidade ou de nós rodo ferroviários inventados, é tempo de ajustar contas. Arruinadas as termas por conveniente e inacreditável entendimento entre eleitos e concessionários, ao que se juntou uma fundação de família politica para destruir a Mata Nacional do Buçaco, resta a retórica bacoca de quem tem dinheiro em cofre para dar milhões de euros por uma estrutura degradada para nela enterrar outro tanto sem que se vejam vantagens para o porvir municipal. Coisa que nem os próprios calculam.
Não só o país teve a beneficiar com o fim do socratismo, também os municípios beneficiarão com a extinção das metasteses dos seus tentáculos. O tempo em que a voz do dono passava por cima das decisões democráticas deve acabar de vez, dando lugar a uma prática transparente e saudável entre as forças politicas, quer no seu interior, quer fora dele, de modo a que interesses pessoais ou partidários não se sobreponham ao interesse geral. Cabe aos partidos esta prática profilática a caminho da democracia e da dignidade perdidas.
Luso,Dezembro,2011
Ainda não eram oito horas da manhã já as mulheres subiam a serra
em grupos numa algaraviada de ditos e comentários alusivos ás
novidades da manhã ou ao trabalho a fazer,donde eram sempre
pródigas e muitas vezes jocosas no linguajar comum .
Juntavam-se aqui e ali nos sítios combinados e em pequenos ranchos
se iam engrossando nos caminhos para as entradas da Mata.
A maior parte subia a Avenida Navarro, as escadas do Teatro
Avenida e penetrava dentro dos muros pela pequena
Porta dos Degraus, uma brecha aberta, a mais recente, dois
pilares espaçados por um metro de degrau, o suficiente para
entrar uma pessoa. (hoje no chão, em completa ruína).
Mas outras,em menor número, faziam-no pelo Portão dos
Passarinhos e do Luso, * ef inalmente em menor número ainda
algumas utilizavam, consoante os lugares de residência donde
provinham, as Porta das Ameias e do Serpa.
Fosse por onde fosse o caminho das mulheres a subida
era sempre difícil de fazer, mas é verdade que quem se levantava
de madrugada e ia apara aquele serviço semanal sabia
perfeitamente ao que ia, podia mesmo imaginar passo por passo,
metro por metro, a jornada que se ia seguir, tão enraizado
estava o hábito no conteúdo das gentes e na ligeireza dos pés
sobretudo quando tocava a descer.
Foram dezenas, talvez centenas de anos que enraizaram o
costume, nos tempos em que se cozinhava nas lareiras ou nos
fogões de ferro, se acendiam os fornos para cozer a boroa
e o ar condicionado se resumia à fogueira familiar á volta
da qual se aqueciam todos os membros quando apertavam os
rigores do inverno.
Quanto mais grosso o madeiro, melhor o lar!
Só mais tarde surgiriam os fogareiros a petróleo com bombeamento
de pressão e depois o gás.
Na subida íngreme das veredas até ao campo da bola, a algazarra
subia de tom e o falatório seguia a par sobre a geada da manhã
ou calando o vento suão que empurrava e levava á sua frente quanto
pudesse arrastar, nos dias em que soprava como indesejado vilão que
nestas terras era e é. Vestiam roupas simples de simples mulheres do
campo, mulheres de lides caseiras, de agricultura,
moleiras, desempregadas da hotelaria que desde o cantar do pisco
até ao recomeço da época no mês de Maio,cuidavam dos afazeres domésticos.
Numa blusa de chita, acima dum casaco velho de ir ao pinhal ou ao rio
ou duma velha camisola de inverno já no fio, escondiam os corpos esguios,
abaixo da maçã rubra do rosto, afogueada pelo frio e pelo cansaço da
subida. Sobre a cabeça, empoleirava-se em equilíbrio uma rodilha de trapos
que parecia colada aos cabelos como extensão daqueles e seria
o símbolo, se simbologia houvesse, daquela ida ao Buçaco.
Era um trabalho árduo,mas misturado com a festa de subir àquela mansão
de ex-frades que deu sempre um certo encantamento e orgulho ás
gentes das redondezas.
Entre o cruzamento do Serpa e o cruzeiro de Vopeliares na antiga
Quinta da Graciosa, incorporada na mata em 1887, se reuniam
finalmente as mulheres tagarelando em grande burburinho até
á chegada do guarda-florestal.
As cordas, preparadas,pendiam-lhes das mãos ou enrolavam-se
no braço ou na cintura e um podão, além da ligeireza das mãos,
era o único instrumento de trabalho permitido.
Chegado o Mestre, o Cupido, o Santos, o Pimenta ou outro guarda de
serviço, impunha-se quase automaticamente o abaixar das vozes
e quando a autoridade florestal ensaiava as primeiras palavras
seguia-se um leve sussurro e depois o silêncio total.
-Quantas são?
E contavam-se as operárias que se juntavam como abelhas
umas de encontro ás outras. Depois faziam contas de cabeça.
Eram doze os guardiões florestais existentes no perímetro da
administração florestal do Buçaco sob as ordens dum administrador
residente e ocupavam na totalidade as doze casas que se prolongavam
pela serra até ao rio Mondego.
Nove dentro dos 105 hectares murados do antigo Carmelo , três em
plena serra, Carvalho, Espinheira e Ninho do Corvo.
Faça-se aqui uma justa ressalva lembrando o facto de então a preocupação
ambiental ser efectiva e implantada no terreno com a presença dos doze
guardas residentes ao serviço constante da natureza, hoje tão badalada
como se fosse novidade e não mais que umapreocupação requentada,
reajustada, no caso do Buçaco, para muitíssimo pior.O guarda fazia a
contagem e dava entrada àquele rancho de operárias por conta própria,
o que consistia na indicação do local ou dos locais onde na semana tinha
lugar o desbaste ou seja, onde se podia colher a lenha.
E depois em grupo, ou divididas em vários molhos mais pequenos se os
locais eram diversos,acompanhavam os guardas até aos respectivos
sítios onde de imediato tinha lugar a safra e o arranjo dos
feixes. No Sacramento, na Costa do Sol, na Cova daRaposa, em S. Miguel,
à Cascata,a Santo Antão, etc. etc.
Era uma limpeza gratuita ao coberto inútil da floresta feita pelo povo
vizinho, com proveitos para ambos os lados, pois ambos estavam i
nteressados na consequência dos actos,se a uns fazia jeito a lenha
para consumo energético, outros viam-se livres dumproduto que de
qualquer maneira haveriam de destruir.
Tal como nos fogos, que sempre os ouve por perto, onde na defesa
também sempre colaboraram as gentes das vizinhanças,hábito e
sentimento ganho depois que aos monges foi fechado o cenóbio
com a extinção daOrdem.
E não fosse a ajuda dos populares já teria ardido concerteza.
A faina, que tinha por limite de horas o badalar do meio dia, terminava
á hora que cada uma regressasse, ensarilhadas as arrancas de loiro,
carvalho, cedro, nogueira ou medronheiro no aperto do cordame,
posto o feixe á cabeça com a ajuda duma vizinha ou num cômoro
ali a jeito e o regresso de corpos direitos, mãos levantadas segurando
o feixe e ligeireza de pés. Muitas, descalças correndo sobre as pedras,
lama ou pó no labirinto das descidas.
Era assim que se ia ao Buçaco nesta função local de apanhar lenha, uma
função que se manteve até ao declínio do produto e sua substituição por
meios actuais.
Não é com espanto que me apercebo agora que se vende a lenha do Buçaco
a dez euros o metro. O Buçaco já esteve á venda, já fez parte dum rol de bens
a alienar, tudo se pode esperar, mas lenha, dentro desta velha tradição
que se esgotou, não, é apenas a febre de fazer dinheiro seja de que modo for.
Com o registo escrito desta tradição, pretendo trazer á superfície
a apropriação fundamentalista por que está a passar a Mata,
uma espécie de feira da ladra de gestão amadora, folclórica, que me desculpem
os abnegados carolas da modalidade, onde tudo se trafica sem costumes,
tradições ou alma.
Como os azevinhos, dizimados pela ignorância de quem não é especialista
mas nomeado.
E sublinho também o caso da entrada automóvel cuja proibição ás gente
da freguesia é um absurdo intolerável. Como aos taxistas do concelho,
um crime contra o turismo!
Não só porque nunca foi vedado a esta população a entrada num território
que emprimeiro lugar é eticamente seu mas também porque,
como se sabe, a autarquiaCâmara da Mealhada tem pago algumas das
contas ou dos trabalhos executados naMata com o dinheiro que lhe
pertence gastar com o cidadão do município. Porquea Mata continua
a ser do Estado, não da Câmara, é o Estado que nela tem deverde investir.
Como está a acontecer, os munícipes do concelho que entram no
espaço pagam por duas vezes entrada. Através dos seus impostos por
parte da participação da Câmara e através do seu dinheiro retirado da
carteira no pagamento do acesso.
Coisa que não acontece com qualquer outro cidadão deste país,
que paga apenas uma vez a entrada.
Com cartão ou sem cartão, este trata apenas dum subterfúgio para
realizar mais alguns patacos, inserido dentro das sucessivas operações
de charme com que vêem tentando defenderinteresses próprios.
Por outro lado, é incompreensível que o Estado despeça
funcionários públicos por falta de dinheiro e mantenha as clientelas
políticas nomeados ao sabor das amizades e dos cartões partidários.
É desonesto einsustentável.
Ir buscar lenha ao Buçaco era tradição antiga, a apropriação do património
e o proibir o usufruto dum espaço comum, se fosse tradição era moderna,
faltar-lhe-ia o hábito do tempo para entrar no coração das gentes.
Fruto do desemprego e do atropelo partidário duma fundação de família?
É o mais natural, mas apesar de parecer coisa pequena, em minha opinião,
tem a mesma falta de ética com que o madeirense Jardim faz as suas
fantásticas tropelias.
As autarquias, onde cai todos os meses o dinheiro dos nossos impostos
sem que para isso produzam seja que riqueza for para o país, são apenas
gastadoras, terão que entender que as vacas gordas vão acabar e que
o respeito pelo cidadão é coisa bem diferente do que montar agências
de empregos que muitos querem controlar, lá saberão porquê.
No Buçaco, não faltam mangas de alpaca, faltam porém jardineiros
para tratar da botânica.
Muitos deles, alpacas milionários, sem qualquer tradução no trabalho
que fazem.É um regabofe para muita gente, mas que nos custa caro
a nós cidadão, espezinhado de todas as maneiras na sua dignidade e
cidadania.
*Cabe aqui referir que a Porta do Luso foi
transferida do seu lugar primitivo adiante da actual Porta do Serpa, quando se
acrescentou á Mata a Quinta da Graciosa e encontra-se actualmente, na estrada
de Penacova. O portão em ferro, obra fundida na Fábrica da Companhia
Perseverança, de Lisboa, foi colocado no dia 10 de Maio de 1866 no seu lugar
inicial e tem hoje um valor que não corresponde ao estado de ruína em que
também está, mercê duma gestão politica irresponsável.
Luso, Setembro,2011
Três Fetos Arbórios secos e completamente mortos
em Vale dos Fetos, uma jóia do Buçaco.
No local, contamos dezoito nestas condições
e mais alguns a caminho dum fim rápido.
No Pinhal do Marquês cortaram as àrvores seculares
para lenha e deram lugar á infestação de acácias que
se vê na imagem.
Na Fonte Fria, um novo modelo de banco de tampo
invisivel, banco tipo Afundação, enquanto do outro
lado mais um Feto arbório caminha para a morte.
O cisne, curioso, espreita o banco vazio.
Enquanto isto e outras barbaridades se constatam
facilmente, de forma mais subtil a Câmara da Mealhada
tem abertos quatro concursos para técnicos superiores
de Engenharia Florestal, Engenharia civil,Arquitetura
e Comunicação Social , acautelando a hipotese de
encerramento da Fundação com a colocação vergonhosa
da família politica nos quadros da Câmara.
"A BATALHA E O CONVENTO"
UMA PERSPECTIVA INTERAGINDO A LUTA
COM OS FRADES CARMELITAS.
UMA MANEIRA DIFERENTE DE NARRAR
OS DIAS DA INVASÃO.
APRESENTADO DIA 1 DE OUTUBRO
NO HOTEL EDEN,LUSO.
PREÇO 12 EUROS
pedidos Ferrazsilva@sapo.pt
Pormenor da apresentação
Num trágico verão pleno de interrogações e crises também o mar e a praia não têm proporcionado aos seus utentes a normalidade sustentada do costume e o vento que empurra areias e as areias que fustigam a pele, têm sido os adversários principais de quem procura os raios de sol para torrar sob ele.
Apesar disso um barco, melhor dizendo, uma nave de sofisticada tecnologia, faz na nossa frente, isto é, frente ao hipotético utilizador do banho no Oceano Atlântico, um trabalho de pesquisa intensiva sobre as camadas inferiores dos fundos marítimos procurando detectar jazidas de petróleo.
Isto é o que lê o eventual banhista, como eu, já instalado sob o lençol de areia acima dum lençol de algodão comprado como puro a cem por cento e olhando o mar, enquanto se defende como pode das picadas da mesma areia que surge em reboliço a cada sopro mais afoito da ventania. Mais difícil ler a notícia dita acima no jornal aberto que, não sendo bem seguro, pode a qualquer momento voar e desaparecer sem que a correria consequente o consiga recuperar.
Por enquanto diz o jornal que uma empresa canadiana pesquisa o ouro negro e que tem algumas, não afirmam que são muitas, hipóteses de o encontrar em quantidade e qualidade suficientes para uma exploração normal, isto é, rentável.
Se assim fosse, penso á priori e enquanto utilizador da liberdade das areias , talvez fosse algo de vantajoso para este país, não teríamos de o pagar a cem por cento como acontece agora, depois de termos passado pela rara oportunidade de o termos encontrado em Santo António do Zaire , mas sem o engenho e arte para o poder descobrir e transformar em bombas de gasolina, urge agora quer alguém o procure por nós entre Mira , Tocha, Quiaios Figueira e Nazaré.
Talvez esse outro ouro angolano, a ter sido encontrado, fosse hoje uma empresa tipo galp , edp, tap , cp e outras mais, isto se o tivéssemos conseguido sustentar nas nossas mãos económicas safando-o á sua total entrega aos grupos da libertação. Seria no mínimo, o chorudo sustento de alguns administradores nomeados, juntamente com boas luvas e bons carros, telemóveis, viagens pagas, cartões de crédito, férias em Portofino ou nas Sheicelles, recompensa pelo suor e lágrimas de seus abnegados sacrifícios, além de famílias bem cotadas no aparelho subjacente. Este benefício para o cidadão nacional existiria neste mínimo, não duvido, outro tanto não sei quanto ao seu teor alagadiço, isto é, ao seu escorregar ao encontro do cidadão nacional, no seu todo, que é o que faz a nação.
Na nova busca, se as pesquisas tiverem êxito, duvido dos benefícios deste ouro preto e liquido para o país, pois sabemos que do ouro verdadeiro, amarelo e grátis que enchia caravelas e naus tempos depois do achamento e exploração do Brasil, nada se veio a beneficiar, excepto as enormes pedras de Mafra, alguns altares de talha dourada do mesmo e de alguns mais conventos e igrejas onde se regalam santos, e a pomposidade de reis ocos e bacocos que tiveram os habitantes deste reino sempre na conta de burros e ignorantes e portanto merecedores de grilhetas e arreios para que se não levantassem, por dever da submissão, do chão que lhes pertence.
O ouro verdadeiro, amarelo como leitão saído dum forno a lenha, foi consumido pela importante elite da fidalguia e seus clientes, não sei se naquele tempo já existia o termo elite, se não, existiam as personagens e fará o leitor o favor de imaginar o que quero dizer com ele, certo é que o país ou o reino viu passar o ouro por um canudo, qualquer coisa como ver Braga pelo mesmíssimo instrumento nos nossos tempos modernos.
Por aqui se vê que a história não foi pródiga em cabeças, nem em solidariedades, nem em bem comum e acreditar hoje em coisa diversa perante a eventualidade de uns jactos de grude cuspidos do mar sem fim seria pura estultícia.
Olho o barco puxando cabos e cabos e imagino olhos robotizados a mapear os fundos. O petróleo não cheira, comprimido na fossilidade da sua condição. E peço para que não surja repentinamente como qualquer magia, sem tempo para fugir da praia que poderá poluir quando a grude saltar no ar ou regressar á água que a trará á costa.
Mesmo assim, alimentando temores desta natureza, deixo-me adormecer sossegado neste areal quase selvagem num intervalo do vento. Olho, talvez em sonho, não o distingo bem, e vejo a silhueta do cabo Mondego entrando pelo mar, ora diluída numa espécie de névoa esbranquiçada ora fustigada pelo soprar dos elementos na secura do ar. O barco sofisticado avança com lentidão, praticamente parou á frente do cabo, é uma espécie de ponteiro de relógio que anda constantemente sem se perceber caminhar. De certeza que a sonhar, transformei o barco em poço de petróleo. Primeiro um, depois um segundo, um terceiro e por aí fora até tudo se transformar numa floresta de torres brotando ardilosamente de sucessivos poços e nós banhistas continuando a banhar-nos no areal comprido, alguns saltando para a água dos ferros retorcidos das estruturas, outros fugindo á violência dos raios de sol encostando-se nas sombras das colunas, outros mesmo ensaboando o corpo na oleosidade do grude que ás vezes dá á costa.
Já não há cais nem barcos no outro lado, na cidade da Figueira e da Foz, e muito menos pesca e o barco sofisticado e tecnológico, cada vez mais lento, indica minuto a minuto um novo poço de matéria-prima. Surgem no horizonte outros barcos cada vez mais tecnológicos de sofisticação e o sonho transforma-se automaticamente no pesadelo que me acorda. Olho o relógio. A tarde avançou na hora que dormi. Por curiosidade observo o mar á minha frente. O espaço-tempo é o mesmo. A calmaria mantém-se, os cabos flutuam e desaparecem nas águas, o barco avançou alguns metros na sua prospecção. O sol mantém-se em explosão no seu núcleo atómico e vai começar a sua aparente descida até ao limite da curvatura terrestre sem abrandar os motores. É privilégio seu, não de aviões nem de vaivém a desnecessidade de travão para embater na terra.
Volto ao rei magnânimo e ás pedras do convento que mandou fazer. Um rei utópico e pedante. Como eu conheço bem algumas delas! Aparelhadas, custaram-nos fortunas a ouro de lei e hoje não valem nada.
Oxalá encontrem petróleo em abundância, oxalá não acabe a busca em águas de bacalhau como na malograda peça teatral do saudoso Solnado, há petróleo no Beato, devem lembrar-se, pois Portugal bem precisa duma ajuda substancial para sair da crónica crise duma existência difícil. Não para construir palácios e alimentar elites, nem aturar sábios comentadores que nascem por todo o lado a debitar palpites como tartulheira na serra, pelos vistos também a preços de ouro, mas para se desenvolver e criar riqueza para que este povo se livre um dia da crónica corda que traz pendurada ao pescoço á espera que lhe apertem a garganta.
Acredito que seja uma herança telúrica do grande Egas Moniz, mas já tem cota de herói suficiente para nos livrar definitivamente desse peso.
Mesmo assim e porque sou pessimista, custa-me a crer que se vier a ser encontrado o abastado filão, o povo beneficie alguma coisa com a riqueza que trás consigo. Entre gestores, políticos, clientelas e esclarecidas elites, se há-de consumir o produto e adiar mais uma vez o desenvolvimento para todos.
Oxalá me engane neste papel de vidente que entretanto vou aproveitando o ar puro o sol e as areias da praia para sonhar. Não com o ouro da Mina que já lá vai, mas com este ouro oleoso que é mais um deus dos nossos dias correntes.
Praia da Tocha, Agosto, 2011
A floresta faz parte da despedida. Talvez seja até a despedida a fazer parte da floresta. Há uma certa empatia entre uma coisa e outra, entre o berço onde se nasce e o berço onde se morre, entre os aromas da infância e perfumes das tardes nas horas crepusculares. Por isso se me abre o apetite de deambular improvisamente entre as veredas das árvores, ou as árvores das veredas, trocando os termos acho que o conteúdo acaba por ser o mesmo, pelo menos aquele que verificamos dentro de nós. E constata-se que também os bosques tem manhãs radiosas, manhãs menos radiosas, horas crepusculares e outras coisas mais que podemos viver e saborear nas deambulações de crentes e amantes da natureza lar. E morrem, tanto por descuido do homem, como pela infestação viral ou por um acidental incêndio provocado pela própria natureza mãe. Claro que isto não é novidade nenhuma, a matéria é tal e qual como a vemos, não é outra coisa senão a realidade da nossa própria visão e caso se dê o caso da nossa visão ser uma visão errada, ou insuficiente, podemos não ter acesso a toda a realidade. É sabido que não temos acesso directo a imagens de raios x ou raios gama ou a ondas de rádio e no entanto elas existem. Um daltónico não tem acesso á cor, e ela aparece aos outros com gama de cores que nem a paleta dum pintor consegue reunir.
Subi assim ao Buçaco para simplificar ,há por aí quem o faça diariamente, não é o meu caso, e sempre que o faço venho mal contente com o estado da Mata. Entristecido. Entristecido com o amadorismo e inconsciência posto pela chamada fundação, a que galhardamente chamo afundação , no tratamento daquele espaço. Conheço-o á tantos anos como aqueles que tenho e a verdade dolorosa é que nada ganhou com a gestão pseudo camarária em que está metida ou afundada.
Parece haver ali um regimento de gestores ou mangas de alpaca e nenhum jardineiro, como aliás parece suceder com as forças da policia nacional, onde noventa coronéis não conseguem pôr ordem num pequeno país quase diariamente assaltado por explosões no multibanco, quer na via pública quer em instalações apropriadas, conforme recentes notícias da imprensa.
Uma herança de Sócrates? Não só. Este país é assim, precisamos de comandantes, de generais, de administradores, de políticos profissionais, de heróis, de santos e claro, de oportunistas. Afinal de quem comande para nada se comandar. Basta existir o posto, a ideia, o lugar, o benefício, o soldo? É quase a realidade, eu diria que é a própria alma lusa, coisa vinda dum passado de improvisados fidalgos, morgados e capatazes, uma hierarquia conservadora e obscura e a fatalidade sempre a abater-se sobre quem endireita o dorso e põe a massa a pensar. Leiam a História!
Tanto dá para manter a ordem na desordem como para levar a pátria ao lixo nas avaliações actuais, ainda que os avaliadores sejam igualmente lixo, avaliadores que avaliaram o lixo das sub primes como lixo de valor e avaliam os palermas dos países que lhes pagam como o rasca e mafioso lixo que inunda de vez em quando a cidade de Nápoles, a ponto de lhe fazer interromper o trânsito por semanas. Mas isto é obra de legisladores e políticos, não é obra do cidadão não doutorado em inócua sapiência.
Vem a propósito aquela história pertinente dos trabalhadores autárquicos de quem se diz pouco fazerem. Nunca chegaremos a saber se quem o diz é mais sério e diligente, mas como reza por aí o anedotário português, quando rebenta um cano de água são três ou quadro funcionários em volta do buraco observando o único que trabalha de pá e pica na mão! O mal, se existe mal no basismo desta cultura, vem de cima, de quem gere e ganha rios de dinheiro para dirigir. Se não dirige, como pode exigir que quem não ganha para comer não se escape igualmente aos seus deveres?
Também o quadro de pessoal da dita afundação , como muitas outras que por aí há (e não sei se mandam embora os funcionários públicos antes de acabarem com estes compadres !) terá mais mangas-de-alpaca que jardineiros, supõe-se mesmo que jardineiros não tenha nenhum, a não ser que os presidiários tenham tirado entretanto algum curso simplex e já tenham diploma.
Neste faz de conta de oportunismo deficitário se afundam estas fundações apadrinhadas por partidos e entregues á total incompetência e falta de bom senso, já não digo sentido de estado, de grande parte dos eleitos, a quem se atribui tantas vezes, como último recurso das incapacidades, a boa vontade e ser um ‘gajo’ porreiro. Porreiramente se tapam uns aos outros como se fossem um bando organizado, não de ocasionais e conscientes defensores do bem comum, mas de incessantes polícias de costumes e controle do hipotético futuro dos votos. É um ciclo vicioso que alastrou na democracia á portuguesa!
Os reclusos terão já o seu posto de jardineiros, não se sabe, mas mesmo assim, tirando os locais de passagem obrigatória mais ou menos limpos, tudo o resto deixa muito a desejar. Para não falar da serra onde os azevinheiros, segundo recente notícia da Querqus , foi e continua a ser delapidado sem apuramento de responsabilidades.
Parece que o adjudicatário do corte das árvores será o culpado, a gestão afundadora, essa, politicamente correcta, não terá nada a ver com o assunto.
Bom, também já estamos habituados. No processo das sucatas só há um bode expiatório á espera de julgamento, o sucateiro. O resto, são um purgatório de almas ingénuas e santas. Ámen!
Julho, 2011.FS
Esta imagem, feita em 11/01/2010 é o resultado dum temporal que
assolou a região. Hoje, continua a aguardar a reparação .
Este Buçaco de Vias Sacras na hora das orações , é também do
desaproveitamento total. Não é com rezas domésticas que se
acena ao turista do dinheiro e a nova dimensão que lhe é dada
por algozes servirá apenas algozes e familias.
Quando os sapateiros se poêm a tocar violino, o resultado é este.
Por falta de virtuosos tocadores a charanga vai nua e o circo
é uma pobreza.
A Mata continua por limpar em grandes extensões e ir à Cruz
Alta ou aos Moinhos de Vento não se pode dar de conselho a
ninguém, apesar do convite da paisagem e da excelência
do piso das estradas !!!!!!!Na cara, amadorismo de compadres
para não destoar do amadorismo do poder central que levou
isto á bancarrota.
Portas fechadas e cobrança de entradas são a principal grande
obra que se pode atribuir aos novos demolidores. E uns mecos
na Fonte Fria ,só lá faltam uns cobradores de charros
á beira da estrada,podia ser mais uma pequena fonte de
rendimento.Quanto ás receitas das Ameias, do Serpa, ou do
Museu, presumo que não cheguem para pagar o ordenado
minimo dos porteiros.
Chegados assim à Páscoa, não sei se sucessivas Vias Sacras não
farão parte das intenções da sua salvação , no reino dos céus!!
Quanto a turistas, mercê dessas iniciativas que espevitam
a actividade, a propaganda e a cultura, prisioneiros incluidos,
é vê-los por um óculo!!!
Este ano nem a avalanche de espanhois do costume se
abalançou pelas auto estradas!!!! Àmen!
Foi nas vésperas do Natal que arranjei um espaço da tarde para ir ao cinema ao centro comercial, pouco há de fitas noutros locais deste país arregimentado sobre o monopólio político da união europeia e o monopólio cinematográfico de Hollywood. Noutros tempos ainda restava alguma liberdade de escolha e alguma identidade própria a esta boa gente da Lusitânia, para o fazer, hoje está tudo hipotecado, quer em ideias quer em obras, quer em dinheiro, a um mundo que é estranho ao nosso cerne mais intimo, coisa que também não se percebe muito bem o que seja.
Eram seis da tarde, comprei o bilhete junto com umas pipocas importadas na febre do consumismo desesperado onde vegeta o mundo e entrei numa das muitas salas, aquela onde se ia projectar a fita. Um paralelepípedo, mais ângulo menos ângulo, com um anfiteatro e umas escadas por onde subir. A meio do percurso estava sentada uma irmã religiosa com um hábito que me pareceu azul, ao lado duma senhora civil, digamos assim para abreviar a questão, únicas clientes preparadas para presenciar a sessão.
É normal, já tenho estado sozinho e sinto-me mal, ás vezes desisto mesmo por falta daquele ambiente acolhedor que tinham as velhas salas do Teatro Avenida, do Tivoli, do Sousa Bastos, no caso de Coimbra, mas retenho perfeitamente o S. Jorge, o Tivoli, o Monumental , o Politeama, o Restelo , entre outros, na Lisboa da década de sessenta e quando a ida ao cinema se fazia com encanto e uma certa cerimónia. Então na reciprocidade duma agradável companhia, era das coisas máximas que podiam acontecer.
Quando subi os degraus a irmã sorriu-me e cumprimentou-me, eu respondi ao seu aceno e sentei-me três ou quatro filas atrás. No silêncio que antecedia a obra atirei-me ao pacote das pipocas e substitui-o, a ele silêncio, pelo mastigar de roedor, mas entretanto entrou outra senhora, não irmã, não vestia hábito ou costume, e foi sentar-se umas filas atrás de mim. Éramos quatro á espera do início da sessão distribuídos em três grupos, admitindo, ainda que erradamente, cada espaça fazer um grupo. Estava portanto no grupo do meio, o das pipocas. Ou dos roedores.
Ora aconteceu que a sessão começou e esteve seguramente um quarto de hora sem haver imagens. Bem pregavam os anunciadores dos produtos que nos entravam no ouvido, mas imagens nada. Arrumei as pipocas no banco do lado, comentei com a irmã que algo estava errado e fui á bilheteira pedir que colocassem os bonecos, ao menos no filme, já que agora estamos sujeitos a meia hora de anúncios com a curiosidade de pagarmos para os ver ainda que não queiramos, como acontece comigo.
Cinco minutos depois, alguém situado no vazio do outro lado dos buracos da projecção, colocou a geringonça digital a funcionar e começou o filme. Tratava-se, como dizia o critico que me levou lá, dum belo filme francês, Dos Homens e dos Deuses, uma história equilibrada entre guerra e paz, vencedor do festival de Cannes, afinal uma excepção á regra do monopolismo estado unidense da exibição em Portugal. No título e no guião, uma comunidade monacal do alto Atlas, a justificar a presença da religiosa que me cumprimentou tão simpaticamente.
Voltei satisfeito por ter ido ver o que devia ser visto, ver o que me agradou, mas logo que cheguei á minha pacata vila, cada vez mais pobre , patética e pacata e dei de caras com o cinema que existiu noutros tempos e hoje é uma ruína, fiquei saudoso e deveras desagradado com a entidade que o comprou, a câmara municipal, que o fez em nossa representação, isto é, com o nosso dinheiro e não deu um passo ainda pela sua reconstrução. Não deu nem vai dar, porque segundo me apercebo não consta do plano de actividades do ano que vai entrar uma verba senão para ter aberta a rubrica, um euro, um faz de conta que já conheço de ginjeira, já estamos habituados a ele, apesar da nossa terra proporcionar ao município uma receita anual de noventa a cem mil contos de mão beijada, uma importância de águas que câmaras anteriores conseguiram obter mas que a minha terra viu, e vê, por um óculo. Estranhamente, não se escuta um grito de protesto pela voz dos eleitos locais. É fácil perceber porquê.
Um edil da terra, ao contrário do que eu pensava, não adianta nada e assim, para dizer ámen e embatucar na importância não faz falta nenhuma. Sempre pensei e até manifestei em publico o pensamento de que era necessário, como continuo a pensar, que sempre seria melhor que nada, ter na autarquia um bom representante. A coisa não é bem assim, um yes man não faz falta em lado nenhum e nesta matéria o Luso é um muro de Jerusalém sem lamentações!
Passei com estes raciocínios pelo velho Teatro Avenida da minha infância tal qual como passo ás vezes pelo verão que enchia de fitas as semanas e os sábados de bailes. O cinema do Luso não tem história porque ninguém a escreveu, ninguém teve a curiosidade de guardar uns papeis velhos nas gavetas do tempo para lha construir, mas tem-na igual ou maior que muitas outras casas de província e como muitas estâncias termais, no tempo em que as termas se faziam e funcionavam com a dimensão das pequenas cidades em que se transformavam os lugares. Bem diferente dos tempos actuais que correm propícios á destruição e ao roubo e se baseiam na irresponsabilidade absoluta.
Por ali passou o grande Alves da Cunha, o grande António Silva, a grande Maria Matos.
A Maria Matos que esteve para levar para o Parque Mayer o meu segundo primo, o Álvaro, um grande artista cómico das revistas locais que a encantou em duas ou três rábulas de representação. Seu pai e meu tio-avô Ernesto, não permitiram a transferência e assim se fez gorar a oportunidade, para ele, filho, de vir a ser um artista nacional.
Se tivesse história escrita, este cinema, modesto em comodidades mas com uma arquitectura comum a muitas outras salas pelo país, seria grande na dimensão da minha terra, pois por ali passaram muitas das encenações locais que se fizeram durante dezenas de anos, até á altura em que a televisão destruiu implacavelmente o associativismo e a vida social de então.
Hoje há quem me peça para escrever sobre a sala de espectáculos. Estou muito longe de ser um José Hermano Saraiva, mas estes pedidos denunciam de facto que não há ninguém que defenda o património das termas, que os eleitos não estão á altura dos acontecimentos, que os problemas não são discutidos e muito menos resolvidos.
Que não há na vila uma sala para cinema, para teatro, para ensaios, para reuniões, para congressos! É verdade. Também lamento que ainda há pouco tempo um congresso sobre a Batalha do Bussaco fosse feito no teatro vizinho. Mas lamento igualmente que levem o pouco património existente, como livros, peças de mobiliário, medalhas e outras coisas mais que são parte da nossa essência, da nossa matriz, da nossa alma, para os arquivos da Mealhada. Um povo sem alma é o pior que há. Como lamento os disparates que se fazem no trânsito, a insensibilidade para os problemas do estacionamento, a vergonhosa situação da avenida do Castanheiro, a leviandade com que se deixam reduzir as termas a um terço do que eram, matando-as. A irresponsabilidade com que se ajudam a destruir as unidades hoteleiras em vez de as ajudar a viver, e o amadorismo curioso com que é tratada em família a Mata do Buçaco.
Mas que fazem os eleitos locais pela defesa da minha e nossa terra??? E quem foi que os lá colocou ?
Quem me pede para escrever, pergunte-lhes. Há que exercer esse direito de cidadania, igual para todos, como o acto de votar. Por mim, estou farto de escrever! Hei-de ser sempre o mau da fita???
Luso, Dezembro,2010
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