A FESTA DAS ALMAS
Passam em Setembro duzentos anos sobre a batalha do Buçaco tradicionalmente comemorada a 27 com o nome local de Festa das Almas. Eu digo Festa das Almas porque era assim chamada desde a minha meninice e acrescento festa do povo, porque se das guerras que se travaram em Portugal se pode retirar rudeza e sacrifício para a gente que as viveu, a das invasões francesas foi a que mais pesou, a mais cruel e sofrida, a que mais sacrifício exigiu ás populações nos palcos onde decorreu mas também, mercê de inúmeras consequências, ao país inteiro quando o cidadão, já escravizado e vitima do sofrimento infligido pelo exército invasor, teve de suportar nos anos seguintes o peso de amigos ingleses chefiados por Beresford , um tiranete apostado em deixar apenas o esqueleto da débil nação que se tinham proposto ajudar. Para não falar da pitoresca monarquia, a banhos no Brasil!!!!!
Talvez esse seja o principal motivo porque a festa, rija e comemorada, perdurou na memória colectiva com grande força até aos dias de hoje e seja participada e sentida em directo pelas recordações geracionais chegadas ao presente pela tradição familiar, tradição que se mantém viva em muitos corações, sobretudo de quem descende dessas memórias orais dos baús das invasões desde Junot a Massena.
Era pois Festa das Almas que se chamava e chama á romaria que leva ao largo do Obelisco milhares de pessoas, observadores atentos das manobras militares que cada vez são mais reduzidas, mas que eram de certa grandiosidade á relativamente pouco tempo e plenas de solenidades e exaltação patriótica.
Ao tempo da batalha existia adiante da Porta da Rainha a capela do Encarnadouro, modesto edifício mandado construir por Luís Rodrigues de Santa Cristina da Serra e é provável, segundo se pode depreender de alguns relatos, que lhe estivessem associadas duas ou três casas formando um pequeno lugar. Ora esta capela serviu na altura de hospital de campanha ou hospital de sangue e foi ali que se prestaram os primeiros socorros aos feridos da contenda com a singularidade dos relatos apontarem o facto de terem sido assistidos muitos franceses. Das Almas do Encarnadouro derivou pois o nome, festa mais justificada ainda pelo facto de ali ter sido para muitos, um purgatório de almas em transição final.
São duzentos os anos passados, mas dando-me ao pequeno exercício de fazer contas muito simples chego á hipótese de supor que o meu trisavô paterno, tendeiro ou almocreve na Mealhada, tenha assistido á batalha ou tenha presenciado alguns dos episódios desses dias terríveis durante as suas andanças pela serra e pelas redondezas, associando medo á curiosidade ou curiosidade ao seu trabalho de caminhante perpetuo pela via profissional. Não deixa de ser uma hipótese bem provável se alicerçada no calculo das probabilidades, que coloca bem perto a realidade. Realidade longínqua pela contabilidade humana, há um instante no contexto universal.
Desta participação colectiva vem o cordão umbilical que suporta a curiosidade absorvente sobre o fenómeno em cada ano de lembrança, quer do lado litoral, quer das minhas costelas serranas dos vizinhos municípios de Penacova ou Mortágua, palcos privilegiados dos acontecimentos. De resto a batalha, em relação á divisão administrativa, é um todo indistinto que engloba os confinantes com a serra do Buçaco e não só.
Meu pai tinha o mesmo pensamento, pois a festa para ele era um evento mais ou menos sagrado e sempre que por ali passávamos nas vésperas natalícias a caminho da sua aldeia natal, fazia questão de sublinhar a importância da capela da Senhora da Vitória como hospital de sangue e foi assim que desde tenra idade fiquei ligado á batalha , pois o nosso caminho seguia acima de Sula, Moura, do Cerquedo e Santo António do Cântaro, cenários centrais do desenrolar dos conflitos, locais que vim a conhecer como as mãos, quer ao nível dos cumes, das encostas , dos sopés, das escarpas ou das ribeiras que escorrem daqui e dali para o Mondego ou para o Vouga.
No dia da festa, no fim do verão portanto, subíamos do Luso ao lado do cinema, ao campo da bola, á costa do sol, cruzávamos as portas da rainha e continuávamos rente ao muro da cerca até ao cômoro acima da esplanada onde decorriam os festejos. Ali nos sentávamos com a cesta do farnel olhando o obelisco e vendo a colorida cerimónia donde sobressaía o patriótico e enaltecido discurso dum adido militar e o desfile militar das tropas anglo-lusas, os lusos de sorrobeco cinzento de pardo luzimento e qualidade, os anglo em coloridas e garbosas fardas vermelhas debruadas a branco e azul, na pompa e orgulho de representantes de sua majestade. E a charanga, debitando marchas militares adequadas acompanhava com música.
Não percebia porque é que as tropas eram sempre anglo-lusas, nunca luso-anglas como me parecia presumir pela gramática, estávamos na Lusitânia, não na anglotânia , o herói Viriato tinha expulso os romanos , era o maior de todos, o Condestável, beato e santo, o Rei de Castela e fazia-me assim confusão o primeiro lugar dos anglos ante o próprio prejuízo. Só mais tarde vim a compreender que prevalecia a lei do mais forte, nos países como nas famílias, como nos homens, como nos animais, como na vida. Daí a subserviência, pendurada na trave da fraqueza, ou na inferioridade das cócoras perante a sobranceria luxuosa dos bifeiros de além Mancha.
Só com o Benfica e depois o Porto, e isso foi muito mais tarde, é que a Lusitânia deu um ar da sua graça com golos que deixaram embasbacados os Tottenames e Liverpuis, mas isso, foi improviso aproveitado para negócios e grandezas que tão depressa nos exaltaram as gargantas como nos levaram ao esvaziamento dos cofres públicos em campos de futebóis e fúteis gargarejos de importância insustentada ou de miséria escondida. Tanto faz!!!
Seja como for, naqueles tempos havia sempre presente um pelotão de escoceses vestidos de saias de xadrez que depois desfilavam tocando bombos e gaitas de foles no terreiro do obelisco e davam um concerto nocturno , isto muito antes da existência da televisão e dos tatoos militares que foram moda posterior em muitos recintos desportivos. E também os passos lentos e cerimoniosos das fardas napoleónicas e lusas no recinto circular ou no regresso da charola á capela da Vitória faziam o encantamento geral, tal como o pesado bater dos cascos da cavalaria nas pedras do caminho metiam medo, não raro sob o rufo de charamelas e timbales manejados por cima do lombo das cavalgaduras pela teatralidade dos executantes.
Á uma, duas da tarde, saia a procissão acompanhada pelo vistoso aparato militar enquanto troavam os velhos canhões de 1810 com tiros de pólvora seca a ribombar quilómetros em redor.
Finalmente nas Portas de Sula distribuía-se rancho a quem queria comer, macarrão, grão de bico e carne de porco, tudo entulhado como massa de reboco, mas nós, os das redondezas, de comum transportávamos farnéis em cestos de vime e sentávamo-nos pela mata a saborear as preciosidades caseiras, algum velho capão que fora quase família, assado no forno a lenha.
Só o por do sol abria as portas do regresso com um cartucho de nozes na mão e, ainda que ignorantes da completa dramaturgia acabada de ver, voltávamos satisfeitos com a parte que a cada um cabia, afinal a verdade do individuo no grande palco onde se ensaia a vida na sua imponderável globalidade. FS
Luso,Janeiro,2001(200anosdaBatalha)) Buçaco.blogs.sapo.pt
GABY DESLYS,
AMORES DE REI NO BUÇACO
Sem pretensões da exactidão duma aturada busca histórica, mas respeitando a pouca biografia acessível que se refere ao assunto, vamos começar por situar a acção no Verão de 1910, Julho e Agosto, apenas porque foi esta estadia, entre outras que se atribuem ao monarca, a mais prolongada e significativa.
O rei deslocou-se a 12 de Julho para o Buçaco a conselho médico, e aqui se manteve até 23 de Agosto desse ano de 1910. Quarenta e dois dias.
Era presidente do Conselho de Ministros Teixeira de Sousa que enviou para sua protecção 40 polícias de segurança, agentes da judiciária, uma força de infantaria e um destacamento de cavalaria. A 14, dois dias depois da chegada, correu em Lisboa o boato da eminência duma revolução, ao qual se juntou a notícia dum golpe de mão sobre o monarca, no Buçaco. Todas as forças ficaram de prevenção, porém a rebelião, tratava-se do levantamento de Machado Santos e Cândido dos Reis, foi adiada.
Nestes últimos meses a situação política agravara-se de tal ordem que o reino era uma ruína, a desorganização total, Lisboa estava a ferro e fogo e todos os dias se aguardava o desencadear da revolta que milagrosamente tirasse o reino do lodaçal de corrupção e incompetência em que se tinha metido e da bancarrota que se avizinhava a passos largos. Iam passados mais de dois anos sobre o regicídio e a morte de D. Carlos e do príncipe Luis Filipe e continuava-se a nada esperar do herdeiro D. Manuel, preparado para oficial de marinha e não para reinar.
A situação era de tal modo grave que, quando se pensou em arranjar casamento para o monarca, não se encontraram princesas disponíveis na Europa para vir morar para Portugal, um país tido como atrasado, ignorante, perigoso, ainda que o rei, apesar da sua juventude, fosse considerado um monarca instruído, afável, simpático, de bonita figura, que falava fluentemente o português, o inglês, o francês e o alemão.
Ora foi neste ambiente difícil, até trágico e incógnito que o rei , ou porque aproveitasse a estada ou porque a tenha propositadamente provocado, reclamou a companhia de Gaby Deslys, uma bailarina da noite parisiense que, como iremos ver a seu tempo, tinha conhecido numa das suas passagens pela cidade luz. Não encontramos referência á data da chegada da diva ao Buçaco mas tudo indica que a permanência foi longa e o idílio prolongado.
Logo que chamada, a artista não se fez rogada e deixando Paris no sud express
desembarcou, eventualmente na estação da Pampilhosa, não há notícia e juntando-se ao monarca que se encontrava no Palace Hotel , instalou-se no Chalet de Santa Teresa, edifício ainda hoje existente e que substituiu . aquando da construção do hotel, a ermida de Santa Teresa que ocupava aquele local. Ali permaneceu gozando da paixão que facilmente se apoderou de ambos. O rei tinha então 20 anos, a Deslys 27, a juventude por força e simplicidade, ambos de trato fácil e gentil, ela feita e experimentada numa vida dura mas cheia de êxitos, tudo de feição a que o romance, e um rei, seja mesmo dum pequeno e intragável país como Portugal, é sempre um rei, se apertasse e fosse por diante. De resto D. Manuel, como já se disse, era uma figura simpática, atraente, como se pode ver pelas fotografias existentes, e facilmente agradou á diva francesa, numa relação aliás, que, mercê da popularidade de que gozava a actriz no mundo artístico da época depressa deu origem a variados comentários, entre os quais se regista o do New YorK Times Herald que a apelidava de concubina régia.
O hotel do Buçaco, mandado construir pelo pai sob a gestão do ministro Emídio Navarro, a maior figura que o Luso alguma vez teve, dava os primeiros passos, que também foram os primeiros passos dos grandes hotéis em Portugal.
Jardins, floresta e tranquilidade forneceriam o cenário das mil e uma noites, adequados aos subtis encontros amorosos e o Buçaco, como o teria sido em Sintra, foi o paraíso da sua libertação, aqui, com a vantagem de aproveitar a distância na ausência da rainha mãe Amélia de Orleãs , da padreirice lisboeta que diariamente o atordoava com sermões e pecados , longe de ministros , secretários e das clientelas que se movimentavam pelos meandros do poder em inventonas e matreirices sempre prejudiciais aos negócios públicos.
O rei registou nas suas memórias estes momentos de felicidade, dos poucos que lhe reservou o seu breve reinado.
Ora como nem tudo são rosas nesta vida, também ao monarca os prazeres ficavam caros e a época não lhos perdoou. A medida que se foi tomando consciência desta relação real , as criticas , então como agora, não se fizeram esperar , e a ligação passou a ser alvo do descontentamento geral , onde sobressaiam as vozes tonitruantes do partido republicano, mas também de progressistas e regeneradores, reconhecendo unanimemente a inconsciência a leviandade do monarca , contrapondo aos luxos e exageros da corte o estado miserável do reino. Tinham razão , mas á inconsciência juntavam ainda a tradicional liberalidade dos Braganças no que respeitava a excessos herdados
do rei D. Carlos , exemplo que o filho, dizia-se, se prestava a seguir. Jornais como O Dia ou o Mundo não regateavam nas criticas e nos insultos , num país de facto caótico , ás portas da falência social e politica onde grassava o crime, a fome, a doença, a incúria.
Paixão, que não agradava também á rainha mãe D. Amélia, consciente e farta da libertinagem do Rei D. Carlos, seu defunto marido, e comentava:“Vim a saber pelas más-línguas que Manuel ainda tem uma paixoneta por essa divazinha do music-hall parisiense, Gaby Deslys, de origem marselhesa, cujo verdadeiro nome é Gabrielle Caire. Correm boatos segundo os quais Manuel segue as pisadas do pai e os seus esforços políticos serão imediatamente anulados por isso”.
Das razões do reino, este lúcido comentário da rainha ilustra bem o descontentamento, mas sobretudo a falta de discrição no tratamento duma questão que, não fora a época conturbada em que aconteceu, talvez não tivesse ecos nem gerado tantas criticas e comentários como veio a acontecer.
On-line em BUÇACO,blogs, sapo.pt
Este belo postal pintado á mão é uma vista
geral da Matta do Bussaco, edição de Silva António
e foi depositado nos correios da Azambuja
no dia 6 de Junho de 1938 com um selo de 25 centavos.
Foi recebido em Coimbra no dia 7 do mesmo mês.
O primeiro livro de poesia sobre o Buçaco está no mercado
Chama-se Monte-Buçaco ,é da autoria do autor deste Blog e está disponível na Papelaria S. João, Luso com o preço de capa de 15 euros.
São 180 páginas de poemas inéditos na sua maioria respeitantes ao Buçaco.
Caíu a neve pela noite inteira/por sobre a ramaria sossegada/silenciosa nuvem de poeira/branco lençol que trouxe a madrugada... ...debruçaram-se os cedros nas veredas...
na Livraria S. João com um custo de 15 euros
ou Ecopy-Macalfa- tel. 916894585 fax225023032
ou via internet : ferrazsilva@sapo.pt
PASSEIO TERMAL,
LUSO-LONGROIVA
No verão de 1902/03 o rei D. Manuel II, então príncipe, passou pelo Buçaco num passeio de estudo e deslocou-se em seguida para Penacova, por Coimbra. O rei tinha a mania de anotar nos seus cadernos de apontamentos as distâncias percorridas e anotou 50,8 Km. N’outro passeio á Serra da Estrela dirigiu-se de Mangualde para o Buçaco e anotou nos mesmos cadernos 140,9 Km e, seguindo do Buçaco para Tancos anotou a distância de 180Km.
Nestes princípios do século passado o Buçaco era uma estância em desenvolvimento acelerado e o Luso recebia muito mais utentes do que hoje apesar das termas se resumirem ao edifício antigo , aquele que veio a existir até 1934.
Se nesta época remota as viagens eram difíceis pelas estradas existentes, o caminho de ferro abria as portas da liberdade a muitos citadinos, sobretudo a uma Lisboa habituada a ir ás hortas ou a ir a banhos a Belém, donde vieram muitos dos que engrandeceram as Termas.
Cento e sessenta e dois quilómetros de boas estradas separam-nos hoje dumas pequenas termas que se estão igualmente a engrandecer, Longroiva, concelho de Meda, no distrito da Guarda. Vamos a Santa Comba, Mangualde, Celorico, Trancoso, á aldeia medieva de Marialva, muito bem aproveitada para o turismo e num pulo encontramos adiante e á esquerda a cortada para Longroiva, um, dois quilómetros se tanto.
É a primeira vez que deixo o rumo de Foz Côa para ir ao coração da aldeia. Na região, as amendoeiras começam a florir e na paisagem agreste renasce esse esplendor do vestido branco e rosa com que se ornamenta a natureza na hora da criação. Logo após uma pequena subida ziguezagueando, surge o velho edifício termal, logo seguido do novíssimo e ainda pintado de fresco, estabelecimento renovado. Á frente, uma placa indicativa do apoio recebido da CEE e levantando a vista, acima das palavras, vislumbra-se a silhueta austera do velho castelo ao lado da torre sineira da igreja matriz.
Longroiva é uma aldeia interior, perdida entre Trancoso, Meda, Foz Côa, Castelo Rodrigo e Almendra mas é, pelas suas águas termais, uma princesa da região. Sulfurosas, são conhecidas desde a ocupação romana do território, serviram estes e o reino e, passando por vicissitudes várias, estão hoje ao serviço da república.
Não há um hotel, não há uma pensão, os termalistas alojam-se em casas particulares e os vizinhos deslocam-se das suas próprias terras em vai vem mas, graças á perspicácia dos naturais e ao apoio declarado da sede do concelho, construíram um estabelecimento termal novo de se tirar o chapéu, cómodo, qualificado, dotado do moderno equipamento de termas clássicas e preparado para assumir variadas vertentes.
Diz na placa que custou cinco milhões de euros com a ajuda da CEE e da Câmara, o dobro portanto, anunciado para a requalificação do Luso.
Chegado aqui, devo acrescentar a título de comparação, que recentes intervenções em termas custaram ou vão custar 80 milhões de euros em Vidago, 60 milhões de euros no Vimeiro, 30 milhões de euros em Monte Real, 10 milhões de euros em Unhais da Serra, 15 milhões de euros na Cavaca (Sabugal), etc, etc…É público.
O caso leva-nos pois a questionar mais uma vez e com legitimidade o que se vai fazer no Luso com 3 milhões de euros (dois milhões, palavras do administrador, se se conseguir fazer com esse dinheiro) investimento que, soube-se também, é em exclusivo da Sociedade das Águas. O que é no mínimo curioso!
Pois eu proponho-me antecipar o cenário termal do Luso, seguindo á regra o projecto apresentado pela concessionária e seu parceiro que, pela amostra, pouco parecem perceber do negócio das termas. Basicamente é assim:
a) as termas clássicas, isto é, aquilo de que o Luso vive desde o séc. XIX e XX, vão ficar reduzidas á actual buvete termal uma redução para um terço em área.
b) a actual zona dos tratamentos e banhos , portanto o corredor que liga a entrada á buvete, vai ser desmiolado e ali construídos dois mega SPAs ( ?) em 480 metros quadrados, que é a área deste espaço. Ridícula a palavra mega e SPA !
c) o edifício da fisioterapia vai ser dividido em duas partes , uma parte para continuar a fisioterapia, outra parte para instalar uma clínica dentária sem quartos, os doentes terão que se hospedar no grande hotel, presume-se…
Pessoalmente tudo isto me parece um absurdo, tudo me parece uma brincadeira, tudo leva a crer que não há consciência do que se está a fazer.
Reduzir o espaço das termas clássicas é reduzir automaticamente a maior parte dos aquistas no Luso, que foram pouco mais de mil em 2008 e, já ouvi a excelentes especialistas que, unicamente no espaço da buvete, poucas hipóteses existem de atender mais de 500 utentes.
Reduzir o espaço termal a umas termas que já são das mais pequenas do país é claramente encolher a estância e logo, dizer não ao segmento tradicional dos frequentadores, aqueles que, por se hospedarem em qualquer lado, sempre foram o fermento da vila.
Além disso a qualidade, o conforto, os cuidados, o atendimento, irão agravar-se e a recuperação para os três mil aquistas que o Luso ainda não há muito tempo tinha, vai ser uma miragem, pois irá acontecer o contrário.
Em relação ao SPA, anunciado como mega SPA, é do conhecimento geral que em 480 m2 isso não é possível, portanto aqui, ou trata-se de falta de conhecimentos ou de engano deliberado dos promotores. Pois se a concessionária vendeu os terrenos e construções onde o prometeu fazer, como o pode fazer agora? Só readquirindo aquilo que vendeu! E que clientes para o SPA que vai começar dum zero perante um termalismo clássico que potencialmente atinge um horizonte de 3.000/4.000? Com um vinha o outro e com o outro, quantos vem??? De resto, chamar SPA ao que está desenhado no projecto só por brincadeira se pode levar a sério!
Quanto á terceira parte, a clínica dentária, vai nascer segundo o mesmo projecto, em metade da fisioterapia. Mas se aquele espaço já é de si acanhado para as funções que tem, como vai suportar ainda uma clínica? Clínica pressupõe doentes. Onde se vão instalar? No Hotel. Concluímos que os prováveis clientes serão oriundos dum segmento alto da população, por isso serão seleccionados e poucos, não havendo qualquer garantia de que venham. Não que estejam a mais, mas porque não substituem os tradicionais, que animam a terra. Uns e outros são precisos mas uns são certos, outros não.
Tudo continua a indicar que a concessionária não percebe ou não quer perceber o problema do Luso e vai tentando furtar-se, com o apoio da Câmara da Mealhada, ao cumprimento das suas obrigações.
Toda esta tentativa de meter o Rossio na Betesga não será mais que liquidar as Termas? Desenvolvimento, isso, seguramente não parece e lavar a cara, não resolve.
Perante este cenário que pode ser destruidor para o Luso a Câmara da Mealhada, representante dos eleitores e dos interesses do município o que faz? Em vez de se colocar ao lado dos seus interesses, exigindo o cumprimento da concessão termal, opta por estar conivente com os objectivos da concessionária num protelamento constante das questões e em mini projectos que atrofiam a estância.
O Presidente da edilidade socialista pode dizer, como já disse, que nada percebe de Termas, mas não se pode escudar nesse desconhecimento da forma leviana que faz, para se furtar a incómodos. Se não sabe procure quem saiba! Não se pode calar politicamente por 60,70,ou 80 mil contos que o Luso lhe arranjou em Contrexeville e aguardar impávido e sereno pela morte definitiva da estância termal. Pela via politica, ou pela via judicial, há que colocar em causa as intenções da concessionária e pôr em causa, se necessário for, a concessão. Doutro modo, não se pode aceitar! Não faltarão interessados se a Água do Luso vier um dia a concurso público!!!
Quando voltei de Meda e de Longroiva, 324 quilómetros depois, trazia comigo os parabéns a municípios como Meda, Sabugal, Nisa, ou Covilhã, onde se luta pela defesa das terras, das pessoas, dos seus interesses, ao contrário do que acontece na Mealhada concelho onde a luta diária é pelo comodismo, pela inveja, pela destruição, pelo saloismo , pela conservação do lugar.
Como o rei, que mal teve tempo para governar o seu malfadado reino, anotei nos meus cadernos estas mirabolantes promessas e a incúria duma autarquia que em vez de zelar pelos interesses dos seus cidadãos os ataca como principais inimigos!
Luso,Março,2009. FS
LUSO:
HÁ 60 ANOS AQUI FOI PRESO ÁLVARO CUNHAL
Dia 25 de Março faz 60 anos que o já então de facto dirigente máximo do PCP, Álvaro Cunhal, em 1949 com 35 anos, foi preso no Luso, juntamente com outro membro do Comité Central, Militão Ribeiro e, ainda, a sua camarada Sofia Ferreira. Foi “um golpe grande, pesado, para o partido” (nas suas palavras, em Março de 2007), de profundas consequências para o PCP e para a desunida oposição. Foi, por outro lado, uma vitória para a então relativamente recém redominada PIDE e foi fruto do seu aprofundado e laborioso estudo do modus operantis clandestino do PCP e, claro, da pidesca colaboração do aparelho do Estado salazarista.
A CASA DO LUSO
Nos inícios de 1949 a direcção do PCP encontra-se espalhada por casas clandestinas no distrito de Aveiro:
- José Gregório/”Alberto”, em Vale da Mó, perto do Luso;
- Manuel Guedes/”Santos”, na Vacariça, entre o Luso e a Mealhada;
- Militão Ribeiro/”António”, em Macinhata do Vouga, a Sever do Vouga;
- Álvaro Cunhal/“Duarte”, no Luso.
A casa do Luso, ficava num extremo da povoação, no chamado “Luso d’Além”, mais precisamente era o Casal de Santo António, na rua Barbosa Cohen nº 55 e, na altura, era uma casa isolada, confiante com os campos (o que ainda hoje acontece).
A escolha do Luso era natural. Vivia-se uma época áurea das termas e o Luso era muito frequentado por aquistas e outras pessoas que queriam descansar ou conviver – estar in, como hoje se diria. Havia uma larga tradição de receber forasteiros e havia muitas pensões e hotéis e casas familiares para alugar. O Grande Hotel das Termas – muito grande para a época – começou a construir-se, sob a traça de Cassiano Branco, em 1938 e foi inaugurado em Julho de 1940. Algumas pessoas de fora não causariam estranheza numa altura em que, à falta de remédios mais eficazes, era recomendável “mudar de ares”.
A 10 de Fevereiro de 1949 a casa onde vivia Militão Ribeiro com Luísa Rodrigues/”Maria” – a de Macinhata do Vouga – foi assaltada pela GNR, após denúncia, talvez de um vizinho. A GNR – não habituada a estes “serviços” – foi inábil e Militão Ribeiro conseguiu fugir, tendo sido presa Luísa Rodrigues, não sem antes ter queimado os papéis mais confidenciais. Militão Ribeiro refugia-se então na casa do Luso, que passa a ter 3 ocupantes.
Ao alugar a casa, em Novembro de 1948, Álvaro Cunhal apresentou-se como Manuel Soares, estudante, justificando a necessidade de passar uma temporada no Luso porque estava “fraco” e precisava de “bons ares”.
De facto tinha problemas de saúde, agravados pelo trabalho compulsivo, às vezes dia e noites e pelas condições da clandestinidade. Muito magro, bem passaria por tuberculoso, doença grave e vulgar na época (e cujo tratamento se fazia em sanatórios, exactamente com “bons ares”).
Ajustou a casa por 250$00 mensais e aí passou a viver o “casal”. A casa é ampla: de frente tem dois pisos e, aproveitando o desnível, há outro, inferior, para os terrenos atrás.
Nas palavras de Sofia Ferreira (em Março de 2007):
“Na clandestinidade tinha de haver uma vida muito resguardada pelo que não podíamos conviver com as pessoas do Luso e passear”.
Eram só as saídas essenciais. O local Alberto Penetra reconheceu-a, então, na inauguração da lápide que regista a prisão, como a “D. Elvira”, “uma rapariguinha nova” que atendia diariamente na padaria do sogro.
Apesar dos cuidados, a segurança não é absoluta, como se viria a criticar dentro do próprio PCP: pessoas entravam e saíam, faziam-se reuniões fora de horas, numa terra que no Inverno se deitava com as galinhas, luzes acesas num tempo em que a electricidade ainda era quase um luxo, Cunhal a teclar na máquina de escrever até altas horas, com o respectivo matraquear a ser ouvido pela vizinhança.
A DENÚNCIA
Alertado pela circular da PIDE e confiante na reposição dos valores da “ordem” o establishment do regime estava atento.
O Dr. José Feio (Soares de Azevedo, genro do pioneiro de hotelaria e do turismo Alexandre de Almeida) era, desde 1947, Presidente da Câmara Municipal de Águeda (então em Comissão Administrativa) e morava no Luso, bem perto do Casal de Santo António, mais precisamente no que foi o chalet Barbosa Cohen e era então (e ainda é) conhecida pela quinta Mici (do nome da esposa, Maria Cecília).
A 22 de Março informa o seu homólogo da Mealhada Dr. Santos Louzada (que viria a ser Governador Civil de Aveiro) “que no Casal de Santo António vivia um indivíduo desconhecido na companhia de uma mulher e que se fazia passar por estudante que estava a descansar. Vivendo esse indivíduo ali desde Dezembro e sem nunca ser visto por ninguém, somente dele se tinha conhecimento pela companheira, tornou-se suspeito. Fui no referido dia 22 passar no meu carro pelo Casal referido para o localizar convenientemente e logo a seguir fiz uma comunicação telefónica para a P.I.D.E. do Porto, conforme convinha.
No mesmo dia sou procurado às 10 horas da noite por agentes que me encontraram na sede da Junta de Freguesia de Ventosa do Bairro onde estava a trabalhar no recenseamento eleitoral.
Nessa mesma noite fui ao Luso dar indicações solicitadas e por prudência combinou-se ir no dia 23 estudar melhor a topografia do local.
Neste dia, ao meio-dia, encontrava-se concluído o estudo feito pela chefe e um agente idos na minha companhia e no meu carro.
Combinou-se o assalto para a madrugada do dia 24 a que não assisti por motivos de saúde e também por ter que ir nesse dia ao Porto.
No dia 24 às 18 horas encontro no Porto, por acaso o Chefe a quem perguntei pelo resultado e sou informado do adiamento para o dia 25, como na verdade se realizou”.
(Excerto da carta, que, em papel timbrado da Câmara da Mealhada e na qualidade de seu Presidente, dirigiu, “A bem da Nação”, ao “Exmo. Senhor Governador Civil de Aveiro”, datada de 4 de Abril de 1949).
A PRISÃO
Com o ainda recente insucesso, para as autoridades, da fuga de Militão Ribeiro, em Macinhata do Vouga, e cientes de que tinham algo de muito importante em vista, a PIDE preparou-se bem.
A GNR destacou uma força comandada pelo comandante Sena de Azevedo e pelo tenente Mário Lopes Cruz, à qual coube o cerco da casa.
A PIDE destacou pessoal de relevo, chefiado pelo chefe de brigada Jaime Gomes da Silva, com os agentes Sílvio Mortágua, Rego, Guerra e Pais, entre outros. Não esteve presente (por certo com muita pena), o inspector Fernando Gouveia, o “especialista” no PCP.
Conta Sofia Ferreira (em 25 de Março de 2007, na colocação da lápide que desde então marca a efeméride):
“Uma brigada de 6 agentes da PIDE tomou de assalto a casa pelas 05.00, entrando de rompante, acompanhada pela GNR com metralhadoras e não bateram sequer à porta.
Arrombaram-na e subiram logo ao primeiro andar onde estavam os quartos. Estávamos na cama e mal tivemos tempo de nos levantar. O Álvaro Cunhal e o Militão Ribeiro foram algemados logo em pijama e encostaram o Álvaro Cunhal à parede, com uma arma apontada à cabeça, tendo o Jaime Gomes Silva dado ordens para dispararem quando ele mandasse”.
Só depois de revistada a casa os dois homens puderam vestir-se, sendo novamente algemados um ao outro, enquanto ela foi autorizada a vestir-se no quarto de banho, mas sem fechar a porta. Depois foram todos levados numa carrinha para o Porto.
“Eu não fui algemada porque não era preciso”.
“Consta-se que Álvaro Cunhal tentou fugir, o que não é verdade”.
Sofia Ferreira desmentiu que houvesse na casa equipamentos de transmissão:
“O trabalho que fazíamos aqui era político e quem conhece o que era o PCP na clandestinidade sabe que tal não era possível. Até por razões de segurança não interessava ter antenas em casa”.
Como diz José Pacheco Pereira: ”naquela casa do Luso … acabava uma era da história da luta da oposição e do PCP”.
CARLOS FERRAZ
Desenho da Fonte Fria depois da remodelação de 1866
Mandada construir por D.João de Melo, da primitiva Fonte Fria constava um arco embrechado sobre a nascente, ornamentado com conchas sugerindo gotas de água. Desde o inicio considerada a principal fonte da Mata , não só pela abundância e temperatura do caudal , como pelo grandioso arvoredo que circundava toda a zona, a sua construção obedecia aos gostos simples dos monges residentes e duma edição do Guia Histórico do Bussaco , Coimbra imprensa da Universidade ,1875 , pode retirar-se …” corre esta água por uma grande descida abaixo, fazendo notáveis visos á vista, tendo duas ordens de escadas pelas ilhargas , guarnecidas de lindas pirâmides, cujas paredes são lavradas de pedrinhas pretas, brancas e azuis, e algumas conchas postas com admirável ordem; no meio destas escadas faz esta água presa , aonde se forma um chafariz, que com muita galanteria lança a água por vários canos; daí despede para baixo, indo sempre correndo pelo meio das escadas , aonde se acha segunda vez represada em uma engenhosa fonte, a qual lança a água por um globo, que tem no cimo , em altura duma vara, e caindo esta em larga taça , sai por várias bicas, as quais se lançam fora em um lindo tanque, que tem em baixo…” No lugar do actual lago, existia então um pequeno pomar.
A Fonte Fria actual
Em 1836, a dois anos da extinção do convento, esta fonte estava em estado de grande ruína mas a sua recuperação parece ter acontecido apenas a partir de 1866 pela mão do grande amante do Bussaco que foi o Conselheiro Rodrigo de Morais Soares. Reconstrutor e reformador da mata, Morais Soares não só aumentou a variedade das espécies existentes, como foi um apaixonado pelo local, recuperando espaços em estado muito degradado. Foi o caso da Fonte Fria. As escadarias laterais foram substituídas por um só escadório central divididos por dez lanços cada qual com o seu pequeno patamar, donde emergia a água em bicas, em cachões, ou pias de mármore. De ambos os lados, acompanha este conjunto um muro de pedra revestido de mosaicos. Ao fundo da escadaria foi construído de raiz o actual lago da Fonte Fria.
Um contemporâneo das obras, descreveu-as assim: “…um estilo de arquitectura muito pouco usado. Foi o estilo do precipício. Quem não tiver passo firme e olho bem aberto, nestes trocadilhos de escadas , tanques e tabuleiros, correrá muito risco ou de descambar pelas rampas de vegetação, ou de cair de mergulho nas pias dos primeiros e últimos lanços.”
Desta remodelação, profunda para o espírito da época, por isso bastante criticada, fizeram parte obras de aplainamento e alargamento de velhas ruas, aberturas de novas, descobriram-se a caiaram-se muros, grandes rampas deram lugar a escadarias, lugares mais recônditos foram objecto de cortes para acabar com medos, sombras e mistérios. Ainda no que diz respeito á Fonte Fria, foi criticada a utilização de mármore da região de Lisboa e de pedra de Ançã , tomado como a negação do modesto embrechado de seixos pretos e brancos dos eremitas , da natureza simples e bela da mata, da cortiça rude e tosca , da austeridade imposta e seguida até então.
Ainda a Fonte Fria de 1866
Da persistência destas criticas ao considerado mau gosto das transformações nasceu nova remodelação em 1881, agora com a transformação das rampas laterais em escadas, destruição dos degraus centrais e sua substituição pela corrente de água aberta tal qual como a conhecemos hoje. Foram eliminadas as pias, as bicas, o encanamento até aos patamares e a nascente foi remodelada com calcário trazido da região de Condeixa .
Das grandes beneficiações que fez Morais na Mata , ficou na Fonte uma inscrição que dizia o seguinte:
“Foi reconstruída por iniciativa do exmº Conselheiro R. de M. Soares, director geral do commercio e industria no ministério das obras públicas, sendo administrador geral das mattas do reino o conselheiro Ernesto de Faria , administrador do Bussaco padre Maurício José Pimenta, e encarregado das obras no Bussaco o engenheiro inspector de florestas João Maria de Magalhães, em 1866.”
Esta lápide , segundo o livro O Bussaco de Silva Mattos e Lopes Mendes, que a viram, foi mandada retirar pelo próprio Morais Soares.Luso,2009.FS
FUNDAÇÃO LUSO
NOVA PROMESSA
Por mim, adoro usufruir do conforto do seu sossego, do contexto paradisíaco onde se insere e porque não dizê-lo, até da qualidade do café.
No verão, apoio importante á pequena piscina municipal, no inverno, sobretudo em dias de sol, um sítio soberbo para se gozar um momento de prazer, de tranquilidade, de libertação, um sedativo eficaz para o retorno do equilíbrio emocional que a sociedade actual alimenta com ídolos e deuses de pés de barro, o poder, o ‘tacho’, o dinheiro, agora e lamentavelmente para muitas vítimas, o pão nosso de cada dia, o emprego.
É aqui neste pequeno lugar, um absoluto refúgio adjacente e simultaneamente inserido na floresta do Buçaco que acabo de ler a notícia da criação da Fundação Luso, com a qual o criador pretende, diz a notícia, dinamizar o Luso e redondezas na procura dum centro de excelência.
Confesso que nunca gostei desta palavra excelência ou da mesma excelência aplicada ao homem, quando, ao fim e ao cabo, os mesmos excelentes não deixam de ter em comum com os chimpanzés mais de noventa e oito por cento dos seus genes, mas, para além disso, para mim a palavra é um sinónimo de superioridade, arrogância, novo riquismo, irracionalidade e egoísmo e é utilizada pelas pessoas de sucesso ou seja políticos, gestores, administradores financeiros, todos pagos a preço de ouro e que, mercê da especulação, corrupção, roubo até em muitos casos, levaram o mundo á falência onde está atolado. È fruto desta excelência ultra liberal de economistas e financeiros oriundos da escola de Chicago que agora, debalde, se procura controlar.
Também o Luso e as suas águas têm sido objecto de sucessivas vendas e de obtenção de mais valias, alavancagens (?), de modo que nunca poderemos saber as verdadeiras intenções desta Fundação Luso antes que se veja concretamente a sua actuação no terreno. Não se pretende dizer com isto que seja um veiculo apenas de recolha de benefícios fiscais, já que, sendo honestamente contextualizada e seriamente conduzida poderá eventualmente ser benéfica e positiva, mas não se pode deixar de sublinhar que as garantias face ao comportamento anterior da concessionária, são curtas. É que a sua actuação nos últimos anos no que diz respeito ao Luso e ás Termas tem sido má demais para que a freguesia ou o concelho estejam satisfeitos.
Basta relembrar alguns actos que colocaram as Termas no estado comatoso em que está:
a canalização da água que a leva por quatro quilómetros do Luso á Vacariça até ser engarrafada para venda ; o esvaziamento da vertente das termas que passou em pouco tempo dos três mil aquistas para os mil da época passada; o desemprego dos naturais substituídos por ucranianos precários; o términus prático da animação termal; a venda do grande hotel e dos anexos onde , prometiam, nasceria o SPA ; a saída da sede da empresa dos antigos escritórios e a sua transferência para Lisboa; as promessas incumpridas donde ressalta o projecto Luso 2007, uma obra descaradamente prometida a toda a edilidade do anterior mandato e não cumprida; o adiar permanente da recuperação das termas, com promessas constantes de clínicas, fisioterapia, novos tratamentos, com um investimento de 600 mil contos, que, evidentemente, estão muitíssimo longe dos valores necessários para fazer seja o que for e colocar o Luso outra vez no mapa.
Quem conheceu e viveu as Termas do Luso, e há ainda muita gente neste país que o recorda com saudade, encontra-as hoje irreconhecíveis, transformadas num tosco arremedo daquilo que foram.
A Fundação corre pois, por falta de garantias e credibilidade, o risco de ser apenas aparência, mais uma promessa entre tantas, mas se o não for, óptimo, ainda que não seja por esta via que se resolve o problema do Luso, porque as Termas, essenciais para a vila e município precisam de ser renovadas, actualizadas, modernizadas, precisam do spa, de novos tratamentos, de mais pessoal, de abertura permanente. Oxalá a Fundação não seja mais um engodo para a não execução do essencial!
A Fundação do senhor Ponte e dos seus patrões estrangeiros tem pois que mostrar aquilo que vale e o senhor Ponte deixar duma vez por todas de enganar o Luso, o município e a si próprio. E o Estado. Só depois, como S. Tomé, alguém acreditará nas promessas.
Entretanto, como estão as coisas, só podemos afiançar que as Termas possuem na concessionária e na colaboracionista Câmara actual, os seus melhores coveiros e no Estado, o leviano dono da concessão, a omissão consciente ou não, do incumprimento das clausulas do contrato.
Penso que se vivêssemos num verdadeiro estado de direito, a concessionária já tinha sido mandada com Deus. Das Termas e das nascentes que lhe estão associadas! Aqui, neste alfobre de almirantes, generais, mordomias, compadres e amigos, porém, nada acontece.
Fico-me por aqui, com a garantia absoluta de que se vierem beber o café á esplanada do lago, donde me saiu esta verve, não se arrependerão!
Aqui, o prometido é devido e como centenários profissionais de Termas, sabe-se dar e receber. Como para tudo na vida este é um compromisso sábio que as excelências, pese embora o chimpanzé deviam cumprir. É que nos quase dois por cento que nos diferenciam, sem dúvida que a maior de todas é a fala, e dentro da fala, a maior de todas é a palavra. FS Luso, 18/Fevereiro/2009
Não posso deixar de colocar neste Buçaco duas ou très fotografias do pequeno nevão que caiu esta noite no Buçaco.Estrada da Porta de Sula-Porta da Cruz Alta
Casa florestal da Cruz Alta , logradouros.
Palace hotel, jardim
Ver mais em Bussaco.blogs.sapo.pt
RIQUEZA BARATA ,
RIQUEZA ROUBADA ??
A nascente da água do Luso situa-se cerca de cem metros acima da nascente termal, o velho olho de água quente do século XVIII que deu origem á estância e sendo vizinhas e praticamente irmãs, diferem na sua composição e na temperatura com que emergem á superfície. Ambas são no entanto manifestações protagonizadas por um grande aquífero existente sob a serra do Buçaco que vai acumulando ano após ano, século após século, um manancial substancialmente elevado e impoluto.
Foi a segunda nascente que deu origem ao desenvolvimento da estância termal e a primeira, a céu aberto, que deu o logótipo á localidade. Mercê das duas, o Luso, pequena e escondida aldeia nas abas da serra do Bussaco, onde os moinhos seriam provavelmente das principais actividades, em conjunto com o pastoreio e exploração florestal, ganhou a categoria administrativa de vila, no ano de 1937. Era o culminar da estância que na área do turismo, fez parte do pioneirismo nacional e deu ao país inúmeros e competentes profissionais. O expoente da descoberta das termas, da sua utilização por uma classe aristocrata, misturada com uma burguesia de pequena estatura e dimensão, mas também de classes mais modestas que prolongavam pelo mês de Outubro a época anual. Que potenciou hotéis, pensões, casas de quartos, de comidas.
Se foi a água que na sua componente termal desenvolveu a terra e lhe conferiu património e riqueza, é a mesma água que, na sua componente industrial coloca hoje em risco a vila, cada dia mais pobre, cada dia mais abandonada pelo poder privado, pelo poder público, pela população que, á falta de condições se vê obrigada a procurar trabalho fora do chão e fazer parte desse conjunto de emigrantes que procuram fora e pelo mundo, aquilo que as vanguardas intelectualizadas, imbecilizadas e detentoras do poder nunca conseguiram fazer, isto é, dar ao cidadão próprio uma vida civilizada e digna. È a história que o conta e a realidade que o continua a confirmar.
O Luso, que tanta fama teve como referência termal, vive dessa fama, porém em nada corresponde já a esse presumível estatuto, só por ignorância ou deturpação se pode continuar a acreditar nas termas como tal e na vila como exemplo.
E a razão número um está bem á vista, deriva exactamente da nossa incapacidade, na nossa irresponsabilidade, do nosso atávico destruir dos bens comuns em proveito de terceiros, de exploradores, de aventureiros, de simples negociantes espantados com a prodigalidade lusa, com o desapego das gentes , pela negação imbecil dos seus próprios interesses, em favor duma prosápia ignorante de baronetes de terceira classe a quem se dá o privilégio e a aventura de governar o nosso barco. Lordes do gamanço e do ripanço, administradores de mão leve, a chamada excelência da nata do capital! E simultaneamente da politica, quando não também, e nos nossos dias, do futebol!
A água do Luso é a única riqueza do Luso. As termas, a que a água deu origem, deram o património construído. A actividade o now out, obtido. As pessoas, o seu contributo recebendo a sua compensação. No tempo em que as perspectivas eram honestas, em que se acreditava nas pessoas, na dignidade de processos, no futuro. Havia disciplina e palavra, prometia-se e cumpria-se.
A única riqueza do Luso é a água. E a riqueza água, que é de nossa propriedade por intermédio do Estado é entregue por esse mesmo Estado, a terceiros. Agora, estrangeiros, mas para o caso é igual, o Estado espolia-nos da riqueza e entrega-a despudoradamente ao grande capital. Negócios de milhões, porque ao grande capital apenas interessam os milhões. E o Estado espolia-nos na medida em que entrega as concessões por preços irrisórios. Na medida em que não se interessa por elas. Na medida em que não tem poder para impor os interesses nacionais aos interesses do liberalismo da derrota, da espoliação, da sociedade esclavagista que está a construir. A quem interessa esta omissão?
Numa pequena escala, não tão pequena como isso como realidade e exemplo, a concessionária, como se disse único beneficiário da riqueza da terra, abandonou praticamente as termas e dedica-se á exploração desenfreada do negócio da venda de água. A verdadeira água do Luso, mas também degenerada em água com limão, com morango, com maçã, com qualquer coisa que sirva para vender, mas curiosamente, com a cobertura da água da nascente, o verdadeiro e único produto da terra, tanto do Luso como dos lusos, que dá riqueza, que é natural, que é puro. È que a empresa concessionária, para vender uma garrafa de água com manga, com groselha ou com abacaxi, ou uma horrível água com limão, oferece em contrapartida uma garrafa de pura água do Luso. Água do Luso que é leader do mercado, que vende o que produz!
Será esta a excelência de suas excelências?
Quanto às termas, do prometido nada se vê. No fim do período da velha promessa, há-de surgir nova promessa e para além do beato Cabral da Câmara da Mealhada, haverá alguém que ainda acredite numas termas, fisioterapia, spa e clínica por seiscentos mil contos? É a conivência total, só não se sabe com que proveitos!
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